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| Imagens: Biblioteca Municipal de Itinga - Maria Izidora da Trindade |
Comemorado
em 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro não se resume a uma mera efeméride em
homenagem à fundação da Biblioteca Nacional ou à chegada da Real Biblioteca ao
Brasil. A data convida a uma reflexão mais profunda sobre o papel central que o
livro ocupa na formação da sociedade, na preservação da memória coletiva e na
construção da cidadania. Longe de ser apenas um objeto de consumo cultural, o
livro atua como um depositário vivo de experiências, saberes e resistências,
servindo como espelho e motor da identidade de um povo.
Historicamente, a literatura e a produção escrita no Brasil
caminharam sob o signo da exclusão e do privilégio, refletindo as assimetrias
sociais do país. Contudo, nas últimas décadas, o cenário tem passado por
transformações profundas graças à incidência de movimentos sociais, coletivos
literários, educadores e comunidades tradicionais que passaram a reivindicar o
direito à narrativa. A literatura deixou de ser um reduto estanque para acolher
a pluralidade das vozes periféricas, quilombolas, indígenas e regionais. Essa
descentralização enriquece o patrimônio nacional ao demonstrar que a literatura
legítima brota tanto dos grandes centros urbanos quanto dos interiores mais
profundos, onde a oralidade e a escrita se entrelaçam.
Nesse sentido, a leitura cumpre uma função emancipatória
inegociável. Ela opera como um instrumento de alargamento do pensamento
crítico, permitindo que o indivíduo dialogue com o seu tempo e com o passado.
Contudo, para que o livro exerça plenamente seu potencial transformador, é
preciso superar os obstáculos estruturais que dificultam o acesso à cultura no
Brasil. O incentivo à leitura não deve ser encarado como uma obrigação escolar
fria, mas como uma política pública contínua de democratização que envolva a
revitalização de bibliotecas públicas e comunitárias, o apoio a editoras
independentes e a valorização do livro como bem essencial.
Celebrar o Dia Nacional do Livro, portanto, é reafirmar o
compromisso com a democratização da palavra e com a preservação da memória.
Cada obra impressa ou digital guarda em si a possibilidade de resistir ao
esquecimento e de construir pontes entre gerações. Que a data sirva não apenas
para rememorar o passado, mas para renovar o pacto coletivo em defesa da
leitura como direito fundamental e ferramenta indispensável para a construção
de um país mais consciente e plural.
Jô
Pinto
Quilombola,
Professor, Historiador, Escritor/Poeta e Produtor Cultural

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