quinta-feira, 25 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"


 

Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade, escrito pelo médico infectologista, ex-prefeito de Caraí e atual deputado federal, Dr. Heber Neiva (Vavá), surge não como apenas mais uma coletânea de histórias, mas como um espelho de realidades que cruzam os caminhos de quem percorre as estradas poeirentas e as comunidades dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Muitos poderiam esperar dos bastidores da escrita do autor um relato focado puramente nas "mazelas", aquela palavra desgastada que a mídia de fora adora usar para rotular e resumir a região. Mas a obra, lançada em 2025, vai muito além. O título A Ferida Aberta mexe com a própria identidade regional. O autor não olha para o povo com pena, mas com um profundo respeito pela resiliência local, usando a história para explicar a saúde, e a saúde para desvendar a história.

O Estetoscópio que Escuta a Fome

Para quem vive o cotidiano de cidades como Caraí, Catuji, Teófilo Otoni ou Diamantina, a obra impressiona porque humaniza o dado estatístico. O Dr. Heber utiliza o conceito científico de sindemia; a percepção de que uma doença não existe isolada da fome, do racismo, da pobreza e da ausência do Estado. Como o próprio autor define de forma cirúrgica na obra:

Para o médico do interior, o estetoscópio muitas vezes escuta o que não está no pulmão, mas na despensa vazia. A verdadeira ferida aberta que encontramos nas estradas poeirentas não é a da carne, mas a da invisibilidade de um povo que teima em sorrir mesmo quando o Estado se esquece de chegar.” O autor ainda menciona que: “quem é da região sabe exatamente o que isso significa: as longas caminhadas sob o sol escaldante para conseguir um atendimento, ou o trabalhador informal que esconde suas dores para não perder o dia de serviço”.

O livro traz à tona a personagem Damiana, que nasceu no Vale do Mucuri cercada por um paradoxo cruel: enquanto os grandes centros transformavam o HIV em uma condição crônica tratável, a desigualdade regional continuava a matar por falta de acesso. O autor mostra que "os patógenos biológicos são apenas relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de violência social".

Rompendo o Silêncio do Estigma e da Saúde Mental

Outro ponto crucial onde a obra toca na carne da região é a abordagem sobre o sofrimento psíquico e o isolamento, temas que ainda são tabus gigantescos nas pequenas cidades.

Tratar a mente nos rincões do Jequitinhonha é desafiar o silêncio. O sofrimento mental aqui se esconde nos quintais, amarrado pelo preconceito e pela falta de estradas. O isolamento geográfico acaba por se tornar um isolamento da própria alma.”

Ao longo das crônicas, o autor apresenta personagens reais, com identidades protegidas, cujas dores gritam por justiça. É o caso de Piedade, que faz questionar se o surto veio da mente ou do peso de uma sociedade opressora; e de Dolores, uma mulher marginalizada que questiona o próprio sistema: “Se eu fui vítima desde a barriga da minha mãe, por que sou eu quem termina atrás das grades?”. O livro escancara como o machismo regional e a escassez histórica de redes de apoio psicossocial destroem vidas em silêncio.

O Enfrentamento do HIV no Interior: Uma Luta Civilizatória

A maior força de A Ferida Aberta, e o que torna a sua recomendação um dever cívico, é a quebra do silêncio sobre a realidade das pessoas soropositivas longe das capitais. O preconceito nas cidades pequenas ainda age, muitas vezes, como um exílio em praça pública.

O vírus assusta, mas o estigma mata antes. No interior, a revelação de um diagnóstico positivo de HIV ecoa pelas paredes da cidade com o peso de uma sentença de exílio social. Acolher essa dor não é apenas um dever médico, é um resgate civilizatório.”

O desafio logístico denunciado no livro é uma realidade conhecida de perto por quem habita a região. Para fazer um exame de carga viral ou buscar a medicação antirretroviral, muitos pacientes precisam enfrentar horas de viagem em estradas precárias até os centros de referência regionais. Através do personagem Inocêncio, um jovem que nasceu com HIV e acabou encontrando o único "abraço" disponível no mundo do crime, o autor prova que a biologia, no interior, é refém da história e do desamparo.

Mais que Literatura, um Compromisso Coletivo

O que torna a indicação desta obra tão relevante não é apenas a qualidade da escrita, que mistura de forma brilhante a sensibilidade da crônica com a profundidade da análise histórica, mas o compromisso que o Dr. Heber assume com a população.

O valor arrecadado com a venda dos livros é totalmente destinado a entidades filantrópicas locais que apoiam e acolhem pessoas soropositivas nos Vales. Ler este livro, portanto, vai além do passatempo: é um ato de solidariedade ativa e de cidadania.

Para quem busca entender o Brasil real através das cicatrizes dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, A Ferida Aberta não é apenas uma recomendação de leitura: é um reencontro urgente com a nossa própria história.

 

Boa leitura.


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segunda-feira, 22 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - SEQUILHO


 

A palavra “sequilho” deriva de seco (com o sufixo -ilho), numa referência direta à sua textura característica. Em várias regiões do Brasil, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais, também são conhecidos como biscoitos de goma ou bolachas de polvilho. Os sequilhos são parte da tradição culinária brasileira, preparados à base de polvilho (ou amido), açúcar e manteiga. Herdaram esse nome por causa do processo de preparo, que os deixa secos por fora e macios por dentro, derretendo suavemente na boca.

De origem portuguesa, os sequilhos chegaram ao Brasil por volta do século XVII, trazidos pelos colonizadores. Aqui, os portugueses aprenderam com os povos indígenas a substituir o trigo por derivados da mandioca, como o polvilho, conferindo ao biscoito uma textura mais leve e crocante.

Até hoje, essa receita ganha variações e conquista corações em diferentes cantos do país. O sequilho de fubá preparado pela quilombola Rosaria Costa, do município de Chapada do Norte, mas que reside no município de Berilo, é exemplo vivo dessa tradição: carrega consigo não apenas sabor, mas também amor e história; ingredientes que são, afinal, os mais importantes da nossa região.

