terça-feira, 2 de dezembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A metade da noiva, casamento malogrado

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Todas as vezes que subia as escadas do Colégio Nazareth, encontrava-me com o Frei Respício que voltava da sua aula de religião. Era um Frei Holandés de seus 80 anos. Abraçava-me, e sorria demonstrando alegria e amizade profunda.

Certa vez, fui convidado para ser padrinho do casamento religioso de Nelson e Mônica. Quando saía para a cerimônia religiosa minha esposa advertiu-me: "Não fica bem você ir em traje esporte." Voltei e coloquei o paletó e a gravata.

Apressei-me em sair, pois já estava em cima da hora. Ao chegar à igreja pessoas e amigos rodeavam os noivos ao pé do altar. Apressei o passo. Ao ver-me naquele traje, sorrindo, o Frei não teve dúvida; afastou o Nelson e colocou-me ao lado da noiva. Achei aquilo estranho, mas nada pude fazer, pois ele já dava conselhos da vida aos dois. Depois falou sobre a vinda de filhos e como deveria educá-los. O Nelson, que estava atrás, limpava a garganta, tossia, arrastava os pés demonstrando um nervosismo à flor da pele.

Em todo momento o Frei fez a pergunta de praxe: "É de livre e espontânea vontade tomar Mônica por sua legítima esposa?". Lá de trás o Nelson respondeu bem alto: "É sim senhor". O Frei retrucou: "Não estou te perguntando nada, fiz a pergunta a ele aqui', apontando para minha pessoa. "Padre, o senhor está casando a minha noiva com outro, advertiu o Nelson". Só assim o Frei notou o seu lamentável engano.

Fez a mudança de posição entre eu e o Nelson. Em seguida levou as mãos ao alto e disse: "Perdoe-me Deus pelo engano". Depois colocou as alianças. Abençoou os noivos e foi embora para a sacristia. Na saída, todos comentavam o engano do padre. O noivo ainda nervoso perguntou-me: "Como você entendeu esse casamento?". Eu, no meu gesto esportivo, respondi: "Pelo que o padre falou e ficou claramente explicado, a metade da noiva é minha e a outra metade é sua". "A sua metade você vai buscar lá na sacristia, tá? Vamos embora Mônica, antes que esse padre faça uma besteira maior". Muitos anos se passaram e até hoje o Nelson me pergunta se já apanhei a outra metade da noiva na sacristia.

 

Extraído do Livro “ Contos e Prosas “ de Severino Chiesa Onnis, Araçuaí/MG - 2009


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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - Viva Marietta Baderna!

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Você já pronunciou alguma vez a expressão: “que baderna!” ou “aquilo foi uma baderna!”? Pois bem, pense sobre esta mulher a partir desta leitura:

Marietta Baderna nasceu em Castel San Giovanni, província de Piacenza, no norte da Itália, em 1828. Filha de Antônio Baderna, médico e músico, iniciou sua trajetória artística no balé, estreando aos 12 anos nos palcos. Ingressou na companhia de dança do Teatro Scala, em Milão, e aos 21 já se destacava como prima ballerina assoluta (primeira bailarina absoluta), conquistando sucesso em toda a Itália e em turnês por diversos países europeus.

Seu pai, em meio à ocupação austríaca na Itália, defendia publicamente o movimento democrático que agitava a Europa do século XIX. Durante a resistência, os revolucionários decidiram suspender a vida artística enquanto durasse a ocupação, e Marietta, militante, seguiu essa orientação. A perseguição política era intensa, e assim Antônio e sua filha decidiram cruzar o Atlântico. A família Baderna chegou ao Brasil em 1849.

A jovem bailarina foi recebida com entusiasmo pela sociedade conservadora carioca. Logo estreou no Teatro São Pedro (atual João Caetano), em 29 de setembro de 1849, com o balé Il Ballo delle Fate, conquistando enorme sucesso e repercussão na imprensa. Marietta não era revolucionária apenas em suas ideias políticas, mas também em seus costumes: gostava de festas, de beber, de sexo e, embora brilhasse nos salões tradicionais, preferia as ruas.

Nas ruas, apaixonou-se pelos ritmos e danças afro-brasileiras, como o lundu e a umbigada, considerados “escandalosos” pela sociedade escravista. Ela incorporou essas danças em suas apresentações e conquistou uma legião de fãs, chamados de “badernistas”. A palavra “baderna” passou então a ser associada a confusão ou tumulto. Ao unir a delicadeza do balé à força das danças africanas, Marietta tornou-se uma bailarina do povo, desafiando normas e valorizando a cultura negra em pleno século XIX, no Brasil escravocrata de D. Pedro II.

De espírito rebelde, participava de danças ao ar livre, em locais como o Largo da Carioca, junto aos próprios escravizados , um escândalo para a elite conservadora. Sofreu represálias: sua dança era relegada ao final dos espetáculos ou seus contratos não eram renovados. Em resposta, seus fãs boicotavam apresentações ou faziam “pateada” (batendo os pés no chão), interrompendo os espetáculos. Faziam, enfim, a maior baderna!

A epidemia de febre amarela de 1850, que matou milhares no Rio de Janeiro, levou 45 dos 55 artistas que haviam chegado com Marietta. Ainda assim, há registros de uma apresentação , em Recife, em 1851, com coreografias inspiradas em músicas de raízes africanas.

Há versões de que teria retornado à Itália após a morte do pai, ou de que Antônio não morreu e voltou com ela à Europa, onde Marietta teria dado aulas de dança. Com também há registros de sua atuação na França, em 1863, no Grand Théâtre de Bordeaux. De volta ao Brasil, foi contratada para a temporada de 1864-1865, mas enfrentou forte campanha moral contra seu trabalho.

