quinta-feira, 25 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"


 

Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade, escrito pelo médico infectologista, ex-prefeito de Caraí e atual deputado federal, Dr. Heber Neiva (Vavá), surge não como apenas mais uma coletânea de histórias, mas como um espelho de realidades que cruzam os caminhos de quem percorre as estradas poeirentas e as comunidades dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Muitos poderiam esperar dos bastidores da escrita do autor um relato focado puramente nas "mazelas", aquela palavra desgastada que a mídia de fora adora usar para rotular e resumir a região. Mas a obra, lançada em 2025, vai muito além. O título A Ferida Aberta mexe com a própria identidade regional. O autor não olha para o povo com pena, mas com um profundo respeito pela resiliência local, usando a história para explicar a saúde, e a saúde para desvendar a história.

O Estetoscópio que Escuta a Fome

Para quem vive o cotidiano de cidades como Caraí, Catuji, Teófilo Otoni ou Diamantina, a obra impressiona porque humaniza o dado estatístico. O Dr. Heber utiliza o conceito científico de sindemia; a percepção de que uma doença não existe isolada da fome, do racismo, da pobreza e da ausência do Estado. Como o próprio autor define de forma cirúrgica na obra:

Para o médico do interior, o estetoscópio muitas vezes escuta o que não está no pulmão, mas na despensa vazia. A verdadeira ferida aberta que encontramos nas estradas poeirentas não é a da carne, mas a da invisibilidade de um povo que teima em sorrir mesmo quando o Estado se esquece de chegar.” O autor ainda menciona que: “quem é da região sabe exatamente o que isso significa: as longas caminhadas sob o sol escaldante para conseguir um atendimento, ou o trabalhador informal que esconde suas dores para não perder o dia de serviço”.

O livro traz à tona a personagem Damiana, que nasceu no Vale do Mucuri cercada por um paradoxo cruel: enquanto os grandes centros transformavam o HIV em uma condição crônica tratável, a desigualdade regional continuava a matar por falta de acesso. O autor mostra que "os patógenos biológicos são apenas relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de violência social".

Rompendo o Silêncio do Estigma e da Saúde Mental

Outro ponto crucial onde a obra toca na carne da região é a abordagem sobre o sofrimento psíquico e o isolamento, temas que ainda são tabus gigantescos nas pequenas cidades.

Tratar a mente nos rincões do Jequitinhonha é desafiar o silêncio. O sofrimento mental aqui se esconde nos quintais, amarrado pelo preconceito e pela falta de estradas. O isolamento geográfico acaba por se tornar um isolamento da própria alma.”

Ao longo das crônicas, o autor apresenta personagens reais, com identidades protegidas, cujas dores gritam por justiça. É o caso de Piedade, que faz questionar se o surto veio da mente ou do peso de uma sociedade opressora; e de Dolores, uma mulher marginalizada que questiona o próprio sistema: “Se eu fui vítima desde a barriga da minha mãe, por que sou eu quem termina atrás das grades?”. O livro escancara como o machismo regional e a escassez histórica de redes de apoio psicossocial destroem vidas em silêncio.

O Enfrentamento do HIV no Interior: Uma Luta Civilizatória

A maior força de A Ferida Aberta, e o que torna a sua recomendação um dever cívico, é a quebra do silêncio sobre a realidade das pessoas soropositivas longe das capitais. O preconceito nas cidades pequenas ainda age, muitas vezes, como um exílio em praça pública.

O vírus assusta, mas o estigma mata antes. No interior, a revelação de um diagnóstico positivo de HIV ecoa pelas paredes da cidade com o peso de uma sentença de exílio social. Acolher essa dor não é apenas um dever médico, é um resgate civilizatório.”

O desafio logístico denunciado no livro é uma realidade conhecida de perto por quem habita a região. Para fazer um exame de carga viral ou buscar a medicação antirretroviral, muitos pacientes precisam enfrentar horas de viagem em estradas precárias até os centros de referência regionais. Através do personagem Inocêncio, um jovem que nasceu com HIV e acabou encontrando o único "abraço" disponível no mundo do crime, o autor prova que a biologia, no interior, é refém da história e do desamparo.

Mais que Literatura, um Compromisso Coletivo

O que torna a indicação desta obra tão relevante não é apenas a qualidade da escrita, que mistura de forma brilhante a sensibilidade da crônica com a profundidade da análise histórica, mas o compromisso que o Dr. Heber assume com a população.