E talvez seja justamente isso que torna o sequilho tão especial: mais do que um simples biscoito, ele é memória afetiva, é ponte entre culturas, é símbolo da criatividade que transforma a simplicidade em delicadeza. Cada mordida nos lembra que a cozinha brasileira é feita de encontros, de trocas e de afetos que atravessam gerações.

No fundo, o sequilho é mais do que um biscoito: é uma metáfora da própria cultura brasileira. Simples nos ingredientes, mas sofisticado na memória que carrega, ele traduz a capacidade de transformar o cotidiano em afeto. Cada receita, cada variação, cada mão que amassa a massa é um elo invisível entre passado e presente, entre tradição e reinvenção. Ao provar um sequilho, não saboreamos apenas polvilho e açúcar, degustamos histórias, raízes e o calor humano que dá sentido à mesa mineira e nordestina.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTRUAL - Profissão: Pedreiro entre a tradição e o futuro



O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é conhecido nacionalmente por sua riqueza cultural e pela força do trabalho manual, especialmente na cerâmica e nas artes populares. Mas o papel da construção civil na região também merece destaque. Historicamente, os pedreiros do Jequitinhonha foram responsáveis por erguer casas, igrejas e pequenas obras comunitárias que se tornaram símbolos da resistência e da identidade local. Em cidades como Araçuaí, Diamantina e Itamarandiba, a mão de obra artesanal sempre esteve ligada à realidade socioeconômica da região, marcada por limitações de recursos e pela valorização do saber transmitido de geração em geração.

A crítica que se impõe é que, enquanto a automação avança em grandes centros urbanos, regiões como o Vale do Jequitinhonha ainda dependem fortemente da tradição e da força humana na construção civil. Isso revela uma desigualdade estrutural: de um lado, máquinas capazes de assentar milhares de tijolos por dia; de outro, comunidades que preservam técnicas manuais como parte de sua cultura e sobrevivência. Essa dualidade mostra que o futuro da profissão de pedreiro não pode ser pensado apenas em termos de produtividade e redução de custos, mas também em relação ao impacto social e cultural em territórios onde o trabalho artesanal é parte da identidade coletiva.

O Vale do Jequitinhonha, portanto, simboliza o desafio de equilibrar modernização e tradição. Se por um lado a automação promete eficiência, por outro, ela corre o risco de invisibilizar comunidades que mantêm viva a memória da construção manual. O pedreiro jequitinhonhense não é apenas um trabalhador: é guardião de uma prática que moldou cidades, fortaleceu laços comunitários e deu forma a um patrimônio cultural que não pode ser substituído por algoritmos e braços robóticos.

Assim, incluir o Vale do Jequitinhonha nessa discussão amplia a crítica: o futuro da construção civil precisa considerar não apenas a velocidade das máquinas, mas também o valor humano e cultural que sustenta regiões inteiras. O pedreiro mineiro, seja em Ouro Preto ou no Jequitinhonha, carrega em suas mãos não apenas tijolos, mas a história e a identidade de um povo, por isso fiquei pensando: No futuro, quem construirá sua casa, será um pedreiro ou um robô?

 

Referencias:

Rezende, Maria Beatriz – Patrimônio Arquitetônico de Minas Gerais

Silva, João Batista – Automação na Construção Civil: Robótica e Inteligência Artificial

A evolução dos robôs de alvenaria: mudando as regras da construção tradicional https://www.archdaily.com.br/br/928479/a-evolucao-dos-robos-de-alvenaria-mudando-as-regras-da-construcao-tradicional

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Nitheroy: a revista que ajudou a consolidar uma literatura brasileira

 

Quando falamos sobre a história da literatura brasileira, geralmente lembramos de grandes escritores, poemas e romances que marcaram diferentes épocas. No entanto, poucos conhecem uma publicação que desempenhou um papel importante na formação da identidade cultural do país: a revista Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes.

Publicada em Paris, em 1836, a revista surgiu em um momento em que o Brasil ainda buscava consolidar sua identidade após a Independência, proclamada em 1822. Seu objetivo era estimular reflexões sobre literatura, artes, ciência e sociedade, contribuindo para o desenvolvimento intelectual e cultural da jovem nação.

A criação da Nitheroy foi iniciativa de três intelectuais brasileiros que viviam na Europa: Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem. Influenciados pelas ideias que circulavam no continente europeu, eles acreditavam que o Brasil precisava desenvolver uma produção cultural capaz de expressar suas próprias características, sem depender exclusivamente dos modelos estrangeiros.

A revista adotou como lema a frase “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”, demonstrando seu compromisso com a valorização da cultura nacional. Embora tenha tido apenas duas edições, sua importância histórica ultrapassou sua curta existência. Os artigos publicados abordavam temas diversos. Além da literatura e das artes, a revista trazia discussões sobre economia, comércio, ciência e outros assuntos considerados fundamentais para o progresso do país. Essa variedade revela uma característica marcante do período: a crença de que o desenvolvimento de uma nação dependia tanto do crescimento material quanto do fortalecimento da educação, da cultura e do conhecimento.

Entre os textos mais relevantes publicados na Nitheroy está o “Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil”, escrito por Gonçalves de Magalhães. Nesse trabalho, o autor defende a valorização da produção literária nacional e propõe uma reflexão sobre os caminhos que a literatura brasileira deveria seguir. Suas ideias contribuíram para a consolidação do movimento romântico no Brasil, que ganharia força nas décadas seguintes.

Por essa razão, a Nitheroy é frequentemente apontada pelos estudiosos como uma publicação fundamental para a história da literatura brasileira e para o desenvolvimento do Romantismo no país. Mais do que uma simples revista, ela representou um esforço coletivo de pensar o Brasil a partir de sua própria realidade cultural, em um período em que o país buscava afirmar sua identidade também no campo das letras.

Quase duzentos anos após sua publicação, a Nitheroy continua despertando o interesse de pesquisadores e leitores. Sua trajetória demonstra como uma iniciativa de curta duração pode deixar um legado duradouro, influenciando a forma como uma nação compreende sua cultura, sua literatura e sua identidade.

