quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com a escritora Deyse Magalhães


 

Mais tarde, sua trajetória seguiria por caminhos diversos. Graduou-se em Filosofia pela PUC Minas e passou a atuar como produtora cultural, agente cultural, pesquisadora popular, escritora e cronista, mantendo como eixo de seu trabalho a memória e a cultura do Jequitinhonha.

É membro fundadora da Associação dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha e da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha -ALVA, onde ocupa a Cadeira nº 12.

Mas talvez sua relação com a cultura possa ser compreendida por uma frase simples que aparece em sua própria fala:

“Eu vivo dentro desse ambiente.”

Uma cidade que carrega muitas histórias

Para compreender a escrita de Deyse, é preciso compreender também o lugar de onde ela vem.

Minas Novas aparece em seu relato como uma cidade de forte tradição cultural, marcada por festas religiosas, música, manifestações populares, vida política, produção intelectual e uma arquitetura que guarda parte de sua história.

É também uma cidade que mudou.

Deyse observa essas transformações a partir de uma memória construída na infância. Fala dos casarões que foram derrubados, das construções modernas que passaram a ocupar seus lugares e de uma forma de viver que, aos poucos, foi desaparecendo.

Ela se lembra de um tempo em que as pessoas se sentavam nas portas das casas, nas janelas ou nos bancos das praças. Um tempo de conversas demoradas, de histórias contadas oralmente e de uma convivência mais próxima.

Hoje, segundo ela, a relação com a cidade é outra.

A cultura de massa ocupa espaços cada vez maiores e as novas tecnologias modificaram também a maneira como as pessoas se relacionam com as histórias.

Hoje as pessoas estão ligadas mais ao celular e não têm paciência de ouvir tantas histórias.”

É justamente nesse ponto que sua escrita ganha outra dimensão.

Deyse não escreve somente para recordar.

Ela escreve porque sabe que o que existe hoje também poderá desaparecer amanhã.

Janelas azuis: quando a arquitetura vira memória

Em 2024, Deyse publicou Janelas Azuis, livro de poemas que estabelece uma relação direta com Minas Novas.

O título nasce de uma característica presente na arquitetura da cidade: as janelas azuis que aparecem em antigas casas, sobrados, igrejas e também em construções da zona rural.

Mas, para a escritora, essas janelas são muito mais do que elementos arquitetônicos.

Elas são portas para a memória.

“Nessas janelas azuis vêm lembranças de todos os sentidos”, conta. São lembranças da infância, da escola, das festas e das pessoas.

Por isso, Deyse define as janelas como uma espécie de passagem para a memória afetiva.

“Essas janelas azuis são poemas que remetem à memória afetiva.”

A cidade, nesse sentido, não é apenas cenário de sua poesia. É matéria da própria poesia.

A cidade de pau a pique

A relação entre literatura e território continua em Cidade de Pau a Pique, publicado em 2025.

Novamente, a arquitetura aparece como elemento de memória. O pau a pique, presente em construções históricas de Minas Novas, torna-se também uma maneira de olhar para a cidade e para seu passado.

Deyse não procura afastar sua literatura do cotidiano.

Ao contrário, transforma aquilo que está próximo em matéria literária: uma janela, uma rua, um rio, uma festa, uma casa, uma lembrança.

Sua escrita parece partir da ideia de que aquilo que é aparentemente simples pode carregar uma história enorme.

O rio que existe na memória

Entre todas as imagens presentes em sua literatura, o rio Fanado ocupa um lugar especial.

Existe o Fanado da infância e existe o Fanado que Deyse encontra hoje.

A comparação entre os dois provoca nela uma espécie de tristeza.

Ela lembra dos rios e córregos de águas limpas e cristalinas de sua infância e observa as transformações que ocorreram ao longo do tempo.

É uma lembrança que deixa de ser apenas individual.

Ao escrever sobre o rio, Deyse registra também uma paisagem em transformação.

E surge uma pergunta que atravessa sua escrita: o que restará dessas paisagens daqui a 50 ou 100 anos?

A pergunta não é apenas sobre o rio.

É sobre a própria cidade.

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu?”

Talvez a resposta mais reveladora da entrevista esteja justamente na maneira como Deyse imagina o leitor do futuro.

