terça-feira, 7 de julho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda da Acayaca


 

 A lenda da Acayaca se baseia nos arredores do Arraial do Tejuco, onde atualmente, se estabelece o centro histórico da cidade de Diamantina-MG, neste território se concentravam os índios Botocudos, e porventura do crescimento do Arraial, os bandeirantes precisavam ocupar todo o território. Em contrapartida à demarcação territorial, os Botocudos, que eram conhecidos por suas características extremamente ferozes, resistiram às opressões dos bandeirantes subindo para as regiões mais elevadas do Arraial, onde por ali se estabeleciam as suas tribos, que por ventura, havia um grandioso cedro, onde os Botocudos acreditavam ser uma árvore sagrada para a sua tribo, além de ser um ponto de força contra os ataques dos bandeirantes. Conta-se, segundo a lenda, que há milhares de anos atrás, a região do Arraial teria sofrido uma enchente muito forte, e apenas um casal da tribo havia sobrevivido. A sobrevivência do casal se deu pela subida na copa da árvore sagrada, quando a enchente bradou, o casal desceu e decidiu a partir de então, povoar novamente a sua tribo. A árvore desde então, passou a ser o elemento fundamental para a sobrevivência dos índios Botocudos, através da árvore se obtinha vitória, a vida, o alimento e a proteção contra qualquer inimigo, representando assim um Deus, que era cultuado e louvado pelos índios. Conta-se que os índios dançavam e rezavam ao redor da árvore, o que a intitulou de “Acayaca”.

Em virtude de suas crenças, os índios, toda vez que se sentiam ameaçados antes de uma batalha, eles dançavam e rezavam em torno da árvore, desta forma, eles acreditavam que sempre poderiam vencer. Os bandeirantes na tentativa de domínio do território do Botocudos, começaram a especular formas de derrubar os índios, até que descobriram que a força dos Botocudos era oriunda da árvore Acayaca. Com essa informação os bandeirantes aguardaram, e ficaram a observar os índios, até que um dia os guerreiros da tribo se afastaram do seu território para uma festa, e deixaram só as mulheres e os mais velhos para tomarem conta de sua tribo. Os bandeirantes aproveitaram deste fato para subirem até a tribo, na qual atearam fogo na Acayaca e saíram da tribo, quando os guerreiros voltaram, ficaram sem saber o que fazer, metade da tribo queria atacar os bandeirantes por vingança e a outra metade da tribo tinham medo de atacar e não conseguir êxito, assim eles lutaram entre eles e os bandeirantes aproveitaram a distração dos guerreiros e dizimaram a tribo e ocuparam a parte superior do território. Todo este cenário de luta criou entre os índios uma batalha sangrenta, onde os integrantes da tribo guerrilharam uns contra os outros, provocando um grande massacre. Os índios que restaram desta acirrada luta, fugiram para as matas, e o cacique da tribo ao ver a árvore Acayaca em chamas se debruçou em desespero, quando uma tempestade indubitavelmente, inundava aquela região. Em meio à chuva desacerbada e vários trovões e raios, o cacique da tribo, pegou as cinzas que restavam da árvore e atirou-as para o chão, e amaldiçoando aquelas terras e todos que ali habitavam. As cinzas, de acordo a lenda, à medida que a tempestade amenizava, transformou-se em diamantes, que reluziam com os raios de sol que começavam a surgir em meio ao fim da tempestuosa chuva. Desde então, posteriormente, começaram as descobertas dos diamantes na região através da Coroa Portuguesa, e até nos dias atuais, muitos acreditam que os diamantes do Arraial do Tejuco, brotam da terra.

Retirado do Artigo “Entre a realidade e o imaginário: histórias e lendas de Diamantina/MG” de Fernanda de Alencar Machado Albuquerque e Urânia Cheiene Ferreira

 

Nota: O termo "botocudos" foi usado de forma pejorativa pelos colonizadores portugueses para rotular o Povo Borum dessa região.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de Leitura da Semana: A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson


 

Há livros que oferecem boas ideias para a sala de aula e há aqueles que conseguem transformar a maneira como pensamos a educação. A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson, pertence a esse segundo grupo. Por isso, esta é a nossa dica de leitura da semana para professores, estudantes de licenciatura, pedagogos e todos os que acreditam no poder transformador da literatura.

Reconhecido como uma das principais referências brasileiras em letramento literário, Rildo Cosson amplia, nesta obra, uma discussão iniciada no já consagrado Letramento Literário: teoria e prática. Se naquele livro o autor apresenta caminhos para formar leitores literários, nesta nova publicação ele dá um passo além ao defender que a escrita literária também deve ocupar um espaço permanente na escola. Afinal, ler e escrever literatura são experiências que se complementam e contribuem para a formação humana dos estudantes.

