quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Itinga: Entre as Águas do Jequitinhonha e do Itinga, as Marcas da sua História



Localizada no coração do Vale do Jequitinhonha, a cidade de Itinga, em Minas Gerais, é um retrato vivo das complexas camadas que formam a identidade brasileira. Com uma trajetória que remonta a quase trezentos anos, o município não é apenas um ponto geográfico, mas um repositório de memórias que transitam entre a opulência comercial, as cicatrizes da escravidão e a resiliência cultural de seu povo.

A colonização de Itinga iniciou-se no século XVIII, impulsionada pela expansão territorial em busca de riquezas minerais e pela navegação fluvial. Banhada pelo Rio Jequitinhonha, a localidade consolidou-se rapidamente como um dos principais entrepostos comerciais da região. O rio, que hoje corre silencioso, já foi a principal "estrada" por onde circulavam mercadorias, notícias e pessoas, conectando o sertão mineiro ao litoral baiano. Esse fluxo constante transformou a vila em um ponto vital para o abastecimento das regiões vizinhas, garantindo-lhe um protagonismo econômico precoce.

No entanto, a prosperidade de Itinga também foi construída sob a égide da escravização. Como em grande parte do Brasil colonial e imperial, a mão de obra negra foi o motor que sustentou as fazendas e o comércio local. Esse período deixou marcas profundas na estrutura social e urbana da cidade, mas também legou uma herança de resistência que se manifesta até hoje nas tradições afro-brasileiras da região, e um dos maiores símbolos de resistência dessa escravização e historia de Escrava Feliciana, uma mulher negra e Santa Popular para o povo de Itinga.

No século final do século XIX e inicio do  XX, Itinga buscou novos horizontes econômicos, destacando-se como um relevante polo industrial têxtil. Além da fabrica de tecidos, o município tinha, fabricas de açúcar mascavo, manteiga, tinta e ferragem, além de ser o maior produtor de suínos da região. presença de fábricas alternou a dinâmica social da cidade. Embora o ciclo industrial tenha sofrido transformações com o tempo, ele permanece na memória coletiva como um símbolo da capacidade de adaptação e do potencial produtivo itinguense.

O reconhecimento da maturidade política de Itinga ocorreu em 1943, quando o município conquistou sua emancipação. Esse marco não foi apenas administrativo; representou a autonomia de um povo que, após séculos de história sob a jurisdição de outros centros, passava a gerir seus próprios destinos.

A cultura de Itinga é, talvez, seu maior patrimônio.  é uma cidade onde a força das águas do Rio Jequitinhonha, do Rio Itinga e a solidez das pedras contam a história de séculos. Seus bens naturais e culturais formam um mosaico que une a ancestralidade indígena e negro a herança colonial e a vida pulsante do Vale do Jequitinhonha.

O Rio Jequitinhonha é o Cordão Umbilical, ele não é apenas uma paisagem; é o monumento natural que define a existência de Itinga. Antigamente, ele era a "rodovia" por onde canoas traziam o sal e levavam o algodão. Hoje, apesar das dores que ele sente continua a ser uma força motriz para nosso povo, resistência.

Itinga tem cachoeiras Naturais e Artificiais, possui quedas d'água encantadoras, como a do Mateus e da fazenda de Dedé, o município conta com "cachoeiras artificiais"  como a Cachoeira de Alarico e a  Barragem no Ribeirão Água Fria,

A Toca dos Índios é algo a parte, um dos bens mais fascinantes da cidade. É um sítio arqueológico em meio às serras que guarda pinturas rupestres e vestígios dos povos originários que habitavam a região muito antes da chegada dos colonizadores. É um portal para o passado pré-colonial de Itinga.

Sua A arquitetura, reflete o seu auge comercial e a sua fé. Entre os principais bens tombados e inventariados, destacam-se: Casarões Históricos: Como o Casarão Soares Teixeira e o Sobrado do Colégio, que exibem a imponência da arquitetura colonial e do início do século XX., Mercado Municipal: O centro da vida social e econômica, onde as cores e sabores do Vale se encontravam em outrora e a Usina Hidrelétrica José Gusmão, umas das primeiras construídas no Vale do Jequitinhonha., possui também um vasto patrimônio Sacro,  particular e da Igreja católica,  um exemplo é a imagem de São Vicente de Paulo, que pertence  a conferência São Vicente, é um dos bens móveis protegidos pela municipalidade.

O bens Imateriais, refletem a alma de Itinga, o patrimônio de Itinga vai além do que se pode tocar. Ele vive nos gestos e na voz do seu povo, como oficio do  fazer artesanal em Barro, como  do mestre Ulisses Mendes mundialmente reconhecido. As peças moldadas à mão são o saber imaterial mais vivo do município, transformando o barro do Jequitinhonha em arte e figuras cotidianas. Assim como as paneleiras dos Campinhos e Pasmadinho. A Memória da Escrava Feliciana, é m registro importante que reconhece a trajetória e a presença negra na formação da cidade. Os Quilombos Jenipapo Pinto e Jenipapo I e II é um certificado de resistência e preservação de tradições afro-brasileiras. Festas Religiosas e da cultura popular: Onde o sagrado e o profano se misturam em celebrações que mantêm vivas as tradições centenárias , Gastronomia: Rica em sabores do cerrado, refletindo a herança  do povo negro, português, tropeiros e indígenas, através da literatura, poetas e escritores expressam em versos e escritos o amor a terra e a região.

 As "Cebolinhas", são um mimo a e olhar,  pequenas flores brancas que brotam após as primeiras chuvas de outubro, são um patrimônio afetivo da cidade, cenário de fotos de gerações de moradores.

