terça-feira, 30 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda do Curisco


 

Na vastidão do sertão, , onde o sol castiga a terra e o horizonte treme de calor, a lenda do Curisco é uma daquelas histórias que os mais velhos contam ao redor do fogo, com a voz baixa e o olhar atento às nuvens carregadas. Dizem que, quando o céu racha num estrondo que faz a alma tremer, é porque um "curisco" caiu. Ali onde a luz toca o chão, nasce uma pedra, escondida na terra quente, esperando por quem tenha a curiosidade perigosa de a encontrar.

No encontro do Rio Jequitinhonha com o Rio Araçuaí, na antiga Barra do Pontal, hoje Itira, distrito de Araçuaí, numa tarde em que o céu se tingiu de um roxo sinistro, os irmãos Bento Lia brincavam próximo ao encontro dos rios. Um clarão cegante, seguido por um trovão que pareceu sacudir as entranhas da terra, marcou o lugar, curiosos, eles correram, e entre as pedras comuns, algo brilhava com uma cor cinza-azulado, pesada e estranhamente morna.

— É ela, Lia! A pedra que caiu do céu! — exclamou Bento.

Eles a pegaram, embrulharam na ponta da camisa e correram para casa, mal sabiam que, ao levarem a pedra para dentro, haviam trazido um "convite". Naquela noite, a casa dos pais não teve sossego, mesmo sem chuva, trovões secos ressoavam acima do telhado, exatamente sobre o quarto onde a pedra fora guardada. O ar dentro de casa ficou pesado, com um cheiro de metal, como se um aparelho elétrico estivesse queimando.

O pai, um homem de mãos calejadas e sabedor das leis da terra, acordou assustado, ao ver os filhos pálidos e o brilho fraco que emanava debaixo da cama deles, ele não precisou perguntar nada.

— Vocês mexeram com o que não deviam", sussurrou o pai.

 — O raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas ele nunca esquece onde deixou o seu rastro, ele não veio apenas uma vez; ele está voltando porque a pedra que ele perdeu agora tem um dono.

A mãe, segurando um terço, completou com o peso da sabedoria ancestral: — Se a pedra dormir aqui, o raio voltará para buscá-la, e ele não se importa se a casa estiver no caminho. Temos que devolver o que é do céu ao chão.

Sob a luz  de uma lamparina, o pai levou as crianças de volta ao local exato onde encontraram a pedra, o vento soprava estranho, uivando entre os galhos secos dos mandacarus. O pai, com respeito e o medo que se deve ter do sobrenatural, pediu licença ao céu e enterrou a pedra profundamente, exatamente onde o impacto a colocara.

Ao voltarem para casa, o silêncio lá fora era absoluto, o ar limpou-se, o cheiro metálico desapareceu e, pela primeira vez na noite, puderam dormir sem que o céu ameaçasse desabar sobre o telhado.

Disse o pai aos filhos um ensinamento, em muitas regiões do Brasil, o " Curisco" é tratada como um objeto sagrado e perigoso. Uns diz que ela possui o poder de proteger a casa contra novos raios se enterrada no quintal por alguém que saiba o ritual, mas, se levada para dentro sem o devido respeito, ela se torna perigos, pois o raio em  fúria na tempestade, vem busca-lo.

 

Esse é uma história contado pelo meu pai João Antenor, no qual adaptei para esse conto.

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