Entrevista com Wilson Marcos
Siqueira Jardim sobre os autores e a Coletânea Cidade Literária – Virgem
da Lapa/MG
Antes
de qualquer coisa, é impossível falar da Coletânea Cidade Literária de Virgem
da Lapa sem mencionar o Movimento Poético Alucinação, uma das mais importantes
iniciativas culturais recentes do Vale do Jequitinhonha. Idealizado e
articulado por Luiz Carlos Prates, poeta e compositor. E abraçado por poetas,
educadores, estudantes e artistas locais, o movimento nasce do desejo coletivo
de fazer a literatura circular, ocupar ruas, escolas, praças revelando poetas,
vozes e narrativas que sempre estiveram aqui, muitas vezes silenciadas,
guardadas em gavetas, cadernos ou na memória.
A Coletânea
Cidade Literária é a primeira obra virgolapense a
reunir poemas e textos que nascem do sentimento mais puro da vivência e da
inspiração de cada participante. Autores e autoras expõem a realidade que
carregam dentro de si, utilizando palavras moldadas pelos saberes do meio em
que vivem, no barro, nas águas dos rios Jequitinhonha e Araçuaí e no Córrego
São Domingos. Neste livro, o leitor sente a emoção brotar com a esperança e a
certeza de que as palavras em nossas mãos transformam e alimentam horizontes. É
uma antologia dos que têm sede. Aqui, a palavra tem alma, tem voz, tem passos.
Carrega os encantos da terra e a saudade dos que se foram. Aqui, a poesia é
feita de amor. Dos gritos ancestrais e das fissuras da terra, brotam poemas que
tecem flores.
É
nesse cenário que conversamos com Wilson Marcos Siqueira Jardim (Bola),
poeta, articulador cultural, prefaciador da obra e integrante do Movimento
Poético Alucinação.
A
conversa começa com uma pergunta simples, mas essencial.
1. Quem é o poeta por trás das palavras que fazem
parte desta coletânea? Conte um pouco sobre você.
Sou de
Virgem da Lapa, sou do Vale. Saí muito cedo daqui, com 14 anos, para estudar em
Belo Horizonte, mas sempre estive presente. Em 1988, estivemos juntos no 8º
Festivale, participando da comissão organizadora. Na época, trabalhamos com
teatro, mas a literatura sempre esteve presente. Depois disso, foi a última vez
que participei ativamente de um momento cultural aqui no Vale. A vida me levou
para vários caminhos, inclusive para o mercado financeiro, mas a poesia sempre
esteve por perto, as gavetas sempre enchendo. Em 2001, pensei: “agora é a hora
de sair o livro”. Esse livro não saiu, acabou servindo de laboratório para o
meu livro atual. Em 2001 a gente tentou lançar, registrar
inclusive o livro na biblioteca estadual, antigamente era assim né, e o Luiz
Carlos Prates fez o prefácio e tudo mais e tomamos outros rumos não lançamos e
com isso as gavetas foram enchendo. Sou um poeta apaixonado,
inquieto. Não consigo me prender a um tema só. Todas as coisas me incomodam:
politicamente, socialmente, emocionalmente. A poesia me toma, ela é maior do
que eu.
2. Quando e como surgiu o seu interesse pela
escrita? Houve um momento decisivo?
Desde
sempre. Venho de uma família muito cultural: minha mãe é musicista, tenho tio
musicista e poeta, prima escritora. Desde a adolescência tive interesse pela
escrita e sempre soube que iria escrever.
3. Alguém
inspirou sua trajetória literária?
Muita
gente me inspirou. Posso citar dois grandes nomes da poesia: Thiago de Mello e
Cecília Meireles. Mas, curiosamente, quem mais me inspirou foi um tio chamado
José Nicodemos, o Nicó. Inclusive há um poema dele no meu livro Meu Coração
é um Mosaico Inacabado. Ele foi a grande inspiração para eu escrever.
4. Quais foram seus primeiros textos? Como era sua
escrita no começo?
Meus
primeiros textos tinham muita influência da contracultura. Na adolescência, eu
lia muitos gibis, Maurício de Sousa, mas também um gibi de faroeste chamado Tex,
algo assim... Lembro que fiz um gibi na sétima série, dentro da sala de
aula. Saí desenhando e escrevendo. Depois, claro, as coisas foram tomando
outros rumos.
5. O que mudou da sua escrita inicial para a de
hoje?
Sempre
fui um poeta muito bucólico, escrevi muito sobre a natureza, as raízes, com
romantismo e ufanismo. Gosto muito de escrever sobre amor e relações. O que
mudou foi que minha poesia se politizou. Vejo isso como necessário diante do
momento que vivemos. Hoje, mais do que nunca, a poesia é forma de expressão e
de transformação.
