quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Diário de leitura - Um bate papo sobre o livro "Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa"


 

Entrevista com Wilson Marcos Siqueira Jardim sobre os autores e a Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa/MG

Antes de qualquer coisa, é impossível falar da Coletânea Cidade Literária de Virgem da Lapa sem mencionar o Movimento Poético Alucinação, uma das mais importantes iniciativas culturais recentes do Vale do Jequitinhonha. Idealizado e articulado por Luiz Carlos Prates, poeta e compositor. E abraçado por poetas, educadores, estudantes e artistas locais, o movimento nasce do desejo coletivo de fazer a literatura circular, ocupar ruas, escolas, praças revelando poetas, vozes e narrativas que sempre estiveram aqui, muitas vezes silenciadas, guardadas em gavetas, cadernos ou na memória.

A Coletânea Cidade Literária é a primeira obra virgolapense a reunir poemas e textos que nascem do sentimento mais puro da vivência e da inspiração de cada participante. Autores e autoras expõem a realidade que carregam dentro de si, utilizando palavras moldadas pelos saberes do meio em que vivem, no barro, nas águas dos rios Jequitinhonha e Araçuaí e no Córrego São Domingos. Neste livro, o leitor sente a emoção brotar com a esperança e a certeza de que as palavras em nossas mãos transformam e alimentam horizontes. É uma antologia dos que têm sede. Aqui, a palavra tem alma, tem voz, tem passos. Carrega os encantos da terra e a saudade dos que se foram. Aqui, a poesia é feita de amor. Dos gritos ancestrais e das fissuras da terra, brotam poemas que tecem flores.

É nesse cenário que conversamos com Wilson Marcos Siqueira Jardim (Bola), poeta, articulador cultural, prefaciador da obra e integrante do Movimento Poético Alucinação.

 

A conversa começa com uma pergunta simples, mas essencial.

 

1. Quem é o poeta por trás das palavras que fazem parte desta coletânea? Conte um pouco sobre você.

Sou de Virgem da Lapa, sou do Vale. Saí muito cedo daqui, com 14 anos, para estudar em Belo Horizonte, mas sempre estive presente. Em 1988, estivemos juntos no 8º Festivale, participando da comissão organizadora. Na época, trabalhamos com teatro, mas a literatura sempre esteve presente. Depois disso, foi a última vez que participei ativamente de um momento cultural aqui no Vale. A vida me levou para vários caminhos, inclusive para o mercado financeiro, mas a poesia sempre esteve por perto, as gavetas sempre enchendo. Em 2001, pensei: “agora é a hora de sair o livro”. Esse livro não saiu, acabou servindo de laboratório para o meu livro atual. Em 2001 a gente tentou lançar, registrar inclusive o livro na biblioteca estadual, antigamente era assim né, e o Luiz Carlos Prates fez o prefácio e tudo mais e tomamos outros rumos não lançamos e com isso as gavetas foram enchendo. Sou um poeta apaixonado, inquieto. Não consigo me prender a um tema só. Todas as coisas me incomodam: politicamente, socialmente, emocionalmente. A poesia me toma, ela é maior do que eu.

2. Quando e como surgiu o seu interesse pela escrita? Houve um momento decisivo?

Desde sempre. Venho de uma família muito cultural: minha mãe é musicista, tenho tio musicista e poeta, prima escritora. Desde a adolescência tive interesse pela escrita e sempre soube que iria escrever.

3. Alguém inspirou sua trajetória literária?

Muita gente me inspirou. Posso citar dois grandes nomes da poesia: Thiago de Mello e Cecília Meireles. Mas, curiosamente, quem mais me inspirou foi um tio chamado José Nicodemos, o Nicó. Inclusive há um poema dele no meu livro Meu Coração é um Mosaico Inacabado. Ele foi a grande inspiração para eu escrever.

4. Quais foram seus primeiros textos? Como era sua escrita no começo?

Meus primeiros textos tinham muita influência da contracultura. Na adolescência, eu lia muitos gibis, Maurício de Sousa, mas também um gibi de faroeste chamado Tex, algo assim... Lembro que fiz um gibi na sétima série, dentro da sala de aula. Saí desenhando e escrevendo. Depois, claro, as coisas foram tomando outros rumos.

5. O que mudou da sua escrita inicial para a de hoje?

Sempre fui um poeta muito bucólico, escrevi muito sobre a natureza, as raízes, com romantismo e ufanismo. Gosto muito de escrever sobre amor e relações. O que mudou foi que minha poesia se politizou. Vejo isso como necessário diante do momento que vivemos. Hoje, mais do que nunca, a poesia é forma de expressão e de transformação.

