Entre a poesia e o voo dos pássaros: Fábio Amaral Monte e a arte
de transformar Almenara em literatura
Poeta, compositor, quadrinista, fotógrafo, educador e
observador de aves. Há mais de quatro décadas, Fábio Amaral Monte constrói uma
obra que nasce da memória, da paisagem e da cultura de Almenara, transformando
o cotidiano do Vale do Jequitinhonha em poesia, música e histórias que
atravessam gerações.
Há quem passe a vida inteira procurando
inspiração. Fábio Amaral Monte teve a sorte ou talvez o privilégio de nascer
dentro dela.
Muito antes de publicar livros,
organizar coletâneas literárias, subir aos palcos com bandas de rock ou
registrar aves raras com sua câmera fotográfica, existia um menino que
observava atentamente a paisagem ao redor de casa. O cenário era Almenara, no Vale
do Jequitinhonha/MG, onde a natureza, as ruas de terra, as olarias e o Rio
Jequitinhonha não eram apenas parte da paisagem: eram personagens silenciosos
de uma história que começava a ser escrita.
Hoje, ao olhar para uma trajetória
iniciada ainda na infância, Fábio percebe que nada aconteceu por acaso. O
escritor que publicou Poesia até Agora, organizou o Farol de
Letras, criou quadrinhos, compôs centenas de músicas e se tornou uma das
vozes mais atuantes da cultura Almenarense é o mesmo garoto curioso que nunca
conseguiu ficar parado diante do mundo.
Mais do que um poeta, Fábio é um criador
de universos.
A infância onde tudo começou
Nascido em Almenara,
em 24 de maio de 1974, filho de Hermes Cesário Monte e Maria das Graças Amaral
Campos, Fábio cresceu em uma cidade que lhe ofereceu aquilo que nenhum curso de
escrita poderia ensinar: a capacidade de observar.
Uma das lembranças
mais vivas da infância remete à Rua Argemiro Aguilar, onde morou durante boa
parte da década de 1980. Em frente à casa havia um grande matagal que conduzia
até a antiga Lagoinha, uma extensa lagoa que seguia em direção ao aeroporto. Nos
arredores funcionavam diversas olarias, lugares que fascinavam o menino que
saía de casa acompanhado do irmão para buscar barro e modelar pequenas panelas
e objetos artesanais.
Enquanto fala sobre esse período, é
impossível não perceber que sua memória continua habitando aquelas ruas.
"A paisagem natural de Almenara
sempre me inspirou. O matagal, as olarias, os carreiros, a rua de terra... Tudo
aquilo me impressionava profundamente. Sonhei com essas ruas durante muitos
anos da minha vida."
A natureza, entretanto, não era sua
única fonte de encantamento.
Dentro de casa, outro universo se abria.
O pai chegava trazendo exemplares da
revista A Espada Selvagem de
Conan. Na televisão, desfilavam heróis como
He-Man, Thundercats, Galaxy Rangers, Defensores da Terra e Super Amigos.
Era o combustível perfeito para uma
imaginação inquieta.
Antes mesmo de completar dez anos, Fábio
já havia escrito seu primeiro conto, O
Castelo Voador. Pouco depois nasceu o primeiro super-herói
criado por ele: Estrela de Estéria.
A partir dali, nunca mais parou.
Muito antes dos livros, vieram os quadrinhos
Quem conhece apenas o
poeta talvez não imagine que sua primeira paixão artística tenha sido a
narrativa gráfica.
Ainda criança, Fábio
começou a produzir revistas inteiras à mão. Escrevia, desenhava, criava
personagens, organizava as histórias e acompanhava cada edição como se
estivesse dirigindo uma grande editora.
Em 1986 surgiu a Seleção Estéria.
Vieram 185 edições.
No ano seguinte nasceu a Revista da S.E.
Foram impressionantes 332 edições.
Tudo produzido artesanalmente.
Sem computador.
Sem internet.
Sem editora.
Sem imaginar que, décadas depois,
aqueles personagens continuariam vivos.
