Procurando
por palavras de origem africana, encontrei “barafunda”. O dicionário registra o
termo como substantivo feminino que significa situação sem controle ou ordem,
marcada por tumulto, balbúrdia ou pandemônio; também pode designar mistura
desordenada de coisas diversas, como mixórdia, baralhada ou bagunça. Nos Corais
Trovadores do Vale e Nossa Senhora do Rosário, em um dos batuques, a palavra
aparece em versos populares: “Menina você não casa, casamento é barafunda.
Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.”
Descobri,
porém, que “barafunda” também nomeia uma técnica ancestral de bordado manual de
origem africana. Essa prática cria padrões semelhantes a rendas sobre tecidos
desfiados e possui forte presença cultural em terreiros de Candomblé na Bahia.
Desenvolvida por mulheres africanas escravizadas no século XVIII, surgiu como
alternativa às rendas europeias, como o Richelieu, então em moda. Sem acesso a
tecidos nobres, elas utilizavam sacas de açúcar, que eram desfiadas e
rebordadas, dando origem a esse bordado. Até hoje, a barafunda é preservada em
cerimônias e festividades religiosas.
O
processo consiste em retirar tramas e fios do tecido, fixá-lo em um bastidor e
bordar para formar desenhos e quadradinhos. Por sua semelhança com a bainha
aberta, muitas vezes é confundida com técnicas da casa-grande, mas recebeu nome
próprio para marcar sua identidade. Trata-se de um bordado quase esquecido,
aparentado ao crivo, ao labirinto e à bainha aberta, criado como substituto da
renda, material caro e restrito às elites.
Nas
comunidades de terreiro, a barafunda possui grande importância cultural e
simbólica. Em alguns espaços, ela adorna trajes dos santos e das pessoas que
ocupam cargos religiosos, e os bordadeiros mantêm estreita relação com esses
ambientes. O trabalho começa com o desfiamento horizontal e vertical do tecido,
formando um mosaico de quadradinhos vazados e cheios. Para preservar a
integridade, as bordas são finalizadas com o ponto “dente de cão” (caseado). O
mosaico é então preenchido com pontos repetidos, criando padrões.
Existem
mais de 40 pontos de barafunda, muitos com nomes que remetem à natureza e à
cultura afro-brasileira: flor de abóbora, roda de quiabo, espírito, semente de
malva, fundo de balaio, percevejo e, entre os mais tradicionais, o ponto asa de
mosca. Como outras técnicas têxteis, exige raciocínio matemático e grande
minúcia, sendo inteiramente manual e artesanal.
Além
da função ritual, a barafunda também se estende ao cotidiano, adornando
guardanapos, toalhas e caminhos de mesa, e hoje aparece em peças de vestuário,
como shorts e saias, ou em ornamentos decorativos para diferentes ambientes da
casa.
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