O valor arrecadado com a venda dos livros é totalmente destinado a entidades filantrópicas locais que apoiam e acolhem pessoas soropositivas nos Vales. Ler este livro, portanto, vai além do passatempo: é um ato de solidariedade ativa e de cidadania.

Para quem busca entender o Brasil real através das cicatrizes dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, A Ferida Aberta não é apenas uma recomendação de leitura: é um reencontro urgente com a nossa própria história.

 

Boa leitura.


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segunda-feira, 22 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - SEQUILHO


 

A palavra “sequilho” deriva de seco (com o sufixo -ilho), numa referência direta à sua textura característica. Em várias regiões do Brasil, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais, também são conhecidos como biscoitos de goma ou bolachas de polvilho. Os sequilhos são parte da tradição culinária brasileira, preparados à base de polvilho (ou amido), açúcar e manteiga. Herdaram esse nome por causa do processo de preparo, que os deixa secos por fora e macios por dentro, derretendo suavemente na boca.

De origem portuguesa, os sequilhos chegaram ao Brasil por volta do século XVII, trazidos pelos colonizadores. Aqui, os portugueses aprenderam com os povos indígenas a substituir o trigo por derivados da mandioca, como o polvilho, conferindo ao biscoito uma textura mais leve e crocante.

Até hoje, essa receita ganha variações e conquista corações em diferentes cantos do país. O sequilho de fubá preparado pela quilombola Rosaria Costa, do município de Chapada do Norte, mas que reside no município de Berilo, é exemplo vivo dessa tradição: carrega consigo não apenas sabor, mas também amor e história; ingredientes que são, afinal, os mais importantes da nossa região.

E talvez seja justamente isso que torna o sequilho tão especial: mais do que um simples biscoito, ele é memória afetiva, é ponte entre culturas, é símbolo da criatividade que transforma a simplicidade em delicadeza. Cada mordida nos lembra que a cozinha brasileira é feita de encontros, de trocas e de afetos que atravessam gerações.

No fundo, o sequilho é mais do que um biscoito: é uma metáfora da própria cultura brasileira. Simples nos ingredientes, mas sofisticado na memória que carrega, ele traduz a capacidade de transformar o cotidiano em afeto. Cada receita, cada variação, cada mão que amassa a massa é um elo invisível entre passado e presente, entre tradição e reinvenção. Ao provar um sequilho, não saboreamos apenas polvilho e açúcar, degustamos histórias, raízes e o calor humano que dá sentido à mesa mineira e nordestina.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTRUAL - Profissão: Pedreiro entre a tradição e o futuro



O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é conhecido nacionalmente por sua riqueza cultural e pela força do trabalho manual, especialmente na cerâmica e nas artes populares. Mas o papel da construção civil na região também merece destaque. Historicamente, os pedreiros do Jequitinhonha foram responsáveis por erguer casas, igrejas e pequenas obras comunitárias que se tornaram símbolos da resistência e da identidade local. Em cidades como Araçuaí, Diamantina e Itamarandiba, a mão de obra artesanal sempre esteve ligada à realidade socioeconômica da região, marcada por limitações de recursos e pela valorização do saber transmitido de geração em geração.

A crítica que se impõe é que, enquanto a automação avança em grandes centros urbanos, regiões como o Vale do Jequitinhonha ainda dependem fortemente da tradição e da força humana na construção civil. Isso revela uma desigualdade estrutural: de um lado, máquinas capazes de assentar milhares de tijolos por dia; de outro, comunidades que preservam técnicas manuais como parte de sua cultura e sobrevivência. Essa dualidade mostra que o futuro da profissão de pedreiro não pode ser pensado apenas em termos de produtividade e redução de custos, mas também em relação ao impacto social e cultural em territórios onde o trabalho artesanal é parte da identidade coletiva.

O Vale do Jequitinhonha, portanto, simboliza o desafio de equilibrar modernização e tradição. Se por um lado a automação promete eficiência, por outro, ela corre o risco de invisibilizar comunidades que mantêm viva a memória da construção manual. O pedreiro jequitinhonhense não é apenas um trabalhador: é guardião de uma prática que moldou cidades, fortaleceu laços comunitários e deu forma a um patrimônio cultural que não pode ser substituído por algoritmos e braços robóticos.

