terça-feira, 12 de maio de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda da Noiva da Cavalhada


 

Contam os mais velhos que a muito tempo atrás, quando Turmalina-MG ainda era o Arraial de Nossa Senhora da Piedade das Minas Novas, havia uma moça chamada Clara Godinho da Silva, que era apaixonada por um rapaz bem sucedido e muito conhecido do lugar. O Desejo dela era de se casar com ele na igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade. Mas ela era pobre e não tinha nenhum dote para o casamento. Dote era a transferência de bens materiais da noiva ou da família dela para o noivo ou para a família dele, para facilitar a aceitação da proposta de casamento, por exemplo: terra, dinheiro, joias...

Clara era órfã de pai e mãe e ninguém de sua família tinha nada para ajudá-la na busca da realização do sonho de se casar.

Quanto custa o amor de uma pessoa? Alguém seria capaz de comprá-lo?

Aquela moça gostava muito do rapaz e estava determinada a ir em busca do seu objetivo. Nem que, se para isto, fosse preciso vender a própria alma ao diabo.

De maneira misteriosa, como que de uma noite para o dia, a jovem apareceu cheia de bens e os ofereceu a família do rapaz juntamente com a proposta de casamento que foi aceita e brevemente anunciado o grande dia da cerimônia.

Mas algo que está além da nossa capacidade de compreensão aconteceu no dia do tão esperado matrimônio: tudo preparado, a igreja estava toda enfeitada e cheia de gente.

Todo mundo aguardava com encantamento a entrada do noivo. E como sempre acontece nos casamentos, o atraso faz parte das emoções. Então a noiva chegou radiante e bela! Prestes a realizar o seu sonho encantado. Ela viu que o noivo não estava lá. Mas não preocupou. Pensou que ele chegaria logo.

Aconteceu que o atraso foi ficando extenso. Aos poucos, a emoção e a expectativa foram dando lugar a apreensão e a tristeza. O cansaço pela espera do noivo foi vencendo os padrinhos, os convidados e o próprio Padre. A igreja foi esvaziando e a noiva ficou sozinha no altar. Desesperada, gritou pedindo socorro ao Vigário que a respondeu com tristeza e compaixão:

- Não posso fazer nada! Você está na casa de Deus! Aqui não entra nada que é combinado com o Diabo! Você fez um pacto com o Demônio! Não se pode amar a Deus e ao dinheiro! Sinto muito, minha filha!

Diante da resposta do Vigário, ela saiu da igreja, desceu a rua que atualmente se chama Caçaratiba, foi em direção a Cavalhada onde hoje é a Escola Estadual Lauro Machado e lá se matou.

Esse acontecimento foi numa época em que não havia energia elétrica. Dizem que a partir daquele dia, principalmente nas sextas-feiras, na batida da meia noite do relógio da matriz, uma noiva sai da igreja e faz o mesmo percurso. E ela costuma fazer isso também quando é noite de lua cheia e quando a cidade escurece por falta de energia. Ela vai a procura de um noivo pra casar. Muitos andantes da noite se depararam com a assombração e contaram aterrorizados sobre o que viram.

Um fato curioso: Hoje naquele mesmo lugar há uma Gameleira plantada. Como no tempo antigo. Será mera coincidência? Existem rumores que afirmam que este seja o motivo de se ouvir barulhos estranhos dentro da Escola Estadual Lauro Machado quando todas as pessoas saem de lá e as luzes se apagam.

Será que a Noiva da Cavalhada continua mesmo em busca da realização do seu sonho? Um amor vai e outro vem. Quem sabe! O próximo pretendente de Clara poderá ser você!


Conto publicado por Gilmar Souza  em https://www.recantodasletras.com.br

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