Posteriormente, casou-se, constituiu família e encerrou a carreira de bailarina, tornando-se professora de dança e caindo no anonimato. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 64 anos, em 4 de janeiro de 1892, sendo sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier.

A forma como Marietta Baderna fez política, lutando pelo direito à cultura popular e pelo respeito às manifestações afro-brasileiras, incomodou e revolucionou a sociedade de seu tempo. Graças a ela, colhemos frutos de uma luta que, embora tenha deixado seu sobrenome associado a uma expressão depreciativa, representa resistência e liberdade artística. Mesmo sem ter vivido para assistir à abolição da escravatura, para continuar sua trajetória clamando por dignidade, justiça e liberdade, foi intensa e especial para o país.

Se você chegou até aqui, espero que tenha gostado de conhecer esta mulher incrível. Divulgue sua história, fale dela com orgulho e compartilhe a emoção que sua vida desperta. Para saber mais ainda, assista quando puder ao docudrama Marietta Baderna, dos Palcos ao Dicionário, dirigido por Mariana Alvim, com roteiro de Luciana Chamon. Estreado em 20 de fevereiro, nos cinemas Cinesystem Botafogo (RJ) e Frei Caneca (SP), o filme tem 72 minutos e resgatou a trajetória da bailarina italiana que sacudiu a sociedade carioca do século XIX com sua dança ousada e suas escolhas liberais.

 

Referências:

CORVISIERI, Silverio. Maria Baderna – a bailarina de Dois Mundos. Rio de Janeiro: Record, 2001.  

BUENO, Márcio. A Origem Curiosas das Palavras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
https://ensinarhistoria.com.br/a-origem-da-palavra-baderna/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues

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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura, Livro "Confidências de Mulheres In-Visíveis do Jequitinhonha",

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A dica de leitura desta semana é Confidências de Mulheres In-Visíveis do Jequitinhonha, da autora Ana Luiza de Souza, uma mulher sensível e comprometida com as histórias e lutas femininas no Vale do Jequitinhonha. O livro apresenta relatos de mulheres fortes e corajosas, marcadas por desafios, mas também por esperança, dignidade e resistência. Por meio dessas narrativas, o leitor é convidado a enxergar além das aparências, reconhecendo o valor e a potência da experiência feminina no território do Vale.

A obra reúne histórias de vida que geralmente não aparecem na história oficial. Ao registrar essas vozes, a autora denuncia desigualdades, combate a invisibilidade social e celebra a força das mulheres que sustentam a vida cotidiana com trabalho, cuidado e luta silenciosa. Assim, o livro torna-se um importante instrumento de sensibilização e respeito, devolvendo lugar e reconhecimento às mulheres que, muitas vezes, foram apagadas pelo sistema patriarcal e pelas desigualdades históricas.

Com uma escrita poética e profundamente humana, Ana Luiza humaniza cada personagem ao revelar suas dores, desafios e conquistas. Para quem atua com educação, cultura ou projetos sociais, especialmente no contexto do Vale do Jequitinhonha o livro é uma leitura fundamental para refletir sobre memória, identidade, justiça social e políticas públicas. Ana Luiza de Souza nasceu em Guaxupé (MG), em 16 de janeiro de 1962, e faleceu em 17 de outubro de 2020, aos 58 anos. Assistente social, atuou em diversas cidades, como Monte Santo, Poços de Caldas e Guaxupé. Teve importante participação política no Vale do Jequitinhonha e chegou a ser candidata a prefeita na região. Foi reconhecida pelo compromisso social, dedicação às causas populares e profunda empatia com as comunidades onde trabalhou. Sua trajetória é marcada por coragem, luta e sensibilidade humana.

Referência do livro

SOUZA, Ana Luiza. Confidências de mulheres in-visíveis do Jequitinhonha. Guaxupé, MG: Salto Alto, 2009/2011.


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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

OPINIÃO DO BLOG - Preservação da Democracia e do Estado de Direito

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Um golpe de Estado é, por definição, um ato de violência contra a Constituição e a soberania popular. Ele ignora os mecanismos legítimos de transferência de poder, como eleições, e subverte a ordem jurídica.

A punição serve como uma solene reafirmação de que a Constituição é a lei suprema e que sua violação por meios não democráticos terá consequências severas. Ao responsabilizar os golpistas, a sociedade e o sistema de justiça defendem o direito do povo de escolher seus líderes e repudiam a imposição de poder pela força ou fraude.

A aplicação rigorosa da lei contra os envolvidos em uma tentativa ou concretização de golpe tem um efeito que se estende muito além do caso individual. A perspectiva de penas severas que podem incluir longas prisões, perda de direitos políticos e multas, atua como um poderoso desestímulo para outros indivíduos ou grupos que possam considerar ações semelhantes no futuro. É um aviso claro de que a traição à pátria e à ordem democrática não será tolerada.

A punição ensina à sociedade que a mudança política deve ocorrer dentro dos limites da lei. Ela reforça o valor dos processos democráticos e do respeito às instituições, educando as futuras gerações sobre a gravidade desses crimes.

Um golpe de Estado causa um dano incomensurável à sociedade, abalando a confiança nas instituições, gerando instabilidade econômica e, frequentemente, resultando em violência e violações de direitos humanos.

A punição é um passo crucial para o restabelecimento da normalidade e da confiança nas Forças Armadas e na Polícia, garantindo que sejam servidores do Estado e não instrumentos de facções políticas.