Ela gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e perguntasse:

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como que era a cidade que ela enxergou nesse tempo? Como eram as brincadeiras? Como eram as roupas? Como era a cultura daquele tempo?”

É aí que a literatura se aproxima do documento.

Deyse escreve pensando que o presente também será memória.

Ela gostaria que seus livros pudessem contar às gerações futuras como era viver em Minas Novas no seu tempo. Que pudessem revelar os costumes, as brincadeiras, as roupas, os lugares, os rios, a tranquilidade das ruas e as formas de convivência que talvez não existem mais.

Há, nessa perspectiva, uma preocupação com aquilo que ela própria sentiu falta ao procurar escritoras de Minas Novas de outras épocas.

“Uma das dificuldades que eu vejo é eu querendo ler algum escritor da minha cidade, de preferência escritora, que eu sei que existiram muitas e que a gente não tem nada para ver e nem saber de que elas falavam.”

Deyse parece querer deixar para o futuro aquilo que não encontrou quando olhou para o passado.

A escritora também é pesquisadora

Essa preocupação com a memória aparece de maneira ainda mais evidente em seu trabalho mais recente.

Vida entre Pincéis, que chega agora ao público, representa uma mudança de caminho em relação aos livros anteriores. Depois da poesia, Deyse mergulha no livro de memórias.

Foram seis anos de pesquisa sobre a trajetória de Genesco Murta, artista plástico nascido em Minas Novas, que viveu posteriormente em Itinga e cuja trajetória, segundo a pesquisadora, permanece pouco conhecida no próprio Vale do Jequitinhonha.

Deyse conta que encontrou na trajetória de Genesco a história de um artista que saiu de uma realidade rural e chegou a espaços importantes da arte, tendo estudado na França.

A pesquisa levou seis anos.

O resultado é um livro que, mais uma vez, nasce de uma inquietação: a necessidade de recuperar uma memória que poderia permanecer esquecida.

Com Vida entre Pincéis, Deyse deixa a poesia em segundo plano para entrar no território da memória biográfica e da pesquisa.

É como se os gêneros mudassem, mas a preocupação permanecesse a mesma.

Registrar antes que seja tarde.

Uma cultura que precisa ser contada

Quando fala sobre a cultura de Minas Novas, Deyse demonstra uma preocupação que ultrapassa sua própria produção.

Ela acredita que muitas histórias ainda precisam ser levantadas e registradas.

Fala do artesanato, das festas religiosas, das folias, das manifestações quilombolas, das bandas, das marujadas e do Congado. Lembra também personagens ligados à política, à educação, à vida religiosa, à medicina e a outros campos da história da cidade.

Para ela, existe uma quantidade enorme de conhecimento ainda espalhado pela memória das pessoas.

O problema é que nem tudo está registrado.

A Festa do Divino Espírito Santo, por exemplo, é citada por Deyse como uma manifestação com mais de dois séculos de existência que, apesar de sua importância, não possui o mesmo tipo de registro institucional encontrado em outras tradições da cidade.

Na sua visão, é preciso pesquisar, documentar e contar.

“Tem coisa demais que precisa ser levantada.”

A frase resume uma inquietação que aparece repetidamente em sua fala.

Cultura popular também precisa de investimento

A preocupação de Deyse não é apenas com o registro da cultura. É também com sua sobrevivência.

Ela observa que artistas, escritores, músicos, dançarinos e produtores culturais frequentemente precisam buscar recursos para conseguir realizar seus trabalhos.

“As pessoas que escrevem precisam de alguém pra estar ali patrocinando, precisa passar o pires.”

Para ela, existe também uma dificuldade cultural mais profunda: a sociedade foi pouco educada para consumir e valorizar a cultura popular.

Grandes eventos de cultura de massa encontram público e recursos com facilidade, enquanto manifestações locais, livros, pesquisas e trabalhos de memória muitas vezes enfrentam dificuldades para se sustentar.

Sua preocupação, portanto, não é com a cultura apenas como lembrança.

É com a cultura como prática viva.

As histórias que ainda esperam para ser contadas

Talvez um dos aspectos mais bonitos da trajetória de Deyse seja perceber que, mesmo depois de tantos livros, pesquisas e anos de atuação cultural, ela não considera sua tarefa concluída.

