quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entre a memória e a poesia: Claudio Bento e a Jequitinhonha que continua vivendo dentro dele

 

Há lugares que a gente conhece. Há lugares que a gente carrega.

Para Cláudio Bento, Jequitinhonha é mais do que o lugar onde nasceu. É memória, infância, rio, cinema, comida, festas, personagens, poesia. É uma cidade que, mesmo pertencendo ao passado, continua vivendo dentro dele.

“Jequitinhonha é a minha ternura de infância”, diz o poeta.

Nascido em 8 de outubro de 1959, no nordeste de Minas Gerais, Cláudio Bento teve seu primeiro contato com a poesia ainda menino, no Grupo Escolar Nuno Melo. Desde então, construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à literatura, passando também pela música, pela composição, pelas oficinas e pelos movimentos culturais.

Mas, antes do poeta, existe o menino.

E é justamente por ele que esta conversa começa.

 

A infância tinha cheiro de rio

A avó de Cláudio era lavadeira. E quase todos os dias o levava para a ribeira.

Ali, o menino convivia com as mulheres que lavavam roupas enquanto cantavam músicas que, segundo ele, “só elas sabiam”. Convivia também com os canoeiros, que traziam peixes, frutas e verduras e dividiam com as lavadeiras na beira do rio.

Havia ainda os pescadores e os tropeiros.

Os tropeiros chegavam de longas viagens e acampavam nas brancas areias da praia. À noite, acendiam fogueiras, tocavam violão, cozinhavam e bebiam sob as estrelas.

Era uma Jequitinhonha pequena, bela, de casario histórico. Mas, entre tantas lembranças, algumas permanecem especialmente nítidas.

As velas multicoloridas das canoas.

As garças brancas pousando na areia e nas pedras.

O boi de janeiro pelas ruas.

A folia de reis cantando na sala de sua casa.

Os carnavais de mascarados.

“Se eu não tivesse vivenciado e bebido dessa riqueza cultural, eu não seria o poeta que sou hoje.”

 

O dia em que a poesia mostrou que podia vencer a morte

O primeiro encontro com a literatura aconteceu ainda na escola.

No final das aulas, a professora escolhia aleatoriamente um aluno para ler um poema de um pequeno livro que reunia nomes como Castro Alves, Olavo Bilac, Viriato Corrêa, Antero de Quental, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes.

Cláudio leu “Navio Negreiro”, “Meus oito anos”, “Canção do Exílio” e “Ou isto ou aquilo”.

Mas o que realmente o marcou veio depois.

Ele descobriu que aqueles poetas já haviam morrido.

E, mesmo assim, ele estava ali, dentro de uma sala de aula, lendo suas obras.

Foi então que percebeu na literatura uma espécie de permanência.

“Eu pressenti naquilo uma forma ainda que efêmera de ser eterno.”

Se aqueles poetas estavam mortos e continuavam sendo lidos, ele também queria um dia se tornar poeta para que alguém pudesse ler sua obra depois de sua morte.

Mas o caminho não foi imediato.

Antes dos vinte anos, ele conta que não tinha estilo nem uma temática definida. Foi quando descobriu Manuel Bandeira e encontrou nos poemas modernistas do autor um caminho possível.

Depois veio outra descoberta: para escrever, era preciso ler muito.

Não somente poesia, mas romances, crônicas, biografias, revistas e jornais.

Mais tarde, a leitura de Poema Sujo, de Ferreira Gullar, seria decisiva.

Foi ali que encontrou, definitivamente, sua temática.

A infância.

“É de fato um manancial inesgotável de criação literária e poética.”

 

A cidade que continua existindo

Existe uma Jequitinhonha que não ficou para trás.

Ela continua vivendo dentro do poeta.

É a cidade onde o Bicho de Pedra Azul vinha balançar o pé de algodão no quintal. Onde os meninos soltavam barquinhos de papel nas enxurradas. Onde as meninas brincavam de roda ao entardecer.

É a cidade que se alegrava com a chegada do circo.

Onde havia matinês no cinema.

Onde o menino ficava no alto das barrancas olhando a areia branca da praia e o espelho d’água do rio.

Onde as procissões serpenteavam pelos becos.

“Jequitinhonha não é apenas o lugar onde nasci, mas uma forma constante de dourar a memória do mundo.”

Talvez seja por isso que, em sua poesia, a cidade apareça tantas vezes.

Não como cenário.

Mas como memória.

 

Os personagens que entraram pela porta de casa

Alguns dos personagens que aparecem na memória de Cláudio não eram figuras distantes. Eram pessoas que faziam parte do cotidiano de sua família.

Joaquim Tatiaia, idealizador da folia do boi de janeiro, era amigo de sua avó e muitas vezes entrava na casa para tomar um café e conversar.

Sua avó também era amiga de Ambrósio, mestre da folia de reis.

Havia Chico Tejo, que guiava um carro de boi pela cidade, e Orlando Furini, carnavalesco e personagem importante dos carnavais.

Era esse “amálgama cultural” que estava ao redor do menino.

E foi essa convivência que ajudou a formar sua sensibilidade para admirar e respeitar a cultura popular de sua terra.

Cláudio também lembra de um tempo em que ninguém chamava aquelas manifestações de “folclore”.

O boi de janeiro e a folia de reis simplesmente faziam parte da vida.

A cultura era vivida.

Era cotidiana.

Era viva.

Ele recorda uma frase de Frei Chico: “chamar de folclore a cultura de um povo, é uma triste forma de discriminação”.

Para Cláudio, “a cultura não é plástica, ela é viva, e pulsa.”