Em muitos casos, golpes são acompanhados por repressão e violência. O processo judicial e a condenação são essenciais para oferecer justiça e reparação às vítimas e a seus familiares, sendo um componente vital da transição para a democracia plena.

Concluo que a defesa de nossa democracia, perpassa pela punição para quem pratica golpe de Estado não é um ato de vingança, mas justiça e uma necessidade estratégica para proteger a democracia de futuras ameaças, garantindo que o poder emana do povo e é exercido em seu nome, conforme a lei.

Viva nossa Democracia!

Aos  434 mortos, desaparecidos e aos seus familiares durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985 ( Comissão Nacional da Verdade).

 

Jô Pinto

Professor, Historiador e Mestre e Ciências Humanas.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Pobres-ricos Maxacalis

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Nos últimos dias tornou-se comum a quem passar em frente da Catedral de São João Batista, em Almenara, observar um fato que não deixa de tocar a sensibilidade humana de quem tem um pouquinho de amor ao próximo.

Ali, onde vão as pessoas católicas, ponto estratégico da cidade, por onde todos passam, os índios maxacalis, foco de atenções, estudos e debates podem ser vistos sem qualquer disfarce, no estado de abandono e absoluta miséria em que se encontram

Desprotegidos, ao Deus dará, sujos, transfigurados, mal vestidos, escolhem exatamente aquele local para exporem as mazelas com que a chamada "civilização branca" os "premiou" para roubar-lhes a paz e os meios de sobrevivência, corrompendo-os e levando-os a um continuo processo de decadência.

Ali, eles podem ser vistos exatamente como vivem atualmente, não buscando as suas raízes, como pensam alguns, mas como nômades, explorando a caridade pública para saciarem os vícios adquiridos fora de suas aldeias.

Amontoados como animais irracionais, homens, crianças e mulheres parecem desligar-se do mundo, entorpecidos pelo álcool, alheios ao que se passa em torno deles. Vendo-os mais de perto é que se pode aquilatar bem a extensão da desgraça que os tem reduzido a trapos humanos, inválidos e ignorados por uma sociedade de consumo, egoísta, ambiciosa e mesquinha, muito mais preocupada com suas sandices do dia-a-dia.

Nenhuma mão humana os toca, procura amenizar lhes as agruras e a solidão, guiando-os a um lugar seguro, onde possam passar pelo menos uma noite, sem os perigos a que estão sujeitos.

O espírito de solidariedade e de companheirismo os mantém unidos, mesmo em condições tão adversas, em ambiente que não condiz com seus hábitos de extrema liberdade de ação.

Naturalmente buscam a proximidade de uma casa de orações para se sentirem mais seguros e protegidos. Logicamente esperando que a generosidade de alguém os beneficie com palavras amigas, com o pão que mata a fome, com a água que mitiga a sede, com um abrigo que os acolha, com o conforto espiritual de que tanto necessitam.

Entretanto a noite avança, faz-se o silêncio, as luzes da igreja se apagam, as vozes se calam, as portas se fecham e a bondade esperada não surge. Os maxacalis estão sós. Muito sós...

Pobres-ricos maxacalis, donos de um oceano verde de colonião, que de nada lhes serve, que valem tanto para o folclore e a cultura, mas que, como pessoas humanas, pouco significam.

 

Sebastião Lobo

 

Publicado no Jornal VIGIA DO VALE - n° 818 - 8 de junho de 2001.

Extraído do livro “ Na Boca do Lobo” Crônicas publicadas no Jornal Vigia do Vale/2003


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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - Marocas e a geração perdida

Conheci uma senhora chamada Marocas, dona de vastas terras e de muitos animais, sobretudo burros e mulas. Sua predileção por eles vinha da utilidade: eram os que suportavam as cargas mais pesadas em seus lombos. Para fazê-los andar mais rápido, recorria ao chicote. Ainda assim, apesar da crueldade, esses animais permaneciam dóceis, inteligentes, sociáveis e incrivelmente resilientes.

A história dos burros e mulas é também a história da humanidade. Há milhares de anos caminham ao nosso lado, numa parceria silenciosa que ajudou a construir o mundo. Em diferentes regiões do planeta, foram motores de comunidades: araram a terra para o alimento, buscaram água em lugares áridos, transportaram pessoas e bens essenciais por caminhos inóspitos e até marcharam em cenários de guerra.

Sua resiliência é incontestável. Mesmo maltratados, suportavam o peso da exploração e seguiam em frente. Mas o preço era alto: a vida que lhes era imposta era injusta e cruel. Muitos não tinham sequer um espaço digno para descansar após longos dias de trabalho. Eram largados em terrenos baldios, sem abrigo, alimentando-se de mato ralo e sem acesso à água. Não possuíam casa, muito menos um lar. E, quando já não serviam, eram simplesmente abandonados.

Dona Marocas secou como a terra sem chuva, presa ao peso de suas posses e ao vazio de sua própria crueldade. Partiu como pó levado pelo vento, esquecida até pela memória das pedras. Já os burros e mulas, antes chicoteados e abandonados, encontraram no rio sua redenção e orientação para caminhada. Beberam da água fresca, seguiram o curso da correnteza e tornaram-se símbolos de vida e prosperidade. Como o rio que nunca se detém, eles mostraram que a verdadeira grandeza não está em quem oprime, mas em quem resiste e flui.