Em 2026, os Galaxiadores - equipe de
super-heróis criada ainda na infância - completam quarenta anos de existência.
Para celebrar a data, Fábio decidiu revisitar toda essa produção, reeditando as
sessenta edições mais recentes com novos desenhos, demonstrando que alguns
sonhos realmente envelhecem junto com seus criadores.
"Eu sempre procurei o que
fazer", resume.
A frase parece simples.
Mas explica praticamente toda a sua
trajetória.
Escrever era uma necessidade, não um
projeto de carreira
Ao contrário do que muitos imaginam,
Fábio nunca começou a escrever pensando em publicar livros.
A escrita nasceu muito antes da ideia de
ser escritor.
Nasceu da necessidade de criar.
Nasceu porque as histórias precisavam
existir.
Seu primeiro poema surgiu em 1990.
Mas chegar até ele exigiu persistência.
Desde os onze anos de idade trabalhava
para ajudar nas despesas da família. O salário era destinado quase inteiramente
ao sustento da casa.
Restava pouco.
Às vezes, apenas o suficiente para
comprar algumas revistas em quadrinhos.
Quando faltava material, improvisava.
"Se não tinha
caderno, escrevia no verso de panfletos que o comércio jogava fora. Se não
tinha folha, usava formulários antigos do IPSEMG ou do Banco do Brasil. Quando
acabava a caneta azul, escrevia com a vermelha. Eu só tinha uma certeza:
precisava continuar escrevendo."
Essa talvez seja uma das passagens mais
reveladoras de sua trajetória.
Porque mostra que escrever nunca
dependeu das condições ideais.
Dependia apenas da vontade.
Um escritor sem leitores - e feliz assim
Outra revelação surpreende.
Durante muitos anos, Fábio nunca se
preocupou em ser lido.
Seu compromisso era com a escrita.
"Nunca me preocupei em fazer
minha voz circular. Sempre escrevi para mim mesmo."
Mesmo assim, tratava suas revistas com
um rigor profissional.
Como colecionava revistas da Marvel e da
DC Comics, decidiu que suas próprias publicações também precisavam respeitar
uma periodicidade.
A Seleção Estéria
era semanal.
A Revista da S.E.,
diária.
As datas eram cumpridas rigorosamente.
Não importava se havia leitores.
Importava a disciplina.
Importava o compromisso consigo mesmo.
Quando a poesia encontrou o Vale
Durante muito tempo, seus grandes
referenciais pareciam inalcançáveis.
Carlos Drummond de Andrade.
Pablo Neruda.
Beatles.
Pink Floyd.
Legião Urbana.
Engenheiros do Hawaii.
Artistas gigantes, admirados à
distância.
Foi apenas anos depois que Fábio
descobriu algo transformador.
Havia escritores produzindo literatura
ali mesmo, no Vale do Jequitinhonha.
O encontro com autores como Tadeu
Martins, Cláudio Bento, Caio Duarte e Luís Santiago representou uma mudança
profunda.
Mais do que conhecer novos livros, ele
percebeu que também era possível escrever sobre Almenara, sobre o Vale, sobre o
cotidiano das pequenas cidades.
Foi nesse momento que aconteceu uma
espécie de reconhecimento.
"Quando li
livros produzidos por escritores daqui, tive certeza de que meus livros
artesanais também eram livros de verdade. E que eu era, de verdade, um
poeta."
Essa descoberta ampliou seus horizontes.
A partir dali, Minas Gerais e o Vale do
Jequitinhonha passaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua produção
literária.
Não como limite.
Mas como ponto de partida para falar do
mundo.
O poeta que aprendeu a ouvir o silêncio
Há escritores que colecionam livros.
Fábio Amaral Monte coleciona lembranças.
Talvez seja por isso que Poesia até
Agora, lançado em 2025, não seja apenas um livro de poemas. É também um
álbum de memórias, onde a infância, a juventude, os encontros e as descobertas
caminham lado a lado. Cada texto guarda um pedaço da vida de quem o escreveu e,
ao mesmo tempo, desperta no leitor a sensação de revisitar a própria história.
