quinta-feira, 21 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura: Dissertação sobre as Antologia Poéticas do Jequitinhonha I e II do Professor Thiago Machado de Matos


 

A dica de leitura da semana é a dissertação Palavras em suor maior: duas antologias poéticas do Baixo Jequitinhonha na década de oitenta, defendida pelo pesquisador Thiago Machado de Matos Silva na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Muito além de ser um trabalho acadêmico, trata-se de uma leitura essencial para entender como a literatura do Vale do Jequitinhonha se estrutura a partir de uma relação direta com o território, a memória e a experiência coletiva.

O estudo parte de duas obras centrais da poesia regional: Jequitinhonha: Antologia Poética (1982) e Jequitinhonha: Antologia Poética II (1985).

Esses livros reuniram poetas que ajudaram a consolidar uma identidade literária própria no Vale, entre eles Tadeu Martins, José Machado de Mattos, Wesley Pioest, Gonzaga Medeiros e Jansen Chaves. Mais do que simples coletâneas, essas obras funcionaram como registros de um movimento cultural em que a poesia passa a ser também uma forma de leitura e afirmação do território.

Um dos conceitos mais importantes da dissertação é a ideia de uma “poética de conhecimento da terra”, que ajuda a entender que essa produção literária não descreve o Vale de fora, mas nasce dele. O rio Jequitinhonha, por exemplo, aparece não apenas como paisagem, mas como presença viva e simbólica, atravessando os poemas como personagem e memória ao mesmo tempo. Em alguns momentos, especialmente na leitura da obra de José Machado de Mattos, o rio se transforma em uma espécie de “rio da memória”, onde experiência individual e história coletiva se misturam.

 A dissertação também observa como essa poesia trabalha o tempo e a transformação. No caso de José Machado, o rio surge tanto como marca de vitalidade quanto como sinal de mudança e desgaste histórico, especialmente a partir do final do século XX. Já em outros autores, como Wesley Pioest, a cidade surge como construção fragmentada, feita de camadas de lembranças, como se fosse um espaço atravessado por múltiplos tempos.

Na década de 1980, as antologias surgiram como parte de um movimento cultural fundamental no Baixo Jequitinhonha, reunindo poetas que buscavam afirmar uma voz própria dentro da literatura mineira. Décadas depois, Thiago Machado de Matos Silva retomou esse material em sua pesquisa de mestrado, oferecendo uma leitura crítica que organiza e amplia o sentido dessas obras. Após sua defesa, a dissertação passou a circular amplamente em formato digital, tornando-se referência para estudos sobre literatura regional.

O principal mérito do trabalho está em dar forma conceitual a algo que já aparecia na prática poética do Vale: a ideia de que o Jequitinhonha não é apenas tema literário, mas uma forma de linguagem e pensamento.

 Para quem se interessa por literatura brasileira contemporânea, cultura mineira ou estudos de território, trata-se de um mergulho que ajuda a perceber como poesia, memória e espaço se organizam de forma inseparável.

 

Referência:

SILVA, Thiago Machado de Matos. Palavras em suor maior: duas antologias poéticas do Baixo Jequitinhonha na década de oitenta. 2012. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Montes Claros, Unimontes, Montes Claros, 2012.

 

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terça-feira, 19 de maio de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - João Jiló



para o lado do Jequitinhonha, havia um menino, atentado, malcriado, traquinas toda vida. O nome dele era João Jiló.

Estava na época de Semana Santa (lá no interior, dizem que, na época de Semana Santa, o pessoal costuma ficar quieto em casa, não fala alto, não liga rádio, ninguém casa, ninguém dança em época de Semana Santa). O João Jiló, atentado demais, cismou que ia sair para o mato para passarinhar. A mãe dele disse:

– Menino, ocê não vai não que vai acontecer alguma coisa ruim com cê, porque época de Semana Santa não é época da gente matar nada.

João Jiló, teimoso demais, pegou a espingardinha, colocou ela nas costas e saiu.

Andou, andou, andou... Chegou lá, tinha uma árvore alta e, no alto, tinha um passarinho. Era um passarinho diferente do que se estava acostumado a ver, mas o menino nem ligou. Pegou a espingardinha, assim, fez a mira e, quando ele foi pra puxar o gatilho, o passarinho cantou:

    Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

Mas o menino nem ligou para aquela cantoria, puxou o gatilho e derrubou o passarinho no chão. Ele foi se aproximando e, quando foi para apanhar o bichinho, não é que ele cantou de novo?