Marocas se dissolveu no silêncio, mas os animais permaneceram como águas vivas, lembrando que nenhum chicote é mais forte que o rio que insiste em correr.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura na Semana da Consciência Negra - O Pacto da Branquitude - Cida Bento


 

O livro O pacto da branquitude, escrito por Cida Bento e lançado em 2022, é uma leitura rápida e muito importante para entendermos como o racismo funciona no Brasil. A autora explica de forma clara como as pessoas brancas, ao longo da história, se beneficiaram do período da escravidão e continuam até hoje ocupando a maioria dos lugares de poder, muitas vezes fazendo silêncio sobre isso.

Logo no começo do livro, a autora conta uma história pessoal de quando seu filho sofreu um ataque racista na escola. A partir desse episódio, ela conversa com ele sobre como os descendentes de escravizados têm motivos para sentir orgulho de sua luta e força, enquanto quem deveria sentir vergonha são aqueles que construíram riqueza e poder explorando pessoas negras. Esse episódio nos ajuda a entender o foco central do livro.

Cida Bento mostra que existe o que ela chama de “pacto da branquitude”, uma espécie de acordo silencioso entre pessoas brancas para manter os privilégios que possuem. Não é um pacto falado ou escrito, mas aparece quando pessoas brancas evitam falar sobre racismo, fingem que todos têm as mesmas oportunidades e defendem a meritocracia como se ela fosse real para todos.

Um dos exemplos apresentados pela autora é o mercado de trabalho. Ela mostra como, nas empresas, nas universidades e em cargos públicos, as pessoas brancas acabam ocupando quase todos os espaços importantes. Por isso, ela afirma de maneira irônica que existe uma “cota de 100% para brancos” nos lugares de poder. Essa ideia vira o discurso ao contrário e questiona quem realmente sempre foi beneficiado por cotas invisíveis.

Ao longo do livro, a autora reforça que o racismo não é um problema das pessoas negras, mas um problema da sociedade como um todo, especialmente das pessoas brancas, que precisam reconhecer seus privilégios e se comprometer com a mudança.

O livro termina com uma mensagem de esperança: só quando nomearmos o problema e falarmos abertamente sobre ele é que poderemos construir um país mais justo. Como diz a autora, a branquitude não pode mais dizer que não sabe.

Ler O pacto da branquitude é uma oportunidade importante para compreender como o racismo funciona de maneira silenciosa e estrutural na sociedade brasileira. Trata-se de um livro curto, direto e muito esclarecedor, ideal para quem está começando a estudar o tema ou deseja aprofundar sua compreensão sobre as desigualdades raciais. A obra ajuda a perceber como privilégios e oportunidades são distribuídos de forma desigual e como discursos como o da meritocracia muitas vezes servem para esconder essa realidade. É uma leitura muito indicada para escolas, rodas de conversa, projetos educativos e para todos que acreditam na construção de um país com mais equidade. Durante a Semana da Consciência Negra, torna-se ainda mais urgente refletir sobre essas questões e assumir o compromisso ético de enfrentamento ao racismo.

 

Referência

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

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terça-feira, 18 de novembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Vale não é perdido, é resistência: A cegueira do capital na COP30

Foto: IEPHA

Na imponente passarela global da COP30, onde o discurso verde deveria ecoar com a força da mudança, o que se ouviu de uma voz influente foi o velho e rançoso coro da desumanização. As declarações pejorativas da CEO da Sigma Lithium,,  classificado o povo do Vale do Jequitinhonha como "geração perdida" e "mulas de 'água", não são apenas um erro de cálculo; são um atestado de cegueira moral e histórica que o capital, travestido de sustentável, insiste em ostentar.

A escolha das palavras revela mais do que a intenção; revela a cosmovisão. Chamar uma população inteira, forjada na luta diária e na secura do semiárido, de "geração perdida" é varrer para debaixo do tapete séculos de história, de arte, de sabedoria ancestral. É ignorar a beleza natural que brota do barro transformado em cerâmica pelas mãos das mulheres e homens artesãos, cuja arte se tornou símbolo de Minas Gerais e do Brasil. É desqualificar a poesia que nasce da viola, a fé que move os mutirões e a organização social que mantém a vida digna onde o Estado há muito falhou.

E a alcunha "mulas de água"? É a tradução crua e cruel do que a lógica extrativista realmente pensa de quem vive no território: mão de obra descartável ou, pior, meros instrumentos para carregar nossos recursos. O lítio, vendido como a esperança "verde" para o mundo, tem custado a água e a paz de nosso povo e de nossas comunidades no Vale, como evidenciam as denúncias de impactos ambientais e sociais. A "mula de água" é a inversão perversa do discurso onde o social é reduzido à exploração ou ao assistencialismo de cestas básicas, cisternas, caixas de água, enquanto a autonomia e o modo de vida local são pulverizados.

O Vale do Jequitinhonha não é um vale de miséria ou de passividade. É um Vale de Resistência, as peças de barro que adornam museus e casas pelo mundo são a prova viva de uma cultura que teima em florescer. São quilombos, são festejos, são a tradição oral dos trovadores do Vale, são os saberes das quitandeiras e a força dos povos originários e o modo de vida de ser do Vale..

O povo do Jequitinhonha resiste à seca, à pobreza estrutural e, agora, resiste à nova onda de mineração que, sob o manto da "transição energética", tenta impor o progresso de cima para baixo. É uma luta por território, por água e pela dignidade de escolher o próprio futuro, e não de ser obrigado a aceitar as migalhas do boom do lítio.

A base da vida na região é o coletivo. Os mutirões, as associações , os grupos de luta por terra e água; a sobrevivência no semiárido é, por natureza uma força solidária que contrasta brutalmente com a lógica individualista e predatória do grande capital.