Pelo contrário.

Quando perguntada sobre o que ainda gostaria de escrever, começa a listar histórias.

O artesanato de Minas Novas. Os pioneiros. Os políticos. As pessoas que marcaram a vida eclesiástica. Os moradores que participaram de guerras e revoluções. A educação. As festas. As folias. As comunidades quilombolas. As bandas. O Congado. A gastronomia.

E então aparecem as quitandas e os quitutes.

Receitas que, segundo ela, carregam mais de dois séculos de existência.

É como se Minas Novas, para Deyse, fosse uma biblioteca ainda parcialmente sem catalogação.

Há histórias nas casas.

Nos rios.

Nas festas.

Nas cozinhas.

Nas igrejas.

Nas ruas.

Nas lembranças dos mais velhos.

E também nas pessoas.

Escrever contra o esquecimento

Deyse Magalhães saiu de Minas Novas, vive há décadas em Belo Horizonte, mas sua literatura continua voltada para o lugar onde sua história começou.

Sua cidade natal aparece nos títulos dos livros, nas paisagens, nos personagens, nos rios e nas lembranças.

Mas talvez apareça principalmente como uma pergunta.

O que permanecerá?

O que será esquecido?

Quem contará as histórias das pessoas que viveram antes de nós?

Quem registrará as festas, as receitas, as brincadeiras, as roupas, os rios, as casas e as conversas nas portas?

Deyse encontrou uma resposta possível na escrita.

Escrever.

Pesquisar.

Registrar.

Contar.

Talvez por isso sua literatura não seja apenas uma literatura sobre o passado. É também uma literatura sobre o futuro.

Um dia, alguém poderá abrir Janelas Azuis, Cidade de Pau a Pique ou Vida entre Pincéis e tentar descobrir como era Minas Novas no tempo em que Deyse viveu.

E talvez encontre ali aquilo que ela própria gostaria de encontrar nos livros das escritoras que vieram antes dela: uma cidade vista por dentro, através dos olhos de quem a viveu.

Uma cidade que mudou, mas que continua existindo nas palavras.

Uma cidade que ela levou consigo.

Ou, como sua própria escrita parece demonstrar, uma cidade que encontrou nela uma maneira de permanecer.

Talvez seja justamente aí que esteja a força da escrita de Deyse Magalhães; ela não escreve apenas sobre o que passou, escreve também para que o presente não passe despercebido.

Ao ouvi-la falar sobre Minas Novas, sobre as festas, as casas, os rios, as pessoas, os sabores, os artistas e tantas histórias que ainda precisam ser registradas, fica evidente que sua literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.

Deyse gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e se perguntasse: “O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como era a cidade que ela enxergava naquele tempo?”

Talvez esta matéria faça parte dessa resposta.

Porque registrar uma história é também dizer que ela importa. É guardar no papel aquilo que poderia desaparecer na pressa do tempo. E, no caso de Minas Novas, há ainda muitas histórias esperando por alguém que se sente, escute e escreva.

Enquanto algumas janelas azuis continuam abertas para a memória, enquanto o Fanado ainda corre, mesmo transformado pelos anos, e enquanto alguém se dispuser a ouvir os mais velhos, registrar suas palavras e contar suas histórias, Minas Novas continuará encontrando maneiras de permanecer.

Deyse saiu de sua cidade, mas nunca deixou de escrevê-la, e talvez essa seja uma das formas mais bonitas de pertencimento: levar um lugar consigo e, através das palavras, devolvê-lo ao mundo.

E daqui a cinquenta anos, quando alguém perguntar como era Minas Novas em nosso tempo, quais histórias teremos deixado para responder?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entre a memória e a poesia: Claudio Bento e a Jequitinhonha que continua vivendo dentro dele

 

Há lugares que a gente conhece. Há lugares que a gente carrega.

Para Cláudio Bento, Jequitinhonha é mais do que o lugar onde nasceu. É memória, infância, rio, cinema, comida, festas, personagens, poesia. É uma cidade que, mesmo pertencendo ao passado, continua vivendo dentro dele.

“Jequitinhonha é a minha ternura de infância”, diz o poeta.

Nascido em 8 de outubro de 1959, no nordeste de Minas Gerais, Cláudio Bento teve seu primeiro contato com a poesia ainda menino, no Grupo Escolar Nuno Melo. Desde então, construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à literatura, passando também pela música, pela composição, pelas oficinas e pelos movimentos culturais.

Mas, antes do poeta, existe o menino.

E é justamente por ele que esta conversa começa.

 

A infância tinha cheiro de rio

A avó de Cláudio era lavadeira. E quase todos os dias o levava para a ribeira.

Ali, o menino convivia com as mulheres que lavavam roupas enquanto cantavam músicas que, segundo ele, “só elas sabiam”. Convivia também com os canoeiros, que traziam peixes, frutas e verduras e dividiam com as lavadeiras na beira do rio.

Havia ainda os pescadores e os tropeiros.

Os tropeiros chegavam de longas viagens e acampavam nas brancas areias da praia. À noite, acendiam fogueiras, tocavam violão, cozinhavam e bebiam sob as estrelas.

Era uma Jequitinhonha pequena, bela, de casario histórico. Mas, entre tantas lembranças, algumas permanecem especialmente nítidas.

As velas multicoloridas das canoas.

As garças brancas pousando na areia e nas pedras.

O boi de janeiro pelas ruas.

A folia de reis cantando na sala de sua casa.

Os carnavais de mascarados.

“Se eu não tivesse vivenciado e bebido dessa riqueza cultural, eu não seria o poeta que sou hoje.”

 

O dia em que a poesia mostrou que podia vencer a morte

O primeiro encontro com a literatura aconteceu ainda na escola.

No final das aulas, a professora escolhia aleatoriamente um aluno para ler um poema de um pequeno livro que reunia nomes como Castro Alves, Olavo Bilac, Viriato Corrêa, Antero de Quental, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes.

Cláudio leu “Navio Negreiro”, “Meus oito anos”, “Canção do Exílio” e “Ou isto ou aquilo”.

Mas o que realmente o marcou veio depois.

Ele descobriu que aqueles poetas já haviam morrido.

E, mesmo assim, ele estava ali, dentro de uma sala de aula, lendo suas obras.

Foi então que percebeu na literatura uma espécie de permanência.

“Eu pressenti naquilo uma forma ainda que efêmera de ser eterno.”

Se aqueles poetas estavam mortos e continuavam sendo lidos, ele também queria um dia se tornar poeta para que alguém pudesse ler sua obra depois de sua morte.

Mas o caminho não foi imediato.

Antes dos vinte anos, ele conta que não tinha estilo nem uma temática definida. Foi quando descobriu Manuel Bandeira e encontrou nos poemas modernistas do autor um caminho possível.

Depois veio outra descoberta: para escrever, era preciso ler muito.

Não somente poesia, mas romances, crônicas, biografias, revistas e jornais.

Mais tarde, a leitura de Poema Sujo, de Ferreira Gullar, seria decisiva.

Foi ali que encontrou, definitivamente, sua temática.

A infância.

“É de fato um manancial inesgotável de criação literária e poética.”

 

A cidade que continua existindo

Existe uma Jequitinhonha que não ficou para trás.

Ela continua vivendo dentro do poeta.

É a cidade onde o Bicho de Pedra Azul vinha balançar o pé de algodão no quintal. Onde os meninos soltavam barquinhos de papel nas enxurradas. Onde as meninas brincavam de roda ao entardecer.

É a cidade que se alegrava com a chegada do circo.

Onde havia matinês no cinema.

Onde o menino ficava no alto das barrancas olhando a areia branca da praia e o espelho d’água do rio.

Onde as procissões serpenteavam pelos becos.

“Jequitinhonha não é apenas o lugar onde nasci, mas uma forma constante de dourar a memória do mundo.”

Talvez seja por isso que, em sua poesia, a cidade apareça tantas vezes.

Não como cenário.

Mas como memória.

 

Os personagens que entraram pela porta de casa

Alguns dos personagens que aparecem na memória de Cláudio não eram figuras distantes. Eram pessoas que faziam parte do cotidiano de sua família.

Joaquim Tatiaia, idealizador da folia do boi de janeiro, era amigo de sua avó e muitas vezes entrava na casa para tomar um café e conversar.

Sua avó também era amiga de Ambrósio, mestre da folia de reis.

Havia Chico Tejo, que guiava um carro de boi pela cidade, e Orlando Furini, carnavalesco e personagem importante dos carnavais.

Era esse “amálgama cultural” que estava ao redor do menino.

E foi essa convivência que ajudou a formar sua sensibilidade para admirar e respeitar a cultura popular de sua terra.

Cláudio também lembra de um tempo em que ninguém chamava aquelas manifestações de “folclore”.

O boi de janeiro e a folia de reis simplesmente faziam parte da vida.

A cultura era vivida.

Era cotidiana.

Era viva.

Ele recorda uma frase de Frei Chico: “chamar de folclore a cultura de um povo, é uma triste forma de discriminação”.

Para Cláudio, “a cultura não é plástica, ela é viva, e pulsa.”

 

O cinema, a avó e o homem que virou cachorro

Entre as lembranças da infância, há uma personagem central: sua avó.

Ela era indígena e analfabeta. Sabia escrever apenas o próprio nome.

Mas levava o neto ao cinema todos os dias.

O cinema era o lazer possível de uma época remota e, para Cláudio, tornou-se também uma importante formação.

Ele viu filmes do Neorrealismo italiano, do Avant-Garde francês, do Cinema Novo brasileiro, filmes mexicanos, westerns americanos, pornochanchadas e filmes de Mazzaropi.

A influência do cinema ajudaria a dar à sua poesia uma característica muito particular.

Uma poesia imagética.

Panorâmica.

Uma poesia em que, às vezes, o “ver” é mais simbolicamente importante que o “sentir”.

Mas a memória da avó também passa pela comida.

Torresmo fazia parte da alimentação diária.

E, como ela recebia muitos peixes dos canoeiros, peixe também estava quase todos os dias à mesa.

Piau, timburé, piabanha, piampara, traíra, piaba, lambari, cascudo e roncador.

Peixe frito.

Peixe cozido.

Tudo feito, segundo ele, com esmero e carinho.

E então aparece uma das histórias mais curiosas dessa memória.

Um canoeiro chamado Berrador contava que, à meia-noite de uma sexta-feira da Paixão, um homem muito distinto, vestido de terno de linho, gravata-borboleta e chapéu Panamá, bateu à sua porta.

O homem pediu para atravessar o rio.

Berrador pegou o remo e o levou até a outra margem.

Durante a travessia, conversaram sobre a vida, a seca e a falta de chuva.

Quando chegaram, o homem pediu que a travessia fosse colocada na conta dos Antunes.

E então aconteceu o inesperado.

O homem virou um cachorro enorme e desapareceu na escuridão do mato e da noite.

 

O rio que atravessou o poeta

O rio Jequitinhonha não aparece apenas na poesia de Cláudio.

Ele atravessou sua própria vida.

Era espaço de convivência.

Era estrada.

As viagens eram feitas de canoa. Parte do comércio acontecia pelo curso do rio, do litoral para o interior e do interior para o litoral.

Até estudantes viajavam de canoa para estudar no Colégio Nazaré, em Araçuaí.

E foi justamente às margens desse rio que nasceu o primeiro poema de Cláudio.

Ele estava sentado na areia, observando as muitas canoas abandonadas nas barrancas, quando surgiu a ideia de escrever “Canoa Quebrada”.

Mais tarde, o poema virou música, com composição de Rubens Espíndola.

A canção participou do terceiro Festival da Canção do Festivale, em 1982, em Itaobim, ficando entre as dez finalistas.

Não era pouco.

Entre os concorrentes estavam nomes como Rubinho do Vale e Heitor Pedra Azul.

O rio, naquele momento, não era apenas lembrança.

Era também o começo de uma trajetória.

 

Do búzio ao oceano

A relação de Cláudio com o oceano também começou na infância.

Na sala de sua casa havia um grande búzio sobre a mesa de centro.

Quando colocado no ouvido, o som parecia o barulho do mar.

Ele nunca havia ouvido o mar.

Mas sua avó dizia que aquele era o barulho do mar.

O oceano passou a ocupar um lugar simbólico em sua vida.

Para ele, foi através do mar que a cultura negra chegou ao país e também por ele vieram culturas que enriqueceram a história brasileira.

Há ainda a beleza, o mistério e o símbolo de fé.

Sempre que está diante do oceano, Cláudio diz viver um momento de reflexão.

E também de respeito aos orixás do candomblé, ao pular as sete ondas.

 

Quando algumas tradições começaram a desaparecer

Nem tudo permaneceu.

Cláudio olha para as manifestações culturais de sua infância e percebe mudanças profundas.

O boi de janeiro, que antes era uma festa popular de grande magnitude, tinha cordões imensos e provocava grande exaltação do público.

Hoje, ele sente tristeza ao ver os bois na rua sem a valorização que deveriam receber.

As folias de reis desapareceram.

As festas de largo, como as de Iemanjá e Cosme e Damião, tornaram-se praticamente inexistentes.

Para o poeta, muita coisa mudou.

Outras coisas desapareceram “no limbo do progresso”.

 

Um Vale de encantamento

Durante muito tempo, o Vale do Jequitinhonha foi apresentado principalmente pela pobreza e pela carência.

A poesia de Cláudio escolhe outro caminho.

O Vale que ele procura apresentar é um vale de encantamento.

Um lugar de memória.

De paisagens arrebatadoras.

Um lugar digno para viver.

Porque, para ele, o orgulho de ser do Vale não vem da pobreza.

Vem da cultura.

Da música.

Da poesia.

Do artesanato.

Das raízes profundas.

“Todo filho do vale tem orgulho de ser do vale.”

 

O poeta do mimeógrafo

A poesia de Cláudio também nasceu junto com o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

Os primeiros dois Festivales já haviam acontecido em 1980 e 1981.

Os primeiros livros eram feitos artesanalmente, rodados em mimeógrafo, muitas vezes sem revisão e sem maiores cuidados.

As dificuldades eram grandes.

Cláudio e o poeta Wellington Miranda precisavam pedir papel e cartolina na prefeitura para imprimir os livros.

Era uma época de sonhos.

E também de ditadura.

Para eles, literatura e arte eram formas possíveis de resistência.

Ser poeta naquele momento era ser visto como marginal.

Não havia crédito.

E, como ele conta, os jovens cabeludos ainda eram considerados “maconheiros em potencial”.

Mas veio a primeira Antologia Poética do Vale do Jequitinhonha, reunindo cinco poetas da região.

A publicação tornou-se um divisor de águas para a literatura produzida no Vale e influenciou inúmeros poetas a escrever e trabalhar com poesia.

 

Quatro décadas depois

O menino que começou lendo poemas em uma sala de aula chegou muito mais longe do que imaginava.

Cláudio reconhece que sua poesia mudou com o tempo, com a leitura e com a maturidade.

Mas ele próprio diz que não era o único a perceber essa transformação.

Críticos literários, poetas e professores como Pollyanna de Matos Vecchio, Marli Fróes, João Evangelista Rodrigues, Wesley Pioest e Heloísa Buarque de Holanda estão entre os nomes citados por ele.

E há uma frase que resume bem essa trajetória:

“Eu não acreditava que aqueles livrinhos mimeografados me levassem a algum lugar.”

Ainda bem que estava enganado.

“A poesia já me deu muito mais do que eu esperava dela.”

E talvez a própria entrevista seja uma prova disso.

 

Quando o poema vira música

A literatura, para Cláudio, nunca esteve isolada.

A relação com a música é, como ele define, “intrínseca”.

Desde o início havia um sonho: ouvir um poema seu transformado em música.

O sonho se realizou.

E foi além.

Ele tornou-se parceiro de muitos compositores do Vale e também de fora dele.

Poesia e música caminham juntas em sua trajetória.

 

A poesia como lugar de memória

Pode um poema preservar a memória de uma comunidade?

Para Cláudio, sim.

Um poema pode ser um “artefato de preservação da memória”.

Ele considera a literatura do Vale muito forte porque a vivência da região é única e sua cultura possui nuances que não são facilmente encontradas em outras culturas.

Mas há também uma preocupação.

É preciso união.

Foi por isso que surgiu a ideia de criar a Associação de Poetas, depois de uma viagem a Salvador com a poeta Herena Barcelos.

Criar antologias.

Fortalecer a Noite Literária do Festivale.

Promover mais oficinas de literatura.

Não apenas durante o Festivale, mas no cotidiano das cidades da região.

Porque preservar a memória também significa mantê-la viva.

 

A imagem que ficou

Depois de tantas histórias, tantas décadas e tantos versos, resta uma pergunta: se fosse possível deixar apenas uma imagem da Jequitinhonha para as próximas gerações, qual seria?

A resposta de Cláudio não poderia estar mais ligada àquilo que atravessa toda a sua trajetória.

O rio.

As canoas.

A praia.

As garças sobrevoando as águas.

É uma imagem que, segundo ele, hoje se tornou impossível.

E sua resposta termina com uma crítica à realidade atual, atribuída à ação do poder e à incompetência dos gestores municipais.

Mas a imagem permanece.

O rio.

As canoas.

As garças.

E, entre elas, a memória de um menino que um dia descobriu que os poetas podiam morrer e, ainda assim, continuar vivos.

 

Depois da conversa

Há poetas que escrevem sobre um lugar.

Cláudio Bento parece escrever a partir dele.

Em sua poesia, Jequitinhonha não aparece apenas como cenário. Está nas ruas, no rio, nas casas, nos quintais, nos sabores, nas festas, nos personagens e, sobretudo, nas lembranças de quem viveu aquele lugar.

Ao revisitar a infância e sua trajetória de mais de quatro décadas na literatura, Cláudio Bento mostra que a poesia também pode ser uma maneira de guardar aquilo que o tempo transforma.

O canoeiro, a avó, o tamarindeiro, o cais, a comida, a brincadeira no rio e tantos outros elementos do cotidiano tornam-se palavras e, assim, continuam existindo.

Talvez seja essa uma das maiores forças de sua obra: transformar a memória em poesia e fazer da poesia uma casa para a memória.

E, enquanto houver versos para contar, aquela Jequitinhonha continuará navegando.

 

Para não deixar o rio partir

Ao ouvir Cláudio Bento, fica a impressão de que algumas cidades não desaparecem completamente. Elas mudam de lugar. Saem das ruas, das festas, das canoas e das margens do rio e passam a morar na memória de quem as viveu.

É assim que Jequitinhonha aparece em sua trajetória: como lembrança, mas também como matéria viva de poesia.

Talvez seja esse o poder da literatura de Cláudio. Fazer com que uma lavadeira continue cantando, que uma canoa ainda atravesse o rio, que as garças continuem sobrevoando a praia e que uma infância, mesmo distante no tempo, possa novamente ser visitada.

No fim da conversa, fica uma imagem.

O rio, as canoas, a praia e as garças.

Uma paisagem que o poeta sabe que já não existe como antes, mas que permanece inteira em sua memória.

E talvez seja justamente por isso que ele continua escrevendo.

Para que aquilo que o tempo levou não desapareça por completo.

Para que Jequitinhonha continue existindo.

Ao menos enquanto houver alguém disposto a lembrá-la.

E enquanto houver poesia, o rio ainda estará correndo.

 

Por Solange Santos



 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A maldição

Feita por IA

 

Essa é uma das muitas histórias que meu pai contava e que eu venho transformando-as em contos, na história de hoje, vamos contar a história de um lobisomem que andava outrora pelas terras onde é hoje o município de Itinga.

Era uma história antiga, daquelas que os mais velhos contavam ao redor do fogo, mas que trazia o peso da realidade para quem conhecia o destino daquela família.

Desde menino, carregava o fardo de um sangue inquieto. Nas noites em que a lua cheia despontava prateada e redonda no céu, o corpo infantil e depois o de homem feito contorcia-se em dores indescritíveis. Transformado em uma criatura monstruosa, metade homem, metade lobo, vagava pelas fazendas ao redor. Naquela época, o susto limitava-se ao gado assustado e aos cercados arrebentados; a fartura de animais impedia que o bicho voltasse sua fúria contra as pessoas.

A vida seguiu seu curso implacável, o menino cresceu, casou-se, teve filhos e tentou viver como qualquer outro homem. Contudo, quando o clarão da lua cheia iluminava o terreiro, ele inventava desculpas esfarrapadas, sumia na escuridão da noite e só retornava ao amanhecer, exausto e silencioso.

Certa vez, a família viajou para uma festa tradicional na zona rural, hospedando-se de um dia para o outro. No dia seguinte, embalado pela rotina da celebração, ele esqueceu-se completamente do calendário lunar. Só se deu conta do perigo quando já pegavam a estrada de volta e as primeiras sombras da noite começavam a engolir o horizonte. O pavor gelou-lhe o sangue: a noite de lua cheia já reinava lá fora, e a proximidade da maldição punha em risco quem ele mais amava.

Sem pensar duas vezes, virou-se para a esposa e ordenou com voz firme e desesperada: — Suba naquela árvore com as crianças agora mesmo! Não olhe para trás e não desça por nada deste mundo!

A mulher, sem entender absolutamente nada, tomou os filhos nos braços e subiu aos prantos, apavorada com a urgência no olhar do marido. Ele, sem dar explicações, sumiu correndo pela estrada escura, engolido pela noite cerrada.

As horas arrastavam-se penosamente, o silêncio da mata era cortado apenas pelos grilos e pelo medo. A mulher, agoniada com a demora do marido e o choro abafado das crianças, não suportou a angústia, convencida de que precisava buscar ajuda, desceu da árvore com os filhos e pôs-se a caminhar pela margem da estrada poeirenta.

Já passava da meia-noite quando um silêncio sepulcral abateu-se sobre o caminho. Um uivo longínquo e aterrorizante rompeu o ar. Instantes depois, a criatura colossal, uma silhueta disforme entre a fúria do lobo e a desolação do homem saltou para o meio da estrada.

A mãe, paralisada pelo horror, colocou os filhos atrás de si e começou a rezar em voz alta, implorando por proteção. Mas o bicho, cego pelo instinto feroz da lua, partiu para cima deles com violência cega. No meio da confusão e dos gritos de pavor, a criatura conseguiu arrebatar uma das crianças e disparou  em direção à mata densa, uivando para o céu.

Desesperada, sangrando e abraçada aos dois filhos restantes, a mulher correu sem rumo até avistar uma casa isolada. Bateu desesperadamente à porta. Os moradores, sobressaltados com a urgência, abriram e acolheram a família, cuidando dos feridos com urgência.

Entre soluços e tremores, ela contou o horror que acabara de viver, os donos da casa entreolharam-se com gravidade: — Você não é daqui, menina? — perguntaram. — Não — respondeu ela, a voz frágil. — Está tudo explicado. Você não conhece a lenda do lobisomem, um homem desta região, em noites de lua cheia, transforma-se em fera e ataca animais e pessoas... Infelizmente, ele levou o seu filho.

A mulher desabou em prantos convulsivos que duraram o resto da madrugada. Ao raiar do dia, agradeceu aos anfitriões e iniciou o caminho de volta para casa, o coração pesava com uma suspeita terrível que ela já não ousava recusar.

Ao chegar, encontrou a porta da frente entreaberta. Entrou devagar. Deitado na cama, ainda grogue pelo sono profundo do amanhecer, estava o marido. Entre os dentes dele, havia pedaços de tecido ensanguentados da roupa do filho; em sua mão firme, os retalhos restantes da vestimenta da criança.

A revelação foi um golpe mortal em sua alma, sem dizer uma só palavra, a mulher recolheu os filhos, fechou a porta e partiu para nunca mais voltar. Ninguém jamais soube o rumo que tomou.

Diz a lenda, contudo, que quando o homem despertou e encontrou a roupa do filho e os fiapos presos em sua boca, compreendeu a tragédia que cometera. Um grito de dor estrangulou-se em sua garganta, seguido de um choro desesperado que nunca mais teve fim.

Desde então, conta-se que ele vaga pelas estradas desertas , chorando e à procura de sua esposa e de seus filhos para implorar perdão. Mas, quando a lua cheia brilha soberana no céu, o bicho-homem desperta de novo, vagando pelas matas e amedrontando os descuidados que o ousam desafiar a escuridão de uma noite de lua cheia.


História adaptada por Jô Pinto, contada pelo seu pai João Antenor em seu tempo de criança. 

 

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com a escritora Deyse Magalhães

  Mais tarde, sua trajetória seguiria por caminhos diversos. Graduou-se em Filosofia pela PUC Minas e passou a atuar como produtora cultural...