6. Onde você encontra inspiração?

Muito na natureza, no campo, no amor, no romantismo. Mas, com essa poesia mais politizada, também surgiu uma veia urbana e social. No meu livro há muito disso.

7. Esta é sua primeira publicação?

Sim. Meu Coração é um Mosaico Inacabado é minha primeira publicação. Minha trajetória se desviou um pouco da poesia, embora ela sempre estivesse presente. Houve experiências com jograis, teatro, um personagem de palhaço que ainda existe, mesmo inativo. Sempre navegando entre poesia e teatro, de forma natural.

8. Existe algum texto seu, incluindo o que está na coletânea, que seja especial para você? Por quê?

Na coletânea, eu e Luiz Carlos Prates a gente não participou com poemas. Nós participamos, né, Luís, na produção do livro, no apoio, juntamente com a editora Arejo, que não posso deixar de citar, nossa, Neilton, João Evangelista, né, essa turma além de produzir esse livro. Eles nos apoiaram integralmente, né, com esse carinho do poeta do Vale. Eu entrei, inclusive, com a participação na organização. Essa obra, você vai perceber, é uma obra que a ideia foi de Luiz Carlos Prates, o movimento dele, mas a gente entrou junto, né, abraçamos juntos. E tem um movimento Alucinação, né, que a gente tem que falar, né, como que saiu essa coletânea. Então surgiu a ideia, a produção, a dedicação de Luiz Carlos Prates. A gente engajou junto, engajou junto conosco aqui dois poetas ecógnitas de Virgem da Lapa, Sara, Ana Barra. Bom, e aí o movimento foi tomando esse rumo de coletânea, né, que era o que a gente tinha em mente, o que a gente tinha no coração.

 Então, só pra ficar claro, a minha participação foi com o prefácio. E foi maravilhoso escrever esse prefácio, porque lá na coletânea, você vai perceber, você vai ler com certeza, vai perceber que ela ficou tematicamente falando, ela produziu de tudo, né. Nós conseguimos 19 poetas ecógnitos, eles já existiam, lógico.  é Vale com certeza. A gente, quando lançou a mídia sobre a coletânea, eles apareceram entre adolescentes e pessoas adultas, alunos, professores, mulheres, muitas mulheres, aliás a maioria, né. É um livro extremamente diverso, diverso, com vários temas. E é isso aí, nós chegamos na Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa.

9. Como funciona seu processo criativo? Você escreve todos os dias ou prefere esperar a inspiração surgir?

Meu processo criativo, ele é todo da inspiração. Eu não sento pra escrever. Tem aquela coisa, né, do poeta ou de qualquer outro escritor, que as pessoas procuram, “escreve isso pra mim” e tal. E às vezes é um amigo que você fala: “não, bacana”. Então eu já brinquei muito disso também, temos versos aqui e tal.

Mas é inspiração, né. Eu não paro pra escrever. Às vezes eu até perco, porque a inspiração vem e eu não tenho nada em mente, eu não tô concentrado em alguma coisa. Eu falo: “não, depois eu vou lembrar”. Eu não lembro.

 Como diz o outro, sou escravo da poesia. Muito bom.

10. Qual é o papel da poesia e da literatura hoje, especialmente para os jovens?

Pergunta número 10, excelente. Bom, o papel da poesia, né, com relação à juventude atual, eu acho que pra mim são dois papéis básicos, entre muitos, ne.

O primeiro é a informação, né. Acho que é um dever nosso, enquanto escritor, enquanto poeta, prescrito, e vários poetas do Vale têm essa total concepção do que eu tô dizendo, formar essas pessoas, né. Trazer um intelecto mais ligado ao bem, trazer um intelecto mais ligado às nossas raízes, à cultura, ou seja, levar o nosso lado humano ao lado humano mesmo, né. Acho que me fez entender aí.

E pra mim o segundo processo é muito importante, que participa aí dessa questão de sermos mais humanos. E aí é uma questão planetária: a sensibilidade, né. Eu acho que a poesia, ela é fundamental à juventude no quesito sensibilidade, ajudar o jovem a desenvolver a sensibilidade, a atenção para com tudo, né, principalmente nesse momento.

Então, que sejamos mais sensíveis. Eu acho que a poesia, ela é fundamental no estudo aí, principalmente com a juventude.

11. Já pensou em levar seus poemas para outros formatos, como música, teatro ou performances?

Aí, se já pensei em levar os poemas para outros formatos, aí não tem dúvida, com certeza. Aliás, eu vou até fazer uma fofoca maravilhosa, que você deve estar sabendo, inclusive, né, já tá muito tempo, uns três anos. Luiz Carlos quase fez uma parceria com Basti de Matos, de Itaobim, e lançar um CD, uma coisa maravilhosa. Se você não ouviu nada, ou se já ouviu, continue ouvindo. Se não ouviu, procure ouvir, que é uma coisa fantástica.