Ao revisitar a história dessa publicação, percebemos que a construção de uma literatura nacional não acontece de forma repentina. Ela é resultado do trabalho de escritores, pensadores e editores que acreditam na força da cultura como elemento de transformação. Nesse sentido, a Nitheroy ocupa um lugar de destaque na memória literária brasileira, não por ter sido a única iniciativa de seu tempo, mas por ter ajudado a consolidar ideias que marcariam profundamente a literatura produzida no Brasil ao longo do século XIX.

Referências

BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836). Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/nitheroyrevista-brasiliense-1836/. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

BIBLIOTECA NACIONAL. Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Lettras e Artes. Acervo Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://acervo.bn.gov.br. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

LOTUFO, Marcelo. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836): A Political Bridge Between Rio de Janeiro, Paris, and Hispanic America. Journal of Lusophone Studies, v. 1, n. 1, 2016.

 

NITHEROY: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836. Acervo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1272. Acesso em: 3 jun. 2026.


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

OPINIÃO DO BLOG - A camisa da seleção brasileira é símbolo de uma nação.


 

Durante décadas, a camisa "amarelinha" da Seleção Brasileira de Futebol transcendeu o esporte para se consolidar como o maior símbolo de identidade e união nacional. Independentemente de classe social, credo ou ideologia, o verde e amarelo representava o orgulho de um povo a cada Copa do Mundo. No entanto, o acirramento da polarização política no Brasil contemporâneo promoveu uma profunda ressignificação desse manto, que deixou de pertencer a todos os cidadãos para se tornar um estandarte de disputas partidárias e ideológicas.

O processo de partidarização da camisa verde e amarela ganhou força expressiva a partir das manifestações de 2014 e consolidou-se nas eleições de 2018 e 2022.  Quando movimentos de direita, adotaram o uniforme como vestimenta oficial em manifestações políticas. Ao transformar a camisa em um símbolo de adesão a um governo ou pauta específica, perdeu-se a neutralidade que a caracterizava. Vestir a "amarelinha" deixou de ser um ato puramente esportivo e passou a ser lido, por grande parte da sociedade, como uma declaração de alinhamento ideológico excludente.

Essa apropriação gerou um racha no comportamento social dos brasileiros, por um lado, muitos passaram a evitar o uso da camisa em espaços públicos por receio de hostilidades, julgamentos ou conflitos. A autocensura tornou-se evidente, esvaziando as ruas de verde e amarelo durante os eventos esportivos. Por outro lado, a camisa azul, uniforme reserva e as camisas de clubes de futebol ganharam protagonismo, sendo utilizadas por aqueles que queriam torcer pela Seleção sem carregar o estigma político atrelado ao uniforme principal. Houve, portanto, uma fragmentação do sentimento de patriotismo.

A polarização política feriu um dos pilares da cultura e da autoestima nacional ao sequestrar o maior símbolo do futebol brasileiro. Para que a camisa da Seleção Brasileira volte a unir o país, é necessário um processo de despolitização, no qual a sociedade civil, os meios de comunicação e as entidades esportivas reafirmem que as cores da bandeira pertencem à pluralidade do povo brasileiro, e não a grupos políticos. Somente assim o verde e amarelo poderá novamente representar a celebração do esporte e a unidade de uma nação.

A camisa da Seleção Brasileira sempre foi e será, historicamente, o maior símbolo de união e identidade do povo brasileiro. Conhecida mundialmente como a "Amarelinha", ela transcende o esporte e se transforma em um verdadeiro manto de orgulho nacional.

A cada Copa do Mundo, o verde e o amarelo tomavam conta das ruas, unindo diferentes classes sociais, crenças e origens em um único sentimento de esperança e celebração. Mais do que vestir atletas, estampar a "amarelinha" sempre foi  celebrar a alegria, a resiliência e a criatividade que caracterizam a alma brasileira, por isso ela precisa voltar a ser um símbolo de união nacional.


Jô Pinto - Itinga/MG

Quilombola, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas 

terça-feira, 9 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda de Izone: O Guia Místico e Protetor dos Garimpos de Padre Paraíso


 

O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é um território onde a dura realidade do garimpo artesanal se entrelaça profundamente com o misticismo e a tradição oral. No município de Padre Paraíso, região rica em pedras preciosas, a escavação não é apenas um ato de trabalho, mas um exercício de fé e sorte. É nesse cenário que ganha força a figura de Izone, um dos mitos mais singulares e reveladores do folclore garimpeiro mineiro.

No imaginário popular do garimpo, Izone é descrito como um homem negro de baixa estatura. A tradição oral o aponta como a alma de um antigo escravizado e garimpeiro, cuja vivência profunda com a terra e com a mineração o dotou de um conhecimento vasto e inacessível aos vivos: ele sabe exatamente onde estão as jazidas de pedras preciosas na região.

Diferente de outras lendas que punem ou geram terror absoluto, a atuação de Izone é marcada por uma ambiguidade protetora. Ele "atenta" os trabalhadores nos túneis e frentes de lavra, aplicando empurrões e causando pequenos sustos. No entanto, longe de ser puramente maléfico, esse incômodo tem um propósito estratégico: fazer com que o garimpeiro abandone um local infrutífero ou perigoso e busque outro lugar para escavar.

A presença de Izone não se limita a afastar os trabalhadores do perigo; ela também sinaliza a abundância. A lenda diz que a entidade se comunica através de simbolismos, deixando pistas visuais na natureza ou nas redondezas da mina. O exemplo mais clássico dessa manifestação é a aparição de uma vaca amarela ou outros sinais insólitos , que servem como um verdadeiro mapa indicando o local exato onde se esconde o cobiçado "bamburro", ou seja, uma descoberta rica e farta de pedras preciosas.

A construção do mito de Izone vai muito além de uma simples história de assombração; ela é um reflexo da história social do Brasil. Ao transformar um homem negro escravizado no grande detentor do saber sobre as riquezas da terra, o garimpeiro do Jequitinhonha reconhece, ainda que de forma mítica, a sabedoria e a ancestralidade negra na formação da própria atividade garimpeira.