Reunir trinta e cinco anos de produção
literária poderia parecer apenas um exercício de organização. Para Fábio, foi
muito mais do que isso.
Foi uma viagem.
"Foi como
viajar no tempo. O curioso é que o tempo passa, mas a primeira impressão
permanece. Reler minhas poesias fez com que eu voltasse a sentir exatamente o
que senti quando as escrevi."
Ao reencontrar versos escritos na
adolescência, percebeu que não estava apenas diante de palavras antigas. Estava
diante do jovem que um dia foi.
Entre todas as lembranças, uma lhe
arrancou um sorriso.
Aos dezesseis anos, escreveu um poema
reclamando da pouca idade.
Hoje, relendo aquele texto, diverte-se
com a ironia do tempo.
"Eu tinha uma vida inteira pela
frente e estava achando ruim não ser mais velho. Vai entender."
Mas a organização de Poesia até
Agora seguiu um caminho diferente do que muitos esperariam.
Em vez de reunir apenas os poemas
considerados mais fortes, Fábio decidiu que cada um dos trinta e cinco anos de
sua caminhada deveria estar representado.
Era uma forma de mostrar que a poesia
também amadurece.
Que o escritor de hoje só existe porque
um menino, décadas atrás, insistiu em escrever mesmo quando ninguém o lia.
Para completar essa travessia, escreveu
um poema inédito, justamente o último do livro.
Chamou-o de Poesia
até Agora.
Nele, transformou em versos a própria
trajetória.
É como se o livro terminasse exatamente
onde outra história começa.
A poesia como um modo de viver
Enquanto muitas pessoas enxergam a
poesia como algo distante da vida cotidiana, Fábio pensa exatamente o
contrário.
Para ele, a literatura não pertence
apenas aos livros.
Ela acontece na forma como observamos o
mundo.
Acontece quando alguém desacelera.
Quando escolhe silenciar.
Quando decide prestar atenção.
Em tempos dominados pela velocidade das
telas e pela avalanche de informações, ele acredita que abrir um livro continua
sendo um gesto de resistência.
"Reservar um
tempo para sentar numa poltrona, no sofá ou mesmo na cama para ler já consiste,
por si só, numa prática de bem viver."
A leitura, segundo ele, exige entrega.
Paciência.
Disponibilidade.
Qualidades cada vez mais raras na vida
contemporânea.
E a poesia amplia essa experiência.
Não oferece respostas prontas.
Convida o leitor a enxergar aquilo que
sempre esteve diante dos olhos, mas que a pressa impede de perceber.
"A poesia tem a missão de nos
fazer acordar enquanto sonhamos", afirma.
Essa talvez seja a melhor definição de
sua própria obra.
Seus poemas falam de rios, ruas,
infância, pessoas simples, encontros, dúvidas e paisagens do interior.
Mas, por trás de cada imagem, existe
sempre uma reflexão sobre o tempo, a existência e as relações humanas.
Entre Drummond e o rock
Quem conhece apenas os poemas de Fábio
pode imaginar que sua formação literária foi construída exclusivamente pelos
grandes escritores.
Não foi.
Ao lado de Carlos Drummond de Andrade e
Pablo Neruda havia outra escola igualmente importante.
O rock.
Legião Urbana.
Pink Floyd.
Beatles.
Engenheiros do Hawaii.
Essas bandas ajudaram a formar não
apenas seu gosto musical, mas também sua forma de pensar.
Por isso, nunca enxergou conflito entre
delicadeza e contestação.
A poesia pode denunciar.
O rock também pode emocionar.
As duas linguagens convivem naturalmente
dentro dele.
Ao lembrar um verso de Drummond — "Eu
preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças"
— e uma frase de Humberto Gessinger — "É preciso fé cega e pé
atrás" — Fábio revela uma característica constante de sua escrita.
O equilíbrio.
Seus poemas contemplam a beleza do
cotidiano sem ignorar as desigualdades.
Questionam sem perder a ternura.
Criticam sem abrir mão da esperança.
Para ele, a arte precisa despertar
consciência, mas também empatia.
Porque nenhuma transformação acontece
sem humanidade.
Cada linguagem encontra seu próprio caminho
É difícil resumir Fábio Amaral Monte em
apenas uma palavra.
Poeta?
Também.
Compositor?
Sem dúvida.
Quadrinista.
Fotógrafo.
Pesquisador da memória cultural.
Educador.
Organizador de livros.
Todas essas definições cabem.
Mas nenhuma dá conta do conjunto.
Curiosamente, ele explica que nunca
começa um projeto sem saber exatamente onde aquela ideia irá desembocar.
Quando escreve um poema, sabe que será
poema.
Quando surge uma música, ela nasce como
música.
Quando imagina uma aventura dos
Galaxiadores, pensa imediatamente na linguagem dos quadrinhos.
Embora conversem entre si, cada forma de
expressão possui sua própria arquitetura.
Sua própria respiração.
Sua própria música.
Ainda assim, todas carregam a mesma
assinatura.
São maneiras diferentes de contar
histórias.
O homem que prefere os pássaros aos palcos
Talvez poucas pessoas imaginem que uma
das maiores paixões de Fábio não esteja ligada nem à literatura nem à música.
Está no voo das aves.
Desde dezembro de 2019, quando
participou de sua primeira passarinhada, passou a dedicar parte significativa
do tempo à observação e ao registro fotográfico da avifauna do Vale do
Jequitinhonha.
O resultado impressiona.
Já catalogou 474
espécies, contribuindo para que Almenara se tornasse o
município mineiro com o maior número de registros publicados na plataforma
WikiAves, referência nacional em observação de aves.
Mas os números, para ele, são apenas
consequência.
O verdadeiro aprendizado acontece
durante a espera.
Fotografar um pássaro exige paciência.
Silêncio.
Escuta.
Tempo.
Exatamente como escrever um poema.
"Uma foto bem feita não mostra
apenas uma ave. Ela revela luz, composição, paisagem, contraste, enquadramento,
texturas e cores."
É impossível não perceber a semelhança
entre esse olhar e sua maneira de escrever.
Assim como o fotógrafo espera o instante
exato em que o pássaro pousa, o poeta também sabe que cada palavra possui seu
próprio tempo.
No fim da entrevista, ao revelar um
aspecto pouco conhecido de sua personalidade, Fábio surpreende.
Apesar de já ter se apresentado em
diversos palcos com bandas de rock, confessa que existe um lugar onde realmente
se sente inteiro.
"No fundo, gosto muito mais de
estar numa passarinhada, no meio do mato, do que em cima de um palco."
Talvez porque ali, longe do barulho,
seja mais fácil ouvir aquilo que sempre alimentou sua obra.
O silêncio.
Quando a literatura deixa de ser individual e se torna um farol
Ao longo da conversa, uma palavra
aparece repetidas vezes, ainda que Fábio Amaral Monte nunca a diga
explicitamente: coletividade.
Embora tenha começado escrevendo
sozinho, produzindo revistas que quase ninguém lia e poemas que guardava para
si, o tempo transformou aquele escritor solitário em alguém que faz questão de
dividir espaço, abrir portas e construir pontes.
Talvez o exemplo mais significativo
dessa mudança seja o Farol de Letras.
A ideia nasceu quase por acaso.
Em determinado momento, Alba Valéria,
então ligada à Secretaria Municipal de Cultura de Almenara, convidou Fábio para
desenvolver um projeto cultural. Ela imaginava um documentário ou um
videoclipe. Ele fez uma contraproposta.
"Posso publicar um livro?"
A resposta foi sim.
O que poderia se transformar em uma
publicação individual tomou outro rumo.
Em vez de lançar apenas sua própria
obra, Fábio decidiu reunir escritores da cidade.