Itinga é uma cidade que carrega o peso e a beleza da história. Dos tempos de entreposto comercial às chaminés das fábricas têxteis, de um passado marcado pela escravidão a um presente de resistência cultural, o município se reafirma como um pilar fundamental do Vale do Jequitinhonha. Celebrar Itinga pelos seus 215 anos de fundação oficial, os quase 300 de colonização e os seus 82 anos de emancipação política, é compreender que o progresso de uma região não se mede apenas pela economia, mas pela preservação da memória e da dignidade de seu povo.

Parabéns minha terra amada.

 

Jô Pinto

Quilombola, escritor, poetas, graduado em História e Mestre e Ciências Humanas.

Credito Fotos: Vários, com concessão do uso.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Boteco de Zé Ameixa

Imagem gerada por IA


Em Jequitinhonha tem o bar de Zé Ameixa, ponto tradicional dos pinguços de plantão. O bar possui fregueses tradicionais e frequentes como Nicolau Cinzano.

Cinzano já tem sua mesa cativa, chegando sempre no início da noite. Pede sua cerveja e puxa assunto com o primeiro que aparecer.

Num desses dias, ele tomava sua cervejinha quando chega Pereirinha, também velho conhecido no local. Os dois começam a botar a prosa em dia, enquanto Zé Ameixa preparava uma "macaxeira". No meio do papo entram Heitorzinho e Neilton. Foram convidados a sentar e fazer parte do proseado.

Os quatro pareciam ter assunto para uma eternidade. Já tinham bebido uma grade de cerveja e mais um litro de cachaça. A prosa estava tão comprida que deixou Zé Ameixa com sono.

Zé Ameixa já estava acostumado com os quatro, ao ponto de fechar o boteco e deixá-los lá dentro. No outro dia só tinha o trabalho de contar as cervejas, os litros de pinga e anotar nas respectivas contas, pois eles eram de sua confiança.

Para não perder o costume, Zé Ameixa se despediu deles, fechou a porta e foi para casa.

Logo após a saída de Zé Ameixa, Nicolau Cinzano foi até o fundo do boteco pegar mais uma cerveja no congelador. Acabou encontrando os galos de briga de Zé dentro de um poleiro de madeira. Teve então a "brilhante idéia" de improvisar uma rinha no meio do boteco, cada um ficou com um galo, botando os quatro coitados para brigar entre si. Esse frejo varou toda madrugada.

De manhã, Zé Ameixa chega para arrumar o bar para o movimento de sábado, dia de feira. Abriu a porta e começou a ajeitar mesas e cadeiras. Foi olhar como estavam os quatro boêmios. Encontrou-os escornados sobre as mesas, mas levou um grande susto. Viu os seus galos de briga mortos e depenados por todos os lados. Pelo jeito o torneio de Cinzano não teve intervalo para descanso.

A raiva foi tanta que Zé Ameixa não se conformou com tamanha judiação. Tratou de acordar os boêmios com um grito que escutaram na rua. Eles levantaram cambaleando, dando tempo apenas de correr, pedindo ajuda, pois o homem mais parecia uma onça suçuarana.

Nicolau Cinzano e Pereirinha tiveram de vender muita galinha e leitão para cobrir o prejuízo. Boa parte dos salários de Neilton e Heitorzinho foram usados para saldar a brincadeira de mau gosto. Nunca mais ninguém se aventurou brincar de rinha, pois Zé Ameixa não ia deixar barato outra "proeza".

 

Conto extraído do livro “ Deixa que eu conto histórias do Jequitinhonha”, lançado em 2000, de Marco Antônio Pereira Botelho, natural de Belo Horizonte. 


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - Para sempre Teuda Bara

Foto: Bob Sousa


Antes de entrar em cena, é tradição entre profissionais do teatro desejar e agradecer “merda” uns aos outros, costume que remonta ao período Elisabetano (1558–1625), quando o público se deslocava de carruagem para assistir às peças e, quanto mais cavalos presentes  e, portanto, mais dejetos nas ruas, maior era o sucesso da apresentação. O período Elisabetano, marcado pelo reinado da Rainha Elizabeth I, é considerado uma era de ouro de paz, prosperidade econômica e florescimento cultural, com destaque para o auge do Renascimento Inglês, a literatura de Shakespeare, o teatro comercial, a exploração marítima e o fortalecimento do anglicanismo. O teatro, por sua vez, sempre se afirmou como uma das mais reflexivas expressões artísticas, exigindo a presença física dos atores e o diálogo direto com o público, capaz de despertar reações humanas diversas, muitas vezes subversivas e perturbadoras.

No Brasil, a partir da década de 1960, o fazer teatral viveu um ápice criativo, duramente censurado durante a Ditadura Militar. Relatos de peças invadidas pela polícia, agressões e sequestros de atores eram comuns, mas, apesar da perseguição, o teatro assumiu papel fundamental na resistência cultural, comprometendo-se cada vez mais com questões sociais e políticas. Grupos como Teatro de Arena, Teatro Oficina e Opinião tornaram-se símbolos dessa luta contra a repressão.

Foi nesse contexto que se destacou a atriz mineira Teuda Bara, que faleceu em 25 de dezembro de 2025, aos 84 anos. Nascida em Belo Horizonte em 1941, filha de um major do Corpo de Bombeiros que também tocava trombone de vara e de uma enfermeira-cantora, Teuda nunca frequentou cursos formais de teatro. Formou-se em Ciências Sociais (Antropologia) pela UFMG em 1974, mas sua carreira nos palcos começou ainda no início dos anos 1970, quando abandonou os estudos acadêmicos para se dedicar integralmente à arte.