Izone atua, portanto, como um guardião das minas e um guia para aqueles que arriscam a sorte na labuta diária. A lenda imortaliza a esperança do trabalhador e valida a crença de que, por trás do árduo trabalho braçal, existe uma força superior profundamente ligada à história e aos sofrimentos do passado que pode, através de sinais e símbolos, conduzir à prosperidade.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base em depoimentos em vídeos e textos da internet. https://www.youtube.com/watch?v=Zql7He5ASpI




 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - ADOBE: Tradição e Inovação


 


O termo “adobe” tem duas origens principais: uma histórica, referindo-se a um material de construção antigo, e outra moderna, ligada à gigante da tecnologia, diferenciando-se pelo artigo “o” ou “a”.

O adobe de construção tem origem árabe, derivado de al-tub, que significa “tijolo” de terra crua, assimilado pelo espanhol e transmitido às Américas. É uma das técnicas construtivas mais antigas do mundo, utilizada desde a Mesopotâmia e o Antigo Egito. Sua produção consiste na mistura de terra e água, à qual se adicionam palhas ou fibras para evitar rachaduras durante a secagem. Os tijolos são moldados em formas retangulares e curados ao ar livre por cerca de 30 dias, dependendo das condições climáticas. Introduzido no Brasil pelos portugueses durante o período colonial, o adobe tornou-se uma solução prática diante da escassez de materiais industrializados, sendo amplamente utilizado em engenhos e cidades rurais. Com a Revolução Industrial, perdeu espaço para o cimento e os tijolos cozidos, considerados mais modernos e duráveis, mas nas últimas décadas voltou a ser valorizado como alternativa sustentável, por seu baixo custo, impacto ambiental reduzido e eficiência energética. Pesquisas recentes apontam para o crescimento do interesse acadêmico e social em sua retomada, além da necessidade de políticas públicas e normas técnicas que consolidem seu uso na construção civil brasileira.

Já a Adobe Inc., fundada em 1982 por John Warnock e Charles Geschke, nasceu em um contexto totalmente diferente, mas igualmente ligado à ideia de construção desta vez, de soluções digitais. Ex-funcionários do Centro de Pesquisa da Xerox, os fundadores perceberam a oportunidade de inovar nos sistemas gráficos e iniciaram a empresa na garagem de Warnock, em Mountain View, Califórnia. O nome foi inspirado no riacho Adobe Creek, que passava atrás da residência de Warnock, e o logotipo estilizado em forma de “A” foi criado por sua esposa, Marva Warnock. O primeiro grande sucesso da empresa foi a linguagem PostScript, licenciada pela Apple em 1985, que revolucionou a editoração eletrônica. A partir daí, a Adobe expandiu seu portfólio com aquisições estratégicas, como a da Macromedia, criadora do Flash, e consolidou-se como líder mundial em softwares criativos. Produtos como Photoshop, Illustrator, Acrobat/PDF, Premiere Pro e InDesign tornaram-se ferramentas indispensáveis para designers, fotógrafos, cineastas e profissionais de comunicação. Com a introdução da Creative Cloud, a empresa transformou o modelo de distribuição de softwares, adotando o sistema de assinatura e ampliando seu alcance global.

Assim, tanto o adobe construtivo quanto a Adobe tecnológica representam formas de edificação: um ergue paredes e comunidades com terra e palha, o outro ergue projetos visuais e digitais com código e design. Ambos são símbolos da engenhosidade humana em épocas distintas, mas unidos pela mesma essência: construir algo duradouro e transformador.




quarta-feira, 3 de junho de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Primeira mulher no comando PMMG, um marco histórico

Coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues - PMMG / Divulgação

 

A ascensão da Coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues. uma mulher negra ao comando máximo da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) não é apenas um evento administrativo; é um ponto de inflexão na trajetória secular de uma das instituições mais tradicionais e respeitadas do Brasil. Com  250 anos de história, a PMMG sempre refletiu as estruturas de poder que, por séculos, reservaram o topo da hierarquia militar exclusivamente a homens brancos. A chegada de uma mulher negra a esse posto rompe esse ciclo, ressignificando o próprio conceito de autoridade e segurança pública no estado.

Historicamente, o imaginário da farda e da liderança militar esteve atrelado a uma masculinidade hegemônica. A PMMG, fundada no período colonial, carregou consigo o peso das tradições brasileiras onde a meritocracia muitas vezes encontrava limites intransponíveis em questões de gênero e raça.

Quando uma mulher negra assume o comando, ela não apenas ocupa uma cadeira de liderança; ela desmonta a lógica de exclusão que, por gerações, manteve mulheres e pessoas negras em posições de subalternidade dentro da força. Este ato torna-se um símbolo de resistência e de modernização da instituição, enviando uma mensagem clara para toda a sociedade mineira e brasileira: a capacidade de comando é desvinculada de fenótipos ou do gênero.

Esse fato tem uma importância histórica, pois nos mostra que a polícia tenta espelhar a diversidade da população que ela protege. O ingresso de mulheres e pessoas negras em postos de comando aproxima a PMMG das realidades vividas nas comunidades, permitindo uma visão mais humanizada e plural sobre o policiamento e a prevenção do crime.

A presença de uma mulher negra no comando força a instituição a olhar para dentro de si mesma. Isso abre caminho para a revisão de protocolos, a valorização da diversidade no quadro de oficiais e o combate mais efetivo ao racismo estrutural e ao machismo, que ainda persistem em ambientes conservadores. Sem dizer que o efeito desse marco é inspirador para milhares de cadetes e policiais que, até então, não viam nos cargos de cúpula um espelho de si mesmos. É a quebra do "teto de vidro" que dizia, silenciosamente, que certos lugares não eram destinados a certas pessoas.

A história de uma instituição de 250 anos não se apaga, mas se expande ao abraçar a pluralidade do Brasil do século XXI. A liderança feminina e negra não invalida o passado, mas o honra ao torná-lo mais democrático e inclusivo. O fato de essa mudança ocorrer em Minas Gerais um estado que é o coração histórico, político e cultural do país, confere a esse acontecimento um peso nacional ainda maior.