A audácia de proferir tais injúrias num fórum dedicado ao futuro do planeta revela a fissura entre o discurso e a prática das corporações. O progresso que destrói a vida, a cultura e a autoestima de um povo; é a repetição de um ciclo de colonização.

Que as declarações de desprezo proferidas pela Senhora Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium, em entrevista ao programa Fast Money, do canal Times Brasil, durante a COP 30. não nos desviem do ponto central: a riqueza do Vale reside na sua resiliência inacreditável, na sua gente que, mesmo marginalizada, continua a gerar arte, afeto e vida. O Vale não é "perdido"; é o caminho, nossas criança não são “ Mulas de Água” , são a esperança de um futuro melhor, e essa gente vai dá com os  “BURROS NA ÁGUA” porque nosso povo não se curvará a empresas ou aos psuedocoroneis e pseudopolíticos que ainda existem em nossa região. O Vale do Jequitinhonha não precisa ser salvo,  o Vale precisa ser respeitado.

 

Jô Pinto, nas terras do meu querido Vale do Jequi

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - A História do Refresco: Q-SUCO


 


Q-Suco foi o nome original do refresco em pó, lançado originalmente no Brasil em 1961 como a bebida que se tornou um fenômeno por sua praticidade e economia.

A fórmula foi criada pelo casal Edwin e Kitty Perkins, da Perkins Products Company, do estado americano de Nebraska, em 1927.  Eles já produziam uma bebida pronta chamada Fruit Smack, vendida em garrafas, difíceis de transportar e que se quebravam com uma certa frequência. Por causa disso, veio a ideia de se fazer uma versão em pó, vendida em envelopinhos, que ganhou o nome de Kool-Ade, rebatizado logo depois de Kool-Aid (segundo as leis, o nome “Ade” só podiam ser usados em sucos de frutas). O produto foi lançado oficialmente em 1928 nos sabores cereja, uva, laranja, framboesa, limão e morango. A marca Kool-Aid acabou sendo registrada somente em 1934.

A novidade fez tanto sucesso que, em 1931, a empresa desistiu de todos os seus produtos para se concentrar apenas no refresco em pó. Em 1953, a Perkins foi vendida para a General Foods (hoje Kraft-Heinz).

 No começo, o suco em pó se chamava Q-Suco, mas virou Ki-Suco, no começo da década de 1970, para evitar confusão com o concorrente Q-Refresko, fabricado por ex-funcionários da Kibon.

O “Ki” ajudaria a fazer uma conexão direta com a Kibon, porque o  Ki-Suco foi lançado no Brasil em 1961 pela Kibon, que havia sido comprada pouco antes pela empresa norte-americana General Foods.

A marca ficou tão famosa que Ki-Suco acabou virando referência quando alguém queria se referir a refresco em pó. Tang é para quem tem um pouco mais de dinheiro e refrigerante só em ocasiões especiais.

Em 2021, o produto foi relançado, com duas grandes diferenças para a versão dos anos 80. Desta vez, o pacotinho faz um litro, mas continua vindo adoçado. A outra são os sabores disponíveis neste relançamento: abacaxi, groselha, mix de frutas, manga, maracujá e os tradicionais limão, laranja, uva e morango.

E para matar a saudade,  propagandas dos anos 60 e  70;

https://www.youtube.com/watch?v=tK_ILl9a9mU

https://www.instagram.com/reel/DP1U0hXDb5q/


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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

OPINIÃO DO BLOG - Coronéis em pele de políticos


 

O coronelismo foi uma forma de dominação política típica do Brasil rural entre os séculos XIX e XX, especialmente durante a Primeira República (1889–1930). No Vale do Jequitinhonha, uma das regiões como muitas diversidades  e isolada de Minas Gerais, essa prática se consolidou com força devido à baixa presença do Estado, à economia agrária e à dependência das populações locais dos grandes proprietários de terra , os chamados “coronéis”.

O termo “coronelismo” refere-se ao poder exercido por líderes locais, os “coronéis” que controlavam o voto das populações urbanas e rurais por meio do chamado “voto de cabresto”. Esses líderes eram, em geral, grandes proprietários de terra que exerciam funções políticas, econômicas e até judiciais, substituindo o Estado em regiões onde este era ausente e tinha como características principais: Controle do voto e da vida comunitária, Troca de favores por lealdade política, Uso da violência simbólica e física, Domínio sobre instituições locais (igreja, polícia, cartório)

E assim os coronéis eram líderes políticos e econômicos que controlavam vastas extensões de terra e influenciavam diretamente a vida dos moradores, decidindo desde questões judiciais até quem teria acesso a serviços básicos. A população, muitas vezes analfabeta e dependente, votava conforme a orientação do coronel, que usava sua autoridade para garantir apoio político, bem como assistencialismo como moeda política, favores como consultas médicas, empregos, alimentos e transporte eram oferecidos em troca de fidelidade eleitoral.

Com o avanço da urbanização e da democracia formal, o coronelismo não desapareceu, ele se transformou. No Vale do Jequitinhonha e em outras regiões do Brasil, práticas coronelistas evoluíram para formas modernas de controle político:

Clientelismo institucionalizado, programas sociais, como distribuição de bolsas de estudo ou acesso a serviços públicos, são usados por políticos locais como instrumentos de fidelização, em vez de políticas universais de desenvolvimento, controle da mídia e da economia local: Muitos políticos ainda dominam rádios, jornais e empresas da região, mantendo influência sobre a opinião pública e o cotidiano das pessoas. Nepotismo e mandonismo, a política continua marcada por famílias tradicionais que se perpetuam no poder, indicando parentes para cargos públicos e mantendo redes de influência.

