Há
livros que oferecem boas ideias para a sala de aula e há aqueles que conseguem
transformar a maneira como pensamos a educação. A
Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson, pertence
a esse segundo grupo. Por isso, esta é a nossa dica de leitura da semana para
professores, estudantes de licenciatura, pedagogos e todos os que acreditam no
poder transformador da literatura.
Reconhecido
como uma das principais referências brasileiras em letramento literário, Rildo
Cosson amplia, nesta obra, uma discussão iniciada no já consagrado Letramento
Literário: teoria e prática. Se naquele livro o autor
apresenta caminhos para formar leitores literários, nesta nova publicação ele
dá um passo além ao defender que a escrita literária também deve ocupar um
espaço permanente na escola. Afinal, ler e escrever literatura são experiências
que se complementam e contribuem para a formação humana dos estudantes.
O
grande mérito da obra está justamente em aproximar teoria e prática. O autor
não apresenta receitas prontas nem modelos engessados. Pelo contrário, convida
o professor a refletir sobre sua prática pedagógica e mostra que é possível
construir experiências significativas de leitura e escrita mesmo diante dos
desafios cotidianos da escola. Em um contexto marcado pela cultura digital,
pelas avaliações em larga escala e pelo avanço da Inteligência Artificial
Generativa, sua proposta reafirma que formar leitores e escritores continua
sendo uma das missões mais importantes da educação.
Essa
reflexão torna-se ainda mais relevante quando observamos como a literatura,
durante muito tempo, foi tratada no ambiente escolar. Em muitas salas de aula,
os textos literários serviram apenas como pretexto para ensinar regras
gramaticais, identificar figuras de linguagem ou responder longos questionários
de interpretação. Nessa lógica, a obra literária perde sua dimensão artística e
humana, tornando-se apenas mais um conteúdo a ser avaliado.
Rildo
Cosson propõe uma mudança de perspectiva, para ele, a literatura deve ser
vivida como experiência, permitindo que os estudantes interpretem, sintam,
questionem, dialoguem e construam sentidos coletivamente. O professor deixa de
ser apenas o transmissor de respostas para assumir o papel de mediador, criando
condições para que cada aluno desenvolva uma relação autêntica com os livros.
Essa
proposta dialoga diretamente com o método apresentado em Letramento
Literário: teoria e prática, obra em que Cosson
sistematiza as conhecidas Sequências Didáticas de Leitura. A chamada Sequência
Básica organiza o trabalho em quatro momentos: motivação, introdução, leitura e
interpretação. A intenção é preparar o estudante para entrar no universo da
obra, acompanhar a leitura de maneira orientada e criar oportunidades para que
as interpretações sejam compartilhadas. Já a Sequência Expandida aprofunda esse
percurso, explorando aspectos específicos do texto e suas relações com outras
obras, autores e contextos culturais, valorizando a intertextualidade e
ampliando os horizontes de leitura.
Mais
do que uma metodologia, essas sequências expressam uma concepção de educação,
que na ideia do autor a leitura e escrita são práticas sociais. Ninguém nasce
gostando ou desgostando de ler. O interesse pela literatura é construído por
meio das experiências vividas na família, na escola e nos espaços culturais.
Quando os estudantes compartilham interpretações, debatem personagens,
relacionam textos e descobrem diferentes maneiras de compreender uma mesma
obra, passam a fazer parte de uma verdadeira comunidade de leitores. É
justamente nessa dimensão coletiva que o letramento literário ganha sentido,
aproximando-se das contribuições de Magda Soares ao compreender a leitura e a
escrita como práticas inseridas na vida social.
A
força dessa proposta pode ser percebida em experiências desenvolvidas em
escolas brasileiras. Um exemplo foi realizado com uma turma do 8º ano do Ensino
Fundamental, na Paraíba, onde professoras aplicaram a Sequência Básica de
Cosson durante a leitura de poemas de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Ao
longo das discussões, os estudantes registraram suas interpretações em pedaços
de tecido que, posteriormente, foram reunidos em uma Colcha de Poemas. O
projeto integrou literatura, arte, escrita e trabalho coletivo, demonstrando
que a leitura pode ultrapassar as páginas do livro e transformar-se em uma
vivência significativa para toda a turma.
É
justamente nesse ponto que A Escrita Literária na Escola
amplia a discussão. Se a leitura humaniza e amplia nossa compreensão da
realidade, a escrita literária permite que os estudantes experimentem a
linguagem como espaço de criação, imaginação e expressão. Escrever poemas,
contos, crônicas ou narrativas ficcionais não significa formar escritores
profissionais, mas desenvolver sensibilidade, criatividade, repertório cultural
e capacidade de comunicar experiências e emoções. Ao produzir literatura, o
aluno também aprende a ler de forma mais profunda, pois passa a compreender os
recursos expressivos utilizados pelos autores.
Talvez
esse seja o maior ensinamento do autor: a literatura não deve ocupar um
espaço periférico na escola nem servir apenas de apoio para o ensino da
gramática, ela precisa ser reconhecida como uma linguagem artística capaz de
formar leitores críticos, escritores mais conscientes e cidadãos sensíveis às
múltiplas formas de compreender o mundo.
Por
isso, nossa dica de leitura da semana é A
Escrita Literária na Escola, sem deixar de recomendar também Letramento Literário: teoria e prática,
obra que complementa esse percurso e ajuda a compreender as bases da proposta
desenvolvida pelo autor. Juntos, os dois livros constituem uma leitura
indispensável para quem deseja transformar a literatura em uma experiência
viva, significativa e verdadeiramente formadora dentro da escola.
E na
sua escola? A literatura ainda aparece apenas como apoio
para o ensino da gramática ou já ocupa um espaço de criação, diálogo e formação
crítica? Compartilhe sua experiência nos comentários.
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