terça-feira, 9 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda de Izone: O Guia Místico e Protetor dos Garimpos de Padre Paraíso


 

O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é um território onde a dura realidade do garimpo artesanal se entrelaça profundamente com o misticismo e a tradição oral. No município de Padre Paraíso, região rica em pedras preciosas, a escavação não é apenas um ato de trabalho, mas um exercício de fé e sorte. É nesse cenário que ganha força a figura de Izone, um dos mitos mais singulares e reveladores do folclore garimpeiro mineiro.

No imaginário popular do garimpo, Izone é descrito como um homem negro de baixa estatura. A tradição oral o aponta como a alma de um antigo escravizado e garimpeiro, cuja vivência profunda com a terra e com a mineração o dotou de um conhecimento vasto e inacessível aos vivos: ele sabe exatamente onde estão as jazidas de pedras preciosas na região.

Diferente de outras lendas que punem ou geram terror absoluto, a atuação de Izone é marcada por uma ambiguidade protetora. Ele "atenta" os trabalhadores nos túneis e frentes de lavra, aplicando empurrões e causando pequenos sustos. No entanto, longe de ser puramente maléfico, esse incômodo tem um propósito estratégico: fazer com que o garimpeiro abandone um local infrutífero ou perigoso e busque outro lugar para escavar.

A presença de Izone não se limita a afastar os trabalhadores do perigo; ela também sinaliza a abundância. A lenda diz que a entidade se comunica através de simbolismos, deixando pistas visuais na natureza ou nas redondezas da mina. O exemplo mais clássico dessa manifestação é a aparição de uma vaca amarela ou outros sinais insólitos , que servem como um verdadeiro mapa indicando o local exato onde se esconde o cobiçado "bamburro", ou seja, uma descoberta rica e farta de pedras preciosas.

A construção do mito de Izone vai muito além de uma simples história de assombração; ela é um reflexo da história social do Brasil. Ao transformar um homem negro escravizado no grande detentor do saber sobre as riquezas da terra, o garimpeiro do Jequitinhonha reconhece, ainda que de forma mítica, a sabedoria e a ancestralidade negra na formação da própria atividade garimpeira.

Izone atua, portanto, como um guardião das minas e um guia para aqueles que arriscam a sorte na labuta diária. A lenda imortaliza a esperança do trabalhador e valida a crença de que, por trás do árduo trabalho braçal, existe uma força superior profundamente ligada à história e aos sofrimentos do passado que pode, através de sinais e símbolos, conduzir à prosperidade.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base em depoimentos em vídeos e textos da internet. https://www.youtube.com/watch?v=Zql7He5ASpI




 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - ADOBE: Tradição e Inovação


 


O termo “adobe” tem duas origens principais: uma histórica, referindo-se a um material de construção antigo, e outra moderna, ligada à gigante da tecnologia, diferenciando-se pelo artigo “o” ou “a”.

O adobe de construção tem origem árabe, derivado de al-tub, que significa “tijolo” de terra crua, assimilado pelo espanhol e transmitido às Américas. É uma das técnicas construtivas mais antigas do mundo, utilizada desde a Mesopotâmia e o Antigo Egito. Sua produção consiste na mistura de terra e água, à qual se adicionam palhas ou fibras para evitar rachaduras durante a secagem. Os tijolos são moldados em formas retangulares e curados ao ar livre por cerca de 30 dias, dependendo das condições climáticas. Introduzido no Brasil pelos portugueses durante o período colonial, o adobe tornou-se uma solução prática diante da escassez de materiais industrializados, sendo amplamente utilizado em engenhos e cidades rurais. Com a Revolução Industrial, perdeu espaço para o cimento e os tijolos cozidos, considerados mais modernos e duráveis, mas nas últimas décadas voltou a ser valorizado como alternativa sustentável, por seu baixo custo, impacto ambiental reduzido e eficiência energética. Pesquisas recentes apontam para o crescimento do interesse acadêmico e social em sua retomada, além da necessidade de políticas públicas e normas técnicas que consolidem seu uso na construção civil brasileira.