    Não me panha não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

O menino, que não estava nem aí para aquela cantoria, pegou o passarinho e pegou o caminho de casa. No meio do caminho, ele come-çou a pensar: Eu não vou levar esse passarinho pra casa não, porque mãe não vai deixar eu mexer nele. Eu vou arrumar ele aqui mesmo. Mas, quando ele foi arrancar a primeira pena do passarinho, olha a danada da cantoria aí de novo:

    Não me despena não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino depenou o passarinho; depois ele acendeu um fogo para sapecar o passarinho. Quando a chama estava alta, o menino foi para chegar o passarinho no fogo, a tal da cantoria de novo:

 

    Não me sapeca não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para aquela cantoria do passarinho e sapecou o bicho. Sapecou ele bem sapecadinho; depois correu com ele lá para o rio para partir o bicho. Mas ele foi para partir o passarinho, a tal da cantoria de novo:

      –  Não me parte não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino, que não estava nem aí, partiu o passarinho. Lavou ele bem lavadinho e depois deixou ele lá no sol uns dois dias secando. Depois do bichinho bem seco ainda era época de Semana Santa, ele foi para cozinha, escondido da mãe, para fritar. Colocou a gordura no fogo. Quando ela estava pipocando, que o menino foi para jogar o passarinho lá dentro, olha ele cantando de novo:

  Não me frita não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino fritou o passarinho, bem frito. Quando ele foi para comer, não é que ele cantou ainda pela derradeira vez?

  Não me come não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para o bicho cantando e comeu o passarinho. Mas depois que ele comeu o passarinho, a barriga dele começou a crescer, a estufar, até virar um mundo de barriga. de den-tro da barriga dele, começou a sair uma voz. A voz falava assim:

  Ui, ui, eu quero sair. O menino falou:

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Não falei? Se você quer sair, você sai disse o menino.

De repente, TUUUMMM!!!!!! A barriga do menino estourou e o passarinho foi embora. E dizem que o passarinho está por aí até hoje, voando e cantando a tal da musiquinha:

  Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

 

  Essa história foi contada pelo contador Francisco Lourenço Borges. E esta n livro  Histórias contadas no Jardim Mandala” Organizado por Josiley Souza - FALE/UFMG -  2018

segunda-feira, 18 de maio de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - GARI: uma história de cidadania e cuidado que começou no século XlX

A história da limpeza urbana no Brasil é também a história da cidadania. Em 1830, o Império decretou pela primeira vez a obrigatoriedade do descarte correto de resíduos, reconhecendo que a higiene das cidades era questão estratégica de saúde pública. Foi nesse contexto que, na segunda metade do século XIX, surgiu a figura do Profissional de Limpeza Urbana, popularmente conhecido como gari.  O nome é uma homenagem a Pedro Aleixo Gary, empreendedor francês que, em 1876, fundou a primeira empresa de coleta de lixo e limpeza urbana no Rio de Janeiro. Ele introduziu uniformes, carrinhos e horários definidos de coleta, transformando a paisagem da cidade e trazendo mais bem-estar à população. O modelo se espalhou pelo país e, desde então, o termo “gari” passou a designar os trabalhadores que cuidam das ruas e espaços públicos.

A origem do serviço público de limpeza urbana está ligada diretamente ao combate a surtos de doenças como febre amarela, cólera e varíola. Desde então, os garis se tornaram indispensáveis para a saúde coletiva, a dignidade urbana e a sustentabilidade ambiental. Hoje, esses profissionais atuam em diversas frentes: da coleta domiciliar e seletiva à varrição de ruas, da limpeza de praças e praias à manutenção da rede de drenagem e ações preventivas contra alagamentos. São milhares de homens e mulheres que, com dedicação diária, mantêm as cidades funcionais, organizadas e mais humanas.