 

O cinema, a avó e o homem que virou cachorro

Entre as lembranças da infância, há uma personagem central: sua avó.

Ela era indígena e analfabeta. Sabia escrever apenas o próprio nome.

Mas levava o neto ao cinema todos os dias.

O cinema era o lazer possível de uma época remota e, para Cláudio, tornou-se também uma importante formação.

Ele viu filmes do Neorrealismo italiano, do Avant-Garde francês, do Cinema Novo brasileiro, filmes mexicanos, westerns americanos, pornochanchadas e filmes de Mazzaropi.

A influência do cinema ajudaria a dar à sua poesia uma característica muito particular.

Uma poesia imagética.

Panorâmica.

Uma poesia em que, às vezes, o “ver” é mais simbolicamente importante que o “sentir”.

Mas a memória da avó também passa pela comida.

Torresmo fazia parte da alimentação diária.

E, como ela recebia muitos peixes dos canoeiros, peixe também estava quase todos os dias à mesa.

Piau, timburé, piabanha, piampara, traíra, piaba, lambari, cascudo e roncador.

Peixe frito.

Peixe cozido.

Tudo feito, segundo ele, com esmero e carinho.

E então aparece uma das histórias mais curiosas dessa memória.

Um canoeiro chamado Berrador contava que, à meia-noite de uma sexta-feira da Paixão, um homem muito distinto, vestido de terno de linho, gravata-borboleta e chapéu Panamá, bateu à sua porta.

O homem pediu para atravessar o rio.

Berrador pegou o remo e o levou até a outra margem.

Durante a travessia, conversaram sobre a vida, a seca e a falta de chuva.

Quando chegaram, o homem pediu que a travessia fosse colocada na conta dos Antunes.

E então aconteceu o inesperado.

O homem virou um cachorro enorme e desapareceu na escuridão do mato e da noite.

 

O rio que atravessou o poeta

O rio Jequitinhonha não aparece apenas na poesia de Cláudio.

Ele atravessou sua própria vida.

Era espaço de convivência.

Era estrada.

As viagens eram feitas de canoa. Parte do comércio acontecia pelo curso do rio, do litoral para o interior e do interior para o litoral.

Até estudantes viajavam de canoa para estudar no Colégio Nazaré, em Araçuaí.

E foi justamente às margens desse rio que nasceu o primeiro poema de Cláudio.

Ele estava sentado na areia, observando as muitas canoas abandonadas nas barrancas, quando surgiu a ideia de escrever “Canoa Quebrada”.

Mais tarde, o poema virou música, com composição de Rubens Espíndola.

A canção participou do terceiro Festival da Canção do Festivale, em 1982, em Itaobim, ficando entre as dez finalistas.

Não era pouco.

Entre os concorrentes estavam nomes como Rubinho do Vale e Heitor Pedra Azul.

O rio, naquele momento, não era apenas lembrança.

Era também o começo de uma trajetória.

 

Do búzio ao oceano

A relação de Cláudio com o oceano também começou na infância.

Na sala de sua casa havia um grande búzio sobre a mesa de centro.

Quando colocado no ouvido, o som parecia o barulho do mar.

Ele nunca havia ouvido o mar.

Mas sua avó dizia que aquele era o barulho do mar.

O oceano passou a ocupar um lugar simbólico em sua vida.

Para ele, foi através do mar que a cultura negra chegou ao país e também por ele vieram culturas que enriqueceram a história brasileira.

Há ainda a beleza, o mistério e o símbolo de fé.

Sempre que está diante do oceano, Cláudio diz viver um momento de reflexão.

E também de respeito aos orixás do candomblé, ao pular as sete ondas.

 

Quando algumas tradições começaram a desaparecer

Nem tudo permaneceu.

Cláudio olha para as manifestações culturais de sua infância e percebe mudanças profundas.

O boi de janeiro, que antes era uma festa popular de grande magnitude, tinha cordões imensos e provocava grande exaltação do público.

Hoje, ele sente tristeza ao ver os bois na rua sem a valorização que deveriam receber.

As folias de reis desapareceram.

As festas de largo, como as de Iemanjá e Cosme e Damião, tornaram-se praticamente inexistentes.

Para o poeta, muita coisa mudou.

Outras coisas desapareceram “no limbo do progresso”.

 

Um Vale de encantamento

Durante muito tempo, o Vale do Jequitinhonha foi apresentado principalmente pela pobreza e pela carência.

A poesia de Cláudio escolhe outro caminho.

O Vale que ele procura apresentar é um vale de encantamento.

Um lugar de memória.

De paisagens arrebatadoras.

Um lugar digno para viver.

Porque, para ele, o orgulho de ser do Vale não vem da pobreza.

Vem da cultura.

Da música.

Da poesia.

Do artesanato.

Das raízes profundas.

“Todo filho do vale tem orgulho de ser do vale.”

 

O poeta do mimeógrafo

A poesia de Cláudio também nasceu junto com o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

Os primeiros dois Festivales já haviam acontecido em 1980 e 1981.

Os primeiros livros eram feitos artesanalmente, rodados em mimeógrafo, muitas vezes sem revisão e sem maiores cuidados.

As dificuldades eram grandes.

Cláudio e o poeta Wellington Miranda precisavam pedir papel e cartolina na prefeitura para imprimir os livros.

Era uma época de sonhos.

E também de ditadura.

Para eles, literatura e arte eram formas possíveis de resistência.

Ser poeta naquele momento era ser visto como marginal.

Não havia crédito.

E, como ele conta, os jovens cabeludos ainda eram considerados “maconheiros em potencial”.