Este é, portanto, um momento de transição fundamental. A história da PMMG agora não será mais contada apenas pelas mãos dos homens que a criaram, mas enriquecida pelo olhar, pela vivência e pela estratégia de uma mulher que, por mérito e resiliência, provou que o lugar de comando é onde quer que a competência e a vocação a levem. É um passo definitivo para que a força policial seja um reflexo autêntico da justiça e da igualdade que ela própria busca defender na sociedade.

 

Jô Pinto

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas

GIRO PELO VALE - Itinga de luto pela passagem espiritual do ex-Prefeito Zé de Adélia

 

José Alves Pereira, carinhosamente conhecido como Zé de Adélia, nasceu em 08 de novembro de 1944, na comunidade do Pasmado, município de Itinga. Filho de Jovenita Alves Barbosa e Genaro Alves dos Santos, cursou até a 5ª série do ensino fundamental e, ainda jovem, aprendeu o ofício de marceneiro e carpinteiro, profissões às quais se dedicou paralelamente à lavoura. Em 02 de maio de 1965, casou-se com Maria Adélia Barbosa Pereira, união da qual nasceram oito filhos: Ailton, Silvana, Silmar, Silmaria, Simone, Adimilson, Sidelia e Silvia.

Sua trajetória política iniciou-se em 1976, com a filiação à ARENA, legenda pela qual foi eleito vereador para o mandato de 1977 a 1983. Em 1982, ingressou no PMDB, sendo reeleito para mais um mandato de seis anos. Em 1988, consolidou seu nome na história política local ao ser eleito prefeito para o quatriênio 1989–1992, rompendo a longa hegemonia política das famílias Chaves e Gusmão. Dentre as marcas de sua gestão, destaca-se a criação do Bairro Planalto e a viabilização de casas populares. Em 1991, contudo, teve seu mandato cassado por infração político-administrativa, o que resultou na suspensão de seus direitos políticos por oito anos. Ainda assim, Zé de Adélia nunca abandonou a vida pública, afirmando sempre que a política era parte fundamental de sua existência.

Após um período residindo em Belo Horizonte, retornou à sua terra natal, Itinga, onde permaneceu até sua passagem espiritual. Itinga se despede de um político e ex-prefeito, enquanto eu me despeço de um grande amigo da minha família e do meu padrinho de batismo.

Fica o legado de um homem que, com suas raízes e convicções, contribuiu de forma indelével para a vida política e social do nosso município.


terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Monstro de Itamarandiba


 

Dizem os mais antigos, naqueles tempos em que as histórias não eram lidas em livros, mas sopradas ao pé do ouvido durante as noites de escravatura, que o medo tem morada certa em Itamarandiba. Não é lenda, não é crendice de quem não tem o que fazer; é uma verdade que atravessa gerações e faz o sangue gelar de quem, por descuido ou zombaria, não reza antes de deitar.

Tudo começou com um fazendeiro, homem de posses, mas de pouca fé e língua solta. Certo dia, tomado por um rancor que não cabia no peito, ele desrespeitou o vigário da paróquia local. Em praça pública, aos gritos e desaforos, comparou o padre a uma mula, acusando o homem de Deus de viver apenas da exploração do suor alheio. O que o fazendeiro não sabia é que, ao insultar o vigário, ele insultava o próprio ofício que aquele homem representava.

O vigário, tomado por um pesar amargo, lançou uma praga que atravessou o tempo, Já que tens tanta fome de criticar o que não compreendes, passarás a ter fome do que é profano. Comerás tudo o que encontrar pela frente: calangos, serpentes, o sapo que coaxa no brejo e até a sola de couro do teu próprio sapato. Serás tão gordo que a tua própria barriga será o teu túmulo.

A profecia não tardou a se cumprir. O fazendeiro começou a engordar de um jeito sobrenatural. Ele comia os mantimentos, as frutas do pomar, as hortaliças. Quando a dispensa esvaziou, passou a devorar os animais: bois, cavalos, porcos e até as ervas daninhas. Dizem que, de tão cheio, o homem peidava um cheiro de enxofre que empestava a redondeza.

Ele não parou enquanto não devorou tudo o que havia ao seu redor. Quando, finalmente, o monstro de carne que se tornara, pesando mais de mil quilos e rosnando como cão raivoso, tentou saciar sua fome insaciável com seres humanos, o corpo não aguentou. Caiu morto pelo chão, com o bucho prestes a explodir.

Para enterrar aquele descomunal, foi preciso um esforço sem precedentes. Cortaram toras de braúna para construir um caixão do tamanho de um cômodo, e foi necessário um carro de boi com oito juntas de tração para levar o corpo até a Matriz. Até hoje, quem percorre o chão de Itamarandiba diz que, em certos pontos, as marcas profundas daquela carreta ainda são visíveis, como um sulco de maldição gravado na terra.

O corpo foi enterrado dentro da igreja, na esperança de que o poder das orações o mantivesse em paz. Mas o que se viu depois foi uma sucessão de estranhezas, rachaduras surgiam nas paredes, o cabelo do defunto aparecia misteriosamente nos lugares mais inusitados, e o terror se instalou na comunidade. Anos mais tarde, quando a antiga Matriz foi consumida por um incêndio misterioso, o povo não teve dúvidas, era o Cão, dando o sinal de que o monstro ainda lá habitava.

Dizem que o bicho não morreu de verdade. Ele vive nas frestas, nas rachaduras do assoalho, manifestando-se na forma de formigas e tanajuras que saem debaixo da terra. E quem ousa zombar, quem dorme sem oração, corre o risco de ver a maldição despertar. Pois, como dizem os ancestrais, o monstro tem companhia, nas noites de lua cheia, uma mulher de cinco metros de altura rodeia as ruínas da igreja, à espera de quem se atreva a passar por perto sem a proteção da água benta e de uma reza bem comprida.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base no programa Terra de Minas, exibido pela TV Globo.

