Na vastidão
do sertão, , onde o sol castiga a terra e o horizonte treme de calor, a lenda do
Curisco é uma daquelas histórias que os mais velhos contam ao redor do fogo,
com a voz baixa e o olhar atento às nuvens carregadas. Dizem que, quando o céu
racha num estrondo que faz a alma tremer, é porque um "curisco" caiu.
Ali onde a luz toca o chão, nasce uma pedra, escondida na terra quente,
esperando por quem tenha a curiosidade perigosa de a encontrar.
No encontro
do Rio Jequitinhonha com o Rio Araçuaí, na antiga Barra do Pontal, hoje Itira,
distrito de Araçuaí, numa tarde em que o céu se tingiu de um roxo sinistro, os
irmãos Bento Lia brincavam próximo ao encontro dos rios. Um clarão cegante,
seguido por um trovão que pareceu sacudir as entranhas da terra, marcou o lugar,
curiosos, eles correram, e entre as pedras comuns, algo brilhava com uma cor
cinza-azulado, pesada e estranhamente morna.
— É ela,
Lia! A pedra que caiu do céu! — exclamou Bento.
Eles a
pegaram, embrulharam na ponta da camisa e correram para casa, mal sabiam que,
ao levarem a pedra para dentro, haviam trazido um "convite". Naquela
noite, a casa dos pais não teve sossego, mesmo sem chuva, trovões secos
ressoavam acima do telhado, exatamente sobre o quarto onde a pedra fora
guardada. O ar dentro de casa ficou pesado, com um cheiro de metal, como se um
aparelho elétrico estivesse queimando.
O pai, um
homem de mãos calejadas e sabedor das leis da terra, acordou assustado, ao ver
os filhos pálidos e o brilho fraco que emanava debaixo da cama deles, ele não
precisou perguntar nada.
— Vocês
mexeram com o que não deviam", sussurrou o pai.
— O raio não cai duas vezes no mesmo lugar,
mas ele nunca esquece onde deixou o seu rastro, ele não veio apenas uma vez;
ele está voltando porque a pedra que ele perdeu agora tem um dono.
A mãe,
segurando um terço, completou com o peso da sabedoria ancestral: — Se a pedra
dormir aqui, o raio voltará para buscá-la, e ele não se importa se a casa
estiver no caminho. Temos que devolver o que é do céu ao chão.
Sob a luz de uma lamparina, o pai levou as crianças de
volta ao local exato onde encontraram a pedra, o vento soprava estranho,
uivando entre os galhos secos dos mandacarus. O pai, com respeito e o medo que
se deve ter do sobrenatural, pediu licença ao céu e enterrou a pedra
profundamente, exatamente onde o impacto a colocara.
Ao voltarem
para casa, o silêncio lá fora era absoluto, o ar limpou-se, o cheiro metálico
desapareceu e, pela primeira vez na noite, puderam dormir sem que o céu
ameaçasse desabar sobre o telhado.
Disse o pai
aos filhos um ensinamento, em muitas regiões do Brasil, o " Curisco"
é tratada como um objeto sagrado e perigoso. Uns diz que ela possui o poder de
proteger a casa contra novos raios se enterrada no quintal por alguém que saiba
o ritual, mas, se levada para dentro sem o devido respeito, ela se torna perigos,
pois o raio em fúria na tempestade, vem
busca-lo.
Esse é uma
história contado pelo meu pai João Antenor, no qual adaptei para esse conto.
Por


Nenhum comentário:
Postar um comentário