Mas veio a primeira Antologia Poética do Vale do Jequitinhonha, reunindo cinco poetas da região.

A publicação tornou-se um divisor de águas para a literatura produzida no Vale e influenciou inúmeros poetas a escrever e trabalhar com poesia.

 

Quatro décadas depois

O menino que começou lendo poemas em uma sala de aula chegou muito mais longe do que imaginava.

Cláudio reconhece que sua poesia mudou com o tempo, com a leitura e com a maturidade.

Mas ele próprio diz que não era o único a perceber essa transformação.

Críticos literários, poetas e professores como Pollyanna de Matos Vecchio, Marli Fróes, João Evangelista Rodrigues, Wesley Pioest e Heloísa Buarque de Holanda estão entre os nomes citados por ele.

E há uma frase que resume bem essa trajetória:

“Eu não acreditava que aqueles livrinhos mimeografados me levassem a algum lugar.”

Ainda bem que estava enganado.

“A poesia já me deu muito mais do que eu esperava dela.”

E talvez a própria entrevista seja uma prova disso.

 

Quando o poema vira música

A literatura, para Cláudio, nunca esteve isolada.

A relação com a música é, como ele define, “intrínseca”.

Desde o início havia um sonho: ouvir um poema seu transformado em música.

O sonho se realizou.

E foi além.

Ele tornou-se parceiro de muitos compositores do Vale e também de fora dele.

Poesia e música caminham juntas em sua trajetória.

 

A poesia como lugar de memória

Pode um poema preservar a memória de uma comunidade?

Para Cláudio, sim.

Um poema pode ser um “artefato de preservação da memória”.

Ele considera a literatura do Vale muito forte porque a vivência da região é única e sua cultura possui nuances que não são facilmente encontradas em outras culturas.

Mas há também uma preocupação.

É preciso união.

Foi por isso que surgiu a ideia de criar a Associação de Poetas, depois de uma viagem a Salvador com a poeta Herena Barcelos.

Criar antologias.

Fortalecer a Noite Literária do Festivale.

Promover mais oficinas de literatura.

Não apenas durante o Festivale, mas no cotidiano das cidades da região.

Porque preservar a memória também significa mantê-la viva.

 

A imagem que ficou

Depois de tantas histórias, tantas décadas e tantos versos, resta uma pergunta: se fosse possível deixar apenas uma imagem da Jequitinhonha para as próximas gerações, qual seria?

A resposta de Cláudio não poderia estar mais ligada àquilo que atravessa toda a sua trajetória.

O rio.

As canoas.

A praia.

As garças sobrevoando as águas.

É uma imagem que, segundo ele, hoje se tornou impossível.

E sua resposta termina com uma crítica à realidade atual, atribuída à ação do poder e à incompetência dos gestores municipais.

Mas a imagem permanece.

O rio.

As canoas.

As garças.

E, entre elas, a memória de um menino que um dia descobriu que os poetas podiam morrer e, ainda assim, continuar vivos.

 

Depois da conversa

Há poetas que escrevem sobre um lugar.

Cláudio Bento parece escrever a partir dele.

Em sua poesia, Jequitinhonha não aparece apenas como cenário. Está nas ruas, no rio, nas casas, nos quintais, nos sabores, nas festas, nos personagens e, sobretudo, nas lembranças de quem viveu aquele lugar.

Ao revisitar a infância e sua trajetória de mais de quatro décadas na literatura, Cláudio Bento mostra que a poesia também pode ser uma maneira de guardar aquilo que o tempo transforma.

O canoeiro, a avó, o tamarindeiro, o cais, a comida, a brincadeira no rio e tantos outros elementos do cotidiano tornam-se palavras e, assim, continuam existindo.

Talvez seja essa uma das maiores forças de sua obra: transformar a memória em poesia e fazer da poesia uma casa para a memória.

E, enquanto houver versos para contar, aquela Jequitinhonha continuará navegando.

 

Para não deixar o rio partir

Ao ouvir Cláudio Bento, fica a impressão de que algumas cidades não desaparecem completamente. Elas mudam de lugar. Saem das ruas, das festas, das canoas e das margens do rio e passam a morar na memória de quem as viveu.

É assim que Jequitinhonha aparece em sua trajetória: como lembrança, mas também como matéria viva de poesia.

Talvez seja esse o poder da literatura de Cláudio. Fazer com que uma lavadeira continue cantando, que uma canoa ainda atravesse o rio, que as garças continuem sobrevoando a praia e que uma infância, mesmo distante no tempo, possa novamente ser visitada.

No fim da conversa, fica uma imagem.

O rio, as canoas, a praia e as garças.

Uma paisagem que o poeta sabe que já não existe como antes, mas que permanece inteira em sua memória.

E talvez seja justamente por isso que ele continua escrevendo.

Para que aquilo que o tempo levou não desapareça por completo.

Para que Jequitinhonha continue existindo.

Ao menos enquanto houver alguém disposto a lembrá-la.

E enquanto houver poesia, o rio ainda estará correndo.

 

Por Solange Santos



 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A maldição

Feita por IA

 

Essa é uma das muitas histórias que meu pai contava e que eu venho transformando-as em contos, na história de hoje, vamos contar a história de um lobisomem que andava outrora pelas terras onde é hoje o município de Itinga.

Era uma história antiga, daquelas que os mais velhos contavam ao redor do fogo, mas que trazia o peso da realidade para quem conhecia o destino daquela família.