O Dia Nacional do Profissional de Limpeza Urbana, celebrado em 16 de maio, é mais que uma data simbólica. É um convite à valorização de uma profissão que carrega consigo uma história de transformação urbana e cidadania. Ainda que indispensáveis, os garis enfrentam invisibilidade e estigmas sociais, mas seu papel é inquestionável: não há saúde pública, dignidade urbana ou sustentabilidade sem o trabalho desses homens e mulheres. Valorizar os garis também significa assumir nossa responsabilidade como cidadãos. Pequenos gestos fazem diferença: descartar corretamente o lixo, separar resíduos recicláveis, evitar jogar lixo nas ruas e tratar com respeito e gentileza quem trabalha por nossa qualidade de vida. Neste mês de maio, ao celebrarmos o Dia do Gari, celebramos também o compromisso coletivo com cidades mais limpas, conscientes e justas, onde esses profissionais recebam o respeito e a dignidade que merecem e onde cada cidadão se lembre de que cuidar do espaço público é cuidar de todos nós.

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sábado, 16 de maio de 2026

GIRO PELO VALE - Itinga se despede da Mestra dos Cantos dos Benditos " Dalva "



É com profundo respeito e gratidão que Itinga se despede de Dalvina Soares Pereira, carinhosamente conhecida por todos como  Dalva.

Nascida na comunidade do Frade em 7 de novembro de 1942,  Dalva construiu sua vida na comunidade da Água Fria Fábrica. Foi casada com José Maria  "Carnaval", com quem compartilhou a dádiva de ter seis filhos e ver sua árvore familiar florescer.

Sua voz, marcante e potente, era a alma das nossas tradições, ela estava presente nos terços e nas folias, mas era na Sexta-feira Santa, durante a adoração do Senhor Morto, que o seu canto tocava o mais profundo de nossos corações, com uma fé inabalável, ela entoava  benditos, ladainhas e incelências, mantendo viva a chama da nossa cultura e da religiosidade.

Seu valor imensurável para a nossa identidade foi reconhecido ainda em vida, quando recebeu o prêmio da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura, Governo Federal, etapa do município de Itinga em 2025, como "Mestra dos Benditos" uma honraria mais do que merecida para quem dedicou a vida a guardar nossas memórias cantadas.

O nosso eterno obrigado, Mestra Dalva.

 

Assim ela descreveu seu amor ao cantos dos Benditos

Meu nome é Dalvina, mas sou mais conhecida como Dalva. Sou uma das filhas de Jusina. Eu e meus irmãos passávamos a noite nos presépios e, na Sexta-feira Santa, ela ensinava a todos os filhos as rezas e os benditos, eu mesma comecei a aprender quando tinha 9 anos e nunca mais parei.

Então, hoje continuo tendo aquele compromisso de cantar nos presépios toda vez que me convidam, se eu estiver bem, vou com o maior prazer. Mas a Semana Santa é o principal: toda sexta-feira, eu vou lá adorar o Senhor Morto e cantar os benditos. Tem ano que não consigo ir devido à idade. Hoje são poucas as pessoas que sabem os benditos antigos; eu e meus irmãos sempre cantávamos, mas muitos deles já morreram: o Timirim, a Dê de Flora, a Dedê (minha sobrinha) e a minha amiga Lozina. Mas hoje também está diferente: antes a gente ficava a noite toda na igreja, e hoje não fica mais.

Eu me sinto bem. As pessoas gostam quando eu canto os benditos, acham bonitos e isso também ajuda na fé das pessoas, na minha e na dos outros. Eu canto por gosto, é uma forma de rezar, e acho que isso faz bem para os outros.

 

Entrevista feita por sua filha Rita para concorrer ao prêmio da Politica Nacional Aldir Blanc do município de Itinga.


Para mim é uma despedida pela força da mulher negra que manteve viva a tradição dos benditos na sexta-feira santa, mas também como membro da família, ela foi s segunda esposa de meu avô.

Vai na luz!

 

A Mestra dos Benditos

Jô Pinto – Itinga/MG

 

Nasceu menina com os olhos atentos,

Ouvindo da mãe o que o tempo guardou.

Tinha nove anos, primeiros acentos,

E a voz de Jusina em sua alma ecoou.

Aprendeu a reza, o canto, o lamento,

E nunca mais a sua voz silenciou.

 

Caminha a noite nos Santos Presépios,

A fé é a vela que acende o olhar.

Se o corpo permite, vencendo o tempo,

 Lá vai a Dalvina, de pronto, cantar.

Na Sexta da Paixão, nos dias mais sérios,

Ao Senhor Morto ela vai adorar.

 

Chora a saudade de quem já partiu,

Do canto dos irmãos que o vento levou:

Que a morte apartou.