O grande mérito da obra está justamente em aproximar teoria e prática. O autor não apresenta receitas prontas nem modelos engessados. Pelo contrário, convida o professor a refletir sobre sua prática pedagógica e mostra que é possível construir experiências significativas de leitura e escrita mesmo diante dos desafios cotidianos da escola. Em um contexto marcado pela cultura digital, pelas avaliações em larga escala e pelo avanço da Inteligência Artificial Generativa, sua proposta reafirma que formar leitores e escritores continua sendo uma das missões mais importantes da educação.

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando observamos como a literatura, durante muito tempo, foi tratada no ambiente escolar. Em muitas salas de aula, os textos literários serviram apenas como pretexto para ensinar regras gramaticais, identificar figuras de linguagem ou responder longos questionários de interpretação. Nessa lógica, a obra literária perde sua dimensão artística e humana, tornando-se apenas mais um conteúdo a ser avaliado.

Rildo Cosson propõe uma mudança de perspectiva, para ele, a literatura deve ser vivida como experiência, permitindo que os estudantes interpretem, sintam, questionem, dialoguem e construam sentidos coletivamente. O professor deixa de ser apenas o transmissor de respostas para assumir o papel de mediador, criando condições para que cada aluno desenvolva uma relação autêntica com os livros.

Essa proposta dialoga diretamente com o método apresentado em Letramento Literário: teoria e prática, obra em que Cosson sistematiza as conhecidas Sequências Didáticas de Leitura. A chamada Sequência Básica organiza o trabalho em quatro momentos: motivação, introdução, leitura e interpretação. A intenção é preparar o estudante para entrar no universo da obra, acompanhar a leitura de maneira orientada e criar oportunidades para que as interpretações sejam compartilhadas. Já a Sequência Expandida aprofunda esse percurso, explorando aspectos específicos do texto e suas relações com outras obras, autores e contextos culturais, valorizando a intertextualidade e ampliando os horizontes de leitura.

Mais do que uma metodologia, essas sequências expressam uma concepção de educação, que na ideia do autor a leitura e escrita são práticas sociais. Ninguém nasce gostando ou desgostando de ler. O interesse pela literatura é construído por meio das experiências vividas na família, na escola e nos espaços culturais. Quando os estudantes compartilham interpretações, debatem personagens, relacionam textos e descobrem diferentes maneiras de compreender uma mesma obra, passam a fazer parte de uma verdadeira comunidade de leitores. É justamente nessa dimensão coletiva que o letramento literário ganha sentido, aproximando-se das contribuições de Magda Soares ao compreender a leitura e a escrita como práticas inseridas na vida social.

A força dessa proposta pode ser percebida em experiências desenvolvidas em escolas brasileiras. Um exemplo foi realizado com uma turma do 8º ano do Ensino Fundamental, na Paraíba, onde professoras aplicaram a Sequência Básica de Cosson durante a leitura de poemas de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Ao longo das discussões, os estudantes registraram suas interpretações em pedaços de tecido que, posteriormente, foram reunidos em uma Colcha de Poemas. O projeto integrou literatura, arte, escrita e trabalho coletivo, demonstrando que a leitura pode ultrapassar as páginas do livro e transformar-se em uma vivência significativa para toda a turma.

É justamente nesse ponto que A Escrita Literária na Escola amplia a discussão. Se a leitura humaniza e amplia nossa compreensão da realidade, a escrita literária permite que os estudantes experimentem a linguagem como espaço de criação, imaginação e expressão. Escrever poemas, contos, crônicas ou narrativas ficcionais não significa formar escritores profissionais, mas desenvolver sensibilidade, criatividade, repertório cultural e capacidade de comunicar experiências e emoções. Ao produzir literatura, o aluno também aprende a ler de forma mais profunda, pois passa a compreender os recursos expressivos utilizados pelos autores.

Talvez esse seja o maior ensinamento do autor: a literatura não deve ocupar um espaço periférico na escola nem servir apenas de apoio para o ensino da gramática, ela precisa ser reconhecida como uma linguagem artística capaz de formar leitores críticos, escritores mais conscientes e cidadãos sensíveis às múltiplas formas de compreender o mundo.

Por isso, nossa dica de leitura da semana é A Escrita Literária na Escola, sem deixar de recomendar também Letramento Literário: teoria e prática, obra que complementa esse percurso e ajuda a compreender as bases da proposta desenvolvida pelo autor. Juntos, os dois livros constituem uma leitura indispensável para quem deseja transformar a literatura em uma experiência viva, significativa e verdadeiramente formadora dentro da escola.

E na sua escola? A literatura ainda aparece apenas como apoio para o ensino da gramática ou já ocupa um espaço de criação, diálogo e formação crítica? Compartilhe sua experiência nos comentários.


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CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda da Acayaca

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