Já a Adobe Inc., fundada em 1982 por John Warnock e Charles Geschke, nasceu em um contexto totalmente diferente, mas igualmente ligado à ideia de construção desta vez, de soluções digitais. Ex-funcionários do Centro de Pesquisa da Xerox, os fundadores perceberam a oportunidade de inovar nos sistemas gráficos e iniciaram a empresa na garagem de Warnock, em Mountain View, Califórnia. O nome foi inspirado no riacho Adobe Creek, que passava atrás da residência de Warnock, e o logotipo estilizado em forma de “A” foi criado por sua esposa, Marva Warnock. O primeiro grande sucesso da empresa foi a linguagem PostScript, licenciada pela Apple em 1985, que revolucionou a editoração eletrônica. A partir daí, a Adobe expandiu seu portfólio com aquisições estratégicas, como a da Macromedia, criadora do Flash, e consolidou-se como líder mundial em softwares criativos. Produtos como Photoshop, Illustrator, Acrobat/PDF, Premiere Pro e InDesign tornaram-se ferramentas indispensáveis para designers, fotógrafos, cineastas e profissionais de comunicação. Com a introdução da Creative Cloud, a empresa transformou o modelo de distribuição de softwares, adotando o sistema de assinatura e ampliando seu alcance global.

Assim, tanto o adobe construtivo quanto a Adobe tecnológica representam formas de edificação: um ergue paredes e comunidades com terra e palha, o outro ergue projetos visuais e digitais com código e design. Ambos são símbolos da engenhosidade humana em épocas distintas, mas unidos pela mesma essência: construir algo duradouro e transformador.




quarta-feira, 3 de junho de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Primeira mulher no comando PMMG, um marco histórico

Coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues - PMMG / Divulgação

 

A ascensão da Coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues. uma mulher negra ao comando máximo da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) não é apenas um evento administrativo; é um ponto de inflexão na trajetória secular de uma das instituições mais tradicionais e respeitadas do Brasil. Com  250 anos de história, a PMMG sempre refletiu as estruturas de poder que, por séculos, reservaram o topo da hierarquia militar exclusivamente a homens brancos. A chegada de uma mulher negra a esse posto rompe esse ciclo, ressignificando o próprio conceito de autoridade e segurança pública no estado.

Historicamente, o imaginário da farda e da liderança militar esteve atrelado a uma masculinidade hegemônica. A PMMG, fundada no período colonial, carregou consigo o peso das tradições brasileiras onde a meritocracia muitas vezes encontrava limites intransponíveis em questões de gênero e raça.

Quando uma mulher negra assume o comando, ela não apenas ocupa uma cadeira de liderança; ela desmonta a lógica de exclusão que, por gerações, manteve mulheres e pessoas negras em posições de subalternidade dentro da força. Este ato torna-se um símbolo de resistência e de modernização da instituição, enviando uma mensagem clara para toda a sociedade mineira e brasileira: a capacidade de comando é desvinculada de fenótipos ou do gênero.

Esse fato tem uma importância histórica, pois nos mostra que a polícia tenta espelhar a diversidade da população que ela protege. O ingresso de mulheres e pessoas negras em postos de comando aproxima a PMMG das realidades vividas nas comunidades, permitindo uma visão mais humanizada e plural sobre o policiamento e a prevenção do crime.

A presença de uma mulher negra no comando força a instituição a olhar para dentro de si mesma. Isso abre caminho para a revisão de protocolos, a valorização da diversidade no quadro de oficiais e o combate mais efetivo ao racismo estrutural e ao machismo, que ainda persistem em ambientes conservadores. Sem dizer que o efeito desse marco é inspirador para milhares de cadetes e policiais que, até então, não viam nos cargos de cúpula um espelho de si mesmos. É a quebra do "teto de vidro" que dizia, silenciosamente, que certos lugares não eram destinados a certas pessoas.

A história de uma instituição de 250 anos não se apaga, mas se expande ao abraçar a pluralidade do Brasil do século XXI. A liderança feminina e negra não invalida o passado, mas o honra ao torná-lo mais democrático e inclusivo. O fato de essa mudança ocorrer em Minas Gerais um estado que é o coração histórico, político e cultural do país, confere a esse acontecimento um peso nacional ainda maior.

Este é, portanto, um momento de transição fundamental. A história da PMMG agora não será mais contada apenas pelas mãos dos homens que a criaram, mas enriquecida pelo olhar, pela vivência e pela estratégia de uma mulher que, por mérito e resiliência, provou que o lugar de comando é onde quer que a competência e a vocação a levem. É um passo definitivo para que a força policial seja um reflexo autêntico da justiça e da igualdade que ela própria busca defender na sociedade.

