terça-feira, 6 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Boneca, o sonho da artesã

Imagem internet

 

No chão árido de Santana do Araçuaí, comunidade pertencente ao município de Itinga, o tempo corria devagar, embalado pelo vento seco do sertão mineiro. Ali nasceu Izabel, em 1924, trazendo nos olhos a curiosidade de quem parecia ver o mundo antes mesmo de ele se desenhar.

Desde pequena, os passos da menina seguiam os rastros da mãe, Idalina Maria de Jesus, uma mulher de mãos calejadas que transformava a barro cinzento em potes, panelas e pratos indispensáveis à vida da roça. Izabel olhava em silêncio. Cada gesto da mãe ao apertar o barro era guardado em seu peito como um segredo sagrado.

Mas o ofício tinha dono e o recurso, dono e preço. Na fazenda onde viviam, o barro era ouro raro. O pai precisava marchar até a propriedade vizinha para trazer um punhado daquela terra fértil, que vinha racionada para a louça utilitária. Para a menina Izabel, restava apenas a imaginação. Ela criava suas fantasias colando retalhos de pano em sabugos de milho, dando vida a personagens invisíveis que habitavam seu universo de menina humilde. Ela ouvia falar em bonecas de verdade nas histórias que vagavam pelo vento, mas nunca tinha visto uma.

Foi escondida, no recanto onde os adultos não olhavam, que Izabel ousou tocar na terra proibida. Com dedos ágeis e leves, roubou um pouco de barro guardado e começou a moldar. Não fez panelas. Fez o seu próprio sonho.

Inspirada na forma arredondada de uma moringa, sua imaginação rompeu os limites do utilitário. A primeira imagem que lhe saltou aos olhos da alma foi a de uma mãe com o filho no colo, um retrato vivo do afeto que a impressionava e a acolhia. Depois, os dedos inquietos modelaram noivas de vestidos brancos longos e armados, pura miragem de beleza que ela tanto admirava e que parecia pertencer a um mundo distante.

Quando o sol começava a se deitar e a lenha estalava para acender o grande forno da família, lá vinha a menina coragem, com suas pequenas peças esculpidas às escondidas. A princípio, o sobressalto da mãe. Mas, ao ver a perfeição ingênua daquelas figuras de barro cru, a dureza se desfazia em brasa mansa. Idalina abria espaço no fogo e queimava as bonecas junto com os potes de sempre.

O que começou como um segredo de infância nos sulcos do sertão não coube nas cercas do Jequitinhonha. O barro que assou no forno humilde ganhou o mundo, viajou oceanos, encantou galerias e consagrou Mestra Izabel para a eternidade. Mas, para quem olhava bem de perto, cada boneca de cerâmica ainda guardava a mesma menina de Santana do Araçuaí, colando retalhos de esperança num tempo em que sonhar era o único ofício permitido.


 Crônica criada por Jô Pinto, a partir da história de vida da artesã Izabel Mendes. 

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