6. Onde você encontra inspiração?
Muito na
natureza, no campo, no amor, no romantismo. Mas, com essa poesia mais
politizada, também surgiu uma veia urbana e social. No meu livro há muito
disso.
7. Esta é sua primeira publicação?
Sim. Meu Coração é um Mosaico Inacabado é minha primeira publicação. Minha trajetória se desviou um pouco da poesia, embora ela sempre estivesse presente. Houve experiências com jograis, teatro, um personagem de palhaço que ainda existe, mesmo inativo. Sempre navegando entre poesia e teatro, de forma natural.
8. Existe algum texto seu, incluindo o que está na coletânea, que seja especial para você? Por quê?
Na coletânea, eu e
Luiz Carlos Prates a gente não participou com poemas. Nós participamos, né,
Luís, na produção do livro, no apoio, juntamente com a editora Arejo, que não
posso deixar de citar, nossa, Neilton, João Evangelista, né, essa turma além de
produzir esse livro. Eles nos apoiaram integralmente, né, com esse carinho do
poeta do Vale. Eu entrei, inclusive, com a participação na organização. Essa
obra, você vai perceber, é uma obra que a ideia foi de Luiz Carlos Prates, o
movimento dele, mas a gente entrou junto, né, abraçamos juntos. E tem um
movimento Alucinação, né, que a gente tem que falar, né, como que saiu essa
coletânea. Então surgiu a ideia, a produção, a dedicação de Luiz Carlos Prates.
A gente engajou junto, engajou junto conosco aqui dois poetas ecógnitas de
Virgem da Lapa, Sara, Ana Barra. Bom, e aí o movimento foi tomando esse rumo de
coletânea, né, que era o que a gente tinha em mente, o que a gente tinha no
coração.
Então, só pra ficar claro, a minha
participação foi com o prefácio. E foi maravilhoso escrever esse prefácio,
porque lá na coletânea, você vai perceber, você vai ler com certeza, vai
perceber que ela ficou tematicamente falando, ela produziu de tudo, né. Nós
conseguimos 19 poetas ecógnitos, eles já existiam, lógico. é Vale com certeza. A gente, quando lançou a
mídia sobre a coletânea, eles apareceram entre adolescentes e pessoas adultas,
alunos, professores, mulheres, muitas mulheres, aliás a maioria, né. É um livro
extremamente diverso, diverso, com vários temas. E é isso aí, nós chegamos na Coletânea
Cidade Literária – Virgem da Lapa.
9. Como funciona
seu processo criativo? Você escreve todos os dias ou prefere esperar a
inspiração surgir?
Meu processo
criativo, ele é todo da inspiração. Eu não sento pra escrever. Tem aquela
coisa, né, do poeta ou de qualquer outro escritor, que as pessoas procuram,
“escreve isso pra mim” e tal. E às vezes é um amigo que você fala: “não,
bacana”. Então eu já brinquei muito disso também, temos versos aqui e tal.
Mas é inspiração, né.
Eu não paro pra escrever. Às vezes eu até perco, porque a inspiração vem e eu
não tenho nada em mente, eu não tô concentrado em alguma coisa. Eu falo: “não,
depois eu vou lembrar”. Eu não lembro.
Como diz o outro, sou escravo da poesia. Muito
bom.
10. Qual é o
papel da poesia e da literatura hoje, especialmente para os jovens?
Pergunta número 10,
excelente. Bom, o papel da poesia, né, com relação à juventude atual, eu acho
que pra mim são dois papéis básicos, entre muitos, ne.
O primeiro é a
informação, né. Acho que é um dever nosso, enquanto escritor, enquanto poeta,
prescrito, e vários poetas do Vale têm essa total concepção do que eu tô
dizendo, formar essas pessoas, né. Trazer um intelecto mais ligado ao bem,
trazer um intelecto mais ligado às nossas raízes, à cultura, ou seja, levar o
nosso lado humano ao lado humano mesmo, né. Acho que me fez entender aí.
E pra mim o segundo
processo é muito importante, que participa aí dessa questão de sermos mais
humanos. E aí é uma questão planetária: a sensibilidade, né. Eu acho que a
poesia, ela é fundamental à juventude no quesito sensibilidade, ajudar o jovem
a desenvolver a sensibilidade, a atenção para com tudo, né, principalmente
nesse momento.
Então, que sejamos
mais sensíveis. Eu acho que a poesia, ela é fundamental no estudo aí,
principalmente com a juventude.
11. Já pensou
em levar seus poemas para outros formatos, como música, teatro ou performances?