 

sábado, 30 de maio de 2026

GIRO PELO VALE - Joaíma e o Vale do Jequitinhonha de Luto, o poeta da Aldeia " Zé Miranda " nos deixou


 

José Carlos Miranda Murta, Zé Miranda, nasceu em Joaíma, vale do Jequitinhonha e desde muito cedo se interessou pelas aulas de português na escola. Em 1984, por intermédio do amigo músico, compositor e poeta Rubens Espíndola fez sua iniciação FESTIVALESCA na cidade de Araçuaí participando do seu 1º FESTIVALE, onde teve a oportunidade de conhecer alguns poetas do Vale, que se tornaram seu espelho na literatura. Daquele ano em diante passou a ser um seguidor e perseguidor do evento e participou de várias oficinas, principalmente as de literatura que o FESTIVALE oferecia....aproveitou e degustou os momentos literários com Rozane Moreira e se embrenhou nos sonhos poéticos de João Evangelista até  Escrever seu 1º livro O VERSO E O INVERSO em 1999...e de lá pra cá já são 06 livros publicados... CASA DE VERSOS, 2002 CAMINHOS DI-versos, 2011 ALDEIA DE VERSOS, 2015 ALDEIA DE VERSOS II ( a saga continua), 2017 e por último TRILOGIA DA ALDEIA em 2019... onde Zé Miranda faz uma miscelânea de “causos” de suas gentes e seus fazeres e afazeres pitorescos da aldeia JOAÍMA. Lugar que ele insiste em alinhavar na lembrança dos seus irmãos e conterrâneos, contando as suas histórias e ou situações do cotidiano de cada um, respeitando sempre a veracidade dos fatos... e não pensa em parar com esse vício bom, no de ano de 2023, foi eleito para a ALVA -Academia de letras do Vale do Jequitinhonha, onde ocupa a cadeira de Nº 36, tendo como patrono o saudoso cantor, compositor e poeta Eustáquio Senna da vizinha cidade de Jequitinhonha, também era Membro do Movimentos dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha.

No Festivale de Pedra Azul no ano de 2002. A  Composição “ Cecilia “ de sua autoria com Rubens Espíndola, ganhou como melhor interprete, interpretada por  Ester Higino.

Vai na Paz meu amigo

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CONHECENDO O JEQUI - Muro de Pedra em Rubelita

Imagens da Internet

 

O Muro de Pedra, localizado no distrito quilombola de Lava Roupa, município de Rubelita/MG, é um marco histórico fundamental do Vale do Jequitinhonha. Esta estrutura não é apenas uma divisória física, mas um monumento à memória e à resiliência das populações escravizadas que, durante o período colonial, foram forçadas a moldar a paisagem da região.

Durante o Brasil Colônia, a ocupação das terras no interior de Minas Gerais estava profundamente ligada à mineração e à exploração agropecuária. Os muros de pedra, construídos manualmente com a técnica de "pedra seca" (sem o uso de argamassa), eram onipresentes nas propriedades coloniais, sua existência respondia a necessidades práticas e estratégicas dos senhores de terra. Em uma época de vastas sesmarias, os muros serviam para marcar territórios, garantir a posse de terras e separar áreas de pastagem de terrenos de cultivo.

A construção dessas estruturas era uma tarefa extenuante imposta às pessoas escravizadas. O trabalho manual de carregar, talhar e sobrepor pedras sob o sol escaldante do Jequitinhonha fazia parte do cotidiano de subjugação, sendo um exemplo da infraestrutura colonial erguida inteiramente pelo esforço braçal negro, mas também além da função agrícola, esses muros facilitavam o controle dos escravizados, dificultando fugas e organizando a circulação dentro das fazendas.

Hoje, o Muro de Pedra em Lava Roupa transcende sua função original de propriedade. Ele é interpretado pelas comunidades locais como um testemunho da força humana. Apesar de terem sido erguidos sob o chicote e a opressão, os muros sobreviveram ao tempo e à tentativa de apagamento histórico.

Preservar essas estruturas é reconhecer a ancestralidade africana na formação do Vale do Jequitinhonha. Elas permanecem como um lembrete físico de que as comunidades atuais são herdeiras de um povo que, mesmo sob as condições mais brutais, deixou marcas na terra, transformando o trabalho forçado em um símbolo de identidade, tradição e resistência cultural que, séculos depois, continua a definir a identidade do povo mineiro

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre e Ciências Humanas



quinta-feira, 28 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Leituras reflexivas sobre a oralidade


 

A dica de leitura reflexiva da semana não é só uma sugestão de texto. É um convite para desacelerar e olhar com mais atenção para algo talvez simples e, ao mesmo tempo, urgente: a forma como um povo mantém viva a sua própria história.

O Vale do Jequitinhonha não entra aqui como cenário. Entra como voz. Como território que fala por meio da palavra dita, do causo contado na porta de casa, da poesia que nasce do cotidiano duro e bonito ao mesmo tempo, dos cantos que atravessam gerações sem precisar de permissão pra existir. É cultura que não depende só do livro pra ser literatura, ela já acontece antes da página. Só que existe um ponto delicado nisso tudo: o que fica só na oralidade corre risco de desaparecer não porque perde valor, mas porque perde registro, e quando isso acontece, não é só uma história que some, mas, é um pedaço inteiro de memória coletiva que deixa de atravessar o tempo. A próxima geração não perde apenas narrativas, perde também o caminho de volta pra entender quem é.

Nesse sentido, como apontam estudos sobre memória coletiva no Vale do Jequitinhonha, os causos e narrativas orais funcionam como espaço de valorização das relações culturais e da memória social (Carvalho; Cambraia; Paes, 2019). Esses relatos operam como um verdadeiro arquivo cultural vivo, registrando modos de vida e saberes que não se separam da comunidade Poletto (2025). A literatura do Vale não é menor, não é periférica, não é “simples”: ela é identidade em estado bruto. A poesia regional e a cultura popular local atuam como forma de resistência simbólica, permitindo que vozes do território sejam inscritas para além dos discursos oficiais (Machado, 2022; Antunes, 2000).

Deste modo, preservar não é um gesto romântico, é uma necessidade histórica. O que não é registrado vai sendo silenciado aos poucos até virar ausência. Por isso, escrever aqui não é só um ato estético; é um ato de permanência. Cada vez que alguém transforma um causo em conto, uma lembrança em texto, uma fala em poesia, está impedindo o esquecimento.

