quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Uma prosa com o poeta Terramar Luz


 

Terramar nasceu em estado de poesia

Entre a terra de onde veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha transforma memória, saudade, amor e pertencimento em literatura

Há pessoas que recebem um nome.

E há pessoas que parecem receber, junto com o nome, uma história.

Quando Terramar Alves Luz nasceu, em 10 de dezembro de 1988, sua mãe dizia estar em “estado de poesia”. O pai, que, segundo ele, tinha ideias hippies, chegou a mudar o nome que havia sido pensado para homenagear os avós: José, pelo lado paterno, e Othávio, pelo lado materno.

O menino acabou sendo Terramar.

Terra e mar.

E, no sobrenome, Luz.

Talvez seja apenas uma coincidência. Ou talvez algumas histórias comecem muito antes de percebermos que já estão sendo escritas.

Terramar nasceu em Almenara, no Vale do Jequitinhonha, e reside em Santo Antônio do Jacinto. Bacharel em Direito pela PUC Minas, é escritor, poeta, ativista e agente cultural. Desde a juventude, participa e ajuda a organizar eventos voltados à cultura e à literatura.

Aos 16 anos, começou a escrever poesia.

Passaram-se os anos.

Vieram a adolescência, as cartas de amor, as inquietações, a faculdade, a distância de casa, a saudade, os poemas guardados e uma vida inteira acontecendo entre um verso e outro.

Somente em agosto de 2026, depois de mais de duas décadas escrevendo, Terramar publicou seu primeiro livro, Declaração de um Piegas, pela Arejo Editorial.

Mas a história desse livro começa muito antes.

Antes do livro, havia a distância

Existe um momento importante na trajetória de Terramar que ajuda a compreender a poesia que viria depois: a saída do Vale para estudar Direito na PUC Minas, em Contagem.

Longe de casa, aquilo que antes fazia parte da paisagem cotidiana começou a aparecer de outra maneira. A terra passou a ser lembrança. A infância ganhou contornos de memória. As pessoas, os lugares e as experiências vividas no Vale do Jequitinhonha passaram a existir também dentro dele.

A distância não apagou o território.

Trouxe-o de volta em forma de poesia.

“Os poemas tornaram-se uma espécie de remédio para a alma”, conta.

É uma frase que ajuda a compreender Declaração de um Piegas. A poesia, para Terramar, foi se transformando ao longo da própria vida. Primeiro, vieram os poemas românticos e as cartinhas de amor da adolescência, durante um processo de autodescoberta.

Depois, surgiu uma escrita mais rebelde, marcada pelas indagações da vida e por poemas de cunho mais social.

Mais tarde, já maduro, veio a saudade da terra.

E foi nesse movimento de afastamento e lembrança que o Vale do Jequitinhonha ganhou ainda mais espaço em sua escrita.

Segundo Terramar, os poemas passaram a funcionar como um resgate das lembranças da infância e também como uma defesa do território que considera rico em cultura e resistência.

Do amor adolescente à memória de uma terra

A poesia de Terramar não nasceu pronta.

Ela foi mudando junto com ele.

O próprio livro acompanha esse percurso. Declaração de um Piegas é uma coletânea de poemas organizada em três capítulos: cidade, infância e amor.

São experiências diferentes, reunidas por uma escrita marcada por reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

“Para muitos poetas, a primeira linguagem seja o amor”, afirma.

No caso de Terramar, essa primeira linguagem apareceu nos poemas românticos e nas cartinhas de amor da adolescência. Com o tempo, porém, a escrita ganhou outras preocupações.

Vieram as perguntas sobre a vida.

Vieram os poemas de cunho social.

E veio também a necessidade de reencontrar, pela palavra, aquilo que havia ficado para trás.

A infância.

A terra.

A memória.

O Vale.

Vinte anos de poemas guardados

Existe uma espécie de silêncio antes de todo livro.

No caso de Terramar, esse silêncio durou mais de duas décadas.