Aí, se já pensei em
levar os poemas para outros formatos, aí não tem dúvida, com certeza. Aliás, eu
vou até fazer uma fofoca maravilhosa, que você deve estar sabendo, inclusive,
né, já tá muito tempo, uns três anos. Luiz Carlos quase fez uma parceria com
Basti de Matos, de Itaobim, e lançar um CD, uma coisa maravilhosa. Se você não
ouviu nada, ou se já ouviu, continue ouvindo. Se não ouviu, procure ouvir, que
é uma coisa fantástica.
E é óbvio, eu, se a
minha poesia pudesse navegar em todos os universos, muito interessante a nossa
poesia, né. Exatamente por isso que ela é de todo mundo. Muito bom.
12. Que
mensagem ou sentimento você espera que o leitor leve ao ler seu texto na
coletânea?
A mensagem que eu
espero que o meu, que esse meu texto leve é exatamente o que eu acabei de fazer
na pergunta número 11, né. Eu procurei fazer um prefácio tirando a melhor
essência do livro. Eu falei: “não, eu tenho que fazer esse prefácio como se ele
fosse uma homenagem”.
Exatamente a todos esses, aos 19 poetas, esses bravos 19 poetas, né. E o prefácio começou assim, diz aqui: “na minha terra tem um poeta para cada habitante”. Eu digo que não. Eu digo que é um poeta para cada poeta. E essa coletânea, ela, eu espero que o meu prefácio mostre pra todas as pessoas que elas são poetas, né, que elas precisam fazer da vida uma poesia. Pra que a gente caminhe melhor... É isso.
13.
Participar desta coletânea representa o quê para você como autor e morador de
Virgem da Lapa?
Participar da
coletânea representa muito pra mim, né. Ou seja, eu tô dentro de um projeto,
né, eu tô dentro de uma concepção, né. Vou refazer o caminho.
Ou seja… Luiz Carlos
Prates vem e fala: “Bola, agora é hora da coletânea”. Bola é meu apelido, viu,
desculpa. “Bola, agora é hora da coletânea, vamos fazer a coletânea”. Eu falo:
“vamos junto”.
E aí a gente, né,
consegue conduzir e, como é que eu vou dizer,
criar o Movimento Alucinação. Movimento Alucinação engaja de uma maneira
fantástica, maravilhosa.
E vem aí o Neilton, e
vem João Evangelista, né, a Arejo, que eu não posso deixar de citar. Valéria
Fialho, esposa de Luiz Carlos Prates, que eu já ia me esquecendo — isso é
misoginia, né, Ave Maria! já esquecendo de Valéria — e não posso esquecer quem
fez a capa, uma capa linda...Então, representa muito pra mim participar dessa
coletânea. É um marco, né, é um marco. E principalmente em nossas vidas, né,
nos nossos corações.
14. Você tem
novos projetos literários ou artísticos em andamento? Pode nos contar um pouco?
Tem, tem mais
projetos literários, sim. A gaveta tá cheia. Eu vou garimpar essa gaveta e
trazer outras coisas. E, se Deus quiser, já, já a gente tá com mais poesia aí.
15. Você faz
parte ou já fez parte de algum coletivo, grupo literário ou movimento cultural?
Como isso influencia sua escrita?
Pergunta número 15,
né, já tá respondida: sim. Hoje a gente participa do movimento literário Alucinação.
E, aliás, nessa entrevista eu faço questão que você enfatize o movimento
literário Alucinação. Eu sei que a entrevista é comigo, mas, em termos de
coletânea, é um coletivo, tá? A ideia nasceu ali, propagou e foi parida por
muitos, muitos mesmos.
Então isso tem que
ficar claro: desde a precursão de Luiz Carlos Prates até o engajamento de todos
esses poetas de Virgem da Lapa. As escolas também, as nossas escolas de ensino
médio e do fundamental II, totalmente engajadas nisso. Então, é algo fantástico.
E, completando, isso
influencia demais a minha escrita. Agora, como diz o outro, a poesia chegou e
disse assim: “vai, segue seu caminho e não olha pra trás”. Ou seja, vamos
escrever, vamos escrever porque é preciso. É por aí.
16. Como você
vê a poesia produzida no Vale do Jequitinhonha hoje? Que características ou
forças destacaria?
— Você sempre
fala com muito respeito da poesia do Vale. Como você enxerga essa produção
hoje?
Então, você sabe que
eu fico me comparando com os poetas do Vale, né? Mas no ótimo sentido, no
melhor sentido possível. Quando eu leio Tadeu Martins, quando conheci agora o
poeta Trabion, Elza Soalheiro, Jô Pinto, Herena Barcellos… e Luiz, né — toda
vez que eu falar Luiz eu sou suspeito, porque é amigo do peito antes de tudo.
E, recentemente, conheci também o Neilton Lima, no lançamento do livro lá em
Belo Horizonte.