A igreja mudou, o silêncio caiu,

Mas dentro de Dalva o bendito ficou.

 

Pois poucos são hoje os que sabem o tom

E a nota antiga da reza fiel.

Um elo sagrado da terra com o céu.

Aos olhos do povo, traz paz ao rosto,

 Erguendo da fé o mais lindo véu.

 

Cantadora da vida, da reza e do amor,

Que ajuda a alma do outro a crer.

Sua voz é remédio que acalma a dor,

É herança viva que não vai morrer,

Pois foi um dom dado por Deus, Nosso Senhor.

 

Link – Ela cantando o Bendito a Escrava Feliciana

https://youtu.be/6fi20w2mZ_A?si=Q1gTU95xyMi_-kfO

quinta-feira, 14 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura da semana: Rio de Palavras II – Antologia dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha


 

O livro é um convite para mergulhar na rica literária, cultural e afetiva do Vale do Jequitinhonha. Mais que uma coletânea, a obra reúne vozes, memórias e sentimentos de autores que transformam o Jequitinhonha em poesia e prosa, revelando a força criativa e a identidade de um território marcado por sua diversidade e potência cultural.

A literatura do Vale do Jequitinhonha ganhou recentemente mais uma importante obra com o lançamento de Rio de Palavras II, segunda coletânea organizada pelo Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale. O livro reúne 36 autores(as), em textos que traduzem a alma, as memórias e os múltiplos olhares de quem vive e escreve a partir desse território.

Organizada por Jô Pinto, a publicação foi lançada em 2025 e apresenta, em suas 196 páginas, um amplo panorama da produção literária regional, reafirmando a riqueza de um Vale historicamente reconhecido por sua força cultural e artística.

No prefácio da obra, o professor Márcio Simeone, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), define a antologia como “um encontro de vozes, em verso e prosa, que traduzem a alma de um lugar”. Para ele, o rio Jequitinhonha aparece como símbolo central da coletânea: metáfora de movimento, memória e ligação entre passado e futuro, conduzindo um verdadeiro “caudal de vozes” que nasce nas serras e segue para o mundo.

Ao longo das páginas, o leitor encontra temas que dialogam com o cotidiano e a essência do povo do Vale: os murmúrios do rio, o cheiro do barro queimado, os cantos ancestrais, as festas populares, os acordes das violas, o trabalho das lavadeiras e dos pescadores, mas também as marcas da resistência diante da seca, das desigualdades e das lutas históricas da região. É justamente desse encontro entre beleza e resistência que nasce a força da obra.

Como parte das ações de divulgação, o livro também foi tema do primeiro episódio da segunda temporada do projeto Tomando Conhecimento, iniciativa do Movimento dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha que busca ampliar a visibilidade dos escritores da região e levar sua produção para novos públicos.

Mais que uma coletânea literária, Rio de Palavras II se consolida como um registro afetivo, cultural e histórico do Jequitinhonha; um território de muitas vozes, histórias e encantamentos que continuam ecoando por meio da palavra.

Ficha do livro

Rio de Palavras II – Antologia dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha
Organização: Jô Pinto

Capa: Antonio Carmona

Editora: Arejo
Ano: 2025
196 páginas

 

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terça-feira, 12 de maio de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda da Noiva da Cavalhada


 

Contam os mais velhos que a muito tempo atrás, quando Turmalina-MG ainda era o Arraial de Nossa Senhora da Piedade das Minas Novas, havia uma moça chamada Clara Godinho da Silva, que era apaixonada por um rapaz bem sucedido e muito conhecido do lugar. O Desejo dela era de se casar com ele na igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade. Mas ela era pobre e não tinha nenhum dote para o casamento. Dote era a transferência de bens materiais da noiva ou da família dela para o noivo ou para a família dele, para facilitar a aceitação da proposta de casamento, por exemplo: terra, dinheiro, joias...

Clara era órfã de pai e mãe e ninguém de sua família tinha nada para ajudá-la na busca da realização do sonho de se casar.

Quanto custa o amor de uma pessoa? Alguém seria capaz de comprá-lo?

Aquela moça gostava muito do rapaz e estava determinada a ir em busca do seu objetivo. Nem que, se para isto, fosse preciso vender a própria alma ao diabo.

De maneira misteriosa, como que de uma noite para o dia, a jovem apareceu cheia de bens e os ofereceu a família do rapaz juntamente com a proposta de casamento que foi aceita e brevemente anunciado o grande dia da cerimônia.