Nascia, assim, Farol de Letras – Almenara em Prosa e Verso,
a primeira coletânea literária publicada no município.
Mais do que organizar textos, ele quis
construir um retrato coletivo da produção cultural Almenarense.
Convidou dezoito escritores.
Chamou a cantora e pesquisadora Déa
Trancoso para escrever o prefácio.
Luiz Edmundo Alves assinou o texto de
orelha.
Alba Valéria escreveu o posfácio.
Lucas Amaral Monte produziu caricaturas
dos autores.
Uma obra do artista plástico Diomilton
Ferraz, fotografada pelo próprio Fábio, tornou-se a capa do livro.
As fotografias internas, registrando
paisagens de Almenara, também são de sua autoria.
Até o local do lançamento carregava
significado.
O tradicional Clube dos Operários foi
escolhido por representar um dos espaços mais simbólicos da história social e
cultural da cidade.
"O mais bonito", lembra
Fábio, "foi descobrir que estávamos fazendo história."
O projeto cresceu.
Vieram novos escritores.
Uma segunda edição.
Hoje, o grupo reúne mais de trinta
autores, demonstrando que a literatura produzida no Vale continua viva e em
expansão.
O Vale sempre foi um celeiro de cultura
Durante muito tempo, o Vale do
Jequitinhonha foi lembrado quase exclusivamente por seus indicadores sociais.
Fábio conhece bem essa narrativa.
Mas prefere olhar para outro aspecto.
Para ele, criatividade nunca faltou ao
povo do Vale.
O que faltavam eram oportunidades.
Ao refletir sobre o crescimento da
produção artística regional, ele reconhece a importância de políticas públicas
de incentivo à cultura, da descentralização dos recursos e do surgimento das
redes sociais, que democratizaram a divulgação do trabalho de artistas
independentes.
Lembra que, quando começou a escrever,
publicar um livro significava enfrentar distâncias, altos custos e a ausência
de editoras próximas.
Hoje, basta um celular para apresentar
um poema ao mundo.
Mas faz questão de destacar que o
talento já existia muito antes da internet.
"O Vale sempre foi uma potência
cultural. Nosso povo aprendeu, desde cedo, a criar com aquilo que tinha nas
mãos."
É um pensamento coerente com sua própria
trajetória.
Afinal, foi exatamente assim que ele
começou.
Educar também é cultivar futuros leitores
Embora trabalhe atualmente na
Superintendência Regional de Ensino de Almenara, atuando na área de Educação
Especial, Fábio continua profundamente ligado ao universo escolar.
Sempre que é convidado para conversar
com estudantes, faz questão de compartilhar sua própria história.
Não para transformá-la em exemplo.
Mas para mostrar que a criação artística
nunca dependeu das condições perfeitas.
Conta que escrevia em panfletos
descartados.
Que reaproveitava formulários antigos.
Que produzia revistas inteiras sem
imaginar que um dia publicaria livros.
Ao observar a juventude de hoje, percebe
um cenário muito diferente daquele que viveu.
Reconhece as facilidades proporcionadas
pela tecnologia, mas acredita que elas também trouxeram novos desafios.
Na sua visão, a rapidez das redes
sociais muitas vezes reduz o tempo da contemplação, da leitura e da criação.
Sem fazer críticas simplistas, prefere
lançar um convite.
Se antes era possível criar com tão
pouco, imagina o quanto as novas gerações podem produzir tendo tantas
ferramentas à disposição.
Mais do que incentivar leitores, Fábio
procura despertar criadores.
Essa postura aparece em praticamente
tudo o que faz.
Quando organiza um show, convida outros músicos.
Quando divulga um livro, apresenta
autores da região.
Quando cria um projeto, pensa primeiro
no coletivo.
"Se oportunidades me foram
dadas, hei de oportunizá-las também."
A frase resume uma filosofia de vida.
Os próximos capítulos dessa história
Engana-se quem imagina que, depois de
mais de quarenta anos produzindo arte, Fábio esteja diminuindo o ritmo.
Ao contrário.