Essa transição mostra que, embora o coronelismo clássico tenha perdido força com o tempo, seus mecanismos de dominação se adaptaram às novas formas de fazer política. No Vale do Jequitinhonha, onde o acesso à educação, infraestrutura e oportunidades ainda é limitado, essas práticas continuam a moldar a dinâmica eleitoral e a dificultar a renovação política, ou seja os coronéis continuam por aí sobre peles de cordeiros chamados de “ Políticos “.

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terça-feira, 11 de novembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Crime da Macieira

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Como se viu, seu Custódio era versado em leis e, visto que a cidade nem sempre contava com advogados, funcionava como rábula, em suas horas vagas. Nessas ocasiões, o dr. Rufino, nosso meritíssimo e o Promotor, dr. Lacerda se viam embaraçados. Dr. Rufino já havia transposto a barreira dos sessenta. Estava cansado, de aspecto doentio. De baixa estatura, meio gordo e careca, arrastando-se com dificuldade.

Viúvo, deu de contrair novas núpcias e isso veio contribuir para o agravamento de suas condições. Dona Hortênsia era bem mais jovem e o Juiz não poderia mesmo dar conta do recado. E, como sempre acontece, a mulher precisava de ser satisfeita, de um modo ou de outro. E o velho foi colecionando chifres, segundo se dizia. Como magistrado, era homem íntegro e para aquele fim de mundo, um luminar da ciência do Direito.

Já o dr. Promotor apresentava como melhor credencial as maravilhas de dona Vanda. Garota da capital, moderna e sirigaita, destoava das jovens de sua idade. Vestia-se com ousadia, cruzava as pernas descobrindo as calcinhas e, pior do que tudo, banhava-se no rio em companhia do marido, a quem não regateava carinhos, à vista de todos. "Pouca vergonha danada", murmuravam as más línguas. Parece que o diabo da mulher está sempre pedindo mais! Suspeitava-se. Falava-se à boca pequena. Mas não havia provas. Chegava-se a admitir que na cidade não tinha ainda mijado fora do penico.

Era o que se dizia. Mas na capital, não se tinham dúvidas: "entrava na vara. Ora, se entrava". Era lá que ia esfriar o rabo. Se o dr. Lacerda nutria alguma suspeita, não deixava que transparecesse. E a vida ia correndo. Do Juiz, não se duvidava. Dona Hortênsia se deitava em qualquer pedaço de jornal. E dona Vanda..... Ah! Quem me dera!.

Foi quando Mané Gaudêncio provocou a dupla tragédia. Tratava de sua roça na Macieira e raramente vinha à cidade O dia quase inteiro no mato e dona Sinhana, em casa. Mané Gaudêncio chegou, aí pelas quatro, e ainda de machado na mão, abriu a porta do quarto. De pronto, раrece não ter acreditado no que viu. Firmou as vistas. Não era ilusão. Bidinho e dona Sinhana, nus como nasceram, rolavam na cama. Não pensou duas vezes. De um golpe, decepou a cabeça do macho. Dona Sinhana uivou de pavor, implorando:

- Pelo amor de Deus, Mané!...

O marido puxou-a e arreganhou-lhe as pernas:

- É pau que ocê qué, num é? Então, toma!

               O cabo do machado enterrou-se em seu corpo, do útero à garganta, estraçalhando-a.

Mané Gaudêncio entregou-se à polícia. A família do morto reuniu os cobres e mandou vir o dr. Expedito para auxiliar a acusação. Seu Custódio concordou com a defesa.

No dia do julgamento, a Coletoria não funcionou e seu titular, desde as nove da manhã, palestrava com Antônio de Aristides, lubrificando sua garganta para os debates.

O dr. Lacerda tomou a palavra. Estávamos diante de um dos mais bárbaros crimes de que se tinha notícia. Gaudêncio não era um homem. Era uma feral. Um animal irracional! Nossa civilização não poderia aceitar que tal facínora escapasse à condenação! Teríamos que escolher entre sermos considerados bárbaros ou civilizados! A pena máxima era muito pouco para Manoel Gaudêncio! Seu auxiliar seguiu a mesma linha e descreveu o crime brutal com riqueza de detalhes.

O dr. Rufino passou a palavra à defesa. Seu Custódio limpou os óculos.

- Senhor Juiz, senhores jurados! Afirma-se, de um modo genérico, que todo advogado é mentiroso. Nesse caso, porém, os acusadores disseram a verdade. Foi exatamente como eles afirmaram que Manoel Gaudencio cometeu o duplo assassinato. E ainda mais, que não tinha sido aquela a primeira vez que Bidinho e dona Sinhana tinham se encontrado. Isso pode não ser verdade, mas muito pouco importa. Meritíssimo Senhor Juiz, dr. Promotor de Justiça, senhor auxiliar da acusação. Existe um ditado que reza ser o homem traído é o primeiro que sente e o último que sabe. Muitos dos que aqui estão presentes não o ignoram. Ninguém tem pena do corno. Todos o achincalham. Por isso, aqueles que sabem, fingem que ignoram. Para eles, é bem mais cômodo. Para os que não nasceram para a chacota, a descoberta da traição conjugal sempre termina em tragédia. Também aqui há muitos que sabem disso. Mas a acusação vem de nos colocar entre a civilização e a barbárie, em dependência da decisão dos senhores jurados.

