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No
chão árido de Santana do Araçuaí, comunidade pertencente ao município de
Itinga, o tempo corria devagar, embalado pelo vento seco do sertão mineiro. Ali
nasceu Izabel, em 1924, trazendo nos olhos a curiosidade de quem parecia ver o
mundo antes mesmo de ele se desenhar.
Desde pequena, os passos da menina seguiam os rastros da
mãe, Idalina Maria de Jesus, uma mulher de mãos calejadas que transformava a barro
cinzento em potes, panelas e pratos indispensáveis à vida da roça. Izabel
olhava em silêncio. Cada gesto da mãe ao apertar o barro era guardado em seu
peito como um segredo sagrado.
Mas o ofício tinha dono e o recurso, dono e preço. Na
fazenda onde viviam, o barro era ouro raro. O pai precisava marchar até a
propriedade vizinha para trazer um punhado daquela terra fértil, que vinha
racionada para a louça utilitária. Para a menina Izabel, restava apenas a
imaginação. Ela criava suas fantasias colando retalhos de pano em sabugos de
milho, dando vida a personagens invisíveis que habitavam seu universo de menina
humilde. Ela ouvia falar em bonecas de verdade nas histórias que vagavam pelo
vento, mas nunca tinha visto uma.
Foi escondida, no recanto onde os adultos não olhavam, que
Izabel ousou tocar na terra proibida. Com dedos ágeis e leves, roubou um pouco
de barro guardado e começou a moldar. Não fez panelas. Fez o seu próprio sonho.
Inspirada na forma arredondada de uma moringa, sua
imaginação rompeu os limites do utilitário. A primeira imagem que lhe saltou
aos olhos da alma foi a de uma mãe com o filho no colo, um retrato vivo do
afeto que a impressionava e a acolhia. Depois, os dedos inquietos modelaram
noivas de vestidos brancos longos e armados, pura miragem de beleza que ela
tanto admirava e que parecia pertencer a um mundo distante.
Quando o sol começava a se deitar e a lenha estalava para
acender o grande forno da família, lá vinha a menina coragem, com suas pequenas
peças esculpidas às escondidas. A princípio, o sobressalto da mãe. Mas, ao ver
a perfeição ingênua daquelas figuras de barro cru, a dureza se desfazia em
brasa mansa. Idalina abria espaço no fogo e queimava as bonecas junto com os
potes de sempre.
O que começou como um segredo de infância nos sulcos do
sertão não coube nas cercas do Jequitinhonha. O barro que assou no forno
humilde ganhou o mundo, viajou oceanos, encantou galerias e consagrou Mestra
Izabel para a eternidade. Mas, para quem olhava bem de perto, cada boneca de
cerâmica ainda guardava a mesma menina de Santana do Araçuaí, colando retalhos
de esperança num tempo em que sonhar era o único ofício permitido.

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