segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A resistência ancestral do Bordado Barafunda


 

Procurando por palavras de origem africana, encontrei “barafunda”. O dicionário registra o termo como substantivo feminino que significa situação sem controle ou ordem, marcada por tumulto, balbúrdia ou pandemônio; também pode designar mistura desordenada de coisas diversas, como mixórdia, baralhada ou bagunça. Nos Corais Trovadores do Vale e Nossa Senhora do Rosário, em um dos batuques, a palavra aparece em versos populares: “Menina você não casa, casamento é barafunda. Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.”

Descobri, porém, que “barafunda” também nomeia uma técnica ancestral de bordado manual de origem africana. Essa prática cria padrões semelhantes a rendas sobre tecidos desfiados e possui forte presença cultural em terreiros de Candomblé na Bahia. Desenvolvida por mulheres africanas escravizadas no século XVIII, surgiu como alternativa às rendas europeias, como o Richelieu, então em moda. Sem acesso a tecidos nobres, elas utilizavam sacas de açúcar, que eram desfiadas e rebordadas, dando origem a esse bordado. Até hoje, a barafunda é preservada em cerimônias e festividades religiosas.

O processo consiste em retirar tramas e fios do tecido, fixá-lo em um bastidor e bordar para formar desenhos e quadradinhos. Por sua semelhança com a bainha aberta, muitas vezes é confundida com técnicas da casa-grande, mas recebeu nome próprio para marcar sua identidade. Trata-se de um bordado quase esquecido, aparentado ao crivo, ao labirinto e à bainha aberta, criado como substituto da renda, material caro e restrito às elites.

Nas comunidades de terreiro, a barafunda possui grande importância cultural e simbólica. Em alguns espaços, ela adorna trajes dos santos e das pessoas que ocupam cargos religiosos, e os bordadeiros mantêm estreita relação com esses ambientes. O trabalho começa com o desfiamento horizontal e vertical do tecido, formando um mosaico de quadradinhos vazados e cheios. Para preservar a integridade, as bordas são finalizadas com o ponto “dente de cão” (caseado). O mosaico é então preenchido com pontos repetidos, criando padrões.

Existem mais de 40 pontos de barafunda, muitos com nomes que remetem à natureza e à cultura afro-brasileira: flor de abóbora, roda de quiabo, espírito, semente de malva, fundo de balaio, percevejo e, entre os mais tradicionais, o ponto asa de mosca. Como outras técnicas têxteis, exige raciocínio matemático e grande minúcia, sendo inteiramente manual e artesanal.

Além da função ritual, a barafunda também se estende ao cotidiano, adornando guardanapos, toalhas e caminhos de mesa, e hoje aparece em peças de vestuário, como shorts e saias, ou em ornamentos decorativos para diferentes ambientes da casa.


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