Desde menino, carregava o fardo de um sangue inquieto. Nas noites em que a lua cheia despontava prateada e redonda no céu, o corpo infantil e depois o de homem feito contorcia-se em dores indescritíveis. Transformado em uma criatura monstruosa, metade homem, metade lobo, vagava pelas fazendas ao redor. Naquela época, o susto limitava-se ao gado assustado e aos cercados arrebentados; a fartura de animais impedia que o bicho voltasse sua fúria contra as pessoas.

A vida seguiu seu curso implacável, o menino cresceu, casou-se, teve filhos e tentou viver como qualquer outro homem. Contudo, quando o clarão da lua cheia iluminava o terreiro, ele inventava desculpas esfarrapadas, sumia na escuridão da noite e só retornava ao amanhecer, exausto e silencioso.

Certa vez, a família viajou para uma festa tradicional na zona rural, hospedando-se de um dia para o outro. No dia seguinte, embalado pela rotina da celebração, ele esqueceu-se completamente do calendário lunar. Só se deu conta do perigo quando já pegavam a estrada de volta e as primeiras sombras da noite começavam a engolir o horizonte. O pavor gelou-lhe o sangue: a noite de lua cheia já reinava lá fora, e a proximidade da maldição punha em risco quem ele mais amava.

Sem pensar duas vezes, virou-se para a esposa e ordenou com voz firme e desesperada: — Suba naquela árvore com as crianças agora mesmo! Não olhe para trás e não desça por nada deste mundo!

A mulher, sem entender absolutamente nada, tomou os filhos nos braços e subiu aos prantos, apavorada com a urgência no olhar do marido. Ele, sem dar explicações, sumiu correndo pela estrada escura, engolido pela noite cerrada.

As horas arrastavam-se penosamente, o silêncio da mata era cortado apenas pelos grilos e pelo medo. A mulher, agoniada com a demora do marido e o choro abafado das crianças, não suportou a angústia, convencida de que precisava buscar ajuda, desceu da árvore com os filhos e pôs-se a caminhar pela margem da estrada poeirenta.

Já passava da meia-noite quando um silêncio sepulcral abateu-se sobre o caminho. Um uivo longínquo e aterrorizante rompeu o ar. Instantes depois, a criatura colossal, uma silhueta disforme entre a fúria do lobo e a desolação do homem saltou para o meio da estrada.

A mãe, paralisada pelo horror, colocou os filhos atrás de si e começou a rezar em voz alta, implorando por proteção. Mas o bicho, cego pelo instinto feroz da lua, partiu para cima deles com violência cega. No meio da confusão e dos gritos de pavor, a criatura conseguiu arrebatar uma das crianças e disparou  em direção à mata densa, uivando para o céu.

Desesperada, sangrando e abraçada aos dois filhos restantes, a mulher correu sem rumo até avistar uma casa isolada. Bateu desesperadamente à porta. Os moradores, sobressaltados com a urgência, abriram e acolheram a família, cuidando dos feridos com urgência.

Entre soluços e tremores, ela contou o horror que acabara de viver, os donos da casa entreolharam-se com gravidade: — Você não é daqui, menina? — perguntaram. — Não — respondeu ela, a voz frágil. — Está tudo explicado. Você não conhece a lenda do lobisomem, um homem desta região, em noites de lua cheia, transforma-se em fera e ataca animais e pessoas... Infelizmente, ele levou o seu filho.

A mulher desabou em prantos convulsivos que duraram o resto da madrugada. Ao raiar do dia, agradeceu aos anfitriões e iniciou o caminho de volta para casa, o coração pesava com uma suspeita terrível que ela já não ousava recusar.

Ao chegar, encontrou a porta da frente entreaberta. Entrou devagar. Deitado na cama, ainda grogue pelo sono profundo do amanhecer, estava o marido. Entre os dentes dele, havia pedaços de tecido ensanguentados da roupa do filho; em sua mão firme, os retalhos restantes da vestimenta da criança.

A revelação foi um golpe mortal em sua alma, sem dizer uma só palavra, a mulher recolheu os filhos, fechou a porta e partiu para nunca mais voltar. Ninguém jamais soube o rumo que tomou.

Diz a lenda, contudo, que quando o homem despertou e encontrou a roupa do filho e os fiapos presos em sua boca, compreendeu a tragédia que cometera. Um grito de dor estrangulou-se em sua garganta, seguido de um choro desesperado que nunca mais teve fim.

Desde então, conta-se que ele vaga pelas estradas desertas , chorando e à procura de sua esposa e de seus filhos para implorar perdão. Mas, quando a lua cheia brilha soberana no céu, o bicho-homem desperta de novo, vagando pelas matas e amedrontando os descuidados que o ousam desafiar a escuridão de uma noite de lua cheia.


História adaptada por Jô Pinto, contada pelo seu pai João Antenor em seu tempo de criança. 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com Fabio Amaral Monte- escritor Almenarense


 

Entre a poesia e o voo dos pássaros: Fábio Amaral Monte e a arte de transformar Almenara em literatura

Poeta, compositor, quadrinista, fotógrafo, educador e observador de aves. Há mais de quatro décadas, Fábio Amaral Monte constrói uma obra que nasce da memória, da paisagem e da cultura de Almenara, transformando o cotidiano do Vale do Jequitinhonha em poesia, música e histórias que atravessam gerações.

 

Há quem passe a vida inteira procurando inspiração. Fábio Amaral Monte teve a sorte ou talvez o privilégio de nascer dentro dela.

Muito antes de publicar livros, organizar coletâneas literárias, subir aos palcos com bandas de rock ou registrar aves raras com sua câmera fotográfica, existia um menino que observava atentamente a paisagem ao redor de casa. O cenário era Almenara, no Vale do Jequitinhonha/MG, onde a natureza, as ruas de terra, as olarias e o Rio Jequitinhonha não eram apenas parte da paisagem: eram personagens silenciosos de uma história que começava a ser escrita.