Mas algo que está além da nossa capacidade de compreensão aconteceu no dia do tão esperado matrimônio: tudo preparado, a igreja estava toda enfeitada e cheia de gente.

Todo mundo aguardava com encantamento a entrada do noivo. E como sempre acontece nos casamentos, o atraso faz parte das emoções. Então a noiva chegou radiante e bela! Prestes a realizar o seu sonho encantado. Ela viu que o noivo não estava lá. Mas não preocupou. Pensou que ele chegaria logo.

Aconteceu que o atraso foi ficando extenso. Aos poucos, a emoção e a expectativa foram dando lugar a apreensão e a tristeza. O cansaço pela espera do noivo foi vencendo os padrinhos, os convidados e o próprio Padre. A igreja foi esvaziando e a noiva ficou sozinha no altar. Desesperada, gritou pedindo socorro ao Vigário que a respondeu com tristeza e compaixão:

- Não posso fazer nada! Você está na casa de Deus! Aqui não entra nada que é combinado com o Diabo! Você fez um pacto com o Demônio! Não se pode amar a Deus e ao dinheiro! Sinto muito, minha filha!

Diante da resposta do Vigário, ela saiu da igreja, desceu a rua que atualmente se chama Caçaratiba, foi em direção a Cavalhada onde hoje é a Escola Estadual Lauro Machado e lá se matou.

Esse acontecimento foi numa época em que não havia energia elétrica. Dizem que a partir daquele dia, principalmente nas sextas-feiras, na batida da meia noite do relógio da matriz, uma noiva sai da igreja e faz o mesmo percurso. E ela costuma fazer isso também quando é noite de lua cheia e quando a cidade escurece por falta de energia. Ela vai a procura de um noivo pra casar. Muitos andantes da noite se depararam com a assombração e contaram aterrorizados sobre o que viram.

Um fato curioso: Hoje naquele mesmo lugar há uma Gameleira plantada. Como no tempo antigo. Será mera coincidência? Existem rumores que afirmam que este seja o motivo de se ouvir barulhos estranhos dentro da Escola Estadual Lauro Machado quando todas as pessoas saem de lá e as luzes se apagam.

Será que a Noiva da Cavalhada continua mesmo em busca da realização do seu sonho? Um amor vai e outro vem. Quem sabe! O próximo pretendente de Clara poderá ser você!


Conto publicado por Gilmar Souza  em https://www.recantodasletras.com.br

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A fascinante história da cartografia


 

A cartografia acompanha a humanidade desde tempos imemoriais. Muito antes da escrita, já existiam representações territoriais na pré-história, revelando a necessidade do ser humano de se localizar e se deslocar. Mapear o espaço foi, desde cedo, uma forma de compreender o mundo e garantir a sobrevivência.

No Brasil, o primeiro registro cartográfico remonta a apenas cinco dias após o Descobrimento, em 1500. O astrônomo da frota de Pedro Álvares Cabral, conhecido como Mestre João, anotou a latitude da Baía de Cabrália, hoje Porto Seguro. Esse documento, enviado a Portugal junto com a célebre carta de Pero Vaz de Caminha, é considerado o marco inicial da cartografia brasileira. Curiosamente, à época ainda se utilizava o Calendário Juliano; convertendo para o Gregoriano, a data corresponde a 6 de maio de 1500.

Durante as Grandes Navegações, a cartografia tornou-se essencial para a expansão marítima e a descoberta de novos territórios. Foi nesse período que se consolidou como ciência moderna, evoluindo junto às grandes revoluções científicas. Com o passar dos séculos, as técnicas se aperfeiçoaram, e hoje, graças ao uso de computadores e instrumentos de alta precisão, os mapas alcançam níveis de detalhamento antes inimagináveis. Mas engana-se quem pensa que o trabalho do cartógrafo se resume a produzir mapas. Esse profissional atua em projetos de mapeamento aplicados ao meio ambiente, gestão urbana, turismo, planejamento territorial e muito mais. A cartografia, portanto, é uma ciência viva, que continua a se reinventar e a desempenhar papel crucial na forma como compreendemos e organizamos o espaço em que vivemos.

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DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura: Dissertação sobre as Antologia Poéticas do Jequitinhonha I e II do Professor Thiago Machado de Matos

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