Assim, incluir o Vale do Jequitinhonha nessa discussão amplia a crítica: o futuro da construção civil precisa considerar não apenas a velocidade das máquinas, mas também o valor humano e cultural que sustenta regiões inteiras. O pedreiro mineiro, seja em Ouro Preto ou no Jequitinhonha, carrega em suas mãos não apenas tijolos, mas a história e a identidade de um povo, por isso fiquei pensando: No futuro, quem construirá sua casa, será um pedreiro ou um robô?

 

Referencias:

Rezende, Maria Beatriz – Patrimônio Arquitetônico de Minas Gerais

Silva, João Batista – Automação na Construção Civil: Robótica e Inteligência Artificial

A evolução dos robôs de alvenaria: mudando as regras da construção tradicional https://www.archdaily.com.br/br/928479/a-evolucao-dos-robos-de-alvenaria-mudando-as-regras-da-construcao-tradicional

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Nitheroy: a revista que ajudou a consolidar uma literatura brasileira

 

Quando falamos sobre a história da literatura brasileira, geralmente lembramos de grandes escritores, poemas e romances que marcaram diferentes épocas. No entanto, poucos conhecem uma publicação que desempenhou um papel importante na formação da identidade cultural do país: a revista Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes.

Publicada em Paris, em 1836, a revista surgiu em um momento em que o Brasil ainda buscava consolidar sua identidade após a Independência, proclamada em 1822. Seu objetivo era estimular reflexões sobre literatura, artes, ciência e sociedade, contribuindo para o desenvolvimento intelectual e cultural da jovem nação.

A criação da Nitheroy foi iniciativa de três intelectuais brasileiros que viviam na Europa: Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem. Influenciados pelas ideias que circulavam no continente europeu, eles acreditavam que o Brasil precisava desenvolver uma produção cultural capaz de expressar suas próprias características, sem depender exclusivamente dos modelos estrangeiros.

A revista adotou como lema a frase “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”, demonstrando seu compromisso com a valorização da cultura nacional. Embora tenha tido apenas duas edições, sua importância histórica ultrapassou sua curta existência. Os artigos publicados abordavam temas diversos. Além da literatura e das artes, a revista trazia discussões sobre economia, comércio, ciência e outros assuntos considerados fundamentais para o progresso do país. Essa variedade revela uma característica marcante do período: a crença de que o desenvolvimento de uma nação dependia tanto do crescimento material quanto do fortalecimento da educação, da cultura e do conhecimento.

Entre os textos mais relevantes publicados na Nitheroy está o “Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil”, escrito por Gonçalves de Magalhães. Nesse trabalho, o autor defende a valorização da produção literária nacional e propõe uma reflexão sobre os caminhos que a literatura brasileira deveria seguir. Suas ideias contribuíram para a consolidação do movimento romântico no Brasil, que ganharia força nas décadas seguintes.

Por essa razão, a Nitheroy é frequentemente apontada pelos estudiosos como uma publicação fundamental para a história da literatura brasileira e para o desenvolvimento do Romantismo no país. Mais do que uma simples revista, ela representou um esforço coletivo de pensar o Brasil a partir de sua própria realidade cultural, em um período em que o país buscava afirmar sua identidade também no campo das letras.

Quase duzentos anos após sua publicação, a Nitheroy continua despertando o interesse de pesquisadores e leitores. Sua trajetória demonstra como uma iniciativa de curta duração pode deixar um legado duradouro, influenciando a forma como uma nação compreende sua cultura, sua literatura e sua identidade.

Ao revisitar a história dessa publicação, percebemos que a construção de uma literatura nacional não acontece de forma repentina. Ela é resultado do trabalho de escritores, pensadores e editores que acreditam na força da cultura como elemento de transformação. Nesse sentido, a Nitheroy ocupa um lugar de destaque na memória literária brasileira, não por ter sido a única iniciativa de seu tempo, mas por ter ajudado a consolidar ideias que marcariam profundamente a literatura produzida no Brasil ao longo do século XIX.

Referências

BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836). Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/nitheroyrevista-brasiliense-1836/. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

BIBLIOTECA NACIONAL. Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Lettras e Artes. Acervo Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://acervo.bn.gov.br. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

LOTUFO, Marcelo. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836): A Political Bridge Between Rio de Janeiro, Paris, and Hispanic America. Journal of Lusophone Studies, v. 1, n. 1, 2016.

 

NITHEROY: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836. Acervo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1272. Acesso em: 3 jun. 2026.