Eu me comparo porque
a minha poesia é muito espalhada, digamos assim. O fato de eu não ter vivido
certos movimentos culturais aqui no Vale, de a minha vida ter tomado outros
rumos — mesmo sem nunca ter saído daqui — fez com que a minha poesia criasse
algumas asas, alguns caminhos diferentes.
Mas a poesia do Vale…
ela é vida. E eu vou até estender isso: a literatura do Vale, junto com todos
os outros movimentos artísticos — a música, o artesanato, tudo isso — é alma
pura.
A poesia do Vale, pra
mim, representa exatamente isso: alma. Na
verdade, o que sustenta a nossa região é a arte. E todos os poetas vão entender
o que eu tô dizendo quando falo em sustentar: sustentar no sentido de vida, de
ar, de caminho, de rumo.
Por isso, falar da
poesia do Vale é sempre delicado pra mim, porque eu sou suspeito. Eu morro de
uma inveja boa, sabe? Ou seja, eu sou muito feliz com a minha poesia, mas eu
reconheço que talvez eu não tenha a substância de vivência que muitos deles
trazem com tanta maestria. Mas tá tudo
certo. Eu também sou um poeta do Vale, ainda que com uma poesia mais eclética.
E isso também faz parte dessa diversidade tão bonita que a gente tem aqui.
E emocionou com
seu relato e lembranças.
17. Que
conselho daria para quem deseja começar a escrever, mas ainda sente medo ou
insegurança?
— Muita gente
quer escrever, mas trava por medo ou insegurança. Que conselho você daria para
quem está começando?
Essa pergunta é até
mais fácil, viu. O conselho que eu daria é: escreva. Escreva
porque, antes de qualquer coisa, escrever é um ato de terapia. É pôr pra fora,
é falar com a alma, sem se preocupar com o resultado.
Não escreva pensando,
num primeiro momento, em lançar um livro ou em “ter um livro”. Escreva. Depois,
com o tempo, você vai saber se aquele livro foi gestado ou não. A escrita vem
antes de tudo.
E pra escrever, é
preciso ler. Ler bastante, ler muito. A leitura alimenta a escrita, e aí a
palavra sai naturalmente, sem tanta cobrança, sem tanto medo.
— E esse
incentivo à escrita aparece também nas ações do movimento, né?
Com certeza. E
aproveito pra dizer, Solange, que talvez eu te mande mais material ainda, viu.
Ontem mesmo, conversando com o Luiz, falamos sobre como é importante registrar
melhor essa questão do Movimento Poético Alucinação,
esse grupo que a gente criou aqui em torno da literatura, mais diretamente da
poesia, embora o livro também traga contos e algumas crônicas.
E faz um
parêntese, sobre algo muito importante, logo abaixo.
E, por favor, não
deixa de falar também da Geladeiroteca no blog. Isso é
muito importante. Você vai receber fotos. As geladeirotecas também são uma ação
do Movimento Poético Alucinação aqui em Virgem da Lapa, uma criação do poeta
Luiz Carlos Prates, antes mesmo de o movimento existir formalmente.
Geladeiroteca
– por Luiz Carlos Prates
O nosso projeto
consiste na instalação de geladeiras recheadas de livros
em espaços públicos e comunitários, como ruas, hospitais, entidades de
assistência social, parques, comunidades rurais e praças das cidades. O
principal objetivo é incentivar e divulgar a leitura,
além de criar, nas comunidades, uma cultura de cuidado e zelo com o
bem coletivo. Pensamos também no meio ambiente, ao evitar que
geladeiras sejam descartadas de forma inadequada, como em córregos, rios e
outros espaços naturais.
Os livros podem ser
retirados e devolvidos 24 horas por dia nas
geladeirotecas instaladas nas ruas. Pedimos que os livros retirados sejam
devolvidos ou substituídos por outros, mas fazemos reposições constantes para
garantir que o projeto continue vivo e acessível.
A comunidade
é quem cuida das geladeirotecas, fortalecendo o sentimento de
pertencimento e responsabilidade coletiva.
A geladeira, além do
simbolismo, tem vantagens práticas: ela resiste às intempéries, possui boa
vedação e fecha por si só, protegendo os livros e garantindo sua durabilidade.
Por



Entrevista excelente! Diversos e abrangentes assuntos: Coletânea Cidade Literária Virgem da Lapa, Movimento Poético Alucinação, conhecimentos poéticos e culturais de Wilson Marcos, etc... Perguntas criativas e respostas esclarecedoras, informativas e incentivadoras! IRRETOCÁVEL...
ResponderExcluirOutro assunto importantíssimo, abordado na entrevista, foi o projeto cultural GELADEIROTECA, em Virgem da Lapa (MG), criado e administrado pelo poeta Luiz Carlos Prates!
ResponderExcluirComplementando; o projeto GELADEIROTECA é CULTURAL e SOCIAL.
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