Hoje, ao olhar para uma trajetória iniciada ainda na infância, Fábio percebe que nada aconteceu por acaso. O escritor que publicou Poesia até Agora, organizou o Farol de Letras, criou quadrinhos, compôs dezenas de músicas e se tornou uma das vozes mais atuantes da cultura Almenarense é o mesmo garoto curioso que nunca conseguiu ficar parado diante do mundo.

Mais do que um poeta, Fábio é um criador de universos.

 

A infância onde tudo começou

Nascido em Almenara, em 24 de maio de 1974, filho de Hermes Cesário Monte e Maria das Graças Amaral Campos, Fábio cresceu em uma cidade que lhe ofereceu aquilo que nenhum curso de escrita poderia ensinar: a capacidade de observar.

 

Uma das lembranças mais vivas da infância remete à Rua Argemiro Aguilar, onde morou durante boa parte da década de 1980. Em frente à casa havia um grande matagal que conduzia até a antiga Lagoinha, uma extensa lagoa que seguia em direção ao aeroporto. Nos arredores funcionavam diversas olarias, lugares que fascinavam o menino que saía de casa acompanhado do irmão para buscar barro e modelar pequenas panelas e objetos artesanais.

Enquanto fala sobre esse período, é impossível não perceber que sua memória continua habitando aquelas ruas.

"A paisagem natural de Almenara sempre me inspirou. O matagal, as olarias, os carreiros, a rua de terra... Tudo aquilo me impressionava profundamente. Sonhei com essas ruas durante muitos anos da minha vida."

A natureza, entretanto, não era sua única fonte de encantamento.

Dentro de casa, outro universo se abria.

O pai chegava trazendo exemplares da revista A Espada Selvagem de Conan. Na televisão, desfilavam heróis como He-Man, Thundercats, Galaxy Rangers, Defensores da Terra e Super Amigos.

Era o combustível perfeito para uma imaginação inquieta.

Antes mesmo de completar dez anos, Fábio já havia escrito seu primeiro conto, O Castelo Voador. Pouco depois nasceu o primeiro super-herói criado por ele: Estrela de Estéria.

A partir dali, nunca mais parou.

Muito antes dos livros, vieram os quadrinhos

Quem conhece apenas o poeta talvez não imagine que sua primeira paixão artística tenha sido a narrativa gráfica.

 

Ainda criança, Fábio começou a produzir revistas inteiras à mão. Escrevia, desenhava, criava personagens, organizava as histórias e acompanhava cada edição como se estivesse dirigindo uma grande editora.

Em 1986 surgiu a Seleção Estéria.

Vieram 185 edições.

No ano seguinte nasceu a Revista da S.E.

Foram impressionantes 332 edições.

Tudo produzido artesanalmente.

Sem computador.

Sem internet.

Sem editora.

Sem imaginar que, décadas depois, aqueles personagens continuariam vivos.

Em 2026, os Galaxiadores - equipe de super-heróis criada ainda na infância - completam quarenta anos de existência. Para celebrar a data, Fábio decidiu revisitar toda essa produção, reeditando as sessenta edições mais recentes com novos desenhos, demonstrando que alguns sonhos realmente envelhecem junto com seus criadores.

"Eu sempre procurei o que fazer", resume.

A frase parece simples.

Mas explica praticamente toda a sua trajetória.

 

Escrever era uma necessidade, não um projeto de carreira

Ao contrário do que muitos imaginam, Fábio nunca começou a escrever pensando em publicar livros.

A escrita nasceu muito antes da ideia de ser escritor.

Nasceu da necessidade de criar.

Nasceu porque as histórias precisavam existir.

Seu primeiro poema surgiu em 1990.

Mas chegar até ele exigiu persistência.

Desde os onze anos de idade trabalhava para ajudar nas despesas da família. O salário era destinado quase inteiramente ao sustento da casa.

Restava pouco.

Às vezes, apenas o suficiente para comprar algumas revistas em quadrinhos.

Quando faltava material, improvisava.

"Se não tinha caderno, escrevia no verso de panfletos que o comércio jogava fora. Se não tinha folha, usava formulários antigos do IPSEMG ou do Banco do Brasil. Quando acabava a caneta azul, escrevia com a vermelha. Eu só tinha uma certeza: precisava continuar escrevendo."

Essa talvez seja uma das passagens mais reveladoras de sua trajetória.

Porque mostra que escrever nunca dependeu das condições ideais.

Dependia apenas da vontade.

 

Um escritor sem leitores - e feliz assim

Outra revelação surpreende.

Durante muitos anos, Fábio nunca se preocupou em ser lido.

Seu compromisso era com a escrita.

"Nunca me preocupei em fazer minha voz circular. Sempre escrevi para mim mesmo."

Mesmo assim, tratava suas revistas com um rigor profissional.

Como colecionava revistas da Marvel e da DC Comics, decidiu que suas próprias publicações também precisavam respeitar uma periodicidade.

A Seleção Estéria era semanal.

A Revista da S.E., diária.

As datas eram cumpridas rigorosamente.

Não importava se havia leitores.

Importava a disciplina.

Importava o compromisso consigo mesmo.

 

Quando a poesia encontrou o Vale

Durante muito tempo, seus grandes referenciais pareciam inalcançáveis.

Carlos Drummond de Andrade.

Pablo Neruda.

Beatles.

Pink Floyd.

Legião Urbana.

Engenheiros do Hawaii.

Artistas gigantes, admirados à distância.

Foi apenas anos depois que Fábio descobriu algo transformador.

Havia escritores produzindo literatura ali mesmo, no Vale do Jequitinhonha.

O encontro com autores como Tadeu Martins, Cláudio Bento, Caio Duarte e Luís Santiago representou uma mudança profunda.

Mais do que conhecer novos livros, ele percebeu que também era possível escrever sobre Almenara, sobre o Vale, sobre o cotidiano das pequenas cidades.

Foi nesse momento que aconteceu uma espécie de reconhecimento.

"Quando li livros produzidos por escritores daqui, tive certeza de que meus livros artesanais também eram livros de verdade. E que eu era, de verdade, um poeta."

Essa descoberta ampliou seus horizontes.

A partir dali, Minas Gerais e o Vale do Jequitinhonha passaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua produção literária.

Não como limite.

Mas como ponto de partida para falar do mundo.

 

 O poeta que aprendeu a ouvir o silêncio

Há escritores que colecionam livros. Fábio Amaral Monte coleciona lembranças.

Talvez seja por isso que Poesia até Agora, lançado em 2025, não seja apenas um livro de poemas. É também um álbum de memórias, onde a infância, a juventude, os encontros e as descobertas caminham lado a lado. Cada texto guarda um pedaço da vida de quem o escreveu e, ao mesmo tempo, desperta no leitor a sensação de revisitar a própria história.

Reunir trinta e cinco anos de produção literária poderia parecer apenas um exercício de organização. Para Fábio, foi muito mais do que isso.

Foi uma viagem.

"Foi como viajar no tempo. O curioso é que o tempo passa, mas a primeira impressão permanece. Reler minhas poesias fez com que eu voltasse a sentir exatamente o que senti quando as escrevi."

Ao reencontrar versos escritos na adolescência, percebeu que não estava apenas diante de palavras antigas. Estava diante do jovem que um dia foi.

Entre todas as lembranças, uma lhe arrancou um sorriso.

Aos dezesseis anos, escreveu um poema reclamando da pouca idade.

Hoje, relendo aquele texto, diverte-se com a ironia do tempo.

"Eu tinha uma vida inteira pela frente e estava achando ruim não ser mais velho. Vai entender."

Mas a organização de Poesia até Agora seguiu um caminho diferente do que muitos esperariam.

Em vez de reunir apenas os poemas considerados mais fortes, Fábio decidiu que cada um dos trinta e cinco anos de sua caminhada deveria estar representado.

Era uma forma de mostrar que a poesia também amadurece.

Que o escritor de hoje só existe porque um menino, décadas atrás, insistiu em escrever mesmo quando ninguém o lia.

Para completar essa travessia, escreveu um poema inédito, justamente o último do livro.

Chamou-o de Poesia até Agora.

Nele, transformou em versos a própria trajetória.

É como se o livro terminasse exatamente onde outra história começa.

 

A poesia como um modo de viver

Enquanto muitas pessoas enxergam a poesia como algo distante da vida cotidiana, Fábio pensa exatamente o contrário.

Para ele, a literatura não pertence apenas aos livros.

Ela acontece na forma como observamos o mundo.

Acontece quando alguém desacelera.

Quando escolhe silenciar.

Quando decide prestar atenção.

Em tempos dominados pela velocidade das telas e pela avalanche de informações, ele acredita que abrir um livro continua sendo um gesto de resistência.

"Reservar um tempo para sentar numa poltrona, no sofá ou mesmo na cama para ler já consiste, por si só, numa prática de bem viver."

A leitura, segundo ele, exige entrega.

Paciência.

Disponibilidade.

Qualidades cada vez mais raras na vida contemporânea.

E a poesia amplia essa experiência.

Não oferece respostas prontas.

Convida o leitor a enxergar aquilo que sempre esteve diante dos olhos, mas que a pressa impede de perceber.

"A poesia tem a missão de nos fazer acordar enquanto sonhamos", afirma.

Essa talvez seja a melhor definição de sua própria obra.

Seus poemas falam de rios, ruas, infância, pessoas simples, encontros, dúvidas e paisagens do interior.

Mas, por trás de cada imagem, existe sempre uma reflexão sobre o tempo, a existência e as relações humanas.

 

Entre Drummond e o rock

Quem conhece apenas os poemas de Fábio pode imaginar que sua formação literária foi construída exclusivamente pelos grandes escritores.

Não foi.

Ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda havia outra escola igualmente importante.

O rock.

Legião Urbana.

Pink Floyd.

Beatles.

Engenheiros do Hawaii.

Essas bandas ajudaram a formar não apenas seu gosto musical, mas também sua forma de pensar.

Por isso, nunca enxergou conflito entre delicadeza e contestação.

A poesia pode denunciar.

O rock também pode emocionar.

As duas linguagens convivem naturalmente dentro dele.

Ao lembrar um verso de Drummond — "Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças" — e uma frase de Humberto Gessinger — "É preciso fé cega e pé atrás" — Fábio revela uma característica constante de sua escrita.

O equilíbrio.

Seus poemas contemplam a beleza do cotidiano sem ignorar as desigualdades.

Questionam sem perder a ternura.

Criticam sem abrir mão da esperança.

Para ele, a arte precisa despertar consciência, mas também empatia.

Porque nenhuma transformação acontece sem humanidade.

 

Cada linguagem encontra seu próprio caminho

É difícil resumir Fábio Amaral Monte em apenas uma palavra.

Poeta?

Também.

Compositor?

Sem dúvida.