 

Jô Pinto

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas

GIRO PELO VALE - Itinga de luto pela passagem espiritual do ex-Prefeito Zé de Adélia

 

José Alves Pereira, carinhosamente conhecido como Zé de Adélia, nasceu em 08 de novembro de 1944, na comunidade do Pasmado, município de Itinga. Filho de Jovenita Alves Barbosa e Genaro Alves dos Santos, cursou até a 5ª série do ensino fundamental e, ainda jovem, aprendeu o ofício de marceneiro e carpinteiro, profissões às quais se dedicou paralelamente à lavoura. Em 02 de maio de 1965, casou-se com Maria Adélia Barbosa Pereira, união da qual nasceram oito filhos: Ailton, Silvana, Silmar, Silmaria, Simone, Adimilson, Sidelia e Silvia.

Sua trajetória política iniciou-se em 1976, com a filiação à ARENA, legenda pela qual foi eleito vereador para o mandato de 1977 a 1983. Em 1982, ingressou no PMDB, sendo reeleito para mais um mandato de seis anos. Em 1988, consolidou seu nome na história política local ao ser eleito prefeito para o quatriênio 1989–1992, rompendo a longa hegemonia política das famílias Chaves e Gusmão. Dentre as marcas de sua gestão, destaca-se a criação do Bairro Planalto e a viabilização de casas populares. Em 1991, contudo, teve seu mandato cassado por infração político-administrativa, o que resultou na suspensão de seus direitos políticos por oito anos. Ainda assim, Zé de Adélia nunca abandonou a vida pública, afirmando sempre que a política era parte fundamental de sua existência.

Após um período residindo em Belo Horizonte, retornou à sua terra natal, Itinga, onde permaneceu até sua passagem espiritual. Itinga se despede de um político e ex-prefeito, enquanto eu me despeço de um grande amigo da minha família e do meu padrinho de batismo.

Fica o legado de um homem que, com suas raízes e convicções, contribuiu de forma indelével para a vida política e social do nosso município.


terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Monstro de Itamarandiba


 

Dizem os mais antigos, naqueles tempos em que as histórias não eram lidas em livros, mas sopradas ao pé do ouvido durante as noites de escravatura, que o medo tem morada certa em Itamarandiba. Não é lenda, não é crendice de quem não tem o que fazer; é uma verdade que atravessa gerações e faz o sangue gelar de quem, por descuido ou zombaria, não reza antes de deitar.

Tudo começou com um fazendeiro, homem de posses, mas de pouca fé e língua solta. Certo dia, tomado por um rancor que não cabia no peito, ele desrespeitou o vigário da paróquia local. Em praça pública, aos gritos e desaforos, comparou o padre a uma mula, acusando o homem de Deus de viver apenas da exploração do suor alheio. O que o fazendeiro não sabia é que, ao insultar o vigário, ele insultava o próprio ofício que aquele homem representava.

O vigário, tomado por um pesar amargo, lançou uma praga que atravessou o tempo, Já que tens tanta fome de criticar o que não compreendes, passarás a ter fome do que é profano. Comerás tudo o que encontrar pela frente: calangos, serpentes, o sapo que coaxa no brejo e até a sola de couro do teu próprio sapato. Serás tão gordo que a tua própria barriga será o teu túmulo.

A profecia não tardou a se cumprir. O fazendeiro começou a engordar de um jeito sobrenatural. Ele comia os mantimentos, as frutas do pomar, as hortaliças. Quando a dispensa esvaziou, passou a devorar os animais: bois, cavalos, porcos e até as ervas daninhas. Dizem que, de tão cheio, o homem peidava um cheiro de enxofre que empestava a redondeza.

Ele não parou enquanto não devorou tudo o que havia ao seu redor. Quando, finalmente, o monstro de carne que se tornara, pesando mais de mil quilos e rosnando como cão raivoso, tentou saciar sua fome insaciável com seres humanos, o corpo não aguentou. Caiu morto pelo chão, com o bucho prestes a explodir.

Para enterrar aquele descomunal, foi preciso um esforço sem precedentes. Cortaram toras de braúna para construir um caixão do tamanho de um cômodo, e foi necessário um carro de boi com oito juntas de tração para levar o corpo até a Matriz. Até hoje, quem percorre o chão de Itamarandiba diz que, em certos pontos, as marcas profundas daquela carreta ainda são visíveis, como um sulco de maldição gravado na terra.