O dr. Juiz e os advogados da acusação são homens civilizados. Também o são os ingleses. E na Inglaterra, ninguém estranha quando a esposa abandona o lar e a ele retorna à primeira rusga com o amante. O marido a recebe de braços abertos, até que ela parta novamente. Mas os ingleses são altamente civilizados. Talvez por isso, os soldados da guarda real, símbolos do império, usem o imponente boné de pele de urso, alto e marcial, à feição de casa de cupim. Também no Brasil, nos grandes centros, no âmbito da alta sociedade, os homens são civilizados. E todos se entendem. Mas vejam agora. Chega o homem cansado do trabalho. Procura a esposa. Contemplem, senhores jurados a horrível cena! Sobre a cama, a esposa nua, cavalgada por um amante igualmente nu! Qual teria sido a reação de um homem normal? Qual teria sido a reação dos senhores, senhores jurados? O homem civilizado, nas palavras do dr. Promotor, retirar-se-ia, pé ante pé, para não ser visto e aguardaria a partida do amante de sua mulher. E haveria de fingir ignorar sua vergonha pelo resto de seus dias. Mas outros o saberiam! O homem comum, ao contrário, diante de tal cena, se rebelaria e lavaria sua honra com sangue! Mais tarde, seria acoimado de bárbaro e de fera! Mas não viveria em desonra pelo resto de seus dias. Seu Custódio limpou a garganta. A sorte de Manoel Gaudêncio está em suas mãos. Dentro em pouco, os senhores apresentarão seus votos. Ficaremos sabendo quantos dos senhores são homens civilizados. Conheço-os a todos, um por um. Mas existem segredos que todos nós desconhecemos e que poderão se revelar agora!

Manoel Gaudêncio foi absolvido por unanimidade!


Texto extraído do livro " O estranho mundo do Dr. Boaventura, crônicas do Jequitinhonha" de Otto Paulino


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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - Envelhecimento e Patrimônio Cultural

Fotos - Internet

Este ano, a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) trouxe como tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. A escolha dialoga diretamente com a valorização do patrimônio cultural, especialmente em estados como Minas Gerais. Os idosos são guardiões de saberes tradicionais, práticas religiosas, culinária típica e expressões artísticas que compõem o patrimônio imaterial do país. Essa relação se torna ainda mais evidente pela forte presença de tradições mantidas por pessoas idosas, verdadeiros pilares da cultura local.

Minas Gerais é um dos estados com maior número de bens tombados e manifestações culturais reconhecidas. No Vale do Jequitinhonha, por exemplo, essa presença é marcante nas festas populares, no artesanato e na oralidade que preserva a memória das cidades históricas. Ao registrar quase dois mil inscritos com mais de 60 anos no Enem 2025, o estado revela um fenômeno que envolve memória, identidade e continuidade, reafirmando o papel ativo da terceira idade na educação e na transmissão cultural. Muitos desses idosos vivem em comunidades quilombolas e rurais, onde mantêm modos de vida ancestrais, como a agricultura familiar, o uso de plantas medicinais e os rituais religiosos afro-brasileiros.

O envelhecimento, portanto, não é apenas uma questão demográfica, mas carrega dimensões culturais profundas. Os idosos são guardiões de memórias, histórias, práticas e saberes que constituem o patrimônio imaterial brasileiro, como o congado, a folia de reis, o artesanato em barro, fibras, couro e bordado, além das receitas típicas da culinária mineira. O patrimônio cultural também se constrói pela oralidade e pela memória coletiva, e os idosos são protagonistas na manutenção da identidade cultural local, contando histórias, ensinando ofícios e mantendo vivas as raízes de suas comunidades.

Assim, a discussão proposta pelo Enem 2025 caiu no gosto e na boca do povo, extrapolando as esferas políticas e sociais, ao chamar atenção para a valorização do envelhecimento ativo e para a inserção dos idosos nos espaços de formação e cidadania. Idoso(a) não é peça de museu cheirando à naftalina, é cidadão ou cidadã que sente o gosto pela vida e saboreia noites e dias no afã do bem viver!

 

Fonte - https://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticia/minas-gerais-avanca-na-protecao-e-valorizacao-das-pessoas-idosas


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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

CONHECENDO O JEQUI - A influência da colonização na formação sociocultural do Vale do Jequitinhonha.


 

A vida sociocultural do Vale do Jequitinhonha é marcada por uma rica diversidade cultural, moldada por processos históricos como a colonização, o ciclo do ouro e a produção agrícola, que deixaram profundas marcas na identidade da região

Situado no nordeste de Minas Gerais, é uma região de contrastes. Apesar de ser frequentemente associada à pobreza e à exclusão social, carrega uma impressionante riqueza cultural que se manifesta na música, na dança, na religiosidade popular e, sobretudo, no artesanato. Essa diversidade é fruto de uma complexa formação histórica que remonta ao período colonial.

Durante a colonização portuguesa, o território do Vale foi ocupado por bandeirantes e exploradores em busca de riquezas minerais. A presença de indígenas e africanos escravizados contribuiu para uma mescla étnica e cultural que ainda hoje se reflete nos costumes locais. A colonização impôs estruturas sociais excludentes, mas também promoveu o surgimento de manifestações culturais híbridas, como o congado, o batuque e as festas religiosas sincréticas.

Nos estudos que venho desenvolvendo, faço algumas analises com base nas formas e atividades que fora desenvolvida no período colonial nessa região, apesar dessa linha de divisão traçada.