E é óbvio, eu, se a minha poesia pudesse navegar em todos os universos, muito interessante a nossa poesia, né. Exatamente por isso que ela é de todo mundo. Muito bom.

12. Que mensagem ou sentimento você espera que o leitor leve ao ler seu texto na coletânea?

A mensagem que eu espero que o meu, que esse meu texto leve é exatamente o que eu acabei de fazer na pergunta número 11, né. Eu procurei fazer um prefácio tirando a melhor essência do livro. Eu falei: “não, eu tenho que fazer esse prefácio como se ele fosse uma homenagem”.

Exatamente a todos esses, aos 19 poetas, esses bravos 19 poetas, né. E o prefácio começou assim, diz aqui: “na minha terra tem um poeta para cada habitante”. Eu digo que não. Eu digo que é um poeta para cada poeta. E essa coletânea, ela, eu espero que o meu prefácio mostre pra todas as pessoas que elas são poetas, né, que elas precisam fazer da vida uma poesia. Pra que a gente caminhe melhor... É isso.

13. Participar desta coletânea representa o quê para você como autor e morador de Virgem da Lapa?

Participar da coletânea representa muito pra mim, né. Ou seja, eu tô dentro de um projeto, né, eu tô dentro de uma concepção, né. Vou refazer o caminho.

Ou seja… Luiz Carlos Prates vem e fala: “Bola, agora é hora da coletânea”. Bola é meu apelido, viu, desculpa. “Bola, agora é hora da coletânea, vamos fazer a coletânea”. Eu falo: “vamos junto”.

E aí a gente, né, consegue conduzir e, como é que eu vou dizer,  criar o Movimento Alucinação. Movimento Alucinação engaja de uma maneira fantástica, maravilhosa.

E vem aí o Neilton, e vem João Evangelista, né, a Arejo, que eu não posso deixar de citar. Valéria Fialho, esposa de Luiz Carlos Prates, que eu já ia me esquecendo — isso é misoginia, né, Ave Maria! já esquecendo de Valéria — e não posso esquecer quem fez a capa, uma capa linda...Então, representa muito pra mim participar dessa coletânea. É um marco, né, é um marco. E principalmente em nossas vidas, né, nos nossos corações.

14. Você tem novos projetos literários ou artísticos em andamento? Pode nos contar um pouco?

Tem, tem mais projetos literários, sim. A gaveta tá cheia. Eu vou garimpar essa gaveta e trazer outras coisas. E, se Deus quiser, já, já a gente tá com mais poesia aí.

15. Você faz parte ou já fez parte de algum coletivo, grupo literário ou movimento cultural? Como isso influencia sua escrita?

Pergunta número 15, né, já tá respondida: sim. Hoje a gente participa do movimento literário Alucinação. E, aliás, nessa entrevista eu faço questão que você enfatize o movimento literário Alucinação. Eu sei que a entrevista é comigo, mas, em termos de coletânea, é um coletivo, tá? A ideia nasceu ali, propagou e foi parida por muitos, muitos mesmos.

Então isso tem que ficar claro: desde a precursão de Luiz Carlos Prates até o engajamento de todos esses poetas de Virgem da Lapa. As escolas também, as nossas escolas de ensino médio e do fundamental II, totalmente engajadas nisso. Então, é algo fantástico.

E, completando, isso influencia demais a minha escrita. Agora, como diz o outro, a poesia chegou e disse assim: “vai, segue seu caminho e não olha pra trás”. Ou seja, vamos escrever, vamos escrever porque é preciso. É por aí.

 

16. Como você vê a poesia produzida no Vale do Jequitinhonha hoje? Que características ou forças destacaria?

Você sempre fala com muito respeito da poesia do Vale. Como você enxerga essa produção hoje?

Então, você sabe que eu fico me comparando com os poetas do Vale, né? Mas no ótimo sentido, no melhor sentido possível. Quando eu leio Tadeu Martins, quando conheci agora o poeta Trabion, Elza Soalheiro, Jô Pinto, Herena Barcellos… e Luiz, né — toda vez que eu falar Luiz eu sou suspeito, porque é amigo do peito antes de tudo. E, recentemente, conheci também o Neilton Lima, no lançamento do livro lá em Belo Horizonte.

