A história da educação no Vale do
Jequitinhonha confunde-se, invariavelmente, com a trajetória do Colégio
Nazareth, em Araçuaí. Ao completar cem anos em 23 de abril de 2026, a
instituição não celebra apenas o passar do tempo, mas a consolidação de um
legado de "fé, educação e transformação de vidas" que moldou a
identidade cultural e social de uma vasta região de Minas Gerais.
O Colégio Nazareth nasceu da inquietação
profética de Dom José de Haas. Preocupado com a carência de instrução,
especialmente para o público feminino, o bispo buscou além-mar o suporte
necessário para semear o saber no árido cenário do interior mineiro. Sua
persistência o levou ao Convento de Oirschot, na Holanda, onde desafiou a
natureza puramente contemplativa da Congregação das Irmãs Franciscanas
Penitentes Recoletinas.
O
"milagre" da educação se materializou com a chegada de seis irmãs
heroínas. Movidas por uma coragem missionária, essas mulheres trocaram o
conforto europeu pela inculta realidade da época, estabelecendo a "Célula
Mater" da Congregação no Brasil. A construção física, por sua vez, carrega
o legado da imigração e do trabalho: foi erguida pelas mãos do imigrante
italiano Francisco Onnis, que trouxe da Calábria a
Fundado em
1926 e oficialmente reconhecido em 1930 pelo governo de Olegário Maciel, como educandário,
o colégio rapidamente se tornou um
epicentro intelectual. Como escola normalista, o Nazareth foi o berço da
formação de gerações de professoras. Essas mulheres, munidas da tradição
educativa holandesa e da espiritualidade franciscana, tornaram-se agentes
multiplicadoras de conhecimento, levando a luz da educação aos rincões mais distantes
do Vale.
A atuação do
colégio transcendeu a sala de aula. Ao focar na educação feminina em um período
de transição social, a instituição promoveu o empoderamento por meio do ensino
e da moral cristã, consolidando-se como um patrimônio histórico e afetivo para
a população de Araçuaí.
Chegar ao centenário é um marco que
atesta a resiliência de um projeto educativo fundamentado em valores perenes. O
Colégio Nazareth chega a 2026 reafirmando seu compromisso com a formação
integral do ser humano. O que outrora foi uma pequena "Casa de
Nazareth" hoje é um monumento à persistência e à dedicação das irmãs e de
todos os educadores que por ali passaram.
Nesta data
jubilar, Araçuaí e o Vale do Jequitinhonha celebram não apenas um edifício de
arquitetura imponente, mas um organismo vivo que continua a pulsar no ritmo do
progresso e da espiritualidade. O centenário do Colégio Nazareth é a prova de
que a educação, quando aliada à fé e ao amor ao próximo, é capaz de florescer
mesmo nas terras mais áridas, transformando para sempre o destino de um povo.
Nazareth 100 Anos
Cem vezes o sol cruzou este pátio,
Cem
vezes o sino chamou para o vir,
E
o que era semente no solo sagrado
Hoje
é floresta que ajuda a florir.
Nazareth, nome que soa como prece,
Erguido
na fé e na força do saber,
Onde
a criança o mundo conhece
E
o jovem aprende a ser antes de ter.
Nas salas que guardam o eco da história,
O
giz escreveu trajetórias de luz;
Cada
aluno é um traço na memória,
Cada
mestre, a mão que ao futuro conduz.
Pelas mãos das irmãs, pelo zelo
constante,
O
afeto se fez a maior disciplina.
Cem
anos de um brilho que é diamante,
Que
educa a mente e a alma ilumina.
Que venham mais tempos, mais risos e
glórias,
Pois
quem no Nazareth plantou seu legado,
Sabe
que faz parte da mais bela história:
Cem
anos de vida, presente e passado.
Jô
Pinto – Itinga/MG
Quilombola,
Historiador, Professor e Mestre em Ciências Humana









