quinta-feira, 22 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Do Brasil para o Mundo: A Força, o Prestígio e as Contradições do Prêmio Jabuti


 

Quando se analisa a trajetória da literatura e do mercado editorial no Brasil, poucas honrarias carregam tanta densidade histórica e poder de chancela quanto o Prêmio Jabuti. Instituído em 1958 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a premiação consolidou-se ao longo de mais de seis décadas como o mais prestigiado selo de reconhecimento da produção bibliográfica nacional.

Mais do que laurear grandes obras, o prêmio funciona como uma verdadeira engrenagem de projeção cultural: ele impulsiona as vendas, consolida a reputação de editoras e atua como a principal vitrine para que obras nacionais atravessem fronteiras e conquistem leitores e tradutores em feiras internacionais, a exemplo dos encontros de Frankfurt, Guadalajara, Bolonha e Londres.

A abrangência do Jabuti reside no fato de que ele não contempla apenas a criação literária em si, mas reconhece toda a cadeia produtiva responsável por transformar uma ideia em livro. Segundo o regulamento oficial estabelecido pela Câmara Brasileira do Livro, o prêmio "reconhece e premia obras publicadas no Brasil, escritas em língua portuguesa, por autores brasileiros, naturalizados ou estrangeiros com residência fixa no país". Para concorrer, exige-se que as obras sejam inéditas e lançadas em primeira edição no ano anterior à convocação do edital, com registro formal de ISBN e Ficha Catalográfica emitida em território nacional.

 As inscrições são abertas tanto para as grandes corporações editoriais quanto para selos independentes e autores autopublicados. As disputas dividem-se em eixos que cobrem desde a criação (Romance, Conto, Poesia, Literatura Infantil, Histórias em Quadrinhos) até a não ficção (Biografias, Ciências Humanas, Educação e Negócios), além de premiar aspectos técnicos essenciais, como Tradução, Capa, Ilustração e Projeto Gráfico.

O ápice de cada edição culmina na escolha do consagrado "Livro do Ano", premiação máxima disputada entre os vencedores de todas as categorias. Ao longo de sua história, o troféu foi erguido por figuras consagradas da cultura brasileira, a exemplo de Clarice Lispector, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Antônio Candido, Rachel de Queiroz, Chico Buarque e Manoel de Barros. Essa tradição de excelência manteve-se viva nas edições mais recentes da premiação. Na 66ª edição, por exemplo, o júri concedeu o título de "Livro do Ano" à tradutora e ensaísta Rosa Freire D'Aguiar pela obra "Sempre Paris: crônica de uma cidade, seus escritores e artistas" (Companhia das Letras).

Já na 67ª edição, o feito coube ao jornalista, biógrafo e imortal da Academia Brasileira de Letras Ruy Castro com o livro de crônicas "O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim" (Companhia das Letras), reafirmando a força da memória cultural na premiação. Paralelamente, fenômenos contemporâneos como Itamar Vieira Junior, com "Salvar o Fogo", e Jeferson Tenório, com "O Avesso da Pele", projetaram a literatura brasileira para dezenas de idiomas com o respaldo do prêmio.

Vencer ou ser finalista do Jabuti gera o chamado "efeito vitrine": as obras ganham espaço em livrarias de todo o país, passam a figurar nas listas de compras públicas para bibliotecas e escolas e entram no radar de agentes literários globais. Recentemente, a CBL expandiu ainda mais o alcance do prêmio ao criar o Jabuti Acadêmico, uma vertente voltada exclusivamente para a produção científica, ensaios acadêmicos e divulgação do conhecimento. Essa iniciativa abriu espaço essencial para que a pesquisa produzida em universidades e institutos federais fora dos grandes centros urbanos ganhe projeção nacional.

Entretanto, apesar da incontestável relevância para a projeção da literatura brasileira, o Jabuti não está imune a debates profundos e questionamentos sobre o seu real impacto na democratização da leitura. Sob a perspectiva de um veículo regional com ambição de alcance global, é preciso lançar um olhar crítico sobre os gargalos do prêmio. Durante décadas, a premiação foi apontada por críticos e pesquisadores da sociologia da literatura por manter uma visível concentração no eixo Rio–São Paulo, onde se situam as maiores corporações editoriais do país.

