segunda-feira, 4 de maio de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A arte popular pelas mãos de Nelson dos Santos

Imagem: Internet

Aos sessenta e cinco anos, o senhor Nelson dos Santos carrega no corpo as marcas do sol e do trabalho pesado que moldaram sua vida no campo. Pedreiro, bóia-fria, lavrador, marceneiro — sua trajetória foi marcada por ofícios diversos, todos exigindo esforço e resistência. Hoje, porém, Nelson dedica-se à arte de esculpir a madeira, transformando em beleza aquilo que antes era apenas utilitário.

Nascido na zona rural de Araçuaí, viveu de “deu em deu”, trabalhando em fazendas para sustentar a família. Após o casamento, mudou-se para a cidade e foi morar de aluguel próximo à casa da Mestra Josefa Alves Reis, ou simplesmente “Zefa”, referência na arte de esculpir em madeira. A convivência entre os dois, acompanhada das prosas sobre o cotidiano e das figuras que surgiam das mãos habilidosas de Zefa, despertou em Nelson o artesão que viria a se tornar. Ao observar o trabalho da mestra, lembrava das peças que já sabia fazer, gamelas, colheres e pensava: se conseguia criar utensílios, também poderia arriscar uma escultura.

Um dia, muito acanhado, mostrou a Zefa sua primeira peça. O entusiasmo dela foi imediato: parabenizou-o pela destreza, incentivou-o a continuar e ofereceu-se para vender suas criações. A partir daí, passou a orientá-lo no uso das ferramentas, no manejo da madeira e nos acabamentos. Nelson então se filiou à Associação dos Artesãos de Araçuaí e começou a participar de feiras de artesanato, como o Festivale e eventos da UFMG, levando sua arte para além das fronteiras locais.

É comum que lhe perguntem: “O senhor aprendeu com a Zefa?”. Com semblante tímido, ele ergue os olhos e responde: “Eu já sabia fazer umas coisinhas, Dona Zefa me incentivou a trabalhar com esculturas, mostrar para as pessoas e vender as peças”. Essa resposta revela algo profundo: o papel de um mestre não é apenas ensinar técnicas, mas apoiar, incentivar e abrir caminhos.

O legado de Zefa está justamente em ter despertado em Nelson a confiança para transformar sua habilidade em arte, em profissão e em identidade. A história de Nelson dos Santos nos lembra que a arte popular é feita de mãos calejadas, de coragem silenciosa e de mestres que, com generosidade, ajudam outros a acreditar em si mesmos. É um testemunho da força da cultura que nasce do povo e se perpetua pela partilha, pelo incentivo e pela memória viva que cada artesão carrega em sua obra.


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