terça-feira, 28 de abril de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Rio e suas história


Meu Pai João Antenor, tinha um habito bom, gostava de nos contar histórias sentado no batente da porta da cozinha, entre um gole de café e outro, depois de um dia árduo de trabalho, hoje tento colocar suas histórias em textos. E assim um dia ele nos contou essa história.

Nas águas  do Rio Jequitinhonha, onde o sol de Minas parece fundir o ferro das pedras com o azul do céu, vivia Sebastião, um canoeiro de braços que pareciam esculpidos em aroeira. Naquela época, o Vale não era silêncio; era o pulsar de um comércio frenético, de Itinga, partiam e chegavam as canoas carregadas de sal, fumo, rapadura e o algodão que vestia o sertão. O destino? Belmonte, na Bahia, onde o rio se entrega ao mar.

Sebastião não era apenas um transportador; ele era um "leitor de correntezas". Conhecia cada redemoinho e cada segredo das pedras que afloravam como dentes de gigantes no leito do rio.

Certa vez, Sebastião recebeu uma encomenda inusitada de um coronel influente de Itinga. Não eram sacos de café ou barras de ouro, mas uma caixa de madeira de lei, pesada e lacrada com cera vermelha. O coronel lhe deu um o prazo para chegar a Belmonte em doze dias, antes da lua cheia sumir, e para isso lhe prometeu uma quantia em moedas capaz de comprar uma fazenda inteira.

A descida foi um balé perigoso, o Jequitinhonha, em seus tempos de glória, era um monstro vivo. Sebastião enfrentou as corredeiras de Salto da Divisa com a maestria de quem desafia a morte. Ele via a paisagem mudar: a caatinga cinzenta,  ia cedendo lugar ao verde úmido e exuberante das matas, o cheiro da terra seca era substituído pelo bafio de maresia que subia o rio.

Ao chegar em Belmonte, exausto e com as mãos em carne viva, Sebastião procurou o destinatário: um velho marinheiro de olhos turvos que vivia no encontro das águas. Ao entregar a caixa, a curiosidade, que o corroera por centenas de quilômetros, venceu o silêncio.

"Diga-me, patrão, o que carreguei com tanto zelo que vale mais que uma boiada?"

O velho rompeu o lacre, dentro, não havia joias, nem documentos de terra, havia apenas uma enorme pedra de quartzo límpido retirado das lavras em Itinga e um frasco de água colhida na nascente do Jequitinhonha.

O marinheiro sorriu com uma tristeza profunda.

— Meu filho está morrendo aqui na Bahia, longe do chão onde nasceu, o médico disse que não há cura, mas ele pediu um último desejo: sentir o frio da pedra de sua terra e o gosto da água que o banhou na infância. Você não trouxe mercadoria, Sebastião. Você trouxe o pertencimento.

Velho canoeiro engoliu a saliva, abraçou o velho marinheiro, virou e entrou na sua canoa, ele nunca mais teve noticias nem do marinheiro e nem do filho. Mas o coronel cumpriu a promessa e pagou o que prometeu. Mas Sebastião não entendia o porque o coronel fez esse gesto e um dia lhe perguntou – Porque pagaste tão caro por uma viagem como a que eu fiz. E o homem com olhos cheio de água respondeu

- O velho marinheiro não é o pai do menino, ele cuidou como se o fosse, o menino que hoje morre em terras distantes é meu filho, fruto do meu amor com uma escrava de meu pai.

O silêncio que se seguiu entre os dois homens foi mais pesado do que qualquer carga que Sebastião já tivesse remado contra a corrente. O Coronel, cuja autoridade sempre fora sentida pelo chicote da palavra ou pelo brilho do ouro, ali estava, desarmado, revelando que sob a farda de linho batia um coração cativo de um segredo e de uma culpa.

Sebastião olhou para as mãos do Coronel, eram mãos limpas, sem calos, bem diferentes das suas, mas que tremiam ao segurar o lenço de seda. Naquele instante, o canoeiro compreendeu que a distância entre Itinga e Belmonte não era medida apenas em léguas de rio, mas em abismos sociais que nem mesmo o sangue comum conseguia atravessar à luz do dia.

O Coronel continuou, a voz embargada:

 - Eu dei a ele a liberdade no papel, Sebastião. Mas não tive a coragem de dar a ele o meu sobrenome diante da igreja. Mandei-o para o mar para que o mundo o escondesse da minha vergonha... e agora o rio me traz a conta.

Sebastião não pegou as moedas de ouro com ganância, ele guardou as moedas em um saco de couro curtido e, sem dizer uma palavra, caminhou até a margem do Jequitinhonha. Ele entendeu que aquele pagamento não era pelo transporte da pedra e da água, mas pelo silêncio e pela redenção de um pai que só soube amar no crepúsculo da morte.

Nos anos que se seguiram, Sebastião usou o ouro para comprar a alforria de outros tantos e para garantir que nenhum filho de Itinga precisasse partir para o mar sem saber quem era seu pai.

O Coronel morreu meses depois, dizem que de desgosto, olhando para o horizonte por onde a canoa de Sebastião havia sumido. Já Sebastião, até o fim de seus dias, sempre que passava pelo trecho mais calmo do rio, derramava um pouco de água de caneca na correnteza e sussurrava para as águas:

Vá, Jequitinhonha... leva esse carinho pro menino, que o pai dele demorou, mas finalmente se entregou pro rio.

E o rio, soberano e profundo, seguia seu curso, lavando as mágoas dos homens e misturando o ouro, o sangue e a saudade nas areias de Belmonte.

 

Conto escrito por

Jô Pinto, com base nas histórias de seu pai, João Antenor.




 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Rio e suas história

Meu Pai João Antenor, tinha um habito bom, gostava de nos contar histórias sentado no batente da porta da cozinha, entre um gole de café e o...