Ele continuou escrevendo, acumulando poemas e mantendo a esperança de um dia publicar uma obra. O problema não era a falta de material. Era a dificuldade financeira.

“Hoje em dia, publicar um livro não é barato e, sem o fomento cultural governamental, torna-se ainda mais difícil o primeiro lançamento para um jovem sem proventos”, explica.

Foi por meio da Lei Paulo Gustavo, instituída pela Lei Complementar nº 195/2022, que esse sonho conseguiu se tornar realidade.

Terramar selecionou parte dos poemas que vinha guardando desde os 16 anos e reuniu esse material em seu primeiro livro.

Assim nasceu Declaração de um Piegas.

O lançamento representa a passagem de uma produção que durante anos permaneceu guardada para uma obra que agora pode encontrar leitores.

E Terramar já pensa nos próximos passos.

“Espero que outros livros venham por aí...”

Um “piegas” assumido

O título do livro não tenta esconder a dimensão sentimental da escrita de Terramar.

Pelo contrário.

Declaração de um Piegas assume o romantismo confesso do eu lírico e a sensibilidade sentimentalista ou exagerada que o próprio título anuncia.

Os poemas reúnem experiências individuais, reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

Há amor.

Há memória.

Há saudade.

Há infância.

Há território.

E há uma maneira muito particular de assumir os sentimentos sem tentar diminuí-los.

O “piegas”, nesse caso, não parece funcionar como pedido de desculpas pela sensibilidade. É uma declaração.

O Vale escrito por quem precisou partir

Entre os poemas reunidos no livro, Terramar escolheria apenas um para apresentar o Jequitinhonha a alguém que nunca esteve na região.

O escolhido é “Vale do Jequitinhonha”, publicado na página 42 de Declaração de um Piegas.

A escolha não é casual.

O poema reúne algumas das imagens que atravessam sua trajetória: saudade, pertencimento, rio, terra, cultura e resistência.

Ele começa com a ausência:

“Saudade que sinto

Do meu lugar...”

Depois, a lembrança se transforma em declaração de amor à terra onde nasceu:

“O orgulho que carrego em mim,

Por este chão de tanta paixão,

Explode no meu coração.”

O rio aparece como elemento que banha cidades e também como caminho de memória:

“Com água e poesia,

Vai tornando tudo magia.”

E então surge uma afirmação que sintetiza a maneira como o poeta deseja representar sua região:

“O Vale não é da pobreza,

Mas sim da beleza!”

Mais adiante, beleza e resistência aparecem lado a lado:

“Mas também de resistência,

Deste povo simples e lutador.”

No poema de Terramar, o Vale é feito de barro, reza, canção, rio, memória, amor e resistência.

É o território visto por alguém que nasceu nele, precisou se afastar e continuou carregando-o consigo.

Mais que escrever, fazer circular

A relação de Terramar com a cultura não termina na publicação do livro.

Sua trajetória também passa pela atuação como agente cultural e pela participação em iniciativas voltadas à literatura, à memória e às manifestações culturais do Vale.

Em 2007, venceu a primeira Noite Literária de Santo Antônio do Jacinto.

Em 2021, recebeu o prêmio literário do VII Encontro de Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, com o poema Ser Poeta.

Em 2024, produziu o documentário Folia de São Sebastião da Comunidade Serra Alta, voltado para a memória, a religiosidade e as tradições da comunidade.

Quando fala sobre a literatura produzida atualmente no Vale do Jequitinhonha, Terramar volta a uma questão que conhece de perto: a dificuldade econômica enfrentada por escritores iniciantes.

Para ele, a falta de fomento para a publicação de livros dificulta a descoberta de novos artistas na literatura. Ele também chama atenção para outro obstáculo: nem todos conseguem acessar os recursos disponíveis, seja pela falta de informação, seja pela complexidade dos editais e pela necessidade de conhecimento técnico para participar dos processos de seleção.

Nesse cenário, destaca a importância do movimento de poetas e escritores do Vale do Jequitinhonha para a troca de saberes e o fortalecimento da cultura local.