Em 1982, ao lado de Eduardo Moreira, Wanda Fernandes e Antônio Edson, fundou o Grupo Galpão, companhia originária do teatro de rua em Belo Horizonte. Os fundadores se conheceram em oficinas realizadas em Diamantina, durante o Festival de Inverno da UFMG, ministradas pelos alemães Kurt Bildstein e George Froscher, do Teatro Livre de Munique. Dessa experiência nasceu a ideia de criar o grupo, que se tornaria referência nacional e internacional. A trajetória de Teuda Bara foi marcada pela excelência artística, pela inovação e pelo compromisso com a cultura brasileira, inspirando inúmeros coletivos de artes cênicas no Vale do Jequitinhonha e em todo o país.

O teatro de grupo no Brasil se fortaleceu graças à dedicação de artistas como Teuda, cuja atuação incansável foi sempre permeada por humor, amor e respeito aos pares e ao público. Sua presença nos palcos deixou marcas profundas e inesquecíveis.

Assim, em nome das artes cênicas, fica nossa gratidão à estrela que iluminou gerações, porta voz da alegria e da liberdade : “Merda, Teuda Bara!”.


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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

GIRO PELO VALE - Vale do Jequitinhonha de luto, Morre George Abner, um dos fundadores do Jornal Geraes.


 

George Abner de Figueiredo Souza, natural do município de Pedra Azul, no Baixo Jequitinhonha. Agente Cultual, filosofo, fotografo, Jornalista, poeta, revolucionário e um dos quatro que criaram o jornal Geraes ( George Abner,  Aurélio Silby Carlos Albérico Figueiredo e Tadeu Martins)

Mestre em Filosofia (Estética e Filosofia da Arte) pelo Instituto de Filosofia, Artes e Cultura - IFAC da Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP (2015); - Graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1979).Membro fundador do jornal GERAES, jornalista responsável e também fotógrafo. 1977 - Colaborador do jornal VERSUS 1988 ,Membro fundador e jornalista responsável da rádio comunitária livre SANTÊ (Belo Horizonte). 2000-2003 - Coordenador de Comunicação Social da Universidade Federal de Ouro Preto -UFOP e diretor da rádio UFOP. Dez/2003 a Abr/2005 

Residente na Nicarágua (Centro América) quando colaborou com a Revolução Popular Sandinista nas seguintes áreas: (Educação de Adultos, Estudos sócio-econômicos como membro de equipe organizado pela OEA e trabalhos de organização política); 1987 . Direção e produção do documentário :Nicarágua a um paso de la victoria; 1987 - Produção da mostra fotográfica Sandino Vive (exposta no Brasil no Palácio das Artes no ano de 1988) 1989 - Direção e produção do documentário -Un corazón rojinegro- realizado em parceria com a cineasta alemã Beate Neuhaus.

com a vitória sandinista, trabalhou no Ministério da Reforma Agrária da Nicarágua. De volta ao Brasil participa do 9º FESTIVALE em Virgem da Lapa em 1988,  onde montou uma exposição e exibiu o documentário “Nicarágua a um paso de la victoria”  onde palestrou e debateu sobre a luta do povo da Nicarágua. faleceu ontem, dia 23, na capital mineira Belo Horizonte, deixa uma história e um legado.

Exposição sobre a revolução em Nicarágua no 9º FESTIVALE 

MEMÓRIAS

George Abner


NAQUELA RUA, CALÇADA ESTREITA

DE CASAS MORTAS, ESBURACADAS

PASSEI A INFANCIA, QUANTA POBREZA

VENCENDO A MORTE QUE NÃO DESCANSA

MEI PAI SORRINDO, INDA ME LEMBRO

CONTAVA ESTÓRIAS PRA CRIANÇADA

MINHA MÃE CANTANDO, ACALENTAVA

AS HORAS TRISTES, QUE ALI CHEGAVAM

 

DOBRAVAM OS SINOS, CHEGA O DOMINGO

DESCIA A RUA, MANHÃ CEDINHO

DE ROUPA NOVA, CANTAVA HINOS

LOUVANDO A DEUS, O MEU DESTINO

COM OS PÉS DESCALÇOS, BEM MOÇO AINDA

PISEI NA VIDA POBRE E SOZINHO

ANDEI POR TERRAS, BRINQUEI FOLIA

VENCI A MORTE RAIANDO O DIA

 

CHEGAVAM AS TARDES, ME ENTREGAVA

VIVENDO AS HORAS DE ALEGRIA

PASSAVA O TEMPO, NÃO PERCEBIA A

NOITE NEGRA MATANDO O DIA

E COM ELA TROUXE, MINHA AGONIA

QUE HOJE CANTO, ENQUANTO É HORA

NOS VERSOS TRISTES, SEM FANTASIA

MEMÓRIAS QUE NÃO VÃO EMBORA

OPINIÃO DO BLOG - A Sociedade doente

Imagem gerada por IA

Vivemos tempos em que a sensação de que a sociedade está adoecida se torna cada vez mais evidente. Os sintomas desse adoecimento se manifestam em diferentes dimensões da vida coletiva, revelando fragilidades profundas em nossa convivência e em nossa capacidade de construir um futuro comum.

Com a polarização política, o diálogo foi substituído pelo confronto, em vez de buscar consensos, grupos se fecham em trincheiras ideológicas, incapazes de ouvir o outro. A política, que deveria ser espaço de construção coletiva, tornou-se palco de hostilidade e divisão.

As notícias falsas e a desinformação corroem a confiança social,  circulam com velocidade, moldando opiniões e decisões sem base na realidade. A verdade, antes um valor fundamental, passa a ser relativizada, enfraquecendo instituições e relações humanas.

O feminicídio, essa forma de violência contra mulheres expõe o machismo estrutural que ainda persiste. Ao mesmo tempo, a banalização da violência, seja nos noticiários ou nas redes sociais, nos torna insensíveis ao sofrimento alheio, como se a dor fosse apenas mais um espetáculo.

Enquanto o racismo, a discriminação racial continua a ferir nossa convivência, perpetuando desigualdades históricas e negando dignidade a milhões de pessoas. O racismo não é apenas um ato isolado, mas uma estrutura que atravessa instituições, práticas sociais e mentalidades.

Vivemos tempos de muito xenofobia, o medo e a rejeição ao estrangeiro e aos moradores das regiões de nosso país,  revelam uma sociedade que se fecha em si mesma. Em vez de acolher a diversidade cultural como riqueza, muitos preferem levantar muros, reforçando preconceitos e exclusões.

Estamos convivendo com as Guerras ideológicas há anos, as disputas de narrativas se transformaram em batalhas permanentes. Ideologias são defendidas como dogmas, e qualquer divergência é tratada como ameaça. Essa guerra simbólica fragmenta ainda mais a sociedade, tornando impossível a construção de pontes de diálogo.

Isso sem falar na intolerância religiosa, a fé, que deveria ser fonte de paz e espiritualidade, muitas vezes é usada como arma de exclusão. A intolerância religiosa alimenta perseguições, preconceitos e violência, negando o direito fundamental de cada indivíduo acreditar ou não acreditar.

Temos negado a ciência como se nunca fez em outros tempos, em plena era do conhecimento, vemos crescer o desprezo por evidências científicas. Vacinas, mudanças climáticas e avanços tecnológicos são questionados por discursos sem fundamento, colocando em risco vidas e o planeta.

Temos uma sociedade que criou uma dependência da internet, a tecnologia, que poderia nos aproximar, muitas vezes nos aprisiona. A hiperconexão gera isolamento, ansiedade e dependência, substituindo relações reais por interações superficiais.

O planeta dá sinais claros de exaustão, florestas queimam, rios secam, espécies desaparecem. Ainda assim, seguimos explorando recursos como se fossem infinitos, ignorando que nossa sobrevivência depende do equilíbrio ecológico.

Por fim a falta de empatia, talvez o sintoma mais grave seja a incapacidade de sentir com o outro. A indiferença diante da dor, da desigualdade e da injustiça revela uma sociedade que perdeu a sensibilidade e a solidariedade.

A doença da sociedade não é inevitável, mas exige tratamento coletivo. Precisamos recuperar o valor da verdade, da ciência, da vida e da natureza. Precisamos reaprender a dialogar, a respeitar e a cuidar uns dos outros. Sem empatia, não há cura possível.

Sou um que também esta doente, mas minha cura depende de você, porque nossa sociedade está doente.

 

Jô Pinto, Véspera de Natal em 24 de dezembro de 2025, na cidade de Itinga, médio Vale do Jequitinhonha/MG.

Na esperança de termos uma sociedade melhor no ano 2026

 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Vaqueiro Mateus

Cachoeira do Mateus - Foto: Jô Pinto

 

Ouvi essa história pela primeira vez, narrada pelo meu, em um dos muitos momentos que ele reunia, eu e minhas irmãs para contar causos.

Uma história passada na comunidade da Água Fria Fábrica, na cidade de Itinga/MG,  há mais de cento e cinquenta anos.

Na comunidade da Água Fria Fábrica, vivia um homem que se tornaria mito. O vaqueiro, figura rústica e folclórica, chamava-se Mateus. De rosto marcado pelo sol e mãos calejadas da lida, era conhecido por sua força bruta, sua rudeza e pela língua afiada que não poupava insultos nem aos homens, nem às feras.

Numa manhã abafada, Mateus conduzia o rebanho pelas colinas pedregosas da Água Fria, o som dos chocalhos ecoava pelo vale, quando de repente um boi se desgarrava da boiada. O animal, de olhar faiscante e movimentos desordenados, parecia tomado por uma fúria inexplicável. O vaqueiro, guardião da ordem, não podia permitir a dispersão. Sem pensar duas vezes, esporeou o cavalo e partiu em disparada atrás do boi rebelde.

O animal corria como se fugisse de forças invisíveis, ignorando os comandos do vaqueiro, Mateus, tomado pelo nervosismo e pela ignorância que lhe era costumeira, soltou um brado que ecoou pelas serras:

- Êta boi desgraçado! Te desconjuro, miserável! Tá com o capeta no couro! Por onde tu for, eu irei atrás, inté mesmo pras profundezas do inferno, boi do demônio!”

A perseguição se tornou uma luta de destino. Homem e animal desciam a serra em fúria, cegos pela disputa, até que o chão lhes faltou, sem perceber o precipício, ambos se lançaram no vazio. As pedras e as águas profundas do poço foram as únicas testemunhas da queda, o boi endiabrado e o vaqueiro de língua solta desapareceram nas profundezas, engolidos pelo silêncio sombrio.

Nunca mais se viu Mateus. Mas o povo da Água Fria guarda a crença de que sua alma não encontrou descanso, dizem que até hoje ele corre atrás do boi nas entranhas do inferno, e que em noites de lua cheia, quando o vento sopra forte pelas matas, é possível ouvir o canto distante do vaqueiro ecoando entre as árvores:

- “Êta boi desgraçado...!”

Assim nasceu a lenda do vaqueiro Mateus, um homem que desafiou o destino e se perdeu nas águas misteriosas da serra, tornando-se parte do imaginário popular do município de Itinga.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

MEMÓRIA CULTURAL - O Calcanhar de Aquiles: Da Mitologia à Medicina

Imagem da Internet

Os tendões de Aquiles são os maiores e mais fortes do corpo humano. São faixas resistentes de tecido fibroso que ligam os músculos da panturrilha ao osso do calcanhar. Quando os músculos da panturrilha se contraem, o tendão de Aquiles puxa o calcanhar, permitindo que fiquemos na ponta dos pés ao caminhar, correr ou saltar.

A expressão “calcanhar de Aquiles” é usada para se referir a um ponto fraco ou vulnerável em uma pessoa, organização ou coisa. Ela deriva da lenda grega de Aquiles, o herói invencível que possuía apenas uma fragilidade: o seu calcanhar.

No vasto universo da mitologia grega, uma das histórias mais célebres é a saga de Aquiles, o guerreiro que enfrentou a batalha de Troia. Apesar de sua força extraordinária, havia um detalhe que mudaria o rumo da história: sua vulnerabilidade no calcanhar.

A mãe de Aquiles, Tétis, era uma ninfa do mar por quem Zeus, rei dos deuses  e Poseidon ,senhor dos mares , se apaixonaram e tentaram conquistar. Segundo uma versão da lenda, Tétis rejeitou ambos, o que enfureceu Zeus, que decretou que ela jamais se casaria. Outra versão afirma que Têmis , deusa dos “bons conselhos” e Prometeu , o titã amigo dos mortais , sabiam que, para manter a ordem no Olimpo, nenhum dos dois deuses deveria desposar Tétis. Isso porque estava profetizado que “a deusa do mar teria um filho mais forte que o pai, capaz de empunhar uma arma superior ao raio e ao tridente invencível”.

Para proteger Aquiles, Tétis mergulhou o filho nas águas mágicas do rio Estige, que separava a Terra do mundo de Hades e concedia invulnerabilidade a quem nele se banhasse. Contudo, ao segurá-lo pelos calcanhares, essa parte do corpo não foi tocada pelas águas e permaneceu desprotegida.

Durante a Guerra de Troia, um inimigo descobriu essa fraqueza e atingiu Aquiles com uma flecha envenenada no calcanhar, causando sua morte. Assim, além de nomear essa estrutura anatômica, Aquiles deu origem a uma expressão que, até hoje, simboliza o ponto de fragilidade na vida ou no caráter de alguém.

 

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

DIÁRIO DE LEITURA - Jornal Geraes: a voz que reinventou o Vale do Jequitinhonha



A dica de leitura da semana traz a história e a memória crítica do território por meio de um dos projetos mais significativos da comunicação popular do Vale do Jequitinhonha: o Jornal Geraes. Criado em 1978, ainda sob os últimos anos da ditadura militar, o periódico nasceu do desejo de jovens estudantes universitários, muitos deles filhos do Vale do Jequitinhonha, de romper com estigmas como “Vale da Miséria”, “bolsão de pobreza” ou “Vale da fome”. Sua proposta era clara: falar do Vale para o Vale, registrando não apenas desigualdades, mas também a força a cultura e as resistências do povo desta região.

Impresso em Belo Horizonte e distribuído inicialmente de forma gratuita, o jornal estruturou-se como projeto independente, sustentado por assinaturas, apoios e ações culturais, como feiras de artesanato e concursos de poesia. O conselho editorial  composto por Aurélio Silby, Carlos Albérico Figueiredo, George Abner e Tadeu Martins, articulava uma rede de correspondentes em cidades como Araçuaí, Almenara, Capelinha, Itaobim e Pedra Azul. Muitos colaboradores atuavam anonimamente, dada a ligação do jornal com setores da imprensa alternativa (como Movimento, Em Tempo e Pasquim) e com movimentos de esquerda da época (PCdoB, Convergência Socialista, MEP).

Mais que um veículo de informação, o Geraes consolidou-se como instrumento cultural, político e comunitário, nas suas páginas reuniam poemas, crônicas, denúncias sociais e fotografias que revelavam o cotidiano, as tensões sociais e a criatividade popular. Essa prática o aproxima do que hoje definimos como jornalismo comunitário: uma comunicação construída desde o território, refletindo suas vozes e modos de vida. A equipe percorria o Vale ouvindo moradores, artesãos, agricultores, jovens e lideranças comunitárias, documentando tanto carências estruturais quanto manifestações culturais que compõem a identidade regional.

Em 1979, essa articulação cultural contribuiu para a realização do I Encontro de Compositores do Vale, em Itaobim, evento que se tornaria o embrião do FESTIVALE, hoje um dos maiores festivais de cultura popular de Minas Gerais. O jornal não apenas retratou a cultura do Vale: ele a ajudou a construir, fortalecendo artistas, promovendo encontros culturais e ampliando a visibilidade da produção regional.

Um dos entendimentos fundamentais que emergiram do grupo foi a percepção de que a cultura popular poderia ser motor de desenvolvimento socioeconômico. Essa ideia, defendida especialmente por Tadeu Martins, poeta, professor e figura central do Geraes, sustentava que o Vale carregava em sua tradição “[...] a ferramenta capaz de alavancar o desenvolvimento econômico e simbólico da região”.

Dessa reflexão surge um dos feitos mais marcantes do jornal: a idealização, em 1980, do primeiro FESTIVALE. Inicialmente concebido como Festival da Canção Popular do Vale do Jequitinhonha, o evento rapidamente ampliou-se para outras expressões culturais, tornando-se o Festival da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha.

Tadeu Martins descreve a concepção do festival por meio das “quatro correntes do desenvolvimento”, que deveriam orientar a transformação do Vale a partir de dentro:

“Quando criei a ideia do Festivale, eu me baseei em quatro elos: conhecer, gostar, defender e divulgar.”

O primeiro passo seria fazer com que o próprio povo do Vale reconhecesse sua riqueza:

“Era preciso que o Vale se conhecesse, sua história, sua geografia, seus mitos, suas lendas, sua cultura, seus produtos.”

A partir desse conhecimento, surgiriam gosto, defesa e, finalmente, divulgação:

“Quando você conhece, passa a gostar. Se gosta, passa a defender. Se defende, passa a divulgar, com a razão e com o coração. E aí você consegue desenvolver.”

Assim, o FESTIVALE não nasceu como iniciativa isolada, mas como desdobramento direto da prática cultural e política do Geraes. O festival fortaleceu artistas, artesãos e compositores, ampliando o alcance da arte do Vale e projetando seus criadores para além das fronteiras regionais.

Ao mesmo tempo, o jornal construiu imagens poéticas e afirmativas do Vale, contribuindo para uma identidade regional compartilhada. Embora essas representações não tenham mudado a estrutura social, elas ajudaram a enfrentar estigmas como “Vale da fome” e abriram espaço para grupos culturais que passaram a ganhar visibilidade como representantes da chamada “cultura de raiz”.

Visualmente, o jornal também operou simbolicamente. Sua capa com o título “Geraes” em forma de madeira e a figura de um trabalhador rural de chapéu, fortalecia vínculos afetivos e territoriais. Como analisa Bezerra (2007), essas representações articulam práticas materiais e imaginárias na construção de territorialidades e pertencimentos.

O Geraes circulou até 1985, deixando pouco mais de vinte edições, hoje raras. Em 2011, ex-colaboradores organizaram o volume “Geraes: A Realidade do Jequitinhonha”, reunindo parte desse acervo histórico. Atualmente, o material pode ser consultado em bibliotecas universitárias e acervos culturais, constituindo fonte valiosa para pesquisas sobre educação, cultura, comunicação, memória e movimentos sociais.

Ler o Geraes hoje é reencontrar vozes que insistiram em existir, criar e resistir. É compreender como jovens do interior produziram jornalismo crítico e criativo na transição democrática, articulando denúncia social, poesia, memória coletiva e afirmação territorial. Mais que documento do passado, o jornal permanece como símbolo de mobilização, identidade e pertencimento, uma janela histórico-cultural para quem vive, ama ou pesquisa o Vale do Jequitinhonha.


Referências 


AFONSO, Ana Maria. A imprensa alternativa brasileira. São Paulo: Loyola, 1982.

ALBANO, Eny. Palavras em suor maior: duas antologias poéticas do Baixo Jequitinhonha nos anos 80. Montes Claros: Unimontes, 2021.

BEZERRA, Maria de Fátima. Território e Representação: o Vale do Jequitinhonha. Belo Horizonte: UFMG, 2007.

BRAGA, José Luiz. A Imprensa Alternativa no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

RAMALHO, Maria Lúcia. Educação e cultura no Vale do Jequitinhonha: memórias e representações. Belo Horizonte: PUC Minas, 2010.

RAMALHO, Juliana Pereira. Depoimento de Tadeu Martins. Acervo oral, 2005.

SILVA, Tadeu. Viva o Vale do Jequitinhonha! Belo Horizonte: Metro, 2011.

UNIMONTES. Acervo Cultural do Vale do Jequitinhonha. Montes Claros, 2021.

https://www.revistacontemporaneos.com.br/n4/pdf/geraes.pdf


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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Pedie dar-se-vos-a

Imagem gerada por IA



Foi o texto do sermão do velho pároco da aldeia de Moinhos.

Texto áureo que frisou várias vezes.

Terminada a Missa, quatro amigos inseparáveis sen. taram-se num banco, no adro da igreja. Comentavam os ensinamentos do cura. Aparentavam a mesma idade, aproximadamente dez anos.

Pedro conduziu a conversação:

 - Vocês acreditam que a gente ganha o que pede?

João docilmente respondeu:

-Creio piamente; o velho padre é incapaz de mentir

Jair o maior e mais bem trajado, sorriu sarcasticamente e disse:

- Meu pai é rico demais; dá-me tudo o quanto necessito

Francisco propôs pedirem a Deus o que mais desejassem e formulou cheio de fé, seu pedido:

- Desejo viajar, conhecer o mundo todo e viver em altas rodas.

Pedro acrescentou:

 - Senhor Deus, fazei-me um homem rico, fabulosa. mente rico.

João piedosamente levantou as mãos para os céus e disse:

Senhor, eu não sou digno, mas gostaria de ser um padre puro e santo como o da nossa aldeia.

Falou Jair:

Tenho tudo; não preciso pedir.

Despediram-se os garotos com o pacto de se reunirem trinta anos mais tarde, naquele local, à mesma hora

Separaram-se. Lançaram-se à luta. Lugares distantes e diversos.

Trinta anos mais tarde preparava-se a humilde aldeia para receber gente ilustre.

Cumprindo religiosamente o combinado, estavam eles no adro da igreja. Não quatro garotos mas quatro homens, na casa dos quarenta anos.

João o mais respeitável, falou primeiro:

- Sou Arcebispo de grande metrópole; pastor de milhares de almas. Projetou-me o Bom Deus, além das aspirações de tornar-me um modesto pároco..

Francisco elegante e risonho disse:

- Deus atendeu regiamente meu pedido. Conheço o mundo inteiro. Sou intérprete. Falo correntemente oito idiomas. Convivo com príncipes e diplomatas. Estou satisfeito

Pedro limpando os óculos continuou:

Amigos, sou o magnata das madeiras. Já não é fácil precisar o que possuo. Sinto-me feliz e grato a Deus.

Jair não apresentava bom aspecto. Terno torto, barba crescida, sapatos velhos. Cabisbaixo e alcoolizado, disse:

- Depois da morte de meu pai, perdi toda a minha fortuna no jogo. Hoje mendigo pelas ruas. Não nasci para o trabalho.

Entraram os quatro na igreja e fizeram uma prece ao falecido pároco o homem que inspirou a vitória que veio e há de vir, para todos os que creem no maravilhoso texto:

 "PEDI... E DAR-SE-VOS-A".

 

 

Extraído do livro “ Caminhos Estranhos, contos”  /1967 , de Carmelina Murta Glória, natural de Virgem da Lapa.


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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

CONHECENDO O JEQUI - Os Prostíbulos na formação histórica de Itinga/MG


 

A história da formação de Itinga, município do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, é marcada por episódios curiosos que revelam a dinâmica social e cultural da região. Entre os relatos populares, destaca-se a existência de dois prostíbulos que se tornaram parte do imaginário coletivo da cidade nascente.

No final do século XIX, Itinga  tinha o principal porto comercial da região  “seu comercio era muito intenso, pois era um porto estratégico de convergências das tropas do sertão, servindo como ponto de parada para quem vinha do norte para o sul, estas tropas vinham de Montes Claros, da região do São Francisco e Salinas, neste porto paravam estas tropas com produtos do sertão rumo a Bahia, para embarcar nas canoas, pois a navegação naquela época já era muito intensa no rio Jequitinhonha, a posição da vila a margem do rio Jequitinhonha deu lhe durante muitos anos o comando da na navegação do rio e do comercio”. ( PINTO.p 34.)  

De um lado do rio Jequitinhonha, erguia-se a famosa Sete Portas, um prostíbulo que ganhou notoriedade não apenas pelo nome peculiar, mas também pela movimentação constante de canoeiros que ali aportavam em busca de descanso e diversão. Do outro lado, havia outro estabelecimento semelhante, mas que não se tem registro do nome, mas  igualmente dedicado a atrair os viajantes e trabalhadores que dependiam das águas do rio para o transporte de mercadorias e pessoas.

Esses dois espaços disputavam intensamente a preferência dos canoeiros e tropeiros. A rivalidade não se limitava às mulheres que ali trabalhavam, mas também às estratégias de sedução: música, festas improvisadas e até mesmo a oferta de melhores acomodações eram utilizadas como forma de conquistar clientela. O rio, que era a principal via de circulação, tornava-se palco dessa disputa simbólica, pois cada margem representava uma escolha e uma experiência distinta.

A presença desses prostíbulos, longe de ser apenas um detalhe pitoresco, revela aspectos importantes da formação de Itinga. Mostra como o município nasceu em meio ao fluxo de viajantes, ao comércio fluvial e às práticas sociais que se desenvolviam em torno da vida ribeirinha. A disputa entre a Sete Portas e seu concorrente ilustra a vitalidade cultural da região e a maneira como espaços marginais também contribuíram para a identidade local. Fato curioso é que justamente essa disputa que acabou por gerar o nome de um dos locais, o Bairro Porto Alegre tem esse nome, porque diz a oralidade que os canoeiros e tropeiros diziam que as prostitutas do outro lado das  Sete Portas, eram mais alegres..

Assim, a história de Itinga, como de tantas outras cidades de nossa região, não pode ser contada apenas pela oficialidade dos registros administrativos ou pela construção de igrejas e praças. Ela também se compõe das narrativas populares, das rivalidades curiosas e das memórias que, mesmo ligadas a ambientes de boemia, ajudaram a moldar o caráter da cidade e de seu povo.

 

Referência

PINTO. José Claudionor dos Santos. Memórias de Itinga. Centro Cultural Escrava Feliciana. 2009.


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com o poeta Trabion Mendes



Entrevista com o poeta Trabion: o homem que nasceu na roça onde a casa se chama choça

Soll Santos - Quando a gente encontra o poeta Eronilto Mendes Soares, mais conhecido como Trabion Mendes, entende rapidamente que ele não é apenas alguém que escreve versos. Ele vive poesia. Nascido em 22 de janeiro de 1963, em Jacinto, naquele pedacinho de mundo chamado Vale do Jequitinhonha, ele carrega nas palavras o cheiro da mata, o canto da passarada e a memória viva de sua gente. Autor de livros como Contos que Eu Conto (2004), Mágoas de um Lavrador (2008), Meu Caminhar (2011), Aventuras e Amarguras Culturais (2019), Minha Terra Tem Costumes (2025) e o cordel Espelho de Bolso (2013), ele também integra a ANELCA-Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes, desde novembro de 2023, e é membro imortal da Academia de Letras do Brasil/Minas Gerais/Região Metropolitana de Belo Horizonte, ocupando a cadeira nº 64.

Entre uma boa prosa, risadas, causos e lembranças, Trabion conversou com o blog sobre sua trajetória, seu amor pela natureza e a força da poesia no Vale.

Acompanhe.

“Nasci na roça onde casa se chama choça…”

Para começar a conversa, perguntei: “Quem é o poeta Trabion por trás das palavras?”