E não se trata apenas de grandes autores ou obras consolidadas. Trata-se de abrir espaço para todos que carregam suas experiências de vida e suas memórias: jovens, professores, trabalhadores, comunidades inteiras. Valorizar essa produção é parar de enxergar o território apenas pelas faltas e começar a reconhecê-lo pela abundância cultural que sempre existiu ali. Entender que um causo contado na cozinha já é literatura. Que uma história lembrada no fim da tarde já é patrimônio. No fim, preservar a literatura do Vale do Jequitinhonha não é guardar o passado como algo parado. É garantir que ele continue em movimento. Que ele siga falando. Que ele não seja interrompido. Porque quando um território perde suas palavras, ele não fica em silêncio. Ele fica incompleto.

 

 

Referências

ANTUNES, C. (2000). Movimentos do Vale: corpo e narrativa. Revista Em Tese, UFMG.

CARVALHO, M. A.; CAMBRAIA, R. P.; PAES, S. R. (2019). Trabalho e natureza nas representações sociais dos contos e causos. Extensão Rural, UFSM. https://periodicos.ufsm.br/extensaorural/article/view/35173

MACHADO, T. (2022). A produção poética do Vale do Jequitinhonha. Revista Synthesis, FAPAM. https://periodicos.fapam.edu.br/index.php/synthesis/article/view/589

POLETTO, C. (2025). Variação linguística em narrativas orais no Vale do Jequitinhonha. Dissertação de Mestrado, UFMG. https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/81951


Por



 

 

 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Literatura Negra: Vozes que Reescrevem a Nossa História


 

A literatura negra não é apenas um gênero literário; é um ato de resistência, um resgate de memórias silenciadas e uma ferramenta fundamental para a construção de uma identidade coletiva. Durante séculos, o cânone literário tradicional foi construído sob uma ótica eurocêntrica, negando a vivência, a subjetividade e a intelectualidade de autores e autoras negros à margem, ou pior, à invisibilidade absoluta.

A invisibilidade de vozes negras no mercado editorial e nas prateleiras das bibliotecas não foi um acidente, mas um projeto de apagamento cultural. Durante muito tempo, a história do Brasil e do mundo foi contada por quem detinha o poder da escrita, ignorando que o povo negro sempre foi protagonista de suas próprias narrativas. Quando autores negros eram publicados, muitas vezes suas obras eram reduzidas a estereótipos ou limitadas a temas de subalternidade, negando-lhes a humanidade e a complexidade que compõem a totalidade da experiência humana.

Felizmente, essa barreira tem sido rompida com vigor, o cenário literário contemporâneo conta com vozes poderosas que não apenas se destacam pela qualidade estética de suas obras, mas por denunciarem as estruturas de poder e celebrarem a ancestralidade.

Nomes como Conceição Evaristo, com sua "escrevivência", transformam o cotidiano em arte política. Bem como Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro, Maria Firmina dos Reis, que é Considerada a primeira romancista negra do Brasil. Cruz e Sousa, Conhecido como "O Cisne Negro", foi o principal poeta do Simbolismo no Brasil, como tantos outros, sem falar em  Machado de Assis, que embora tenha sido alvo de um processo de embranquecimento histórico, é hoje lido sob uma lente que reconhece a profunda crítica social e racial presente em seus escritos. Além deles, autores como Itamar Vieira Junior, Ana Maria Gonçalves e Jeferson Tenório têm trazido à tona questões urgentes sobre o trauma da escravidão, o racismo estrutural e o cotidiano nas periferias, provando que a literatura negra é vital para a compreensão da nossa nação.

Assim com todo país, a invisibilidade da literatura negra no Vale do Jequitinhonha é um fenômeno complexo, enraizado em disparidades históricas, socioeconômicas e em uma tradição que, muitas vezes, não compreende que a oralidade e as artes plásticas são também formas de expressões literárias .

O Vale do Jequitinhonha possui uma das expressões culturais mais vibrantes do Brasil, profundamente ligada a comunidades quilombolas e tradições afro-brasileiras. No entanto, o sistema literário tradicional tende a valorizar apenas o livro impresso e o cânone acadêmico, sem entender que  muitos dos pensamento, da história e da ancestralidade negra do Vale é preservado por meio de cantos, rezas, congadas, folias e contação de histórias. Essa forma de literatura oral é, frequentemente, deslegitimada ou ignorada pelos circuitos literários convencionais, nosso artesanato é uma Narrativa literária, a cerâmica de figurões e bonecas do Vale é uma forma de escrita visual e narrativa, no entanto, essa produção artística é muitas vezes "exotizada" como artesanato folclórico, separando-a da "literatura" e impedindo que o sujeito negro do Vale seja reconhecido como um autor/intelectual com voz própria.

Apesar dessa invisibilidade, há um movimento crescente de visibilização. Projetos de mapeamento das comunidades quilombolas,  tradições e fazedores de cultura têm buscado registrar a história e a memória dessas comunidades. Esse trabalho é um ato político,  ao tirar a história do negro do Vale do "invisível", ele transforma o território em um espaço de produção de saber e não apenas de exploração.

A literatura negra do Vale, portanto, está em processo de transição, e um dos exemplos mais emblemático  é Adão Ventura (1946–2004). Nascido em Santo Antônio do Itambé, no Vale do Jequitinhonha, ele é uma das vozes mais importantes da poesia negra brasileira, e que serviu de inspiração para uma geração, os novos autores e autoras, como: Ana Nice , Herena Barcelos, Claudio Bento,Thaisa Martins, Allef Heberton, Antonio Carmona, Iaurea Marques Amanda Veiga, Herica Silva, Jô Pinto e tantos outros que estão saindo das margens para se afirmar como uma voz necessária para entender a própria formação da identidade brasileira.

Dentro desse movimento de valorização e redescoberta da escrita negra, o projeto “Escrita Negra, descobrindo novos escritores” desenvolvido pelo quilombola, professor, historiador e pesquisador Jô Pinto, vem ocupando um lugar de visibilidade.