Entre as possibilidades que enxerga para o movimento está a criação de coletâneas por meio do próprio coletivo.

Porque, para Terramar, fortalecer a literatura regional também passa por criar caminhos para que os escritores possam publicar, circular e ser conhecidos.

Dentro e fora do Vale.

Um livro que começou antes de existir

Há algo curioso na trajetória de Declaração de um Piegas.

Embora tenha sido publicado apenas agora, ele começou a ser escrito muito antes de existir como livro.

Começou aos 16 anos.

Passou pela adolescência.

Atravessou a saída do Vale.

Chegou à vida universitária.

Conheceu a distância.

Encontrou a saudade.

Voltou para a infância.

Guardou cartas de amor, inquietações, reflexões, dúvidas, sonhos e experiências.

Esperou.

Até que uma parte desse acervo encontrasse uma forma de chegar ao mundo.

Por isso, o livro reúne mais do que poemas escritos em momentos diferentes. Reúne também diferentes momentos de quem os escreveu.

O adolescente que descobria a poesia.

O jovem que questionava a vida.

O estudante que deixou sua terra.

O homem que encontrou na escrita uma maneira de lidar com a saudade.

E o agente cultural que continua olhando para o território de onde veio.

Entre a terra e o mar

Terramar conta que seu nome carrega os quatro elementos naturais clássicos. Terra e mar estão explícitos. O ar e o fogo completariam a existência. E o sobrenome Luz acrescentaria mais uma camada.

Ele também relaciona essa combinação ao seu signo, Sagitário, que associa à liberdade e à aventura.

Mais do que uma curiosidade sobre o nome, porém, existe nele uma história que Terramar reconhece como parte de sua identidade.

“Mais tarde, compreendi que a poesia, de fato, já existia em mim desde o meu nascimento.”

Talvez seja por isso que ele tenha transformado a própria chegada ao mundo em poema.

Em Quando Eu Nasci, escreve:

“Quando eu nasci,

Minha mãe me dizia

Que estava em estado de poesia.”

E, quase no final, retorna àquela ideia que parece atravessar toda a sua trajetória:

“Mais que um filho,

Um poeta ali nascia.”

A poesia que começou como experiência íntima ganhou o território como companhia.

A saudade ganhou versos.

A memória ganhou páginas.

E o Vale ganhou uma voz entre tantas outras que ajudam a contar sua história.

A poesia como lugar de retorno

Talvez seja essa uma das imagens mais fortes deixadas pela trajetória de Terramar Alves Luz.

Sair.

Sentir falta.

Lembrar.

Escrever.

E voltar por meio das palavras.

Declaração de um Piegas nasce desse percurso.

É uma coletânea de poemas escritos ao longo de mais de duas décadas, mas também é o resultado de uma relação contínua com as experiências, os afetos, as memórias e o território.

O menino que nasceu em Almenara tornou-se poeta.

O jovem que começou a escrever aos 16 anos guardou seus poemas.

O estudante que deixou o Vale encontrou na poesia uma maneira de lidar com a distância.

O agente cultural passou a atuar também na preservação e valorização da cultura de sua região.

E, em 2026, o que durante tantos anos esteve guardado ganhou finalmente um livro.

Talvez o próprio nome ajude a contar essa história.

Terra, como origem.

Mar, como movimento.

Luz, como parte do nome que o acompanha desde o nascimento.

Entre eles, existe um poeta.

Ou, nas palavras que Terramar escolheu para sua própria biografia:

“Não sou Alegre nem Triste sou Poeta.”

E talvez seja justamente aí que essa história encontre seu ponto final.

Ou, quem sabe, apenas o primeiro verso de uma nova página.

 

A poesia, essa velha companheira de quem insiste em lembrar, continua encontrando novas maneiras de permanecer.


Por



 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DIÁRIO DE LEITURA - Uma prosa com o poeta Terramar Luz

  Terramar nasceu em estado de poesia Entre a terra de onde veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha ...