quinta-feira, 13 de agosto de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com Fabio Amaral Montes- escritor Almenara


 

Entre a poesia e o voo dos pássaros: Fábio Amaral Monte e a arte de transformar Almenara em literatura

Poeta, compositor, quadrinista, fotógrafo, educador e observador de aves. Há mais de quatro décadas, Fábio Amaral Monte constrói uma obra que nasce da memória, da paisagem e da cultura de Almenara, transformando o cotidiano do Vale do Jequitinhonha em poesia, música e histórias que atravessam gerações.

 

Há quem passe a vida inteira procurando inspiração. Fábio Amaral Monte teve a sorte ou talvez o privilégio de nascer dentro dela.

Muito antes de publicar livros, organizar coletâneas literárias, subir aos palcos com bandas de rock ou registrar aves raras com sua câmera fotográfica, existia um menino que observava atentamente a paisagem ao redor de casa. O cenário era Almenara, no Vale do Jequitinhonha/MG, onde a natureza, as ruas de terra, as olarias e o Rio Jequitinhonha não eram apenas parte da paisagem: eram personagens silenciosos de uma história que começava a ser escrita.

Hoje, ao olhar para uma trajetória iniciada ainda na infância, Fábio percebe que nada aconteceu por acaso. O escritor que publicou Poesia até Agora, organizou o Farol de Letras, criou quadrinhos, compôs centenas de músicas e se tornou uma das vozes mais atuantes da cultura Almenarense é o mesmo garoto curioso que nunca conseguiu ficar parado diante do mundo.

Mais do que um poeta, Fábio é um criador de universos.

 

A infância onde tudo começou

Nascido em Almenara, em 24 de maio de 1974, filho de Hermes Cesário Monte e Maria das Graças Amaral Campos, Fábio cresceu em uma cidade que lhe ofereceu aquilo que nenhum curso de escrita poderia ensinar: a capacidade de observar.

 

Uma das lembranças mais vivas da infância remete à Rua Argemiro Aguilar, onde morou durante boa parte da década de 1980. Em frente à casa havia um grande matagal que conduzia até a antiga Lagoinha, uma extensa lagoa que seguia em direção ao aeroporto. Nos arredores funcionavam diversas olarias, lugares que fascinavam o menino que saía de casa acompanhado do irmão para buscar barro e modelar pequenas panelas e objetos artesanais.

Enquanto fala sobre esse período, é impossível não perceber que sua memória continua habitando aquelas ruas.

"A paisagem natural de Almenara sempre me inspirou. O matagal, as olarias, os carreiros, a rua de terra... Tudo aquilo me impressionava profundamente. Sonhei com essas ruas durante muitos anos da minha vida."

A natureza, entretanto, não era sua única fonte de encantamento.

Dentro de casa, outro universo se abria.

O pai chegava trazendo exemplares da revista A Espada Selvagem de Conan. Na televisão, desfilavam heróis como He-Man, Thundercats, Galaxy Rangers, Defensores da Terra e Super Amigos.

Era o combustível perfeito para uma imaginação inquieta.

Antes mesmo de completar dez anos, Fábio já havia escrito seu primeiro conto, O Castelo Voador. Pouco depois nasceu o primeiro super-herói criado por ele: Estrela de Estéria.

A partir dali, nunca mais parou.

Muito antes dos livros, vieram os quadrinhos

Quem conhece apenas o poeta talvez não imagine que sua primeira paixão artística tenha sido a narrativa gráfica.

 

Ainda criança, Fábio começou a produzir revistas inteiras à mão. Escrevia, desenhava, criava personagens, organizava as histórias e acompanhava cada edição como se estivesse dirigindo uma grande editora.

Em 1986 surgiu a Seleção Estéria.

Vieram 185 edições.

No ano seguinte nasceu a Revista da S.E.

Foram impressionantes 332 edições.

Tudo produzido artesanalmente.

Sem computador.

Sem internet.

Sem editora.

Sem imaginar que, décadas depois, aqueles personagens continuariam vivos.

Em 2026, os Galaxiadores - equipe de super-heróis criada ainda na infância - completam quarenta anos de existência. Para celebrar a data, Fábio decidiu revisitar toda essa produção, reeditando as sessenta edições mais recentes com novos desenhos, demonstrando que alguns sonhos realmente envelhecem junto com seus criadores.

"Eu sempre procurei o que fazer", resume.

A frase parece simples.

Mas explica praticamente toda a sua trajetória.

 

Escrever era uma necessidade, não um projeto de carreira

Ao contrário do que muitos imaginam, Fábio nunca começou a escrever pensando em publicar livros.

A escrita nasceu muito antes da ideia de ser escritor.

Nasceu da necessidade de criar.

Nasceu porque as histórias precisavam existir.

Seu primeiro poema surgiu em 1990.

Mas chegar até ele exigiu persistência.

Desde os onze anos de idade trabalhava para ajudar nas despesas da família. O salário era destinado quase inteiramente ao sustento da casa.

Restava pouco.

Às vezes, apenas o suficiente para comprar algumas revistas em quadrinhos.

Quando faltava material, improvisava.

"Se não tinha caderno, escrevia no verso de panfletos que o comércio jogava fora. Se não tinha folha, usava formulários antigos do IPSEMG ou do Banco do Brasil. Quando acabava a caneta azul, escrevia com a vermelha. Eu só tinha uma certeza: precisava continuar escrevendo."

Essa talvez seja uma das passagens mais reveladoras de sua trajetória.

Porque mostra que escrever nunca dependeu das condições ideais.

Dependia apenas da vontade.

 

Um escritor sem leitores - e feliz assim

Outra revelação surpreende.

Durante muitos anos, Fábio nunca se preocupou em ser lido.

Seu compromisso era com a escrita.

"Nunca me preocupei em fazer minha voz circular. Sempre escrevi para mim mesmo."

Mesmo assim, tratava suas revistas com um rigor profissional.

Como colecionava revistas da Marvel e da DC Comics, decidiu que suas próprias publicações também precisavam respeitar uma periodicidade.

A Seleção Estéria era semanal.

A Revista da S.E., diária.

As datas eram cumpridas rigorosamente.

Não importava se havia leitores.

Importava a disciplina.

Importava o compromisso consigo mesmo.

 

Quando a poesia encontrou o Vale

Durante muito tempo, seus grandes referenciais pareciam inalcançáveis.

Carlos Drummond de Andrade.

Pablo Neruda.

Beatles.

Pink Floyd.

Legião Urbana.

Engenheiros do Hawaii.

Artistas gigantes, admirados à distância.

Foi apenas anos depois que Fábio descobriu algo transformador.

Havia escritores produzindo literatura ali mesmo, no Vale do Jequitinhonha.

O encontro com autores como Tadeu Martins, Cláudio Bento, Caio Duarte e Luís Santiago representou uma mudança profunda.

Mais do que conhecer novos livros, ele percebeu que também era possível escrever sobre Almenara, sobre o Vale, sobre o cotidiano das pequenas cidades.

Foi nesse momento que aconteceu uma espécie de reconhecimento.

"Quando li livros produzidos por escritores daqui, tive certeza de que meus livros artesanais também eram livros de verdade. E que eu era, de verdade, um poeta."

Essa descoberta ampliou seus horizontes.

A partir dali, Minas Gerais e o Vale do Jequitinhonha passaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua produção literária.

Não como limite.

Mas como ponto de partida para falar do mundo.

 

 O poeta que aprendeu a ouvir o silêncio

Há escritores que colecionam livros. Fábio Amaral Monte coleciona lembranças.

Talvez seja por isso que Poesia até Agora, lançado em 2025, não seja apenas um livro de poemas. É também um álbum de memórias, onde a infância, a juventude, os encontros e as descobertas caminham lado a lado. Cada texto guarda um pedaço da vida de quem o escreveu e, ao mesmo tempo, desperta no leitor a sensação de revisitar a própria história.

Reunir trinta e cinco anos de produção literária poderia parecer apenas um exercício de organização. Para Fábio, foi muito mais do que isso.

Foi uma viagem.

"Foi como viajar no tempo. O curioso é que o tempo passa, mas a primeira impressão permanece. Reler minhas poesias fez com que eu voltasse a sentir exatamente o que senti quando as escrevi."

Ao reencontrar versos escritos na adolescência, percebeu que não estava apenas diante de palavras antigas. Estava diante do jovem que um dia foi.

Entre todas as lembranças, uma lhe arrancou um sorriso.

Aos dezesseis anos, escreveu um poema reclamando da pouca idade.

Hoje, relendo aquele texto, diverte-se com a ironia do tempo.

"Eu tinha uma vida inteira pela frente e estava achando ruim não ser mais velho. Vai entender."

Mas a organização de Poesia até Agora seguiu um caminho diferente do que muitos esperariam.

Em vez de reunir apenas os poemas considerados mais fortes, Fábio decidiu que cada um dos trinta e cinco anos de sua caminhada deveria estar representado.

Era uma forma de mostrar que a poesia também amadurece.

Que o escritor de hoje só existe porque um menino, décadas atrás, insistiu em escrever mesmo quando ninguém o lia.

Para completar essa travessia, escreveu um poema inédito, justamente o último do livro.

Chamou-o de Poesia até Agora.

Nele, transformou em versos a própria trajetória.

É como se o livro terminasse exatamente onde outra história começa.

 

A poesia como um modo de viver

Enquanto muitas pessoas enxergam a poesia como algo distante da vida cotidiana, Fábio pensa exatamente o contrário.

Para ele, a literatura não pertence apenas aos livros.

Ela acontece na forma como observamos o mundo.

Acontece quando alguém desacelera.

Quando escolhe silenciar.

Quando decide prestar atenção.

Em tempos dominados pela velocidade das telas e pela avalanche de informações, ele acredita que abrir um livro continua sendo um gesto de resistência.

"Reservar um tempo para sentar numa poltrona, no sofá ou mesmo na cama para ler já consiste, por si só, numa prática de bem viver."

A leitura, segundo ele, exige entrega.

Paciência.

Disponibilidade.

Qualidades cada vez mais raras na vida contemporânea.

E a poesia amplia essa experiência.

Não oferece respostas prontas.

Convida o leitor a enxergar aquilo que sempre esteve diante dos olhos, mas que a pressa impede de perceber.

"A poesia tem a missão de nos fazer acordar enquanto sonhamos", afirma.

Essa talvez seja a melhor definição de sua própria obra.

Seus poemas falam de rios, ruas, infância, pessoas simples, encontros, dúvidas e paisagens do interior.

Mas, por trás de cada imagem, existe sempre uma reflexão sobre o tempo, a existência e as relações humanas.

 

Entre Drummond e o rock

Quem conhece apenas os poemas de Fábio pode imaginar que sua formação literária foi construída exclusivamente pelos grandes escritores.

Não foi.

Ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda havia outra escola igualmente importante.

O rock.

Legião Urbana.

Pink Floyd.

Beatles.

Engenheiros do Hawaii.

Essas bandas ajudaram a formar não apenas seu gosto musical, mas também sua forma de pensar.

Por isso, nunca enxergou conflito entre delicadeza e contestação.

A poesia pode denunciar.

O rock também pode emocionar.

As duas linguagens convivem naturalmente dentro dele.

Ao lembrar um verso de Drummond — "Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças" — e uma frase de Humberto Gessinger — "É preciso fé cega e pé atrás" — Fábio revela uma característica constante de sua escrita.

O equilíbrio.

Seus poemas contemplam a beleza do cotidiano sem ignorar as desigualdades.

Questionam sem perder a ternura.

Criticam sem abrir mão da esperança.

Para ele, a arte precisa despertar consciência, mas também empatia.

Porque nenhuma transformação acontece sem humanidade.

 

Cada linguagem encontra seu próprio caminho

É difícil resumir Fábio Amaral Monte em apenas uma palavra.

Poeta?

Também.

Compositor?

Sem dúvida.

Quadrinista.

Fotógrafo.

Pesquisador da memória cultural.

Educador.

Organizador de livros.

Todas essas definições cabem.

Mas nenhuma dá conta do conjunto.

Curiosamente, ele explica que nunca começa um projeto sem saber exatamente onde aquela ideia irá desembocar.

Quando escreve um poema, sabe que será poema.

Quando surge uma música, ela nasce como música.

Quando imagina uma aventura dos Galaxiadores, pensa imediatamente na linguagem dos quadrinhos.

Embora conversem entre si, cada forma de expressão possui sua própria arquitetura.

Sua própria respiração.

Sua própria música.

Ainda assim, todas carregam a mesma assinatura.

São maneiras diferentes de contar histórias.

 

O homem que prefere os pássaros aos palcos

Talvez poucas pessoas imaginem que uma das maiores paixões de Fábio não esteja ligada nem à literatura nem à música.

Está no voo das aves.

Desde dezembro de 2019, quando participou de sua primeira passarinhada, passou a dedicar parte significativa do tempo à observação e ao registro fotográfico da avifauna do Vale do Jequitinhonha.

O resultado impressiona.

Já catalogou 474 espécies, contribuindo para que Almenara se tornasse o município mineiro com o maior número de registros publicados na plataforma WikiAves, referência nacional em observação de aves.

Mas os números, para ele, são apenas consequência.

O verdadeiro aprendizado acontece durante a espera.

Fotografar um pássaro exige paciência.

Silêncio.

Escuta.

Tempo.

Exatamente como escrever um poema.

"Uma foto bem feita não mostra apenas uma ave. Ela revela luz, composição, paisagem, contraste, enquadramento, texturas e cores."

É impossível não perceber a semelhança entre esse olhar e sua maneira de escrever.

Assim como o fotógrafo espera o instante exato em que o pássaro pousa, o poeta também sabe que cada palavra possui seu próprio tempo.

No fim da entrevista, ao revelar um aspecto pouco conhecido de sua personalidade, Fábio surpreende.

Apesar de já ter se apresentado em diversos palcos com bandas de rock, confessa que existe um lugar onde realmente se sente inteiro.

"No fundo, gosto muito mais de estar numa passarinhada, no meio do mato, do que em cima de um palco."

Talvez porque ali, longe do barulho, seja mais fácil ouvir aquilo que sempre alimentou sua obra.

O silêncio.

 

Quando a literatura deixa de ser individual e se torna um farol

Ao longo da conversa, uma palavra aparece repetidas vezes, ainda que Fábio Amaral Monte nunca a diga explicitamente: coletividade.

Embora tenha começado escrevendo sozinho, produzindo revistas que quase ninguém lia e poemas que guardava para si, o tempo transformou aquele escritor solitário em alguém que faz questão de dividir espaço, abrir portas e construir pontes.

Talvez o exemplo mais significativo dessa mudança seja o Farol de Letras.

A ideia nasceu quase por acaso.

Em determinado momento, Alba Valéria, então ligada à Secretaria Municipal de Cultura de Almenara, convidou Fábio para desenvolver um projeto cultural. Ela imaginava um documentário ou um videoclipe. Ele fez uma contraproposta.

"Posso publicar um livro?"

A resposta foi sim.

O que poderia se transformar em uma publicação individual tomou outro rumo.

Em vez de lançar apenas sua própria obra, Fábio decidiu reunir escritores da cidade.

Nascia, assim, Farol de Letras – Almenara em Prosa e Verso, a primeira coletânea literária publicada no município.

Mais do que organizar textos, ele quis construir um retrato coletivo da produção cultural Almenarense.

Convidou dezoito escritores.

Chamou a cantora e pesquisadora Déa Trancoso para escrever o prefácio.

Luiz Edmundo Alves assinou o texto de orelha.

Alba Valéria escreveu o posfácio.

Lucas Amaral Monte produziu caricaturas dos autores.

Uma obra do artista plástico Diomilton Ferraz, fotografada pelo próprio Fábio, tornou-se a capa do livro.

As fotografias internas, registrando paisagens de Almenara, também são de sua autoria.

Até o local do lançamento carregava significado.

O tradicional Clube dos Operários foi escolhido por representar um dos espaços mais simbólicos da história social e cultural da cidade.

"O mais bonito", lembra Fábio, "foi descobrir que estávamos fazendo história."

O projeto cresceu.

Vieram novos escritores.

Uma segunda edição.

Hoje, o grupo reúne mais de trinta autores, demonstrando que a literatura produzida no Vale continua viva e em expansão.

 

O Vale sempre foi um celeiro de cultura

Durante muito tempo, o Vale do Jequitinhonha foi lembrado quase exclusivamente por seus indicadores sociais.

Fábio conhece bem essa narrativa.

Mas prefere olhar para outro aspecto.

Para ele, criatividade nunca faltou ao povo do Vale.

O que faltavam eram oportunidades.

Ao refletir sobre o crescimento da produção artística regional, ele reconhece a importância de políticas públicas de incentivo à cultura, da descentralização dos recursos e do surgimento das redes sociais, que democratizaram a divulgação do trabalho de artistas independentes.

Lembra que, quando começou a escrever, publicar um livro significava enfrentar distâncias, altos custos e a ausência de editoras próximas.

Hoje, basta um celular para apresentar um poema ao mundo.

Mas faz questão de destacar que o talento já existia muito antes da internet.

"O Vale sempre foi uma potência cultural. Nosso povo aprendeu, desde cedo, a criar com aquilo que tinha nas mãos."

É um pensamento coerente com sua própria trajetória.

Afinal, foi exatamente assim que ele começou.

 

Educar também é cultivar futuros leitores

Embora trabalhe atualmente na Superintendência Regional de Ensino de Almenara, atuando na área de Educação Especial, Fábio continua profundamente ligado ao universo escolar.

Sempre que é convidado para conversar com estudantes, faz questão de compartilhar sua própria história.

Não para transformá-la em exemplo.

Mas para mostrar que a criação artística nunca dependeu das condições perfeitas.

Conta que escrevia em panfletos descartados.

Que reaproveitava formulários antigos.

Que produzia revistas inteiras sem imaginar que um dia publicaria livros.

Ao observar a juventude de hoje, percebe um cenário muito diferente daquele que viveu.

Reconhece as facilidades proporcionadas pela tecnologia, mas acredita que elas também trouxeram novos desafios.

Na sua visão, a rapidez das redes sociais muitas vezes reduz o tempo da contemplação, da leitura e da criação.

Sem fazer críticas simplistas, prefere lançar um convite.

Se antes era possível criar com tão pouco, imagina o quanto as novas gerações podem produzir tendo tantas ferramentas à disposição.

Mais do que incentivar leitores, Fábio procura despertar criadores.

Essa postura aparece em praticamente tudo o que faz.

Quando organiza um show, convida outros músicos.

Quando divulga um livro, apresenta autores da região.

Quando cria um projeto, pensa primeiro no coletivo.

"Se oportunidades me foram dadas, hei de oportunizá-las também."

A frase resume uma filosofia de vida.

 

Os próximos capítulos dessa história

Engana-se quem imagina que, depois de mais de quarenta anos produzindo arte, Fábio esteja diminuindo o ritmo.

Ao contrário.

Os projetos continuam surgindo com a mesma intensidade da infância.

Em 2026, os Galaxiadores, equipe de super-heróis criada ainda na década de 1980, completam quarenta anos.

Para celebrar a data, ele iniciou a reedição das sessenta revistas mais recentes, acrescentando novos desenhos e revitalizando personagens que o acompanham desde menino.

Também foi convidado para organizar o segundo livro de poemas do escritor Alzito Fonseca.

Participará da segunda coletânea de contos e crônicas do Coletivo de Escritores do Vale do Jequitinhonha com o conto A Mulher de Sete Metros.

E prepara o lançamento de seu segundo livro solo de poesia, Novos Poemas Reunidos, previsto para o final deste ano.

A impressão é de que Fábio continua fazendo exatamente o que fazia aos dez anos de idade.

A diferença é que, agora, há leitores esperando por suas próximas histórias.

 

Nos bastidores do poeta

Quando a entrevista se aproxima do fim, o escritor deixa de lado datas, projetos e livros.

Passa a falar do homem.

Conta que as melhores ideias costumam surgir durante as caminhadas.

Revela que utiliza a Inteligência Artificial apenas para reconstruir visualmente os super-heróis que imaginou ainda na infância, insistindo até que cada desenho fique exatamente como existia em sua memória.

Confessa, com bom humor, que entende "lhufas" de tecnologia e que nem sabe dizer a marca do próprio celular.

Diz não torcer para nenhum time de futebol.

Afirma ser extremamente caseiro.

Agradece, diariamente, pelas oportunidades que recebeu.

Fala com orgulho da esposa, Marilde, grande incentivadora de sua caminhada artística.

E emociona-se ao mencionar as filhas, Vitória e Júlia, por quem declara um amor imenso.

Há ainda uma revelação curiosa.

Apesar de toda a experiência nos palcos, onde apresentou suas músicas com diferentes bandas de rock, ele admite que existe um lugar onde se sente verdadeiramente feliz.

"Prefiro estar numa passarinhada, no meio do mato, do que num palco."

Talvez porque ali, entre árvores, rios e pássaros, esteja o mesmo menino que um dia caminhou pelas ruas de terra de Almenara imaginando castelos voadores, super-heróis e poemas.

 

Um homem que continua escrevendo a própria história

Ao terminar esta conversa, fica a impressão de que Fábio Amaral Monte nunca perseguiu fama, prestígio ou reconhecimento. Seu compromisso sempre foi outro: criar.

Criar mesmo quando faltavam papel e caneta.

Criar quando os livros pareciam um sonho distante.

Criar sem saber se alguém leria.

Criar porque essa sempre foi sua maneira de compreender o mundo.

Ao longo de mais de quatro décadas, esse menino que moldava brinquedos de barro, inventava heróis, escrevia revistas artesanais e sonhava diante da paisagem de Almenara transformou-se em poeta, compositor, fotógrafo, educador e articulador cultural. Mas, acima de tudo, permaneceu fiel ao gesto que deu origem a tudo: o de observar com atenção e transformar a experiência vivida em arte.

 

Sua trajetória também revela a força criativa do Vale do Jequitinhonha. Uma região que, muito além dos estereótipos, continua produzindo escritores, músicos, artistas visuais, artesãos e narradores capazes de transformar memória em patrimônio e cotidiano em literatura.

No fim da entrevista, Fábio deixa um recado simples, mas que resume a essência de toda a sua caminhada: deseja que cada leitor se aproxime um pouco mais da cultura produzida no Vale.

É um convite difícil de recusar.

Porque, depois de conhecer sua história, entendemos que a poesia não mora apenas nos livros.

Ela também vive nas ruas de terra, nas águas do Jequitinhonha, no silêncio das matas, no voo dos pássaros e na persistência de quem nunca deixou de acreditar no poder transformador da arte.

 

Por

Soll Santos

 


 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda da Acayaca


 

 A lenda da Acayaca se baseia nos arredores do Arraial do Tejuco, onde atualmente, se estabelece o centro histórico da cidade de Diamantina-MG, neste território se concentravam os índios Botocudos, e porventura do crescimento do Arraial, os bandeirantes precisavam ocupar todo o território. Em contrapartida à demarcação territorial, os Botocudos, que eram conhecidos por suas características extremamente ferozes, resistiram às opressões dos bandeirantes subindo para as regiões mais elevadas do Arraial, onde por ali se estabeleciam as suas tribos, que por ventura, havia um grandioso cedro, onde os Botocudos acreditavam ser uma árvore sagrada para a sua tribo, além de ser um ponto de força contra os ataques dos bandeirantes. Conta-se, segundo a lenda, que há milhares de anos atrás, a região do Arraial teria sofrido uma enchente muito forte, e apenas um casal da tribo havia sobrevivido. A sobrevivência do casal se deu pela subida na copa da árvore sagrada, quando a enchente bradou, o casal desceu e decidiu a partir de então, povoar novamente a sua tribo. A árvore desde então, passou a ser o elemento fundamental para a sobrevivência dos índios Botocudos, através da árvore se obtinha vitória, a vida, o alimento e a proteção contra qualquer inimigo, representando assim um Deus, que era cultuado e louvado pelos índios. Conta-se que os índios dançavam e rezavam ao redor da árvore, o que a intitulou de “Acayaca”.

Em virtude de suas crenças, os índios, toda vez que se sentiam ameaçados antes de uma batalha, eles dançavam e rezavam em torno da árvore, desta forma, eles acreditavam que sempre poderiam vencer. Os bandeirantes na tentativa de domínio do território do Botocudos, começaram a especular formas de derrubar os índios, até que descobriram que a força dos Botocudos era oriunda da árvore Acayaca. Com essa informação os bandeirantes aguardaram, e ficaram a observar os índios, até que um dia os guerreiros da tribo se afastaram do seu território para uma festa, e deixaram só as mulheres e os mais velhos para tomarem conta de sua tribo. Os bandeirantes aproveitaram deste fato para subirem até a tribo, na qual atearam fogo na Acayaca e saíram da tribo, quando os guerreiros voltaram, ficaram sem saber o que fazer, metade da tribo queria atacar os bandeirantes por vingança e a outra metade da tribo tinham medo de atacar e não conseguir êxito, assim eles lutaram entre eles e os bandeirantes aproveitaram a distração dos guerreiros e dizimaram a tribo e ocuparam a parte superior do território. Todo este cenário de luta criou entre os índios uma batalha sangrenta, onde os integrantes da tribo guerrilharam uns contra os outros, provocando um grande massacre. Os índios que restaram desta acirrada luta, fugiram para as matas, e o cacique da tribo ao ver a árvore Acayaca em chamas se debruçou em desespero, quando uma tempestade indubitavelmente, inundava aquela região. Em meio à chuva desacerbada e vários trovões e raios, o cacique da tribo, pegou as cinzas que restavam da árvore e atirou-as para o chão, e amaldiçoando aquelas terras e todos que ali habitavam. As cinzas, de acordo a lenda, à medida que a tempestade amenizava, transformou-se em diamantes, que reluziam com os raios de sol que começavam a surgir em meio ao fim da tempestuosa chuva. Desde então, posteriormente, começaram as descobertas dos diamantes na região através da Coroa Portuguesa, e até nos dias atuais, muitos acreditam que os diamantes do Arraial do Tejuco, brotam da terra.

Retirado do Artigo “Entre a realidade e o imaginário: histórias e lendas de Diamantina/MG” de Fernanda de Alencar Machado Albuquerque e Urânia Cheiene Ferreira

 

Nota: O termo "botocudos" foi usado de forma pejorativa pelos colonizadores portugueses para rotular o Povo Borum dessa região.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de Leitura da Semana: A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson


 

Há livros que oferecem boas ideias para a sala de aula e há aqueles que conseguem transformar a maneira como pensamos a educação. A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson, pertence a esse segundo grupo. Por isso, esta é a nossa dica de leitura da semana para professores, estudantes de licenciatura, pedagogos e todos os que acreditam no poder transformador da literatura.

Reconhecido como uma das principais referências brasileiras em letramento literário, Rildo Cosson amplia, nesta obra, uma discussão iniciada no já consagrado Letramento Literário: teoria e prática. Se naquele livro o autor apresenta caminhos para formar leitores literários, nesta nova publicação ele dá um passo além ao defender que a escrita literária também deve ocupar um espaço permanente na escola. Afinal, ler e escrever literatura são experiências que se complementam e contribuem para a formação humana dos estudantes.

O grande mérito da obra está justamente em aproximar teoria e prática. O autor não apresenta receitas prontas nem modelos engessados. Pelo contrário, convida o professor a refletir sobre sua prática pedagógica e mostra que é possível construir experiências significativas de leitura e escrita mesmo diante dos desafios cotidianos da escola. Em um contexto marcado pela cultura digital, pelas avaliações em larga escala e pelo avanço da Inteligência Artificial Generativa, sua proposta reafirma que formar leitores e escritores continua sendo uma das missões mais importantes da educação.

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando observamos como a literatura, durante muito tempo, foi tratada no ambiente escolar. Em muitas salas de aula, os textos literários serviram apenas como pretexto para ensinar regras gramaticais, identificar figuras de linguagem ou responder longos questionários de interpretação. Nessa lógica, a obra literária perde sua dimensão artística e humana, tornando-se apenas mais um conteúdo a ser avaliado.

Rildo Cosson propõe uma mudança de perspectiva, para ele, a literatura deve ser vivida como experiência, permitindo que os estudantes interpretem, sintam, questionem, dialoguem e construam sentidos coletivamente. O professor deixa de ser apenas o transmissor de respostas para assumir o papel de mediador, criando condições para que cada aluno desenvolva uma relação autêntica com os livros.

Essa proposta dialoga diretamente com o método apresentado em Letramento Literário: teoria e prática, obra em que Cosson sistematiza as conhecidas Sequências Didáticas de Leitura. A chamada Sequência Básica organiza o trabalho em quatro momentos: motivação, introdução, leitura e interpretação. A intenção é preparar o estudante para entrar no universo da obra, acompanhar a leitura de maneira orientada e criar oportunidades para que as interpretações sejam compartilhadas. Já a Sequência Expandida aprofunda esse percurso, explorando aspectos específicos do texto e suas relações com outras obras, autores e contextos culturais, valorizando a intertextualidade e ampliando os horizontes de leitura.

Mais do que uma metodologia, essas sequências expressam uma concepção de educação, que na ideia do autor a leitura e escrita são práticas sociais. Ninguém nasce gostando ou desgostando de ler. O interesse pela literatura é construído por meio das experiências vividas na família, na escola e nos espaços culturais. Quando os estudantes compartilham interpretações, debatem personagens, relacionam textos e descobrem diferentes maneiras de compreender uma mesma obra, passam a fazer parte de uma verdadeira comunidade de leitores. É justamente nessa dimensão coletiva que o letramento literário ganha sentido, aproximando-se das contribuições de Magda Soares ao compreender a leitura e a escrita como práticas inseridas na vida social.

A força dessa proposta pode ser percebida em experiências desenvolvidas em escolas brasileiras. Um exemplo foi realizado com uma turma do 8º ano do Ensino Fundamental, na Paraíba, onde professoras aplicaram a Sequência Básica de Cosson durante a leitura de poemas de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Ao longo das discussões, os estudantes registraram suas interpretações em pedaços de tecido que, posteriormente, foram reunidos em uma Colcha de Poemas. O projeto integrou literatura, arte, escrita e trabalho coletivo, demonstrando que a leitura pode ultrapassar as páginas do livro e transformar-se em uma vivência significativa para toda a turma.

É justamente nesse ponto que A Escrita Literária na Escola amplia a discussão. Se a leitura humaniza e amplia nossa compreensão da realidade, a escrita literária permite que os estudantes experimentem a linguagem como espaço de criação, imaginação e expressão. Escrever poemas, contos, crônicas ou narrativas ficcionais não significa formar escritores profissionais, mas desenvolver sensibilidade, criatividade, repertório cultural e capacidade de comunicar experiências e emoções. Ao produzir literatura, o aluno também aprende a ler de forma mais profunda, pois passa a compreender os recursos expressivos utilizados pelos autores.

Talvez esse seja o maior ensinamento do autor: a literatura não deve ocupar um espaço periférico na escola nem servir apenas de apoio para o ensino da gramática, ela precisa ser reconhecida como uma linguagem artística capaz de formar leitores críticos, escritores mais conscientes e cidadãos sensíveis às múltiplas formas de compreender o mundo.

Por isso, nossa dica de leitura da semana é A Escrita Literária na Escola, sem deixar de recomendar também Letramento Literário: teoria e prática, obra que complementa esse percurso e ajuda a compreender as bases da proposta desenvolvida pelo autor. Juntos, os dois livros constituem uma leitura indispensável para quem deseja transformar a literatura em uma experiência viva, significativa e verdadeiramente formadora dentro da escola.

E na sua escola? A literatura ainda aparece apenas como apoio para o ensino da gramática ou já ocupa um espaço de criação, diálogo e formação crítica? Compartilhe sua experiência nos comentários.


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terça-feira, 30 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda do Curisco


 

Na vastidão do sertão, , onde o sol castiga a terra e o horizonte treme de calor, a lenda do Curisco é uma daquelas histórias que os mais velhos contam ao redor do fogo, com a voz baixa e o olhar atento às nuvens carregadas. Dizem que, quando o céu racha num estrondo que faz a alma tremer, é porque um "curisco" caiu. Ali onde a luz toca o chão, nasce uma pedra, escondida na terra quente, esperando por quem tenha a curiosidade perigosa de a encontrar.

No encontro do Rio Jequitinhonha com o Rio Araçuaí, na antiga Barra do Pontal, hoje Itira, distrito de Araçuaí, numa tarde em que o céu se tingiu de um roxo sinistro, os irmãos Bento Lia brincavam próximo ao encontro dos rios. Um clarão cegante, seguido por um trovão que pareceu sacudir as entranhas da terra, marcou o lugar, curiosos, eles correram, e entre as pedras comuns, algo brilhava com uma cor cinza-azulado, pesada e estranhamente morna.

— É ela, Lia! A pedra que caiu do céu! — exclamou Bento.

Eles a pegaram, embrulharam na ponta da camisa e correram para casa, mal sabiam que, ao levarem a pedra para dentro, haviam trazido um "convite". Naquela noite, a casa dos pais não teve sossego, mesmo sem chuva, trovões secos ressoavam acima do telhado, exatamente sobre o quarto onde a pedra fora guardada. O ar dentro de casa ficou pesado, com um cheiro de metal, como se um aparelho elétrico estivesse queimando.

O pai, um homem de mãos calejadas e sabedor das leis da terra, acordou assustado, ao ver os filhos pálidos e o brilho fraco que emanava debaixo da cama deles, ele não precisou perguntar nada.

— Vocês mexeram com o que não deviam", sussurrou o pai.

 — O raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas ele nunca esquece onde deixou o seu rastro, ele não veio apenas uma vez; ele está voltando porque a pedra que ele perdeu agora tem um dono.

A mãe, segurando um terço, completou com o peso da sabedoria ancestral: — Se a pedra dormir aqui, o raio voltará para buscá-la, e ele não se importa se a casa estiver no caminho. Temos que devolver o que é do céu ao chão.

Sob a luz  de uma lamparina, o pai levou as crianças de volta ao local exato onde encontraram a pedra, o vento soprava estranho, uivando entre os galhos secos dos mandacarus. O pai, com respeito e o medo que se deve ter do sobrenatural, pediu licença ao céu e enterrou a pedra profundamente, exatamente onde o impacto a colocara.

Ao voltarem para casa, o silêncio lá fora era absoluto, o ar limpou-se, o cheiro metálico desapareceu e, pela primeira vez na noite, puderam dormir sem que o céu ameaçasse desabar sobre o telhado.

Disse o pai aos filhos um ensinamento, em muitas regiões do Brasil, o " Curisco" é tratada como um objeto sagrado e perigoso. Uns diz que ela possui o poder de proteger a casa contra novos raios se enterrada no quintal por alguém que saiba o ritual, mas, se levada para dentro sem o devido respeito, ela se torna perigos, pois o raio em  fúria na tempestade, vem busca-lo.

 

Esse é uma história contado pelo meu pai João Antenor, no qual adaptei para esse conto.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"


 

Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade, escrito pelo médico infectologista, ex-prefeito de Caraí e atual deputado federal, Dr. Heber Neiva (Vavá), surge não como apenas mais uma coletânea de histórias, mas como um espelho de realidades que cruzam os caminhos de quem percorre as estradas poeirentas e as comunidades dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Muitos poderiam esperar dos bastidores da escrita do autor um relato focado puramente nas "mazelas", aquela palavra desgastada que a mídia de fora adora usar para rotular e resumir a região. Mas a obra, lançada em 2025, vai muito além. O título A Ferida Aberta mexe com a própria identidade regional. O autor não olha para o povo com pena, mas com um profundo respeito pela resiliência local, usando a história para explicar a saúde, e a saúde para desvendar a história.

O Estetoscópio que Escuta a Fome

Para quem vive o cotidiano de cidades como Caraí, Catuji, Teófilo Otoni ou Diamantina, a obra impressiona porque humaniza o dado estatístico. O Dr. Heber utiliza o conceito científico de sindemia; a percepção de que uma doença não existe isolada da fome, do racismo, da pobreza e da ausência do Estado. Como o próprio autor define de forma cirúrgica na obra:

Para o médico do interior, o estetoscópio muitas vezes escuta o que não está no pulmão, mas na despensa vazia. A verdadeira ferida aberta que encontramos nas estradas poeirentas não é a da carne, mas a da invisibilidade de um povo que teima em sorrir mesmo quando o Estado se esquece de chegar.” O autor ainda menciona que: “quem é da região sabe exatamente o que isso significa: as longas caminhadas sob o sol escaldante para conseguir um atendimento, ou o trabalhador informal que esconde suas dores para não perder o dia de serviço”.

O livro traz à tona a personagem Damiana, que nasceu no Vale do Mucuri cercada por um paradoxo cruel: enquanto os grandes centros transformavam o HIV em uma condição crônica tratável, a desigualdade regional continuava a matar por falta de acesso. O autor mostra que "os patógenos biológicos são apenas relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de violência social".

Rompendo o Silêncio do Estigma e da Saúde Mental

Outro ponto crucial onde a obra toca na carne da região é a abordagem sobre o sofrimento psíquico e o isolamento, temas que ainda são tabus gigantescos nas pequenas cidades.

Tratar a mente nos rincões do Jequitinhonha é desafiar o silêncio. O sofrimento mental aqui se esconde nos quintais, amarrado pelo preconceito e pela falta de estradas. O isolamento geográfico acaba por se tornar um isolamento da própria alma.”

Ao longo das crônicas, o autor apresenta personagens reais, com identidades protegidas, cujas dores gritam por justiça. É o caso de Piedade, que faz questionar se o surto veio da mente ou do peso de uma sociedade opressora; e de Dolores, uma mulher marginalizada que questiona o próprio sistema: “Se eu fui vítima desde a barriga da minha mãe, por que sou eu quem termina atrás das grades?”. O livro escancara como o machismo regional e a escassez histórica de redes de apoio psicossocial destroem vidas em silêncio.

O Enfrentamento do HIV no Interior: Uma Luta Civilizatória

A maior força de A Ferida Aberta, e o que torna a sua recomendação um dever cívico, é a quebra do silêncio sobre a realidade das pessoas soropositivas longe das capitais. O preconceito nas cidades pequenas ainda age, muitas vezes, como um exílio em praça pública.

O vírus assusta, mas o estigma mata antes. No interior, a revelação de um diagnóstico positivo de HIV ecoa pelas paredes da cidade com o peso de uma sentença de exílio social. Acolher essa dor não é apenas um dever médico, é um resgate civilizatório.”

O desafio logístico denunciado no livro é uma realidade conhecida de perto por quem habita a região. Para fazer um exame de carga viral ou buscar a medicação antirretroviral, muitos pacientes precisam enfrentar horas de viagem em estradas precárias até os centros de referência regionais. Através do personagem Inocêncio, um jovem que nasceu com HIV e acabou encontrando o único "abraço" disponível no mundo do crime, o autor prova que a biologia, no interior, é refém da história e do desamparo.

Mais que Literatura, um Compromisso Coletivo

O que torna a indicação desta obra tão relevante não é apenas a qualidade da escrita, que mistura de forma brilhante a sensibilidade da crônica com a profundidade da análise histórica, mas o compromisso que o Dr. Heber assume com a população.

O valor arrecadado com a venda dos livros é totalmente destinado a entidades filantrópicas locais que apoiam e acolhem pessoas soropositivas nos Vales. Ler este livro, portanto, vai além do passatempo: é um ato de solidariedade ativa e de cidadania.

Para quem busca entender o Brasil real através das cicatrizes dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, A Ferida Aberta não é apenas uma recomendação de leitura: é um reencontro urgente com a nossa própria história.

 

Boa leitura.


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segunda-feira, 22 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - SEQUILHO


 

A palavra “sequilho” deriva de seco (com o sufixo -ilho), numa referência direta à sua textura característica. Em várias regiões do Brasil, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais, também são conhecidos como biscoitos de goma ou bolachas de polvilho. Os sequilhos são parte da tradição culinária brasileira, preparados à base de polvilho (ou amido), açúcar e manteiga. Herdaram esse nome por causa do processo de preparo, que os deixa secos por fora e macios por dentro, derretendo suavemente na boca.

De origem portuguesa, os sequilhos chegaram ao Brasil por volta do século XVII, trazidos pelos colonizadores. Aqui, os portugueses aprenderam com os povos indígenas a substituir o trigo por derivados da mandioca, como o polvilho, conferindo ao biscoito uma textura mais leve e crocante.

Até hoje, essa receita ganha variações e conquista corações em diferentes cantos do país. O sequilho de fubá preparado pela quilombola Rosaria Costa, do município de Chapada do Norte, mas que reside no município de Berilo, é exemplo vivo dessa tradição: carrega consigo não apenas sabor, mas também amor e história; ingredientes que são, afinal, os mais importantes da nossa região.

E talvez seja justamente isso que torna o sequilho tão especial: mais do que um simples biscoito, ele é memória afetiva, é ponte entre culturas, é símbolo da criatividade que transforma a simplicidade em delicadeza. Cada mordida nos lembra que a cozinha brasileira é feita de encontros, de trocas e de afetos que atravessam gerações.

No fundo, o sequilho é mais do que um biscoito: é uma metáfora da própria cultura brasileira. Simples nos ingredientes, mas sofisticado na memória que carrega, ele traduz a capacidade de transformar o cotidiano em afeto. Cada receita, cada variação, cada mão que amassa a massa é um elo invisível entre passado e presente, entre tradição e reinvenção. Ao provar um sequilho, não saboreamos apenas polvilho e açúcar, degustamos histórias, raízes e o calor humano que dá sentido à mesa mineira e nordestina.

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DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com Fabio Amaral Montes- escritor Almenara

  Entre a poesia e o voo dos pássaros: Fábio Amaral Monte e a arte de transformar Almenara em literatura Poeta, compositor, quadrinista, f...