quinta-feira, 29 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Hoje é Dia Nacional do Livro

Imagens: Biblioteca Municipal de Itinga - Maria Izidora da Trindade

 

Comemorado em 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro não se resume a uma mera efeméride em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional ou à chegada da Real Biblioteca ao Brasil. A data convida a uma reflexão mais profunda sobre o papel central que o livro ocupa na formação da sociedade, na preservação da memória coletiva e na construção da cidadania. Longe de ser apenas um objeto de consumo cultural, o livro atua como um depositário vivo de experiências, saberes e resistências, servindo como espelho e motor da identidade de um povo.

Historicamente, a literatura e a produção escrita no Brasil caminharam sob o signo da exclusão e do privilégio, refletindo as assimetrias sociais do país. Contudo, nas últimas décadas, o cenário tem passado por transformações profundas graças à incidência de movimentos sociais, coletivos literários, educadores e comunidades tradicionais que passaram a reivindicar o direito à narrativa. A literatura deixou de ser um reduto estanque para acolher a pluralidade das vozes periféricas, quilombolas, indígenas e regionais. Essa descentralização enriquece o patrimônio nacional ao demonstrar que a literatura legítima brota tanto dos grandes centros urbanos quanto dos interiores mais profundos, onde a oralidade e a escrita se entrelaçam.

Nesse sentido, a leitura cumpre uma função emancipatória inegociável. Ela opera como um instrumento de alargamento do pensamento crítico, permitindo que o indivíduo dialogue com o seu tempo e com o passado. Contudo, para que o livro exerça plenamente seu potencial transformador, é preciso superar os obstáculos estruturais que dificultam o acesso à cultura no Brasil. O incentivo à leitura não deve ser encarado como uma obrigação escolar fria, mas como uma política pública contínua de democratização que envolva a revitalização de bibliotecas públicas e comunitárias, o apoio a editoras independentes e a valorização do livro como bem essencial.

Celebrar o Dia Nacional do Livro, portanto, é reafirmar o compromisso com a democratização da palavra e com a preservação da memória. Cada obra impressa ou digital guarda em si a possibilidade de resistir ao esquecimento e de construir pontes entre gerações. Que a data sirva não apenas para rememorar o passado, mas para renovar o pacto coletivo em defesa da leitura como direito fundamental e ferramenta indispensável para a construção de um país mais consciente e plural.

 

Jô Pinto

Quilombola, Professor, Historiador, Escritor/Poeta e Produtor Cultural

 

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