O ciclo do ouro: de Diamantina até Araçuaí, que iniciou no século XVIII, o ciclo do ouro e dos diamantes teve papel central na configuração econômica e social da região. Cidades como Diamantina prosperaram com a mineração, atraindo populações e fomentando o desenvolvimento urbano. Essa riqueza, no entanto, não se espalhou de forma equitativa: Araçuaí e outras localidades do Médio Jequitinhonha foram impactadas pela migração e pela exploração, mas sem os mesmos benefícios estruturais.

A decadência da mineração no século XIX deixou um legado de desigualdade, mas também de resistência cultural. A arte barroca, a arquitetura colonial e os modos de vida herdados desse período ainda são visíveis, especialmente nas celebrações religiosas e na oralidade popular, entre esse legados vamos ter as Festas do Rosário e Irmandades do Rosários dos Homens Pretos, Marujadas, Congadas, Caboclinhos e Festas do Divino.

Por outro lado, considerando os municípios de Itinga a Salto da Divisa, mais ao sul do Vale, foram influenciados pela economia agrícola, com destaque para a produção de cana-de-açúcar e a criação de gado. Essas atividade moldaram o cotidiano das comunidades rurais, com práticas de trabalho coletivo, festas ligadas à colheita e saberes tradicionais sobre o cultivo e o beneficiamento da cana e o manejo da terra.

Essas culturas também reforçaram estruturas sociais marcadas pela concentração de terras e pela exploração da mão de obra, mas permitiu o surgimento de redes de solidariedade e resistência, visíveis nas associações comunitárias e nos movimentos culturais que valorizam a identidade, nesse sentido as manifestações nessa região são, Folias de Reis, Bois de Janeiros, Cordões de Caboclos, Grupos de Batuques e Cantos.

Não estamos afirmando que essas manifestações características dessa influencia agrícola ,não tenham também no ciclo do outro ou vice-versa.

A vida sociocultural do Vale do Jequitinhonha é resultado de um processo histórico complexo, onde a colonização, o ciclo do ouro e a produção agrícola deixaram marcas profundas. Apesar das adversidades, o povo do Vale construiu uma identidade rica, resiliente e criativa, que se expressa em suas festas, artes e modos de vida. Valorizar essa diversidade é essencial para compreender o Brasil profundo e promover políticas que respeitem e fortaleçam as culturas locais.

 

Jô Pinto

Professor, Historiador e Mestre em Ciência Humanas.

 

Referencias Biográficas

Revista Contemporâneos – Vale do Jequitinhonha: Entre a carência social e a riqueza cultural
Diagnóstico Socioeconômico do Vale do Jequitinhonha – UFMG


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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de Leitura, a poesia de Maria da Conceição


Nesta semana, nossa dica de leitura vem do Vale do Jequitinhonha: as poesias de Maria da Conceição

Natural de Santa Luzia dos Corujas e moradora de Caraí (MG), Maria da Conceição encontrou na poesia um refúgio e um recomeço. Seus textos, marcados pela simplicidade e pela emoção, nascem de vivências profundas e da fé na vida. Ler suas poesias é embarcar em uma viagem de luz, esperança e encantamento.

Maria da Conceição estudou até a quarta série, retomou os estudos recentemente e está cursando o oitavo ano pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos). Mas foi fora da sala de aula que ela encontrou uma das maiores lições da vida: o poder transformador da poesia.

Após enfrentar uma paralisia facial, Maria descobriu que escrever era mais do que um passatempo era uma forma de fisioterapia para a alma. Desde então, não parou mais. Em cada verso, encontra leveza, esperança e inspiração para seguir. Sua escrita é espontânea, viva e profundamente humana, refletindo sentimentos, memórias e sonhos que tocam o coração de quem lê.

Como ela mesma diz: “O poeta viaja na imaginação, despertando no leitor o desejo de pegar carona, fazendo nascer novos caminhos e reacendendo a esperança.”

Aos 58 anos, Maria da Conceição continua a escrever com entusiasmo e verdade. Suas poesias são como pequenos faróis que iluminam o cotidiano e nos convidam a ver o lado bom da vida.

 Vale a pena conhecer essa voz do Vale do Jequitinhonha, que transforma dor em beleza e emoção em poesia.

 

O UNIVERSO DE UM POETA

A alma se engrandece ao ver o seu universo,
seu brilho imenso, com surpresas surpreendentes.
Ao viajar na nave espacial, descobrimos sua beleza infinita,
onde navegamos nesse paraíso de luz e cores encantadoras,
uma imensidão que fascina e ilumina.

Assim é a vida de um poeta:
precisa navegar na imaginação,
acender a chama da alma,
ilustrar as palavras para encher de luz,
despertando nas pessoas a esperança de viver,
de sonhar, de acreditar que a vida é bela
e vale muito mais do que imaginamos
mais que ouro ou prata.

Mergulhar nesse universo encantador,
deslumbrar-se com sua beleza,
com o brilho das cores e a pureza da emoção.

Olhar para o céu, contemplando sua imensidão azul,
como o mar com suas ondas brancas como a neve,
e as nuvens cobrindo o firmamento,
viajando pelo oceano infinito
que faz a alma florescer e traz paz.

O sol se esconde atrás das nuvens,
revelando sua beleza imensa,
seu brilho deslumbrante a cada instante.

Os mais belos gestos de Deus
estão na alma de um poeta,
que escreve para se encontrar consigo mesmo.

 

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DIÁRIO DE LEITURA - Uma prosa com o poeta Terramar Luz

  Terramar nasceu em estado de poesia Entre a terra de onde veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha ...