quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura, "Mulheres da periferia no ensino superior"


 

A dica de leitura desta semana convida o leitor ( a) a refletirem sobre os desafios enfrentados por mulheres que constroem suas trajetórias acadêmicas no ensino superior a partir de territórios periféricos da Baixada Fluminense. O artigo de Estela Martini Willeman nasce da articulação entre pesquisa acadêmica e experiência docente, trazendo à tona histórias, tensões e vivências que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas no debate sobre educação superior no Brasil. Com base no materialismo histórico, a autora investiga como fatores sociais, econômicos, políticos e territoriais atravessam as escolhas, a permanência e o cotidiano de mulheres em cursos superiores majoritariamente femininos, localizados em Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. A análise se estrutura a partir de três eixos centrais : território, gênero e educação superior, que se entrelaçam na produção das desigualdades vividas pelas estudantes. A pesquisa combina abordagens qualitativas e quantitativas, utilizando questionários, entrevistas semiestruturadas e análise documental, o que permite compreender, para além dos números, as dimensões subjetivas que marcam essas trajetórias.

Ao ouvir as próprias estudantes, o texto revela experiências atravessadas por cansaço, solidão, conflitos internos e sentimentos de não pertencimento, compondo um quadro complexo e profundamente humano da vida universitária em contextos periféricos. Um dos principais aportes do artigo está em evidenciar que o acesso à universidade não elimina, por si só, as desigualdades estruturais. Pelo contrário, muitas mulheres seguem enfrentando violências simbólicas e materiais, naturalizadas ao longo da história da região e reforçadas por discursos meritocráticos que desconsideram as condições reais de vida dessas estudantes. A permanência no ensino superior, nesse contexto, exige um esforço contínuo e, muitas vezes, solitário.

Além de um diagnóstico, a leitura provoca o questionamento sobre o papel das instituições de ensino e das políticas públicas na garantia de condições efetivas de permanência e cuidado. Ao colocar gênero e território no centro da análise, o artigo contribui para ampliar o debate sobre justiça social, educação e emancipação.

É uma leitura especialmente recomendada para educadores(as), estudantes, pesquisadores(as) e todas as pessoas interessadas em compreender como desigualdades históricas impactam o cotidiano universitário, lembrando-nos que, por trás dos dados, existem vidas, histórias e resistências.

Referência

Willeman, E. M. (2024). SOLIDÃO, DIVISÃO SUBJETIVA E CANSAÇO: : trajetórias de mulheres pobres no ensino superior. Periferia, 16(1), e76881. https://doi.org/10.12957/periferia.2024.76881.


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