Terramar nasceu em estado de
poesia
Entre a terra de onde
veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha
transforma memória, saudade, amor e pertencimento em literatura
Há pessoas que recebem um
nome.
E há pessoas que parecem
receber, junto com o nome, uma história.
Quando Terramar Alves Luz
nasceu, em 10 de dezembro de 1988, sua mãe dizia estar em “estado de
poesia”. O pai, que, segundo ele, tinha ideias hippies, chegou a mudar o
nome que havia sido pensado para homenagear os avós: José, pelo lado paterno, e
Othávio, pelo lado materno.
O menino acabou sendo
Terramar.
Terra e mar.
E, no sobrenome, Luz.
Talvez seja apenas uma
coincidência. Ou talvez algumas histórias comecem muito antes de percebermos
que já estão sendo escritas.
Terramar nasceu em Almenara,
no Vale do Jequitinhonha, e reside em Santo Antônio do Jacinto. Bacharel em
Direito pela PUC Minas, é escritor, poeta, ativista e agente cultural. Desde a
juventude, participa e ajuda a organizar eventos voltados à cultura e à
literatura.
Aos 16 anos, começou a
escrever poesia.
Passaram-se os anos.
Vieram a adolescência, as
cartas de amor, as inquietações, a faculdade, a distância de casa, a saudade,
os poemas guardados e uma vida inteira acontecendo entre um verso e outro.
Somente em agosto de 2026,
depois de mais de duas décadas escrevendo, Terramar publicou seu primeiro
livro, Declaração de um Piegas, pela Arejo Editorial.
Mas a história desse livro
começa muito antes.
Antes do livro, havia a
distância
Existe um momento importante
na trajetória de Terramar que ajuda a compreender a poesia que viria depois: a
saída do Vale para estudar Direito na PUC Minas, em Contagem.
Longe de casa, aquilo que
antes fazia parte da paisagem cotidiana começou a aparecer de outra maneira. A
terra passou a ser lembrança. A infância ganhou contornos de memória. As
pessoas, os lugares e as experiências vividas no Vale do Jequitinhonha passaram
a existir também dentro dele.
A distância não apagou o
território.
Trouxe-o de volta em forma de
poesia.
“Os poemas tornaram-se uma
espécie de remédio para a alma”, conta.
É uma frase que ajuda a
compreender Declaração de um Piegas. A poesia, para Terramar, foi se
transformando ao longo da própria vida. Primeiro, vieram os poemas românticos e
as cartinhas de amor da adolescência, durante um processo de autodescoberta.
Depois, surgiu uma escrita
mais rebelde, marcada pelas indagações da vida e por poemas de cunho mais
social.
Mais tarde, já maduro, veio a
saudade da terra.
E foi nesse movimento de
afastamento e lembrança que o Vale do Jequitinhonha ganhou ainda mais espaço em
sua escrita.
Segundo Terramar, os poemas
passaram a funcionar como um resgate das lembranças da infância e também como
uma defesa do território que considera rico em cultura e resistência.
Do amor adolescente à memória
de uma terra
A poesia de Terramar não
nasceu pronta.
Ela foi mudando junto com ele.
O próprio livro acompanha esse
percurso. Declaração de um Piegas é uma coletânea de poemas organizada
em três capítulos: cidade, infância e amor.
São experiências diferentes,
reunidas por uma escrita marcada por reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.
“Para muitos poetas, a
primeira linguagem seja o amor”, afirma.
No caso de Terramar, essa
primeira linguagem apareceu nos poemas românticos e nas cartinhas de amor da
adolescência. Com o tempo, porém, a escrita ganhou outras preocupações.
Vieram as perguntas sobre a
vida.
Vieram os poemas de cunho
social.
E veio também a necessidade de
reencontrar, pela palavra, aquilo que havia ficado para trás.
A infância.
A terra.
A memória.
O Vale.
Vinte anos de poemas guardados
Existe uma espécie de silêncio
antes de todo livro.
No caso de Terramar, esse
silêncio durou mais de duas décadas.
Ele continuou escrevendo,
acumulando poemas e mantendo a esperança de um dia publicar uma obra. O
problema não era a falta de material. Era a dificuldade financeira.
“Hoje em dia, publicar um
livro não é barato e, sem o fomento cultural governamental, torna-se ainda mais
difícil o primeiro lançamento para um jovem sem proventos”,
explica.
Foi por meio da Lei Paulo
Gustavo, instituída pela Lei Complementar nº 195/2022, que esse sonho conseguiu
se tornar realidade.
Terramar selecionou parte dos
poemas que vinha guardando desde os 16 anos e reuniu esse material em seu
primeiro livro.
Assim nasceu Declaração de
um Piegas.
O lançamento representa a
passagem de uma produção que durante anos permaneceu guardada para uma obra que
agora pode encontrar leitores.
E Terramar já pensa nos
próximos passos.
“Espero que outros livros
venham por aí...”
Um “piegas” assumido
O título do livro não tenta
esconder a dimensão sentimental da escrita de Terramar.
Pelo contrário.
Declaração de um Piegas
assume o romantismo confesso do eu lírico e a sensibilidade sentimentalista ou
exagerada que o próprio título anuncia.
Os poemas reúnem experiências
individuais, reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.
Há amor.
Há memória.
Há saudade.
Há infância.
Há território.
E há uma maneira muito
particular de assumir os sentimentos sem tentar diminuí-los.
O “piegas”, nesse caso, não
parece funcionar como pedido de desculpas pela sensibilidade. É uma declaração.
O Vale escrito por quem
precisou partir
Entre os poemas reunidos no
livro, Terramar escolheria apenas um para apresentar o Jequitinhonha a alguém
que nunca esteve na região.
O escolhido é “Vale do
Jequitinhonha”, publicado na página 42 de Declaração de um Piegas.
A escolha não é casual.
O poema reúne algumas das
imagens que atravessam sua trajetória: saudade, pertencimento, rio, terra,
cultura e resistência.
Ele começa com a ausência:
“Saudade que sinto
Do meu lugar...”
Depois, a lembrança se
transforma em declaração de amor à terra onde nasceu:
“O orgulho que carrego em mim,
Por este chão de tanta paixão,
Explode no meu coração.”
O rio aparece como elemento
que banha cidades e também como caminho de memória:
“Com água e poesia,
Vai tornando tudo magia.”
E então surge uma afirmação
que sintetiza a maneira como o poeta deseja representar sua região:
“O Vale não é da pobreza,
Mas sim da beleza!”
Mais adiante, beleza e
resistência aparecem lado a lado:
“Mas também de resistência,
Deste povo simples e lutador.”
No poema de Terramar, o Vale é
feito de barro, reza, canção, rio, memória, amor e resistência.
É o território visto por
alguém que nasceu nele, precisou se afastar e continuou carregando-o consigo.
Mais que escrever, fazer
circular
A relação de Terramar com a
cultura não termina na publicação do livro.
Sua trajetória também passa
pela atuação como agente cultural e pela participação em iniciativas voltadas à
literatura, à memória e às manifestações culturais do Vale.
Em 2007, venceu a primeira
Noite Literária de Santo Antônio do Jacinto.
Em 2021, recebeu o prêmio
literário do VII Encontro de Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, com
o poema Ser Poeta.
Em 2024, produziu o
documentário Folia de São Sebastião da Comunidade Serra Alta, voltado
para a memória, a religiosidade e as tradições da comunidade.
Quando fala sobre a literatura
produzida atualmente no Vale do Jequitinhonha, Terramar volta a uma questão que
conhece de perto: a dificuldade econômica enfrentada por escritores iniciantes.
Para ele, a falta de fomento
para a publicação de livros dificulta a descoberta de novos artistas na
literatura. Ele também chama atenção para outro obstáculo: nem todos conseguem
acessar os recursos disponíveis, seja pela falta de informação, seja pela complexidade
dos editais e pela necessidade de conhecimento técnico para participar dos
processos de seleção.
