terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CAUSOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O coronel Avarento

Imagem criada por IA

 

Esta história quem me contou foi o Seu Antônio Manelão. Um senhor negro, de estatura mediana e que já carregava uns 85 anos de sabedoria e causos na memória. Meu vizinho de rua , aqui em Itinga, ele sempre me parava para desfiar uma nova história. Dizia, com um sorriso de canto de boca, que eu era o único com paciência suficiente para dar ouvidos às suas 'lorotas'."

E assim ele me contou esse causo.

O Coronel Teodoro era o tipo de homem que contava os grãos de milho antes de dar às galinhas. Dono da Fazenda Boa Vista, entre Itinga e Medina, ele tinha uma máxima: "Trabalhador bom é trabalhador que custa pouco e produz muito".

Quando contratou o Zé do Mato para limpar um pasto tomado pelo juá, o Coronel já tinha o plano traçado. Zé era um sujeito de poucas palavras, chapéu de palha desfiado e um olhar sereno que Teodoro confundia com lerdeza.

— Zé, o negócio é o seguinte, disse o Coronel, coçando a barriga farta. — Não vou te pagar por dia. Vou te pagar por "tesouro achado". Cada pedra grande que você arrancar desse pasto e empilhar ali na beira da estrada, eu te dou dez pratas, se não tirar pedra, não ganha nada.

O Coronel ria por dentro. Ele sabia que aquele pasto era uma "mãe de pedra"; Zé passaria um mês suando para arrancar rochas pesadíssimas e, no fim, Teodoro diria que as pedras não eram "grandes o suficiente" para o pagamento, ou inventaria que a pilha estava mal feita. O plano era ter o pasto limpo de graça e ainda rir da cara do coitado.

Zé apenas assentiu:

— Combinado, patrão. O que eu tirar do chão e puser na pilha, é meu por direito?

— Tudo seu, Zé! Se achar ouro, é seu! Debochou o Coronel, sabendo que ali só existia granito bruto e poeira.

Durante três semanas, o som do ferro batendo na pedra ecoou pela fazenda. Zé trabalhava do nascer ao pôr do sol. Curiosamente, ele pediu para usar o caminhão velho da fazenda, que estava encostado, para "facilitar o transporte". O Coronel, achando que o esforço de carregar as pedras ia cansar o homem mais rápido, permitiu, desde que Zé pagasse o diesel do próprio bolso (mais uma pequena armadilha).

No último dia, o pasto estava liso como um campo de futebol, e na beira da estrada, não havia uma pilha de pedras, mas sim uma estrutura coberta por uma lona imensa.

Teodoro chegou bufando, pronto para dar o golpe final.

— Bem, Zé, vi que limpou tudo. Mas essas pedras aí... não me parecem grandes o suficiente. Acho que não vou poder te pagar as dez pratas por cada uma.

Zé, limpando o suor da testa, deu um sorriso de canto.

— Não se preocupe, Coronel. O senhor disse que se eu não tirasse pedra, não ganhava nada. E eu não quero seu dinheiro.

O Coronel estranhou.

— Como assim?

— O senhor também disse que tudo que eu tirasse do chão e pusesse na pilha era meu por direito, lembra?

Zé puxou a lona. Por baixo dela, não havia um amontoado de granito comum. Havia blocos perfeitamente esculpidos de pedra-sabão azulada, uma veia rara que aflorava exatamente naquele pasto e que o Coronel, em sua arrogância, sempre achou que era apenas "pedra cega".

— O que é isso? — gaguejou Teodoro.

— Um geólogo da cidade passou aqui semana passada, Coronel. Ele me disse que essa pedra vale uma fortuna para escultores e construtoras de luxo. Eu já vendi a "pilha" toda para ele.

Enquanto o Coronel ficava roxo de raiva, um caminhão de uma mineradora parou na estrada.

— O senhor não pode levar minha terra! — gritou Teodoro.