Embora as regras atuais permitam a participação de edições independentes e do autor, os altos custos das taxas de inscrição cobradas por categoria no edital e as dificuldades históricas de distribuição ainda funcionam como barreiras invisíveis para escritores, coletivos culturais e editoras comunitárias do interior dos Estados, locais onde a riqueza da literatura oral, do patrimônio imaterial e da poesia popular pulsa com força. O questionamento permanece urgente: o Jabuti consegue de fato mapear a imensa diversidade do Brasil profundo ou acaba por homologar as tendências ditadas pelo mercado comercial do livro?

Além das assimetrias regionais, as edições recentes do Jabuti foram marcadas por polêmicas que exigiram respostas rápidas da organização e reflexão por parte da crítica cultural. Uma das discussões mais acaloradas envolveu o avanço das novas tecnologias na produção visual e editorial, como ocorreu na controvérsia envolvendo ilustrações geradas por Inteligência Artificial em obras inscritas na 65ª edição.

 O episódio forçou a Câmara Brasileira do Livro a reformular e endurecer as regras do regulamento para garantir a salvaguarda da autoria e do trabalho humano. Da mesma forma, as reestruturações periódicas nas categorias e nos critérios de julgamento geram debates anuais entre escritores sobre o que delimita gêneros, a exemplo da separação entre romance literário e de entretenimento, ou como avaliar narrativas identitárias e comunitárias sem reduzi-las a rótulos simplistas.

Mesmo diante desses desafios estruturais, o Prêmio Jabuti reafirma sua posição como uma instituição viva e indispensável para a diplomacia cultural do Brasil. A inclusão de categorias voltadas ao fomento à leitura e à celebração de livros brasileiros publicados no exterior demonstra a percepção de que a nossa literatura é uma linguagem universal, capaz de dialogar sobre memória, ancestralidade, meio ambiente e direitos humanos em qualquer parte do planeta.

Questionar o prêmio, não significa diminuir a sua importância, mas sim exigir que ele continue expandindo suas fronteiras para que as vozes que nascem no interior do país encontrem, com o mesmo direito e prestígio, o seu espaço nas prateleiras do mundo.

 

Referências

CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO (CBL). Regulamento Oficial e Catálogo das Edições do Prêmio Jabuti e Jabuti Acadêmico. São Paulo: CBL.

ESTADÃO. Prêmio Jabuti: Ruy Castro ganha Livro do Ano; veja lista completa de vencedores da 67ª edição. Caderno de Cultura/Literatura, 2025.

G1 POP & ARTE. Prêmio Jabuti: Ruy Castro vence Livro do Ano com 'O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim'. Grupo Globo, 2025.

REVISTA BRAVO! Obra de Ruy Castro vence o Prêmio Jabuti como Livro do Ano. Seção de Literatura, 2025.

REVISTA QUATRO CINCO UM. Os premiados do Jabuti e o panorama do mercado editorial. Notícias e Prêmios Literários, 2025.


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Encanto do Boi de Janeiro do Vale do Jequitinhonha

Boi Coquis de Rubim - Foto: Jô Pinto

O sol de janeiro no Vale do Jequitinhonha não apaga o brilho das madrugadas. Ele acorda o sertão com o repicar do triângulo, o estrondo grave da caixa e a sanfona arfante que embala a poeira das ruas. É o tempo de dar passagem à criatura de armação de taquara, couro e pano chita estampado: o Boi de Janeiro.

A história do Boi de Janeiro se trança nas veredas da colonização brasileira. À medida que a pecuária se expandia pelos sertões do Nordeste e subia pelas margens do Rio São Francisco e do Rio Jequitinhonha, os caminhos do gado e os passos dos vaqueiros desenharam uma geografia festiva.

A figura do boi chegou ao Vale entre os séculos XIX e início do XX, trazida por tropeiros, vaqueiros e migrantes que cruzavam as fronteiras com a Bahia. Em cidades como Pedra Azul, Jequitinhonha, Itaobim, Rubim, Salto da Divisa e outras, a devoção católica às Folias de Reis encontrou o folguedo popular. O boi renasceu nos braços de mestres artesãos e foliões populares, que montavam a armação de bambu e cobriam a figura sagrada e profana para reinar nos primeiros dias do ano.

O Boi de Janeiro do Jequitinhonha é irmão em matiz e raiz do Bumba Meu Boi maranhense e do Boi-Bumbá amazônico. Todos nascem do mesmo matriz sincrética, a fusão das tradições ibéricas dos autos ibero-medievais, a espiritualidade indígena e os ritmos e batuques dos povos africanos escravizados.

Entretanto, enquanto o Bumba Meu Boi do Nordeste se estrutura em uma narrativa dramática (com os personagens do Pai Francisco, da Mãe Catirina e a ressurreição ritual do boi), e o Boi-Bumbá do Norte se expande nas grandes arenas operísticas de Parintins, o Boi de Janeiro se moldou à alma mineira e ao ciclo dos Santos Reis.

Sincronia Festiva é diferente do Bumba Meu Boi, que costuma desfile nas festas juninas (São João), o Boi do Vale surge exclusivamente no ciclo de Natal e Reis, entre os dias 1º e 6 de janeiro.

Profano e Sagrado, ele é guiado pelos mestres de folia e reiseiros, ao mesmo tempo que pede bênçãos e orações de casa em casa, incita a folia nas praças.

No Vale do Jequitinhonha, o Boi de Janeiro é um acontecimento comunitário e itinerante, ele não pertence a palcos fixos, a rua é seu terreiro, e a porta das casas, seu altar.

O boi é geralmente confeccionado com armação leve de bambu, taquara e ripa de madeira, coberta por um vistoso tecido de chitão estampado. A cabeça costuma ser o crânio real de um bovino ou esculpida com esmero.

O  boi é acompanhamento por músicos tocando sanfona, caixa, bumbo, pandeiro, triângulo e gaitas. A contradança e os versos improvisados pelos Mestres dão o tom. E tem também a Boneca-Gigante, onde os nomes variam, Maria Manteiga, A Maria Tereza, Nega Maluca, figura pitoresca com corpo de balaio e taquara, roupas coloridas e peruca, que dança em miudinho acompanhando as investidas do boi.

A Brincadeira acontece quando o boi corre atrás das crianças e dos adultos, dando marradas imaginárias, simulando susto e coragem na comunidade.

Nas noites festivas, o mestre puxa os versos saudando os moradores:

"Lá vem o sol, lá vem a lua,

Lá vem Boi de Janeiro passeando pela rua..."

E quando o dono da casa recebe a comitiva e contribui com a folia, os reiseiros entoam a benção de despedida:

"Deus lhe pague a tua esmola,

Deus lhe dê muito o que dá...

No reino do só se vendo."

A festa atinge seu clímax em 6 de janeiro (Dia de Reis). Em algumas cidades do Vale, ocorre a tradicional "Repartição do Boi", um ritual simbólico e cantado em que as partes do animal são ironicamente distribuídas entre os moradores e figuras proeminentes da cidade, mesclando humor, crítica social e celebração da partilha comunitária.

O Boi de Janeiro não é apenas uma máscara ou uma carcaça de pano, é a própria identidade sertaneja que ganha vida, lembrando que a arte no Jequitinhonha nasce da simplicidade, da fé e do abraço coletivo.

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Escritor/Poeta e Produtor Cultural

 


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - São Cipriano


 

Atualmente circulam diversos grimórios, coletâneas de feitiços e magias, atribuídos a São Cipriano de Antioquia. Esses livros, conhecidos genericamente como Livros de São Cipriano, conteriam orações, rituais de magia negra e práticas ligadas ao ocultismo, supostamente escritos antes de sua conversão ao cristianismo. Mas afinal, quem foi o homem chamado Cipriano de Antioquia?

São Cipriano nasceu em 250, na Antioquia, região situada entre a Síria e a Arábia, então sob domínio da Fenícia. Filho de pais pagãos e muito ricos, desde a infância foi introduzido aos estudos da feitiçaria e das ciências ocultas, como alquimia, astrologia, adivinhação e diversas modalidades de magia.

Após longas viagens pelo Egito, Grécia e outros países, aperfeiçoando seus conhecimentos, aos trinta anos Cipriano chegou à Babilônia para conhecer a cultura ocultista dos caldeus, povo nômade que se estabeleceu no sudoeste da região, às margens do Eufrates. Foi ali que se converteu ao cristianismo, queimando seus manuscritos de feitiçaria e distribuindo seus bens entre os pobres.

A notícia de sua conversão chegou ao imperador romano Diocleciano, em Nicomédia. Cipriano foi perseguido, preso e torturado. Mesmo açoitado com pentes de ferro e lançado em uma caldeira fervente de banha e cera, não renunciou à fé. O feiticeiro Atanásio, seu antigo discípulo, acreditando que Cipriano usava algum sortilégio, tentou desafiá-lo invocando demônios e atirando-se na caldeira — mas morreu em poucos segundos.

Diante da resistência, Diocleciano ordenou sua execução. No dia 26 de setembro de 304, Cipriano foi decapitado às margens do rio Galo, em Nicomédia. Seu corpo permaneceu exposto por seis dias, até ser recolhido por cristãos e levado a Roma, sob os cuidados de uma senhora chamada Rufina. Mais tarde, já no império de Constantino, seus restos mortais foram transferidos para a Basílica de São João de Latrão.

O fascínio contemporâneo pelos Livros de São Cipriano revela que ainda buscamos respostas no mistério e no oculto. Mas a vida do santo nos lembra que o verdadeiro poder não está em dominar forças externas, e sim em transformar a si mesmo

 

 

Referência:

Cipriano de Antioquia. O Livro de São Cipriano: Capa Preta. Tradução e edições modernas disponíveis

Santos e Beatos da Igreja Católica (Vaticano). Disponível em: vatican.va Documentação oficial sobre santos e mártires da Igreja Católica.

 

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - Isidoro um negro de quilate


 

Em setembro de 2026, o espetáculo "Isidoro um Negro de Quilate com os artistas Evandro Passos e Do Xangô esteve em cartaz em Belo Horizonte, na Sala João Ceschiati do Palácio das Artes. Mais uma vez, o teatro cumpriu seu papel de dar voz às narrativas silenciadas e às histórias apagadas pelo tempo e pela memória oficial do país.

A montagem foi construída a partir das pesquisas de Jéssica Fernandes Mourão e Vitória Azevedo da Fonseca, que trouxeram à cena a figura de Isidoro Amorim Pereira, homem negro nascido na região de Diamantina, então Arraial do Tijuco, no século XVIII. Escravizado, minerador e faiscador de diamantes, Isidoro viveu uma trajetória marcada pela resistência. Perseguido e morto em 1809, tornou-se símbolo de força e inspiração para o povo do arraial.

Isidoro nasceu em 1799 e foi propriedade do padre Frei Rangel. Conseguiu sua liberdade e se destacou como minerador, encontrando grandes quantidades de diamantes. Esse sucesso despertou a perseguição do Intendente Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá, que assumiu o cargo em 1807, em meio às mudanças políticas trazidas pela chegada da corte portuguesa ao Brasil.

Com o monopólio da extração de diamantes pela Coroa, a Real Extração de Diamantes passou a controlar rigidamente a atividade. Ainda assim, Isidoro e seus companheiros seguiram garimpando de forma ilegal, dividindo os lucros e comprando alforrias de outros escravizados. Também fundaram quilombos na região, fortalecendo redes de solidariedade e resistência.

A ousadia de Isidoro incomodava os interesses da Coroa. Uma recompensa foi oferecida por sua captura, e ele acabou traído por um companheiro. Emboscado, foi baleado e levado ao Tijuco em junho de 1809. O poeta Adão Ventura narra o episódio em Isidoro: Texturaafro:

 

– Foi no mês de junho de 1809

que Isidoro entrou preso no Tejuco.

Era triste espetáculo.

Vinha amarrado em um cavalo,

cercado de pedestres,

todo ensopado de sangue.(Isidoro: Texturaafro, p.12-13.)

LITERAFRO - www.letras.ufmg.br/literafro

 

Isidoro foi torturado por vinte dias até morrer em decorrência dos abusos.

Durante muito tempo, em Diamantina, falava-se apenas do Beco do Isidoro, em frente à Igreja do Rosário, sem se contar quem de fato havia sido esse homem. O local era, na verdade, referência à Intendência, onde Isidoro foi torturado e morto.

Embora tenha sido retratado por alguns como contraventor, sua história revela outra verdade: Isidoro comercializava diamantes para libertar outros escravizados e apoiar irmandades de pobres. Sua trajetória mostra que, mesmo diante da violência e da perseguição, ele transformou o garimpo em instrumento de liberdade e solidariedade.

Assim, o espetáculo e as pesquisas que o inspiraram resgatam a memória de Isidoro, reafirmando seu papel como símbolo de resistência e como parte fundamental da história cultural e social do Vale do Jequitinhonha.

 

Referencias:

Revista Faces de Clio | Dossiê Anarquismo(s) em Perspectiva: Isidoro:memórias e resistências https://periodicos.ufjf.br/index.php/facesdeclio/article/view/45513/28242

Santos, Joaquim Felício dos. 1976. Memórias do Distrito Diamantino. São Paulo: Itatiaia

Machado Filho, Aires da Mata. 1980. Arraial do Tijuco, cidade de Diamantina. Minas Gerais: Itatiaia.

Mariano, Delsa de Fátima dos Santos. Escravos e libertos: autores das ações de liberdade em Diamantina   (1850-1871). 2015.   Dissertação   de   Mestrado.   Universidade   Federal   dos   Vales Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina

4º Novembro Negro da UFVJM. Portal UFVJM. Disponível em: <https://portal.ufvjm.edu.br/agendas/eventos/2021/4-novembro-negro-da-ufvjm>. Acesso: 15 de set. 2023.


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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - A Cidade do Sol: um romance que ilumina as sombras da realidade feminina no Afeganistão

 

Se você está em busca de uma leitura intensa, profunda e transformadora, prepare-se para mergulhar nas páginas de A Cidade do Sol (A Thousand Splendid Suns), publicado em 2007 pelo renomado escritor afegão Khaled Hosseini.

Enquanto seu primeiro grande sucesso, O Caçador de Pipas, focou na amizade masculina e no peso da culpa, esta obra ilumina com maestria a cruel e sombria realidade das mulheres no Afeganistão. Vencedor do prêmio Indies Choice Book Award, o livro transforma estatísticas de guerra em rostos humanos, dores reais e pura resiliência.
Duas Gerações, Duas Histórias, Um Mesmo Destino

A narrativa atravessa mais de três décadas da história afegã, desde a década de 1970, passando pela invasão soviética, a violenta guerra civil dos anos 1990 até o domínio sufocante do regime Talibã. É em meio a esse cenário devastador que acompanhamos duas protagonistas inesquecíveis:

Mariam: Considerada uma harami (filha bastarda), cresceu isolada em uma cabana (kolba) com sua mãe amargurada. Rejeitada pela sociedade, aprendeu desde cedo a dura lição materna: "o dedo acusador da sociedade aponta sempre para as mulheres". Aos 15 anos, após uma tragédia familiar, é forçada a se casar com Rasheed, um sapateiro de Cabul trinta anos mais velho, agressivo e frustrado.

Laila: Nascida uma geração depois, é filha de um professor liberal que acredita no poder transformador da educação. Laila cresce em Cabul, estuda, é cercada de amor e apaixona-se por seu amigo de infância, Tariq. Porém, as bombas da guerra civil destroem sua família, seus sonhos e seu futuro.

Grávida, ferida e sozinha no mundo, Laila é acolhida por Rasheed e vê-se obrigada a aceitar tornar-se sua segunda esposa para proteger a vida do filho que carrega. É nesse ambiente de opressão e violência doméstica que as trajetórias de Mariam e Laila se cruzam.

 A Frase que Resumiu o Destino de Laila

Se há uma citação que define a mensagem essencial da infância de Laila e o pensamento visionário de seu pai, é esta:

"O casamento pode esperar; a educação, não. Você é uma menina inteligentíssima... Vai poder ser o que quiser, Laila. E também sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de você tanto quanto dos seus homens, talvez até mais. Porque uma sociedade não tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres não forem instruídas, Laila. Nenhuma chance."

 Sororidade e Resistência: Os Temas Centrais

O grande trunfo de A Cidade do Sol é atuar como um verdadeiro documento social disfarçado de ficção, tocando em feridas abertas:

A Opressão Doméstica e Institucionalizada: Hosseini escancara o significado de viver sob as leis extremistas do Talibã. As mulheres perdem o direito de estudar, trabalhar, rir em público ou andar desacompanhadas na rua. Dentro de casa, o sofrimento continua sob o controle físico e psicológico de um casamento abusivo.

Sororidade como Sobrevivência: O relacionamento entre Mariam e Laila começa com hostilidade e ciúmes, alimentados pela manipulação de Rasheed. Contudo, a dor compartilhada transforma essa rivalidade em uma das amizades mais bonitas e leais da literatura. Elas tornam-se o escudo e a força uma da outra.

A Metáfora dos Suspiros: Logo no início, a mãe de Mariam ensina que "cada floco de neve é o suspiro de uma mulher magoada em algum lugar do mundo". Essa poesia dolorosa ecoa por toda a leitura, mostrando como a dor feminina no Afeganistão é silenciosa, porém constante.

 O Estilo Inconfundível de Khaled Hosseini

A escrita de Hosseini é ágil, fluida, crua e extremamente visual. Ele não poupa o leitor do sofrimento e das ruínas materiais e emocionais de Cabul, mas equilibra essa crueza com momentos de extrema sensibilidade e afeto.

Ao folhear as páginas, você não encontrará príncipes encantados ou finais de fadas perfeitos. Trata-se de uma narrativa real que, embora retrate uma cultura distante, desperta uma empatia universal. É uma leitura densa que frequentemente provoca lágrimas, mas que prende o leitor pelo desejo urgente de saber se aquelas duas mulheres encontrarão a liberdade.

 A Cidade do Sol é muito mais do que um romance histórico; é um manifesto sobre a dignidade humana, o sacrifício e a força inabalável do espírito feminino diante do horror.

Ao terminar o livro, o título ganha um significado totalmente novo: a "cidade do sol" não é apenas Cabul sob a luz do dia, mas a esperança e o amor que essas mulheres carregam dentro de si, mesmo nas noites mais escuras.

Mesmo com o passar dos anos e o recente retorno do Talibã ao poder, a obra continua assustadoramente atual e urgente. Ler esta história é um convite a valorizar a nossa liberdade, praticar a empatia e escutar vozes que o mundo insiste em calar.

E ao fechar a última página, é impossível não se fazer a pergunta final: quantas Mariams e Lailas ainda vivem em silêncio pelo mundo hoje?

 

BOA LEITURA!


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Boneca, o sonho da artesã

Imagem internet

 

No chão árido de Santana do Araçuaí, comunidade pertencente ao município de Itinga, o tempo corria devagar, embalado pelo vento seco do sertão mineiro. Ali nasceu Izabel, em 1924, trazendo nos olhos a curiosidade de quem parecia ver o mundo antes mesmo de ele se desenhar.

Desde pequena, os passos da menina seguiam os rastros da mãe, Idalina Maria de Jesus, uma mulher de mãos calejadas que transformava a barro cinzento em potes, panelas e pratos indispensáveis à vida da roça. Izabel olhava em silêncio. Cada gesto da mãe ao apertar o barro era guardado em seu peito como um segredo sagrado.

Mas o ofício tinha dono e o recurso, dono e preço. Na fazenda onde viviam, o barro era ouro raro. O pai precisava marchar até a propriedade vizinha para trazer um punhado daquela terra fértil, que vinha racionada para a louça utilitária. Para a menina Izabel, restava apenas a imaginação. Ela criava suas fantasias colando retalhos de pano em sabugos de milho, dando vida a personagens invisíveis que habitavam seu universo de menina humilde. Ela ouvia falar em bonecas de verdade nas histórias que vagavam pelo vento, mas nunca tinha visto uma.

Foi escondida, no recanto onde os adultos não olhavam, que Izabel ousou tocar na terra proibida. Com dedos ágeis e leves, roubou um pouco de barro guardado e começou a moldar. Não fez panelas. Fez o seu próprio sonho.