O corpo foi enterrado dentro da igreja, na esperança de que o poder das orações o mantivesse em paz. Mas o que se viu depois foi uma sucessão de estranhezas, rachaduras surgiam nas paredes, o cabelo do defunto aparecia misteriosamente nos lugares mais inusitados, e o terror se instalou na comunidade. Anos mais tarde, quando a antiga Matriz foi consumida por um incêndio misterioso, o povo não teve dúvidas, era o Cão, dando o sinal de que o monstro ainda lá habitava.

Dizem que o bicho não morreu de verdade. Ele vive nas frestas, nas rachaduras do assoalho, manifestando-se na forma de formigas e tanajuras que saem debaixo da terra. E quem ousa zombar, quem dorme sem oração, corre o risco de ver a maldição despertar. Pois, como dizem os ancestrais, o monstro tem companhia, nas noites de lua cheia, uma mulher de cinco metros de altura rodeia as ruínas da igreja, à espera de quem se atreva a passar por perto sem a proteção da água benta e de uma reza bem comprida.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base no programa Terra de Minas, exibido pela TV Globo.

 

sábado, 30 de maio de 2026

GIRO PELO VALE - Joaíma e o Vale do Jequitinhonha de Luto, o poeta da Aldeia " Zé Miranda " nos deixou


 

José Carlos Miranda Murta, Zé Miranda, nasceu em Joaíma, vale do Jequitinhonha e desde muito cedo se interessou pelas aulas de português na escola. Em 1984, por intermédio do amigo músico, compositor e poeta Rubens Espíndola fez sua iniciação FESTIVALESCA na cidade de Araçuaí participando do seu 1º FESTIVALE, onde teve a oportunidade de conhecer alguns poetas do Vale, que se tornaram seu espelho na literatura. Daquele ano em diante passou a ser um seguidor e perseguidor do evento e participou de várias oficinas, principalmente as de literatura que o FESTIVALE oferecia....aproveitou e degustou os momentos literários com Rozane Moreira e se embrenhou nos sonhos poéticos de João Evangelista até  Escrever seu 1º livro O VERSO E O INVERSO em 1999...e de lá pra cá já são 06 livros publicados... CASA DE VERSOS, 2002 CAMINHOS DI-versos, 2011 ALDEIA DE VERSOS, 2015 ALDEIA DE VERSOS II ( a saga continua), 2017 e por último TRILOGIA DA ALDEIA em 2019... onde Zé Miranda faz uma miscelânea de “causos” de suas gentes e seus fazeres e afazeres pitorescos da aldeia JOAÍMA. Lugar que ele insiste em alinhavar na lembrança dos seus irmãos e conterrâneos, contando as suas histórias e ou situações do cotidiano de cada um, respeitando sempre a veracidade dos fatos... e não pensa em parar com esse vício bom, no de ano de 2023, foi eleito para a ALVA -Academia de letras do Vale do Jequitinhonha, onde ocupa a cadeira de Nº 36, tendo como patrono o saudoso cantor, compositor e poeta Eustáquio Senna da vizinha cidade de Jequitinhonha, também era Membro do Movimentos dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha.

No Festivale de Pedra Azul no ano de 2002. A  Composição “ Cecilia “ de sua autoria com Rubens Espíndola, ganhou como melhor interprete, interpretada por  Ester Higino.

Vai na Paz meu amigo

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CONHECENDO O JEQUI - Muro de Pedra em Rubelita

Imagens da Internet

 

O Muro de Pedra, localizado no distrito quilombola de Lava Roupa, município de Rubelita/MG, é um marco histórico fundamental do Vale do Jequitinhonha. Esta estrutura não é apenas uma divisória física, mas um monumento à memória e à resiliência das populações escravizadas que, durante o período colonial, foram forçadas a moldar a paisagem da região.

Durante o Brasil Colônia, a ocupação das terras no interior de Minas Gerais estava profundamente ligada à mineração e à exploração agropecuária. Os muros de pedra, construídos manualmente com a técnica de "pedra seca" (sem o uso de argamassa), eram onipresentes nas propriedades coloniais, sua existência respondia a necessidades práticas e estratégicas dos senhores de terra. Em uma época de vastas sesmarias, os muros serviam para marcar territórios, garantir a posse de terras e separar áreas de pastagem de terrenos de cultivo.

A construção dessas estruturas era uma tarefa extenuante imposta às pessoas escravizadas. O trabalho manual de carregar, talhar e sobrepor pedras sob o sol escaldante do Jequitinhonha fazia parte do cotidiano de subjugação, sendo um exemplo da infraestrutura colonial erguida inteiramente pelo esforço braçal negro, mas também além da função agrícola, esses muros facilitavam o controle dos escravizados, dificultando fugas e organizando a circulação dentro das fazendas.