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

OPINIÃO DO BLOG - A camisa da seleção brasileira é símbolo de uma nação.


 

Durante décadas, a camisa "amarelinha" da Seleção Brasileira de Futebol transcendeu o esporte para se consolidar como o maior símbolo de identidade e união nacional. Independentemente de classe social, credo ou ideologia, o verde e amarelo representava o orgulho de um povo a cada Copa do Mundo. No entanto, o acirramento da polarização política no Brasil contemporâneo promoveu uma profunda ressignificação desse manto, que deixou de pertencer a todos os cidadãos para se tornar um estandarte de disputas partidárias e ideológicas.

O processo de partidarização da camisa verde e amarela ganhou força expressiva a partir das manifestações de 2014 e consolidou-se nas eleições de 2018 e 2022.  Quando movimentos de direita, adotaram o uniforme como vestimenta oficial em manifestações políticas. Ao transformar a camisa em um símbolo de adesão a um governo ou pauta específica, perdeu-se a neutralidade que a caracterizava. Vestir a "amarelinha" deixou de ser um ato puramente esportivo e passou a ser lido, por grande parte da sociedade, como uma declaração de alinhamento ideológico excludente.

Essa apropriação gerou um racha no comportamento social dos brasileiros, por um lado, muitos passaram a evitar o uso da camisa em espaços públicos por receio de hostilidades, julgamentos ou conflitos. A autocensura tornou-se evidente, esvaziando as ruas de verde e amarelo durante os eventos esportivos. Por outro lado, a camisa azul, uniforme reserva e as camisas de clubes de futebol ganharam protagonismo, sendo utilizadas por aqueles que queriam torcer pela Seleção sem carregar o estigma político atrelado ao uniforme principal. Houve, portanto, uma fragmentação do sentimento de patriotismo.

A polarização política feriu um dos pilares da cultura e da autoestima nacional ao sequestrar o maior símbolo do futebol brasileiro. Para que a camisa da Seleção Brasileira volte a unir o país, é necessário um processo de despolitização, no qual a sociedade civil, os meios de comunicação e as entidades esportivas reafirmem que as cores da bandeira pertencem à pluralidade do povo brasileiro, e não a grupos políticos. Somente assim o verde e amarelo poderá novamente representar a celebração do esporte e a unidade de uma nação.

A camisa da Seleção Brasileira sempre foi e será, historicamente, o maior símbolo de união e identidade do povo brasileiro. Conhecida mundialmente como a "Amarelinha", ela transcende o esporte e se transforma em um verdadeiro manto de orgulho nacional.

A cada Copa do Mundo, o verde e o amarelo tomavam conta das ruas, unindo diferentes classes sociais, crenças e origens em um único sentimento de esperança e celebração. Mais do que vestir atletas, estampar a "amarelinha" sempre foi  celebrar a alegria, a resiliência e a criatividade que caracterizam a alma brasileira, por isso ela precisa voltar a ser um símbolo de união nacional.


Jô Pinto - Itinga/MG

Quilombola, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas 

terça-feira, 9 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda de Izone: O Guia Místico e Protetor dos Garimpos de Padre Paraíso


 

O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é um território onde a dura realidade do garimpo artesanal se entrelaça profundamente com o misticismo e a tradição oral. No município de Padre Paraíso, região rica em pedras preciosas, a escavação não é apenas um ato de trabalho, mas um exercício de fé e sorte. É nesse cenário que ganha força a figura de Izone, um dos mitos mais singulares e reveladores do folclore garimpeiro mineiro.

No imaginário popular do garimpo, Izone é descrito como um homem negro de baixa estatura. A tradição oral o aponta como a alma de um antigo escravizado e garimpeiro, cuja vivência profunda com a terra e com a mineração o dotou de um conhecimento vasto e inacessível aos vivos: ele sabe exatamente onde estão as jazidas de pedras preciosas na região.

Diferente de outras lendas que punem ou geram terror absoluto, a atuação de Izone é marcada por uma ambiguidade protetora. Ele "atenta" os trabalhadores nos túneis e frentes de lavra, aplicando empurrões e causando pequenos sustos. No entanto, longe de ser puramente maléfico, esse incômodo tem um propósito estratégico: fazer com que o garimpeiro abandone um local infrutífero ou perigoso e busque outro lugar para escavar.

