![]() |
| Foto: Internet |
Falar sobre Nilo Peçanha é entrar em
um dos capítulos mais complexos e reveladores da história do Brasil. Ele foi,
de fato, o primeiro (e até agora único) presidente com ascendência negra a
ocupar o cargo de presidente da república, governou o Brasil de 14 de junho de 1909 até 15 de novembro de
1910. Nilo Peçanha é patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil
No entanto, a sua trajetória é
frequentemente usada para discutir o embranquecimento, um fenômeno social e
político que moldou a identidade brasileira.
Nascido em Campos dos Goytacazes (RJ)
em 1867, Nilo Peçanha era de origem humilde. Ele fez carreira no Direito e na
política, chegando à vice-presidência na chapa de Afonso Pena. Com a morte de
Pena, Nilo assumiu o cargo máximo do país.
Seu governo foi marcado por uma visão
progressista para a época, com dois grandes marcos: Criação do Serviço de
Proteção aos Índios (SPI), a : Sob o comando do Marechal Rondon e criação do Ensino
Técnico: Criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, que são as sementes dos
atuais Institutos Federais (IFs).
O termo "embranquecimento"
no Brasil não se refere apenas a uma política de imigração europeia para
"limpar" a genética da população, mas também a um processo social e
histórico de apagamento de traços raciais de figuras ilustres.
Na virada do século XX, ser um homem
de sucesso e poder era incompatível com a imagem de uma pessoa negra ou mulata
( palavra pejorativa, ainda usada nos dias atuais). Por isso, as fotografias
oficiais de Nilo Peçanha eram frequentemente retocadas. Em muitos retratos da
época, sua pele aparece visivelmente mais clara e seus traços fenotípicos
suavizados para se adequarem ao padrão estético da elite branca. ( inclusive
sua foto oficial como presidente foi retocada)
Embora fosse apelidado
pejorativamente por adversários como "o mulato de Campos", a história
oficial, durante décadas, tratou sua cor como um detalhe irrelevante ou
inexistente. Ao "esquecer" sua negritude, o sistema educacional brasileiro
privou gerações de uma referência de liderança negra no topo do poder
executivo.
Havia uma mentalidade na República
Velha de que, se uma pessoa negra ascendia socialmente e se tornava culta e
poderosa, ela deixava de ser vista como negra. O dinheiro e o cargo
"lavavam" a cor. Esse é um pilar do Mito da Democracia Racial: a
ideia de que o Brasil não tem racismo porque "quem quer, chega lá",
ignorando que, para chegar lá, Nilo precisou performar uma identidade branca.
Esse mesmo processo histórico ocorreu
com outros gigantes da nossa cultura, como o escritor Machado de Assis, que por
muito tempo foi retratado como branco em livros didáticos, bem como Maria
Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira que também foi embranquecida
pela história
Reconhecer Nilo Peçanha como um homem
negro não é apenas uma questão de precisão histórica, mas um ato de reparação.
Quando o Estado e a sociedade "embranquecem" seus heróis, eles
reforçam a ideia de que o poder pertence a uma única raça.
Trazer à tona a cor de Nilo Peçanha
ajuda a expor as contradições do Brasil: um país que teve um presidente negro
apenas 21 anos após a abolição da escravatura, mas que fez de tudo para que
ninguém percebesse ou lembrasse disso.
Referencia
CARVALHO. Marcelo A. M.
de . O Presidente Afrodescendente: Nilo Peçanha e a Criação do Sistema Federal
de Escolas de Aprendizes Artífices (1909 a 1930). Telha, 2022
Jô Pinto,
Quilombola, Professor, Historiador
e Mestre e Ciências Humanas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário