quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Nilo Peçanha, o presidente negro do Brasil, embranquecido pela história

Foto: Internet

 

Falar sobre Nilo Peçanha é entrar em um dos capítulos mais complexos e reveladores da história do Brasil. Ele foi, de fato, o primeiro (e até agora único) presidente com ascendência negra a ocupar o cargo de presidente da república, governou o Brasil de  14 de junho de 1909 até 15 de novembro de 1910. Nilo Peçanha é patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil

No entanto, a sua trajetória é frequentemente usada para discutir o embranquecimento, um fenômeno social e político que moldou a identidade brasileira.

Nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) em 1867, Nilo Peçanha era de origem humilde. Ele fez carreira no Direito e na política, chegando à vice-presidência na chapa de Afonso Pena. Com a morte de Pena, Nilo assumiu o cargo máximo do país.

Seu governo foi marcado por uma visão progressista para a época, com dois grandes marcos: Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a : Sob o comando do Marechal Rondon e criação do Ensino Técnico: Criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, que são as sementes dos atuais Institutos Federais (IFs).

O termo "embranquecimento" no Brasil não se refere apenas a uma política de imigração europeia para "limpar" a genética da população, mas também a um processo social e histórico de apagamento de traços raciais de figuras ilustres.

Na virada do século XX, ser um homem de sucesso e poder era incompatível com a imagem de uma pessoa negra ou mulata ( palavra pejorativa, ainda usada nos dias atuais). Por isso, as fotografias oficiais de Nilo Peçanha eram frequentemente retocadas. Em muitos retratos da época, sua pele aparece visivelmente mais clara e seus traços fenotípicos suavizados para se adequarem ao padrão estético da elite branca. ( inclusive sua foto oficial como presidente foi retocada)

Embora fosse apelidado pejorativamente por adversários como "o mulato de Campos", a história oficial, durante décadas, tratou sua cor como um detalhe irrelevante ou inexistente. Ao "esquecer" sua negritude, o sistema educacional brasileiro privou gerações de uma referência de liderança negra no topo do poder executivo.

Havia uma mentalidade na República Velha de que, se uma pessoa negra ascendia socialmente e se tornava culta e poderosa, ela deixava de ser vista como negra. O dinheiro e o cargo "lavavam" a cor. Esse é um pilar do Mito da Democracia Racial: a ideia de que o Brasil não tem racismo porque "quem quer, chega lá", ignorando que, para chegar lá, Nilo precisou performar uma identidade branca.

Esse mesmo processo histórico ocorreu com outros gigantes da nossa cultura, como o escritor Machado de Assis, que por muito tempo foi retratado como branco em livros didáticos, bem como Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira que também foi embranquecida pela história

Reconhecer Nilo Peçanha como um homem negro não é apenas uma questão de precisão histórica, mas um ato de reparação. Quando o Estado e a sociedade "embranquecem" seus heróis, eles reforçam a ideia de que o poder pertence a uma única raça.

Trazer à tona a cor de Nilo Peçanha ajuda a expor as contradições do Brasil: um país que teve um presidente negro apenas 21 anos após a abolição da escravatura, mas que fez de tudo para que ninguém percebesse ou lembrasse disso.

 

Referencia

CARVALHO. Marcelo A. M. de . O Presidente Afrodescendente: Nilo Peçanha e a Criação do Sistema Federal de Escolas de Aprendizes Artífices (1909 a 1930). Telha, 2022

 

Jô Pinto,

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre e Ciências Humanas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OPINIÃO DO BLOG - Nilo Peçanha, o presidente negro do Brasil, embranquecido pela história

Foto: Internet   Falar sobre Nilo Peçanha é entrar em um dos capítulos mais complexos e reveladores da história do Brasil. Ele foi, de fato,...