quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Itinga: Entre as Águas do Jequitinhonha e do Itinga, as Marcas da sua História



Localizada no coração do Vale do Jequitinhonha, a cidade de Itinga, em Minas Gerais, é um retrato vivo das complexas camadas que formam a identidade brasileira. Com uma trajetória que remonta a quase trezentos anos, o município não é apenas um ponto geográfico, mas um repositório de memórias que transitam entre a opulência comercial, as cicatrizes da escravidão e a resiliência cultural de seu povo.

A colonização de Itinga iniciou-se no século XVIII, impulsionada pela expansão territorial em busca de riquezas minerais e pela navegação fluvial. Banhada pelo Rio Jequitinhonha, a localidade consolidou-se rapidamente como um dos principais entrepostos comerciais da região. O rio, que hoje corre silencioso, já foi a principal "estrada" por onde circulavam mercadorias, notícias e pessoas, conectando o sertão mineiro ao litoral baiano. Esse fluxo constante transformou a vila em um ponto vital para o abastecimento das regiões vizinhas, garantindo-lhe um protagonismo econômico precoce.

No entanto, a prosperidade de Itinga também foi construída sob a égide da escravização. Como em grande parte do Brasil colonial e imperial, a mão de obra negra foi o motor que sustentou as fazendas e o comércio local. Esse período deixou marcas profundas na estrutura social e urbana da cidade, mas também legou uma herança de resistência que se manifesta até hoje nas tradições afro-brasileiras da região, e um dos maiores símbolos de resistência dessa escravização e historia de Escrava Feliciana, uma mulher negra e Santa Popular para o povo de Itinga.

No século final do século XIX e inicio do  XX, Itinga buscou novos horizontes econômicos, destacando-se como um relevante polo industrial têxtil. Além da fabrica de tecidos, o município tinha, fabricas de açúcar mascavo, manteiga, tinta e ferragem, além de ser o maior produtor de suínos da região. presença de fábricas alternou a dinâmica social da cidade. Embora o ciclo industrial tenha sofrido transformações com o tempo, ele permanece na memória coletiva como um símbolo da capacidade de adaptação e do potencial produtivo itinguense.

O reconhecimento da maturidade política de Itinga ocorreu em 1943, quando o município conquistou sua emancipação. Esse marco não foi apenas administrativo; representou a autonomia de um povo que, após séculos de história sob a jurisdição de outros centros, passava a gerir seus próprios destinos.

A cultura de Itinga é, talvez, seu maior patrimônio.  é uma cidade onde a força das águas do Rio Jequitinhonha, do Rio Itinga e a solidez das pedras contam a história de séculos. Seus bens naturais e culturais formam um mosaico que une a ancestralidade indígena e negro a herança colonial e a vida pulsante do Vale do Jequitinhonha.

O Rio Jequitinhonha é o Cordão Umbilical, ele não é apenas uma paisagem; é o monumento natural que define a existência de Itinga. Antigamente, ele era a "rodovia" por onde canoas traziam o sal e levavam o algodão. Hoje, apesar das dores que ele sente continua a ser uma força motriz para nosso povo, resistência.

Itinga tem cachoeiras Naturais e Artificiais, possui quedas d'água encantadoras, como a do Mateus e da fazenda de Dedé, o município conta com "cachoeiras artificiais"  como a Cachoeira de Alarico e a  Barragem no Ribeirão Água Fria,

A Toca dos Índios é algo a parte, um dos bens mais fascinantes da cidade. É um sítio arqueológico em meio às serras que guarda pinturas rupestres e vestígios dos povos originários que habitavam a região muito antes da chegada dos colonizadores. É um portal para o passado pré-colonial de Itinga.

Sua A arquitetura, reflete o seu auge comercial e a sua fé. Entre os principais bens tombados e inventariados, destacam-se: Casarões Históricos: Como o Casarão Soares Teixeira e o Sobrado do Colégio, que exibem a imponência da arquitetura colonial e do início do século XX., Mercado Municipal: O centro da vida social e econômica, onde as cores e sabores do Vale se encontravam em outrora e a Usina Hidrelétrica José Gusmão, umas das primeiras construídas no Vale do Jequitinhonha., possui também um vasto patrimônio Sacro,  particular e da Igreja católica,  um exemplo é a imagem de São Vicente de Paulo, que pertence  a conferência São Vicente, é um dos bens móveis protegidos pela municipalidade.

O bens Imateriais, refletem a alma de Itinga, o patrimônio de Itinga vai além do que se pode tocar. Ele vive nos gestos e na voz do seu povo, como oficio do  fazer artesanal em Barro, como  do mestre Ulisses Mendes mundialmente reconhecido. As peças moldadas à mão são o saber imaterial mais vivo do município, transformando o barro do Jequitinhonha em arte e figuras cotidianas. Assim como as paneleiras dos Campinhos e Pasmadinho. A Memória da Escrava Feliciana, é m registro importante que reconhece a trajetória e a presença negra na formação da cidade. Os Quilombos Jenipapo Pinto e Jenipapo I e II é um certificado de resistência e preservação de tradições afro-brasileiras. Festas Religiosas e da cultura popular: Onde o sagrado e o profano se misturam em celebrações que mantêm vivas as tradições centenárias , Gastronomia: Rica em sabores do cerrado, refletindo a herança  do povo negro, português, tropeiros e indígenas, através da literatura, poetas e escritores expressam em versos e escritos o amor a terra e a região.

 As "Cebolinhas", são um mimo a e olhar,  pequenas flores brancas que brotam após as primeiras chuvas de outubro, são um patrimônio afetivo da cidade, cenário de fotos de gerações de moradores.

Itinga é uma cidade que carrega o peso e a beleza da história. Dos tempos de entreposto comercial às chaminés das fábricas têxteis, de um passado marcado pela escravidão a um presente de resistência cultural, o município se reafirma como um pilar fundamental do Vale do Jequitinhonha. Celebrar Itinga pelos seus 215 anos de fundação oficial, os quase 300 de colonização e os seus 82 anos de emancipação política, é compreender que o progresso de uma região não se mede apenas pela economia, mas pela preservação da memória e da dignidade de seu povo.

Parabéns minha terra amada.

 

Jô Pinto

Quilombola, escritor, poetas, graduado em História e Mestre e Ciências Humanas.

Credito Fotos: Vários, com concessão do uso.

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