Quadrinista.

Fotógrafo.

Pesquisador da memória cultural.

Educador.

Organizador de livros.

Todas essas definições cabem.

Mas nenhuma dá conta do conjunto.

Curiosamente, ele explica que nunca começa um projeto sem saber exatamente onde aquela ideia irá desembocar.

Quando escreve um poema, sabe que será poema.

Quando surge uma música, ela nasce como música.

Quando imagina uma aventura dos Galaxiadores, pensa imediatamente na linguagem dos quadrinhos.

Embora conversem entre si, cada forma de expressão possui sua própria arquitetura.

Sua própria respiração.

Sua própria música.

Ainda assim, todas carregam a mesma assinatura.

São maneiras diferentes de contar histórias.

 

O homem que prefere os pássaros aos palcos

Talvez poucas pessoas imaginem que uma das maiores paixões de Fábio não esteja ligada nem à literatura nem à música.

Está no voo das aves.

Desde dezembro de 2019, quando participou de sua primeira passarinhada, passou a dedicar parte significativa do tempo à observação e ao registro fotográfico da avifauna do Vale do Jequitinhonha.

O resultado impressiona.

Já catalogou 474 espécies, contribuindo para que Almenara se tornasse o município mineiro com o maior número de registros publicados na plataforma WikiAves, referência nacional em observação de aves.

Mas os números, para ele, são apenas consequência.

O verdadeiro aprendizado acontece durante a espera.

Fotografar um pássaro exige paciência.

Silêncio.

Escuta.

Tempo.

Exatamente como escrever um poema.

"Uma foto bem feita não mostra apenas uma ave. Ela revela luz, composição, paisagem, contraste, enquadramento, texturas e cores."

É impossível não perceber a semelhança entre esse olhar e sua maneira de escrever.

Assim como o fotógrafo espera o instante exato em que o pássaro pousa, o poeta também sabe que cada palavra possui seu próprio tempo.

No fim da entrevista, ao revelar um aspecto pouco conhecido de sua personalidade, Fábio surpreende.

Apesar de já ter se apresentado em diversos palcos com bandas de rock, confessa que existe um lugar onde realmente se sente inteiro.

"No fundo, gosto muito mais de estar numa passarinhada, no meio do mato, do que em cima de um palco."

Talvez porque ali, longe do barulho, seja mais fácil ouvir aquilo que sempre alimentou sua obra.

O silêncio.

 

Quando a literatura deixa de ser individual e se torna um farol

Ao longo da conversa, uma palavra aparece repetidas vezes, ainda que Fábio Amaral Monte nunca a diga explicitamente: coletividade.

Embora tenha começado escrevendo sozinho, produzindo revistas que quase ninguém lia e poemas que guardava para si, o tempo transformou aquele escritor solitário em alguém que faz questão de dividir espaço, abrir portas e construir pontes.

Talvez o exemplo mais significativo dessa mudança seja o Farol de Letras.

A ideia nasceu quase por acaso.

Em determinado momento, Alba Valéria, então ligada à Secretaria Municipal de Cultura de Almenara, convidou Fábio para desenvolver um projeto cultural. Ela imaginava um documentário ou um videoclipe. Ele fez uma contraproposta.

"Posso publicar um livro?"

A resposta foi sim.

O que poderia se transformar em uma publicação individual tomou outro rumo.

Em vez de lançar apenas sua própria obra, Fábio decidiu reunir escritores da cidade.

Nascia, assim, Farol de Letras – Almenara em Prosa e Verso, a primeira coletânea literária publicada no município.

Mais do que organizar textos, ele quis construir um retrato coletivo da produção cultural Almenarense.

Convidou dezoito escritores.

Chamou a cantora e pesquisadora Déa Trancoso para escrever o prefácio.

Luiz Edmundo Alves assinou o texto de orelha.

Alba Valéria escreveu o posfácio.

Lucas Amaral Monte produziu caricaturas dos autores.

Uma obra do artista plástico Diomilton Ferraz, fotografada pelo próprio Fábio, tornou-se a capa do livro.

As fotografias internas, registrando paisagens de Almenara, também são de sua autoria.

Até o local do lançamento carregava significado.

O tradicional Clube dos Operários foi escolhido por representar um dos espaços mais simbólicos da história social e cultural da cidade.

"O mais bonito", lembra Fábio, "foi descobrir que estávamos fazendo história."

O projeto cresceu.

Vieram novos escritores.

Uma segunda edição.

Hoje, o grupo reúne mais de trinta autores, demonstrando que a literatura produzida no Vale continua viva e em expansão.

 

O Vale sempre foi um celeiro de cultura

Durante muito tempo, o Vale do Jequitinhonha foi lembrado quase exclusivamente por seus indicadores sociais.

Fábio conhece bem essa narrativa.

Mas prefere olhar para outro aspecto.

Para ele, criatividade nunca faltou ao povo do Vale.

O que faltavam eram oportunidades.

Ao refletir sobre o crescimento da produção artística regional, ele reconhece a importância de políticas públicas de incentivo à cultura, da descentralização dos recursos e do surgimento das redes sociais, que democratizaram a divulgação do trabalho de artistas independentes.

Lembra que, quando começou a escrever, publicar um livro significava enfrentar distâncias, altos custos e a ausência de editoras próximas.

Hoje, basta um celular para apresentar um poema ao mundo.

Mas faz questão de destacar que o talento já existia muito antes da internet.

"O Vale sempre foi uma potência cultural. Nosso povo aprendeu, desde cedo, a criar com aquilo que tinha nas mãos."

É um pensamento coerente com sua própria trajetória.