A presença de Izone não se limita a afastar os trabalhadores do perigo; ela também sinaliza a abundância. A lenda diz que a entidade se comunica através de simbolismos, deixando pistas visuais na natureza ou nas redondezas da mina. O exemplo mais clássico dessa manifestação é a aparição de uma vaca amarela ou outros sinais insólitos , que servem como um verdadeiro mapa indicando o local exato onde se esconde o cobiçado "bamburro", ou seja, uma descoberta rica e farta de pedras preciosas.

A construção do mito de Izone vai muito além de uma simples história de assombração; ela é um reflexo da história social do Brasil. Ao transformar um homem negro escravizado no grande detentor do saber sobre as riquezas da terra, o garimpeiro do Jequitinhonha reconhece, ainda que de forma mítica, a sabedoria e a ancestralidade negra na formação da própria atividade garimpeira.

Izone atua, portanto, como um guardião das minas e um guia para aqueles que arriscam a sorte na labuta diária. A lenda imortaliza a esperança do trabalhador e valida a crença de que, por trás do árduo trabalho braçal, existe uma força superior profundamente ligada à história e aos sofrimentos do passado que pode, através de sinais e símbolos, conduzir à prosperidade.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base em depoimentos em vídeos e textos da internet. https://www.youtube.com/watch?v=Zql7He5ASpI




 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - ADOBE: Tradição e Inovação


 


O termo “adobe” tem duas origens principais: uma histórica, referindo-se a um material de construção antigo, e outra moderna, ligada à gigante da tecnologia, diferenciando-se pelo artigo “o” ou “a”.

O adobe de construção tem origem árabe, derivado de al-tub, que significa “tijolo” de terra crua, assimilado pelo espanhol e transmitido às Américas. É uma das técnicas construtivas mais antigas do mundo, utilizada desde a Mesopotâmia e o Antigo Egito. Sua produção consiste na mistura de terra e água, à qual se adicionam palhas ou fibras para evitar rachaduras durante a secagem. Os tijolos são moldados em formas retangulares e curados ao ar livre por cerca de 30 dias, dependendo das condições climáticas. Introduzido no Brasil pelos portugueses durante o período colonial, o adobe tornou-se uma solução prática diante da escassez de materiais industrializados, sendo amplamente utilizado em engenhos e cidades rurais. Com a Revolução Industrial, perdeu espaço para o cimento e os tijolos cozidos, considerados mais modernos e duráveis, mas nas últimas décadas voltou a ser valorizado como alternativa sustentável, por seu baixo custo, impacto ambiental reduzido e eficiência energética. Pesquisas recentes apontam para o crescimento do interesse acadêmico e social em sua retomada, além da necessidade de políticas públicas e normas técnicas que consolidem seu uso na construção civil brasileira.

Já a Adobe Inc., fundada em 1982 por John Warnock e Charles Geschke, nasceu em um contexto totalmente diferente, mas igualmente ligado à ideia de construção desta vez, de soluções digitais. Ex-funcionários do Centro de Pesquisa da Xerox, os fundadores perceberam a oportunidade de inovar nos sistemas gráficos e iniciaram a empresa na garagem de Warnock, em Mountain View, Califórnia. O nome foi inspirado no riacho Adobe Creek, que passava atrás da residência de Warnock, e o logotipo estilizado em forma de “A” foi criado por sua esposa, Marva Warnock. O primeiro grande sucesso da empresa foi a linguagem PostScript, licenciada pela Apple em 1985, que revolucionou a editoração eletrônica. A partir daí, a Adobe expandiu seu portfólio com aquisições estratégicas, como a da Macromedia, criadora do Flash, e consolidou-se como líder mundial em softwares criativos. Produtos como Photoshop, Illustrator, Acrobat/PDF, Premiere Pro e InDesign tornaram-se ferramentas indispensáveis para designers, fotógrafos, cineastas e profissionais de comunicação. Com a introdução da Creative Cloud, a empresa transformou o modelo de distribuição de softwares, adotando o sistema de assinatura e ampliando seu alcance global.

Assim, tanto o adobe construtivo quanto a Adobe tecnológica representam formas de edificação: um ergue paredes e comunidades com terra e palha, o outro ergue projetos visuais e digitais com código e design. Ambos são símbolos da engenhosidade humana em épocas distintas, mas unidos pela mesma essência: construir algo duradouro e transformador.




DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"

  Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade , escrito pelo médico infecto...