Eu me comparo porque a minha poesia é muito espalhada, digamos assim. O fato de eu não ter vivido certos movimentos culturais aqui no Vale, de a minha vida ter tomado outros rumos — mesmo sem nunca ter saído daqui — fez com que a minha poesia criasse algumas asas, alguns caminhos diferentes.

Mas a poesia do Vale… ela é vida. E eu vou até estender isso: a literatura do Vale, junto com todos os outros movimentos artísticos — a música, o artesanato, tudo isso — é alma pura.

A poesia do Vale, pra mim, representa exatamente isso: alma. Na verdade, o que sustenta a nossa região é a arte. E todos os poetas vão entender o que eu tô dizendo quando falo em sustentar: sustentar no sentido de vida, de ar, de caminho, de rumo.

Por isso, falar da poesia do Vale é sempre delicado pra mim, porque eu sou suspeito. Eu morro de uma inveja boa, sabe? Ou seja, eu sou muito feliz com a minha poesia, mas eu reconheço que talvez eu não tenha a substância de vivência que muitos deles trazem com tanta maestria.  Mas tá tudo certo. Eu também sou um poeta do Vale, ainda que com uma poesia mais eclética. E isso também faz parte dessa diversidade tão bonita que a gente tem aqui.

 

E emocionou com seu relato e lembranças.

 

17. Que conselho daria para quem deseja começar a escrever, mas ainda sente medo ou insegurança?

Muita gente quer escrever, mas trava por medo ou insegurança. Que conselho você daria para quem está começando?

Essa pergunta é até mais fácil, viu. O conselho que eu daria é: escreva. Escreva porque, antes de qualquer coisa, escrever é um ato de terapia. É pôr pra fora, é falar com a alma, sem se preocupar com o resultado.

Não escreva pensando, num primeiro momento, em lançar um livro ou em “ter um livro”. Escreva. Depois, com o tempo, você vai saber se aquele livro foi gestado ou não. A escrita vem antes de tudo.

E pra escrever, é preciso ler. Ler bastante, ler muito. A leitura alimenta a escrita, e aí a palavra sai naturalmente, sem tanta cobrança, sem tanto medo.

E esse incentivo à escrita aparece também nas ações do movimento, né?

Com certeza. E aproveito pra dizer, Solange, que talvez eu te mande mais material ainda, viu. Ontem mesmo, conversando com o Luiz, falamos sobre como é importante registrar melhor essa questão do Movimento Poético Alucinação, esse grupo que a gente criou aqui em torno da literatura, mais diretamente da poesia, embora o livro também traga contos e algumas crônicas.

 

E faz um parêntese, sobre algo muito importante, logo abaixo.

E, por favor, não deixa de falar também da Geladeiroteca no blog. Isso é muito importante. Você vai receber fotos. As geladeirotecas também são uma ação do Movimento Poético Alucinação aqui em Virgem da Lapa, uma criação do poeta Luiz Carlos Prates, antes mesmo de o movimento existir formalmente.

Geladeiroteca – por Luiz Carlos Prates

O nosso projeto consiste na instalação de geladeiras recheadas de livros em espaços públicos e comunitários, como ruas, hospitais, entidades de assistência social, parques, comunidades rurais e praças das cidades. O principal objetivo é incentivar e divulgar a leitura, além de criar, nas comunidades, uma cultura de cuidado e zelo com o bem coletivo. Pensamos também no meio ambiente, ao evitar que geladeiras sejam descartadas de forma inadequada, como em córregos, rios e outros espaços naturais.

Os livros podem ser retirados e devolvidos 24 horas por dia nas geladeirotecas instaladas nas ruas. Pedimos que os livros retirados sejam devolvidos ou substituídos por outros, mas fazemos reposições constantes para garantir que o projeto continue vivo e acessível.

A comunidade é quem cuida das geladeirotecas, fortalecendo o sentimento de pertencimento e responsabilidade coletiva.

A geladeira, além do simbolismo, tem vantagens práticas: ela resiste às intempéries, possui boa vedação e fecha por si só, protegendo os livros e garantindo sua durabilidade.




 

Por 



 

 

3 comentários:

  1. Entrevista excelente! Diversos e abrangentes assuntos: Coletânea Cidade Literária Virgem da Lapa, Movimento Poético Alucinação, conhecimentos poéticos e culturais de Wilson Marcos, etc... Perguntas criativas e respostas esclarecedoras, informativas e incentivadoras! IRRETOCÁVEL...

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  2. Outro assunto importantíssimo, abordado na entrevista, foi o projeto cultural GELADEIROTECA, em Virgem da Lapa (MG), criado e administrado pelo poeta Luiz Carlos Prates!

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  3. Complementando; o projeto GELADEIROTECA é CULTURAL e SOCIAL.

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