Afinal, foi exatamente assim que ele começou.

 

Educar também é cultivar futuros leitores

Embora trabalhe atualmente na Superintendência Regional de Ensino de Almenara, atuando na área de Educação Especial, Fábio continua profundamente ligado ao universo escolar.

Sempre que é convidado para conversar com estudantes, faz questão de compartilhar sua própria história.

Não para transformá-la em exemplo.

Mas para mostrar que a criação artística nunca dependeu das condições perfeitas.

Conta que escrevia em panfletos descartados.

Que reaproveitava formulários antigos.

Que produzia revistas inteiras sem imaginar que um dia publicaria livros.

Ao observar a juventude de hoje, percebe um cenário muito diferente daquele que viveu.

Reconhece as facilidades proporcionadas pela tecnologia, mas acredita que elas também trouxeram novos desafios.

Na sua visão, a rapidez das redes sociais muitas vezes reduz o tempo da contemplação, da leitura e da criação.

Sem fazer críticas simplistas, prefere lançar um convite.

Se antes era possível criar com tão pouco, imagina o quanto as novas gerações podem produzir tendo tantas ferramentas à disposição.

Mais do que incentivar leitores, Fábio procura despertar criadores.

Essa postura aparece em praticamente tudo o que faz.

Quando organiza um show, convida outros músicos.

Quando divulga um livro, apresenta autores da região.

Quando cria um projeto, pensa primeiro no coletivo.

"Se oportunidades me foram dadas, hei de oportunizá-las também."

A frase resume uma filosofia de vida.

 

Os próximos capítulos dessa história

Engana-se quem imagina que, depois de mais de quarenta anos produzindo arte, Fábio esteja diminuindo o ritmo.

Ao contrário.

Os projetos continuam surgindo com a mesma intensidade da infância.

Em 2026, os Galaxiadores, equipe de super-heróis criada ainda na década de 1980, completam quarenta anos.

Para celebrar a data, ele iniciou a reedição das sessenta revistas mais recentes, acrescentando novos desenhos e revitalizando personagens que o acompanham desde menino.

Também foi convidado para organizar o segundo livro de poemas do escritor Alzito Fonseca.

Participará da segunda coletânea de contos e crônicas do Coletivo de Escritores do Vale do Jequitinhonha com o conto A Mulher de Sete Metros.

E prepara o lançamento de seu segundo livro solo de poesia, Novos Poemas Reunidos, previsto para o final deste ano.

A impressão é de que Fábio continua fazendo exatamente o que fazia aos dez anos de idade.

A diferença é que, agora, há leitores esperando por suas próximas histórias.

 

Nos bastidores do poeta

Quando a entrevista se aproxima do fim, o escritor deixa de lado datas, projetos e livros.

Passa a falar do homem.

Conta que as melhores ideias costumam surgir durante as caminhadas.

Revela que utiliza a Inteligência Artificial apenas para reconstruir visualmente os super-heróis que imaginou ainda na infância, insistindo até que cada desenho fique exatamente como existia em sua memória.

Confessa, com bom humor, que entende "lhufas" de tecnologia e que nem sabe dizer a marca do próprio celular.

Diz não torcer para nenhum time de futebol.

Afirma ser extremamente caseiro.

Agradece, diariamente, pelas oportunidades que recebeu.

Fala com orgulho da esposa, Marilde, grande incentivadora de sua caminhada artística.

E emociona-se ao mencionar as filhas, Vitória e Júlia, por quem declara um amor imenso.

Há ainda uma revelação curiosa.

Apesar de toda a experiência nos palcos, onde apresentou suas músicas com diferentes bandas de rock, ele admite que existe um lugar onde se sente verdadeiramente feliz.

"Prefiro estar numa passarinhada, no meio do mato, do que num palco."

Talvez porque ali, entre árvores, rios e pássaros, esteja o mesmo menino que um dia caminhou pelas ruas de terra de Almenara imaginando castelos voadores, super-heróis e poemas.

 

Um homem que continua escrevendo a própria história

Ao terminar esta conversa, fica a impressão de que Fábio Amaral Monte nunca perseguiu fama, prestígio ou reconhecimento. Seu compromisso sempre foi outro: criar.

Criar mesmo quando faltavam papel e caneta.

Criar quando os livros pareciam um sonho distante.

Criar sem saber se alguém leria.

Criar porque essa sempre foi sua maneira de compreender o mundo.

Ao longo de mais de quatro décadas, esse menino que moldava brinquedos de barro, inventava heróis, escrevia revistas artesanais e sonhava diante da paisagem de Almenara transformou-se em poeta, compositor, fotógrafo, educador e articulador cultural. Mas, acima de tudo, permaneceu fiel ao gesto que deu origem a tudo: o de observar com atenção e transformar a experiência vivida em arte.

 

Sua trajetória também revela a força criativa do Vale do Jequitinhonha. Uma região que, muito além dos estereótipos, continua produzindo escritores, músicos, artistas visuais, artesãos e narradores capazes de transformar memória em patrimônio e cotidiano em literatura.

No fim da entrevista, Fábio deixa um recado simples, mas que resume a essência de toda a sua caminhada: deseja que cada leitor se aproxime um pouco mais da cultura produzida no Vale.

É um convite difícil de recusar.

Porque, depois de conhecer sua história, entendemos que a poesia não mora apenas nos livros.

Ela também vive nas ruas de terra, nas águas do Jequitinhonha, no silêncio das matas, no voo dos pássaros e na persistência de quem nunca deixou de acreditar no poder transformador da arte.

 

Por

Soll Santos

 


 

 

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