Ele sorriu antes de responder -aquele sorriso de quem guarda a infância no bolso:

Trabion é esse cara que nasceu lá na roça onde casa se chama choça, onde a passarada faz a festa, saindo da mata pra cantar em pleno voo acorde de uma seresta. Sou um cara que leva a vida contando e cantando as coisas do Jequitinhonha.”

Venho de uma família com muita gente ligada à arte. Alguns sobressaíram, outros não. Em 2001, parei de beber, eu tinha um histórico complicado com o alcoolismo. Para preencher o vazio que ficou no peito, comecei a escrever. Eu dizia que eram minhas ‘besteiras’… depois é que percebi que dava um livro.”

E assim ele já abre a porta de sua poesia.

O dia em que a escrita chegou para preencher um vazio.

“Para preencher o vazio que ficou dentro do peito, comecei a escrever. Eu falava que eram minhas besteiras… depois é que percebi que dava um livro.”

E deu. Vários.

Inspirações que vinham da roça… e do rádio

Trabion recorda que: “Tive muita influência do rádio. Meu pai ouvia muito rádio, minhas irmãs também, e eu lia muitos livrinhos de bolso, aqueles faroestes, na adolescência. Tive influência do poeta e escritor Jota Neves (de Mata Verde) e do Eldwin Mendes da cidade de Rubim.

 E as músicas dos anos 80 também: Fagner, Zé Ramalho, Alceu Valença, Zé Geraldo… músicas que são verdadeiras poesias. Isso me despertou para o mundo da arte.”

A primeira poesia: “Vida que se vive”

Ele começou com frases soltas, mas sua primeira poesia de verdade foi “Vida que se vive”, publicada no primeiro livro, lá em 2004. Ele recita de cor o início:

“Nasci lá na roça onde casa se chama choça, onde a passarada faz a festa…”

É impossível não enxergar a cena.

Ainda na boa prosa, pergunto: O que mudou na escrita?

Quase nada, segundo ele:

“Sempre falei da natureza, da vivência roceira, do dia a dia. Continuo falando. É meu lugar de pertencimento.”

E talvez seja isso que encanta os leitores: ele escreve como quem conversa.

Inspiração: Deus, o Vale, a lua e… a motocicleta

A inspiração não tem hora marcada:

“Às vezes fico dias sem escrever. Às vezes, andando de moto pela estrada, ela vem de uma vez. Aí tenho que parar, abrir a capanga, pegar o papel e escrever. Se não, some.” Por isso sempre carrego papel e caneta na capanga.”

Ele ri ao lembrar que já escreveu poesia no meio de multidão, em quadras de esporte, sentado em praça. Poeta é bicho vivido.

Os cinco livros e um cordel

Quando pergunto quantos livros ele tem, a resposta é cheia de afeto:

“Tenho cinco livros e um cordel. E agora lancei Minha Terra Tem Costumes, que junta muita coisa dos anteriores.”

Para ele, todos são especiais:

“Livro é filho que nasce. Não tem como escolher um só.”

Mas admite: às vezes lê uma poesia antiga e pensa: “Fui eu mesmo que escrevi isso?”

São aquelas que brotam do fundo da alma.”

Poesia: válvula de escape para o mundo

Questiono Trabion sobre a poesia no mundo atual, especialmente entre os jovens e ele é direto:

“É uma válvula de escape. Um jeito de estar em harmonia. E os jovens precisam disso: escrever, exercitar o cérebro, se expressar.”

Da página para a música e para o palco

Trabion revela que algumas de suas poesias já viraram música e que escolas já encenaram seus poemas:

“É gratificante demais.”

O que ele espera do leitor

Ele responde com sensibilidade:

“Espero que se identifique com o que escrevo. Porque escrevo o que eu sinto e também o que muita gente sente e não sabe dizer.” “É o sentimento de muita gente que não consegue se expressar.”

O novo projeto: Minha Terra Tem Costumes

Seu foco atual é o livro recém-lançado:

“É um projeto de dois, três anos. Vou participar de eventos, ir nas escolas, apresentar o livro. É onde estou agora.”

Prolongo a conversa e questiono que conselho ele daria para quem quer começar a escrever

Ele cita a Bíblia:

“Ninguém acende uma vela e põe debaixo da cama.”

E completa:

“Coloque suas ideias no papel. Só assim elas serão vistas.”

“Tudo que fazemos precisa ser mostrado.”

ACADEMIAS E COLETIVOS

O Movimento de poetas e escritores,  aqui do vale do Jequitinhonha que eu participo e sou membro correspondente da ANELCA- Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes, desde novembro de 2023, e também membro imortal da Academia brasileira de Letras do Brasil subseção Minas Gerais e região metropolitana de Belo Horizonte, ocupando a cadeira de nº 64, cujo patrono é Luiz Gonzaga.

A poesia do Vale: em plena ascensão

Quando pergunto como ele vê a poesia do Vale, ele abre um sorriso:

“Cada dia nasce um poeta, uma poeta. Eu vejo a poesia do Vale em ascensão. E gosto de incentivar quem está começando.” Já são 20 anos de carreira.”

E termina deixando uma frase que guarda como lema:

“Caminhar é seguir em frente conquistando cada palmo desse chão do nosso existir.”

E assim termina nossa entrevista com um poeta que transforma o dia a dia em verso, lembrança em encanto e vida simples em literatura.

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CONHECENDO O JEQUI - O centenário Jatobazeiro de Francisco Badaró

Foto: Jô Pinto     Localizado na histórica Praça do Rosário, no cruzamento entre a Travessa do Rosário e a Rua do Meio, o Jatobazeiro é...