Os projetos continuam surgindo com a
mesma intensidade da infância.
Em 2026, os Galaxiadores, equipe de super-heróis
criada ainda na década de 1980, completam quarenta anos.
Para celebrar a data, ele iniciou a
reedição das sessenta revistas mais recentes, acrescentando novos desenhos e
revitalizando personagens que o acompanham desde menino.
Também foi convidado para organizar o
segundo livro de poemas do escritor Alzito Fonseca.
Participará da segunda coletânea de
contos e crônicas do Coletivo de Escritores do Vale do Jequitinhonha com o
conto A Mulher de Sete
Metros.
E prepara o lançamento de seu segundo
livro solo de poesia, Novos Poemas Reunidos,
previsto para o final deste ano.
A impressão é de que Fábio continua
fazendo exatamente o que fazia aos dez anos de idade.
A diferença é que, agora, há leitores
esperando por suas próximas histórias.
Nos bastidores do poeta
Quando a entrevista se aproxima do fim,
o escritor deixa de lado datas, projetos e livros.
Passa a falar do homem.
Conta que as melhores ideias costumam
surgir durante as caminhadas.
Revela que utiliza a Inteligência
Artificial apenas para reconstruir visualmente os super-heróis que imaginou
ainda na infância, insistindo até que cada desenho fique exatamente como
existia em sua memória.
Confessa, com bom humor, que entende "lhufas"
de tecnologia e que nem sabe dizer a marca do próprio celular.
Diz não torcer para nenhum time de
futebol.
Afirma ser extremamente caseiro.
Agradece, diariamente, pelas
oportunidades que recebeu.
Fala com orgulho da esposa, Marilde,
grande incentivadora de sua caminhada artística.
E emociona-se ao mencionar as filhas,
Vitória e Júlia, por quem declara um amor imenso.
Há ainda uma revelação curiosa.
Apesar de toda a experiência nos palcos,
onde apresentou suas músicas com diferentes bandas de rock, ele admite que
existe um lugar onde se sente verdadeiramente feliz.
"Prefiro estar numa
passarinhada, no meio do mato, do que num palco."
Talvez porque ali, entre árvores, rios e
pássaros, esteja o mesmo menino que um dia caminhou pelas ruas de terra de
Almenara imaginando castelos voadores, super-heróis e poemas.
Um homem que continua escrevendo a própria história
Ao terminar esta conversa, fica a
impressão de que Fábio Amaral Monte nunca perseguiu fama, prestígio ou
reconhecimento. Seu compromisso sempre foi outro: criar.
Criar mesmo quando faltavam papel e
caneta.
Criar quando os livros pareciam um sonho
distante.
Criar sem saber se alguém leria.
Criar porque essa sempre foi sua maneira
de compreender o mundo.
Ao longo de mais de
quatro décadas, esse menino que moldava brinquedos de barro, inventava heróis,
escrevia revistas artesanais e sonhava diante da paisagem de Almenara
transformou-se em poeta, compositor, fotógrafo, educador e articulador
cultural. Mas, acima de tudo, permaneceu fiel ao gesto que deu origem a tudo: o
de observar com atenção e transformar a experiência vivida em arte.
Sua trajetória também
revela a força criativa do Vale do Jequitinhonha. Uma região que, muito além
dos estereótipos, continua produzindo escritores, músicos, artistas visuais,
artesãos e narradores capazes de transformar memória em patrimônio e cotidiano
em literatura.
No fim da entrevista, Fábio deixa um
recado simples, mas que resume a essência de toda a sua caminhada: deseja que
cada leitor se aproxime um pouco mais da cultura produzida no Vale.
É um convite difícil de recusar.
Porque, depois de conhecer sua história,
entendemos que a poesia não mora apenas nos livros.
Ela também vive nas ruas de terra, nas
águas do Jequitinhonha, no silêncio das matas, no voo dos pássaros e na
persistência de quem nunca deixou de acreditar no poder transformador da arte.
Por
Soll Santos