— Não é terra, patrão. É a "pedra grande" que o senhor disse que eu podia levar se arrancasse. O senhor economizou o meu salário, mas me deu a escritura do que estava debaixo dos seus pés.

Zé do Mato subiu na cabine do caminhão da empresa, com um maço de notas no bolso que pagaria dez fazendas Boa Vista. Antes de partir, gritou:

— Ah, Coronel! Deixei o seu caminhão com o tanque cheio. Sou homem de palavra!

Teodoro ficou ali, parado no meio do pasto limpo, olhando para o buraco de onde saiu sua fortuna, percebendo que, na tentativa de economizar alguns trocados, ele tinha acabado de entregar o tesouro da sua vida para o homem que ele chamou de "lerdo".

 

Nota: fiz adaptações no texto narrado, para se tornar um conto.


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A resistência ancestral do Bordado Barafunda


 

Procurando por palavras de origem africana, encontrei “barafunda”. O dicionário registra o termo como substantivo feminino que significa situação sem controle ou ordem, marcada por tumulto, balbúrdia ou pandemônio; também pode designar mistura desordenada de coisas diversas, como mixórdia, baralhada ou bagunça. Nos Corais Trovadores do Vale e Nossa Senhora do Rosário, em um dos batuques, a palavra aparece em versos populares: “Menina você não casa, casamento é barafunda. Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.”

Descobri, porém, que “barafunda” também nomeia uma técnica ancestral de bordado manual de origem africana. Essa prática cria padrões semelhantes a rendas sobre tecidos desfiados e possui forte presença cultural em terreiros de Candomblé na Bahia. Desenvolvida por mulheres africanas escravizadas no século XVIII, surgiu como alternativa às rendas europeias, como o Richelieu, então em moda. Sem acesso a tecidos nobres, elas utilizavam sacas de açúcar, que eram desfiadas e rebordadas, dando origem a esse bordado. Até hoje, a barafunda é preservada em cerimônias e festividades religiosas.

O processo consiste em retirar tramas e fios do tecido, fixá-lo em um bastidor e bordar para formar desenhos e quadradinhos. Por sua semelhança com a bainha aberta, muitas vezes é confundida com técnicas da casa-grande, mas recebeu nome próprio para marcar sua identidade. Trata-se de um bordado quase esquecido, aparentado ao crivo, ao labirinto e à bainha aberta, criado como substituto da renda, material caro e restrito às elites.

Nas comunidades de terreiro, a barafunda possui grande importância cultural e simbólica. Em alguns espaços, ela adorna trajes dos santos e das pessoas que ocupam cargos religiosos, e os bordadeiros mantêm estreita relação com esses ambientes. O trabalho começa com o desfiamento horizontal e vertical do tecido, formando um mosaico de quadradinhos vazados e cheios. Para preservar a integridade, as bordas são finalizadas com o ponto “dente de cão” (caseado). O mosaico é então preenchido com pontos repetidos, criando padrões.

Existem mais de 40 pontos de barafunda, muitos com nomes que remetem à natureza e à cultura afro-brasileira: flor de abóbora, roda de quiabo, espírito, semente de malva, fundo de balaio, percevejo e, entre os mais tradicionais, o ponto asa de mosca. Como outras técnicas têxteis, exige raciocínio matemático e grande minúcia, sendo inteiramente manual e artesanal.

Além da função ritual, a barafunda também se estende ao cotidiano, adornando guardanapos, toalhas e caminhos de mesa, e hoje aparece em peças de vestuário, como shorts e saias, ou em ornamentos decorativos para diferentes ambientes da casa.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

GIRO PELO VALE - O Confrade " Seu Cloves" faz sua passagem espiritual

Foto: Jô Pinto



A Família Vicentina do Vale do Jequitinhonha e Mucuri se despede de uma de suas figuras mais carismáticas . Partiu para a morada eterna aos 101 anos, o senhor Cloves Gomes de Souza, carinhosamente conhecido como "Seu Cloves". Natural de Araçuaí/MG, ele deixa um legado que atravessa um século de retidão e fé.