Hoje, o Muro de Pedra em Lava Roupa transcende sua função original de propriedade. Ele é interpretado pelas comunidades locais como um testemunho da força humana. Apesar de terem sido erguidos sob o chicote e a opressão, os muros sobreviveram ao tempo e à tentativa de apagamento histórico.

Preservar essas estruturas é reconhecer a ancestralidade africana na formação do Vale do Jequitinhonha. Elas permanecem como um lembrete físico de que as comunidades atuais são herdeiras de um povo que, mesmo sob as condições mais brutais, deixou marcas na terra, transformando o trabalho forçado em um símbolo de identidade, tradição e resistência cultural que, séculos depois, continua a definir a identidade do povo mineiro

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre e Ciências Humanas



quinta-feira, 28 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Leituras reflexivas sobre a oralidade


 

A dica de leitura reflexiva da semana não é só uma sugestão de texto. É um convite para desacelerar e olhar com mais atenção para algo talvez simples e, ao mesmo tempo, urgente: a forma como um povo mantém viva a sua própria história.

O Vale do Jequitinhonha não entra aqui como cenário. Entra como voz. Como território que fala por meio da palavra dita, do causo contado na porta de casa, da poesia que nasce do cotidiano duro e bonito ao mesmo tempo, dos cantos que atravessam gerações sem precisar de permissão pra existir. É cultura que não depende só do livro pra ser literatura, ela já acontece antes da página. Só que existe um ponto delicado nisso tudo: o que fica só na oralidade corre risco de desaparecer não porque perde valor, mas porque perde registro, e quando isso acontece, não é só uma história que some, mas, é um pedaço inteiro de memória coletiva que deixa de atravessar o tempo. A próxima geração não perde apenas narrativas, perde também o caminho de volta pra entender quem é.

Nesse sentido, como apontam estudos sobre memória coletiva no Vale do Jequitinhonha, os causos e narrativas orais funcionam como espaço de valorização das relações culturais e da memória social (Carvalho; Cambraia; Paes, 2019). Esses relatos operam como um verdadeiro arquivo cultural vivo, registrando modos de vida e saberes que não se separam da comunidade Poletto (2025). A literatura do Vale não é menor, não é periférica, não é “simples”: ela é identidade em estado bruto. A poesia regional e a cultura popular local atuam como forma de resistência simbólica, permitindo que vozes do território sejam inscritas para além dos discursos oficiais (Machado, 2022; Antunes, 2000).

Deste modo, preservar não é um gesto romântico, é uma necessidade histórica. O que não é registrado vai sendo silenciado aos poucos até virar ausência. Por isso, escrever aqui não é só um ato estético; é um ato de permanência. Cada vez que alguém transforma um causo em conto, uma lembrança em texto, uma fala em poesia, está impedindo o esquecimento.

E não se trata apenas de grandes autores ou obras consolidadas. Trata-se de abrir espaço para todos que carregam suas experiências de vida e suas memórias: jovens, professores, trabalhadores, comunidades inteiras. Valorizar essa produção é parar de enxergar o território apenas pelas faltas e começar a reconhecê-lo pela abundância cultural que sempre existiu ali. Entender que um causo contado na cozinha já é literatura. Que uma história lembrada no fim da tarde já é patrimônio. No fim, preservar a literatura do Vale do Jequitinhonha não é guardar o passado como algo parado. É garantir que ele continue em movimento. Que ele siga falando. Que ele não seja interrompido. Porque quando um território perde suas palavras, ele não fica em silêncio. Ele fica incompleto.

 

 

Referências

ANTUNES, C. (2000). Movimentos do Vale: corpo e narrativa. Revista Em Tese, UFMG.

CARVALHO, M. A.; CAMBRAIA, R. P.; PAES, S. R. (2019). Trabalho e natureza nas representações sociais dos contos e causos. Extensão Rural, UFSM. https://periodicos.ufsm.br/extensaorural/article/view/35173

MACHADO, T. (2022). A produção poética do Vale do Jequitinhonha. Revista Synthesis, FAPAM. https://periodicos.fapam.edu.br/index.php/synthesis/article/view/589

POLETTO, C. (2025). Variação linguística em narrativas orais no Vale do Jequitinhonha. Dissertação de Mestrado, UFMG. https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/81951


Por



 

 

 

 

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Lenda de Izone: O Guia Místico e Protetor dos Garimpos de Padre Paraíso

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