O trabalho de Jô Pinto vai além da análise acadêmica; trata-se de um esforço de curadoria e arqueologia literária. Ao mapear, difundir e fomentar a produção de autores e autoras negros, o projeto Escrita Negra atua como um elo entre o passado e o presente, garantindo que novos leitores tenham acesso a uma produção intelectual que foi intencionalmente escondida.

A proposta busca dá voz a autores que, de outra forma, permaneceriam no anonimato, bem como fornece subsídios para que escolas e universidades possam diversificar seus currículos com base em fontes sólidas e histórico-culturais, além do empoderamento ao verem a si mesmos representados na literatura, leitores negros encontram espelhamento, validação e inspiração para suas próprias trajetórias.

A literatura negra é a espinha dorsal que sustenta a verdade sobre quem somos. Ler autores negros é um exercício de ética, de empatia e de justiça histórica. Propostas e ações de valorização da literatura negra são fundamentais para que essa literatura saia dos nichos e ocupe o centro do debate público. Afinal, uma sociedade só pode se considerar verdadeiramente democrática quando todas as suas vozes, especialmente aquelas que foram silenciadas por tanto tempo, têm o direito de escrever a sua própria história.

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas

terça-feira, 26 de maio de 2026

Contos e Crônicas do Jequi - A lenda do Acaba - Mundo


 

Pode-se dizer que foi no Rio Jequitinhonha que se descobriu o diamante. Ao mesmo tempo, foram suas auríferas as quais contribuíram para abarrotar as arcas portuguesas.
Muitas são as serras: Serra do Batuque, Serra do Isidoro, Serra do Portão de Ferro, que ora se aproximando, ora se distanciando da cidade de Diamantina, circundam esse rio e formam seus vales, que tamanha atração exerceram sobre os aventureiros do passado. Mas nenhuma dessas serras garimpeiras têm histórias tão espantosas como a do Acaba-Mundo, no vale do cafundó, distante de Diamantina cerca de vinte quilômetros, na direção do Pico do Itambé.
Nesse local, chamado Poção do Moreira, o Rio Jequitinhonha corre espremido entre rochedos; seu leito é constituído de grandes blocos de pedra a que os garimpeiros dão o nome de emburrado.

Em 1768, João Fernandes de Oliveira, Antônio dos Santos Pinto e Domingos de Bastos Viana tinham arrematado o Quinto Contrato de diamantes e deram início a uma grande garimpagem. Mas o rio era caudaloso e para garimpar-se em seu leito tornou-se necessário secá-lo.Para secar o leito de um rio, os garimpeiros, a exemplo de seus antepassados, usavam três maneiras diferentes: cavavam um canal paralelo ao rio, é o mesmo cercado e as águas passam a correr no leito do canal; quando a natureza arenosa da margem do rio não permite tal providência, constroem os garimpeiros um aterro no sentido longitudinal da correnteza, obrigando o rio a recuar para uma das suas margens, ficando seu antigo leito, pelo menos em dois terços, seco e pronto para ser lavrado; finalmente, quando o rio corre entre os rochedos altos e abruptos, como no caso em questão, a única solução de que dispõem os garimpeiros é a construção de um bicame.

Então, os garimpeiros construíram um enorme bicame de madeira, isto é, um vasto cocho de tábuas que fica suspenso vários metros acima do leito do rio. Assim, as águas encurraladas deixam o álveo e passam a correr pelo citado bicame, permitindo que se lavre e se faça a cateação do cascalho.

Um bicame de mais de cem metros de comprimento por alguns metros de largura, todo construído de madeira, foi levantado naquele trecho da serra. Apoiado em andaime de troncos de madeiras e pedras, a enorme bica erguia-se bem alto sobre o abismo, no fundo do qual, rolavam as águas do Jequitinhonha.

Enquanto alguns escravos se ocupavam em mover as rústicas bombas para enxugar de todo o leito do rio desviado, outros negros em número de duzentos ou mais, assim como garimpeiros assalariados, trabalhavam lá embaixo, tendo sobre as cabeças o Jequitinhonha precariamente canalizado.

Certa vez, uma das juntas do bicame começou a vedar água. O administrador chamou o carapina e ordenou-lhe que subisse na caranguejola a fim de remediar o perigoso vazamento. Segundo se deduz, o artífice estava bêbado. Viu uma cunha solta, ergueu quanto pode o pesado martelo e desferiu o golpe. Mas errou. E foi tal a violência, que todo o bicame arriou fragorosamente sobre o rio seco e cascalhado onde, arcados quase nus, trabalhavam os homens. Conta-se que cerca de vinte negros morreram soterrados ou afogados nessa espantosa catástrofe.

Hoje, decorridos tantos anos, ainda ecoa na imaginação da gente simples da região, o clamor e os lamentos de tantos homens sacrificados nos garimpos do Acaba - Mundo. Ao passarem por aqueles lugares, os trabalhadores das lavras, particularmente os negros, benzem-se e não raro murmuram entre os dentes:  Te esconjuro, Acaba-Mundo!

Quando os trabalhos de garimpo eram difíceis e o diamante demorava a aparecer no fundo da bateia ou das peneiras, a proteção das almas vítimas do Acaba-Mundo era pedida pelos garimpeiros. Na vizinhança da Mata dos Crioulos, que outrora era esconderijo dos negros fugidos das Senzalas, existe uma bela cachoeira do Jequitinhonha Preto.

O som de suas águas, que despencam de uma grande altura a ponto de produzir uma neblina perene, é levado a longas distâncias pelo vento, através dos garimpos. Não raro, em pleno dia, um lavrador de cascalho abandona a sua bateia ou o seu jogo de peneiras e volta correndo para o rancho. É o som da queda d` água que tem o nome de Cachoeira do Encantado. Se lhe perguntam porque fugiu, responde que aquele cantochão nada mais é que o queixume dos negros mortos, há séculos, na tragédia do Acaba-Mundo.  'É o sinal de que seus espíritos estão correndo as lavras. Quem teimar em cavar e lavar o cascalho mesmo que encontre um diamante, e o dando, se encanta e desaparece!'


Conto retirado do sitio -  https://contosdediamantina.webnode.pt/news/a-lenda-do-acaba-mundo/

DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"

  Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade , escrito pelo médico infecto...