Inspirada na forma arredondada de uma moringa, sua imaginação rompeu os limites do utilitário. A primeira imagem que lhe saltou aos olhos da alma foi a de uma mãe com o filho no colo, um retrato vivo do afeto que a impressionava e a acolhia. Depois, os dedos inquietos modelaram noivas de vestidos brancos longos e armados, pura miragem de beleza que ela tanto admirava e que parecia pertencer a um mundo distante.

Quando o sol começava a se deitar e a lenha estalava para acender o grande forno da família, lá vinha a menina coragem, com suas pequenas peças esculpidas às escondidas. A princípio, o sobressalto da mãe. Mas, ao ver a perfeição ingênua daquelas figuras de barro cru, a dureza se desfazia em brasa mansa. Idalina abria espaço no fogo e queimava as bonecas junto com os potes de sempre.

O que começou como um segredo de infância nos sulcos do sertão não coube nas cercas do Jequitinhonha. O barro que assou no forno humilde ganhou o mundo, viajou oceanos, encantou galerias e consagrou Mestra Izabel para a eternidade. Mas, para quem olhava bem de perto, cada boneca de cerâmica ainda guardava a mesma menina de Santana do Araçuaí, colando retalhos de esperança num tempo em que sonhar era o único ofício permitido.


 Crônica criada por Jô Pinto, a partir da história de vida da artesã Izabel Mendes. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A cultura popular no palco


 

No mês de setembro, Itinga e Araçuaí receberam a estreia do espetáculo infantil Turma da Feliciana, inspirado no projeto de Educação Patrimonial Arte de Viver, do idealizador José Claudionor dos Santos Pinto. A iniciativa, que já está em sua quarta fase, integra o Programa de Educação e Difusão para o Patrimônio Cultural e tem se destacado pelo uso de histórias em quadrinhos (HQs) como recurso pedagógico nas escolas da rede municipal. O material tem alcançado principalmente o público infantil, despertando curiosidade e encantamento.

A nova proposta nasceu da inspiração da educadora Ângela Freire, que apresentou o projeto ao edital da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais ( Edital 08/2024 - Desenvolvimento de Projeto). A ideia de adaptar o conteúdo para o teatro foi prontamente abraçada pelo Grupo Teatral Itinguense e Grupo Vozes de Araçuaí. Nos diálogos que antecederam a montagem, ficou clara a necessidade de criar uma ponte entre HQs, teatro infantil e patrimônio imaterial, formando um ecossistema educativo rico, lúdico e interativo. Sob a direção cênica de Allef Heberton dos Santos Murta, coube a tarefa de aproximar essas linguagens artísticas e dar vida ao espetáculo.

O uso dessas expressões artísticas, associado à preservação da identidade cultural, estimula desde cedo valores como empatia, oralidade e sentimento de pertencimento. Afinal, para preservar o patrimônio cultural de uma cidade, é preciso conhecê-lo, vivenciá-lo e aproximar-se de forma significativa dos contextos locais.

O espetáculo trouxe três narrativas do universo da cultura popular do Vale do Jequitinhonha para o palco. Essa escolha reforça como a oralidade se reinventa nos tempos atuais: se antes as histórias eram transmitidas pelos griôs em rodas de conversa, hoje o teatro assume esse papel, contando de forma lúdica e envolvente episódios marcantes da região. Entre os destaques estão: Escrava Feliciana, personagem que simboliza resistência e memória histórica. Luciana Teixeira, figura feminina que representa força e identidade cultural. Rio Jequitinhonha, elemento vital para a vida, a economia e a cultura da região.

Ao reunir essas histórias, o espetáculo reafirma o papel do teatro como guardião da memória coletiva e como ferramenta pedagógica capaz de aproximar crianças e jovens de suas raízes culturais.



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DIÁRIO DE LEITURA - Do Brasil para o Mundo: A Força, o Prestígio e as Contradições do Prêmio Jabuti

  Quando se analisa a trajetória da literatura e do mercado editorial no Brasil, poucas honrarias carregam tanta densidade histórica e poder...