Nesse cenário, destaca a
importância do movimento de poetas e escritores do Vale do Jequitinhonha para a
troca de saberes e o fortalecimento da cultura local.
Entre as possibilidades que
enxerga para o movimento está a criação de coletâneas por meio do próprio
coletivo.
Porque, para Terramar,
fortalecer a literatura regional também passa por criar caminhos para que os
escritores possam publicar, circular e ser conhecidos.
Dentro e fora do Vale.
Um livro que começou antes de
existir
Há algo curioso na trajetória
de Declaração de um Piegas.
Embora tenha sido publicado
apenas agora, ele começou a ser escrito muito antes de existir como livro.
Começou aos 16 anos.
Passou pela adolescência.
Atravessou a saída do Vale.
Chegou à vida universitária.
Conheceu a distância.
Encontrou a saudade.
Voltou para a infância.
Guardou cartas de amor,
inquietações, reflexões, dúvidas, sonhos e experiências.
Esperou.
Até que uma parte desse acervo
encontrasse uma forma de chegar ao mundo.
Por isso, o livro reúne mais
do que poemas escritos em momentos diferentes. Reúne também diferentes momentos
de quem os escreveu.
O adolescente que descobria a
poesia.
O jovem que questionava a
vida.
O estudante que deixou sua
terra.
O homem que encontrou na escrita
uma maneira de lidar com a saudade.
E o agente cultural que
continua olhando para o território de onde veio.
Entre a terra e o mar
Terramar conta que seu nome
carrega os quatro elementos naturais clássicos. Terra e mar estão explícitos. O
ar e o fogo completariam a existência. E o sobrenome Luz acrescentaria mais uma
camada.
Ele também relaciona essa
combinação ao seu signo, Sagitário, que associa à liberdade e à aventura.
Mais do que uma curiosidade
sobre o nome, porém, existe nele uma história que Terramar reconhece como parte
de sua identidade.
“Mais tarde, compreendi que a
poesia, de fato, já existia em mim desde o meu nascimento.”
Talvez seja por isso que ele
tenha transformado a própria chegada ao mundo em poema.
Em Quando Eu Nasci,
escreve:
“Quando eu nasci,
Minha mãe me dizia
Que estava em estado de
poesia.”
E, quase no final, retorna
àquela ideia que parece atravessar toda a sua trajetória:
“Mais que um filho,
Um poeta ali nascia.”
A poesia que começou como
experiência íntima ganhou o território como companhia.
A saudade ganhou versos.
A memória ganhou páginas.
E o Vale ganhou uma voz entre
tantas outras que ajudam a contar sua história.
A poesia como lugar de retorno
Talvez seja essa uma das
imagens mais fortes deixadas pela trajetória de Terramar Alves Luz.
Sair.
Sentir falta.
Lembrar.
Escrever.
E voltar por meio das
palavras.
Declaração de um Piegas nasce
desse percurso.
É uma coletânea de poemas
escritos ao longo de mais de duas décadas, mas também é o resultado de uma
relação contínua com as experiências, os afetos, as memórias e o território.
O menino que nasceu em
Almenara tornou-se poeta.
O jovem que começou a escrever
aos 16 anos guardou seus poemas.
O estudante que deixou o Vale
encontrou na poesia uma maneira de lidar com a distância.
O agente cultural passou a
atuar também na preservação e valorização da cultura de sua região.
E, em 2026, o que durante
tantos anos esteve guardado ganhou finalmente um livro.
Talvez o próprio nome ajude a
contar essa história.
Terra, como origem.
Mar, como movimento.
Luz, como parte do nome que o
acompanha desde o nascimento.
Entre eles, existe um poeta.
Ou, nas palavras que Terramar
escolheu para sua própria biografia:
“Não sou Alegre nem Triste sou
Poeta.”
E talvez seja justamente aí
que essa história encontre seu ponto final.
Ou, quem sabe, apenas o
primeiro verso de uma nova página.
A poesia, essa velha
companheira de quem insiste em lembrar, continua encontrando novas maneiras de
permanecer.
Por





