Meu
Pai João Antenor, tinha um habito bom, gostava de nos contar histórias sentado
no batente da porta da cozinha, entre um gole de café e outro, depois de um dia
árduo de trabalho, hoje tento colocar suas histórias em textos. E assim um dia ele nos contou essa história.
Nas
águas do Rio Jequitinhonha, onde o sol
de Minas parece fundir o ferro das pedras com o azul do céu, vivia Sebastião,
um canoeiro de braços que pareciam esculpidos em aroeira. Naquela época, o Vale
não era silêncio; era o pulsar de um comércio frenético, de Itinga, partiam e chegavam as canoas
carregadas de sal, fumo, rapadura e o algodão que vestia o sertão. O destino? Belmonte, na Bahia, onde o rio
se entrega ao mar.
Sebastião não era apenas um transportador; ele era um
"leitor de correntezas". Conhecia cada redemoinho e cada segredo das
pedras que afloravam como dentes de gigantes no leito do rio.
Certa
vez, Sebastião recebeu uma encomenda inusitada de um coronel influente de
Itinga. Não eram sacos de café ou barras de ouro, mas uma caixa de madeira de
lei, pesada e lacrada com cera vermelha. O coronel lhe deu um o prazo para chegar
a Belmonte em doze dias, antes da lua cheia sumir, e para isso lhe prometeu uma
quantia em moedas capaz de comprar uma fazenda inteira.
A
descida foi um balé perigoso, o Jequitinhonha, em seus tempos de glória, era um
monstro vivo. Sebastião enfrentou as corredeiras de Salto da Divisa com a
maestria de quem desafia a morte. Ele via a paisagem mudar: a caatinga cinzenta,
ia cedendo lugar ao verde úmido e
exuberante das matas, o cheiro da terra seca era substituído pelo bafio de
maresia que subia o rio.
Ao
chegar em Belmonte, exausto e com as mãos em carne viva, Sebastião procurou o
destinatário: um velho marinheiro de olhos turvos que vivia no encontro das
águas. Ao entregar a caixa, a curiosidade, que o corroera por centenas de
quilômetros, venceu o silêncio.
"Diga-me, patrão, o que carreguei com tanto zelo
que vale mais que uma boiada?"
O velho rompeu o lacre, dentro, não havia joias, nem
documentos de terra, havia apenas uma enorme pedra de quartzo límpido retirado das lavras
em Itinga e um frasco de água colhida na nascente do Jequitinhonha.
O marinheiro sorriu com uma tristeza profunda.
—
Meu filho está morrendo aqui na Bahia, longe do chão onde nasceu, o médico
disse que não há cura, mas ele pediu um último desejo: sentir o frio da pedra
de sua terra e o gosto da água que o banhou na infância. Você não trouxe
mercadoria, Sebastião. Você trouxe o pertencimento.
Velho
canoeiro engoliu a saliva, abraçou o velho marinheiro, virou e entrou na sua
canoa, ele nunca mais teve noticias nem do marinheiro e nem do filho. Mas o
coronel cumpriu a promessa e pagou o que prometeu. Mas Sebastião não entendia o
porque o coronel fez esse gesto e um dia lhe perguntou – Porque pagaste tão
caro por uma viagem como a que eu fiz. E o homem com olhos cheio de água
respondeu
-
O velho marinheiro não é o pai do menino, ele cuidou como se o fosse, o menino
que hoje morre em terras distantes é meu filho, fruto do meu amor com uma
escrava de meu pai.
O
silêncio que se seguiu entre os dois homens foi mais pesado do que qualquer
carga que Sebastião já tivesse remado contra a corrente. O Coronel, cuja
autoridade sempre fora sentida pelo chicote da palavra ou pelo brilho do ouro,
ali estava, desarmado, revelando que sob a farda de linho batia um coração
cativo de um segredo e de uma culpa.
Sebastião
olhou para as mãos do Coronel, eram mãos limpas, sem calos, bem diferentes das
suas, mas que tremiam ao segurar o lenço de seda. Naquele instante, o canoeiro
compreendeu que a distância entre Itinga e Belmonte não era medida apenas em
léguas de rio, mas em abismos sociais que nem mesmo o sangue comum conseguia
atravessar à luz do dia.
O Coronel continuou, a voz embargada:
- Eu dei a ele a
liberdade no papel, Sebastião. Mas não tive a coragem de dar a ele o meu
sobrenome diante da igreja. Mandei-o para o mar para que o mundo o escondesse
da minha vergonha... e agora o rio me traz a conta.
Sebastião
não pegou as moedas de ouro com ganância, ele guardou as moedas em um saco de
couro curtido e, sem dizer uma palavra, caminhou até a margem do Jequitinhonha.
Ele entendeu que aquele pagamento não era pelo transporte da pedra e da água,
mas pelo silêncio e pela
redenção de um pai que só soube amar no crepúsculo da morte.
Nos anos que se seguiram, Sebastião usou o ouro para
comprar a alforria de outros tantos e para garantir que nenhum filho de Itinga
precisasse partir para o mar sem saber quem era seu pai.
O Coronel morreu meses depois, dizem que de desgosto,
olhando para o horizonte por onde a canoa de Sebastião havia sumido. Já
Sebastião, até o fim de seus dias, sempre que passava pelo trecho mais calmo do
rio, derramava um pouco de água de caneca na correnteza e sussurrava para as
águas:
— Vá,
Jequitinhonha... leva esse carinho pro menino, que o pai dele demorou, mas
finalmente se entregou pro rio.
E o rio, soberano e profundo, seguia seu curso, lavando as
mágoas dos homens e misturando o ouro, o sangue e a saudade nas areias de
Belmonte.
Conto escrito por
Jô Pinto, com base
nas histórias de seu pai, João Antenor.


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