Localizada
no coração do Vale do Jequitinhonha, a cidade de Itinga, em Minas Gerais, é um
retrato vivo das complexas camadas que formam a identidade brasileira. Com uma
trajetória que remonta a quase trezentos anos, o município não é apenas um
ponto geográfico, mas um repositório de memórias que transitam entre a
opulência comercial, as cicatrizes da escravidão e a resiliência cultural de
seu povo.
A
colonização de Itinga iniciou-se no século XVIII, impulsionada pela expansão
territorial em busca de riquezas minerais e pela navegação fluvial. Banhada
pelo Rio Jequitinhonha, a localidade consolidou-se rapidamente como um dos
principais entrepostos comerciais da região. O rio, que hoje corre silencioso,
já foi a principal "estrada" por onde circulavam mercadorias,
notícias e pessoas, conectando o sertão mineiro ao litoral baiano. Esse fluxo
constante transformou a vila em um ponto vital para o abastecimento das regiões
vizinhas, garantindo-lhe um protagonismo econômico precoce.
No entanto,
a prosperidade de Itinga também foi construída sob a égide da escravização.
Como em grande parte do Brasil colonial e imperial, a mão de obra negra foi o
motor que sustentou as fazendas e o comércio local. Esse período deixou marcas
profundas na estrutura social e urbana da cidade, mas também legou uma herança
de resistência que se manifesta até hoje nas tradições afro-brasileiras da
região, e um dos maiores símbolos de resistência dessa escravização e historia
de Escrava Feliciana, uma mulher negra e Santa Popular para o povo de Itinga.
No século
final do século XIX e inicio do XX,
Itinga buscou novos horizontes econômicos, destacando-se como um relevante polo
industrial têxtil. Além da fabrica de tecidos, o município tinha, fabricas de açúcar
mascavo, manteiga, tinta e ferragem, além de ser o maior produtor de suínos da
região. presença de fábricas alternou a dinâmica social da cidade. Embora o
ciclo industrial tenha sofrido transformações com o tempo, ele permanece na
memória coletiva como um símbolo da capacidade de adaptação e do potencial
produtivo itinguense.
O
reconhecimento da maturidade política de Itinga ocorreu em 1943, quando o
município conquistou sua emancipação. Esse marco não foi apenas administrativo;
representou a autonomia de um povo que, após séculos de história sob a
jurisdição de outros centros, passava a gerir seus próprios destinos.
A cultura de Itinga é, talvez, seu maior patrimônio. é uma cidade onde a força das águas do Rio
Jequitinhonha, do Rio Itinga e a solidez das pedras contam a história de
séculos. Seus bens naturais e culturais formam um mosaico que une a
ancestralidade indígena e negro a herança colonial e a vida pulsante do Vale do
Jequitinhonha.
O Rio Jequitinhonha é o Cordão Umbilical, ele não é apenas uma paisagem; é o monumento
natural que define a existência de Itinga. Antigamente, ele era a
"rodovia" por onde canoas traziam o sal e levavam o algodão. Hoje, apesar
das dores que ele sente continua a ser uma força motriz para nosso povo, resistência.
Itinga tem
cachoeiras Naturais e Artificiais, possui quedas d'água encantadoras, como a do
Mateus e da fazenda de Dedé, o município conta com "cachoeiras
artificiais" como a Cachoeira de
Alarico e a Barragem no Ribeirão Água
Fria,
A Toca dos
Índios é algo a parte, um dos bens mais fascinantes da cidade. É um sítio
arqueológico em meio às serras que guarda pinturas rupestres e vestígios dos
povos originários que habitavam a região muito antes da chegada dos
colonizadores. É um portal para o passado pré-colonial de Itinga.
Sua A arquitetura, reflete o seu auge comercial e
a sua fé. Entre os principais bens tombados e inventariados, destacam-se: Casarões
Históricos: Como o Casarão Soares Teixeira e o Sobrado do Colégio, que exibem a
imponência da arquitetura colonial e do início do século XX., Mercado
Municipal: O centro da vida social e econômica, onde as cores e sabores do Vale
se encontravam em outrora e a Usina Hidrelétrica José Gusmão, umas das
primeiras construídas no Vale do Jequitinhonha., possui também um vasto patrimônio
Sacro, particular e da Igreja católica, um exemplo é a imagem de São Vicente de Paulo,
que pertence a conferência São Vicente, é
um dos bens móveis protegidos pela municipalidade.
O bens Imateriais, refletem a alma de Itinga, o patrimônio de Itinga vai além do que se
pode tocar. Ele vive nos gestos e na voz do seu povo, como oficio do fazer artesanal em Barro, como do mestre Ulisses Mendes mundialmente
reconhecido. As peças moldadas à mão são o saber imaterial mais vivo do
município, transformando o barro do Jequitinhonha em arte e figuras cotidianas.
Assim como as paneleiras dos Campinhos e Pasmadinho. A Memória da Escrava
Feliciana, é m registro importante que reconhece a trajetória e a presença
negra na formação da cidade. Os Quilombos Jenipapo Pinto e Jenipapo I e II é um
certificado de resistência e preservação de tradições afro-brasileiras. Festas
Religiosas e da cultura popular: Onde o sagrado e o profano se misturam em
celebrações que mantêm vivas as tradições centenárias , Gastronomia: Rica em
sabores do cerrado, refletindo a herança do povo negro, português, tropeiros e indígenas, através da literatura, poetas e escritores
expressam em versos e escritos o amor a terra e a região.
As "Cebolinhas", são um mimo a e
olhar, pequenas flores brancas que
brotam após as primeiras chuvas de outubro, são um patrimônio afetivo da
cidade, cenário de fotos de gerações de moradores.
Itinga é
uma cidade que carrega o peso e a beleza da história. Dos tempos de entreposto
comercial às chaminés das fábricas têxteis, de um passado marcado pela
escravidão a um presente de resistência cultural, o município se reafirma como
um pilar fundamental do Vale do Jequitinhonha. Celebrar Itinga pelos seus 215
anos de fundação oficial, os quase 300 de colonização e os seus 82 anos de emancipação
política, é compreender que o progresso de uma região não se mede apenas pela
economia, mas pela preservação da memória e da dignidade de seu povo.
Parabéns minha terra amada.
Jô Pinto
Quilombola,
escritor, poetas, graduado em História e Mestre e Ciências Humanas.
Credito
Fotos: Vários, com concessão do uso.






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