Dentista de profissão e ciclista por paixão, sempre acompanhado de sua inseparável Monark 1964. Seu Cloves foi, acima de tudo, um homem de Deus. Sua vida foi o reflexo vivo dos ensinamentos de Jesus Cristo e do carisma da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Como vicentino convicto, ele não apenas frequentava a igreja; ele a vivia uma vida aos assistidos e a missão da sociedade vicentina na região, estendendo a mão aos menos favorecidos com a humildade de quem enxergava o próximo como um irmão. Sua dedicação à caridade foi o pilar de sua jornada, atuando com fervor como membro e presidente da Conferência Vicentina Santo Antônio de Araçuaí e do Conselho Particular São Judas Tadeu. Foi fundamental na consolidação dos encontros da Família Vicentina dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Catequista e Ministro da Eucaristia, ele alimentou a fé de muitos. Esposo, pai, avô e bisavô exemplar, Seu Cloves pedalou pela vida espalhando amor e esperança. Sua missão terrena se encerra, mas seus passos e as marcas de seus pneus continuam guiando aqueles que acreditam no serviço aos pobres e na devoção ao Evangelho.

Louvado Seja nosso Senhor Jesus Cristo! Vai na luz, meu caro irmão confrade.

Jô Pinto

           Presidente da Conferência Vicentina Santo Antônio de Itinga.

 

“SE QUISERMOS PARTICIPAR DA GLÓRIA DO FILHO DE DEUS, NO CÉU, DEVEMOS PARTICIPAR DO SOFRIMENTO DOS POBRES E DOS SOLITÁRIOS, DOS AFLITOS E DOS MARTIRIZADOS.” (S.V.P. COSTE XI, 77) .

 

SÃO VICENTE DE PAULO.


 

domingo, 25 de janeiro de 2026

GIRO PELO VALE - O Lobo silenciou! Morre Sebastião Lobo

Foto - Livro na Boca do Lobo

 

Sebastião Lobo nasceu em 1937, em Felizburgo, no Baixo Jequitinhonha. Criado em Rio do Prado, viveu também em Almenara, Belo Horizonte e Nanuque. Há 52 anos, uniu-se ao escritor J. Duarte e ao empresário Sabino Miranda para fundar o jornal O Vigia do Vale. Desde o início, sua coluna "Na Boca do Lobo" tornou-se o espaço mais lido do periódico, onde aborda temas variados que cativam leitores de todos os perfis e níveis educacionais.

Na literatura, é autor das obras Lembranças que Atormentam (Pongetti, 1970), E Agora, Adeus (Comunicação, 1976) e Na Boca do Lobo: Crônicas Publicadas no Jornal Vigia do Vale (2003).

O Jornal Vigia do Vale

O jornal "Vigia dos Vales" foi fundado por Sebastião Lobo, Sabino Miranda, que se juntou a J. C. Duarte e fundaram novamente o antigo jornal "Vigia" com o nome de " O VIGIA DO VALE", nome o qual foi batizado, jornal que voltou a circular em 27 de setembro de 1973 em Almenara e região. Qual jornal foi fundado inicialmente por Olindo de Miranda Souza e Sabino Juvêncio de Miranda, dois pioneiros da imprensa almenarense e regional. Com efeito, o Olindo foi o fundador do jornal "O Vigia", periódico que circulou pela primeira vez em 30 de junho de 1930, criado como instrumento de luta e difusão da causa emancipacionista do Distrito de São João da Vigia, hoje Almenara, tendo circulado até sua morte, ocorrida em 12 de abril de 1964.( Alex ALV/Informativo)


ADEUS AO LOBO

Hoje, o Vale do Jequitinhonha silencia em respeito. O Lobo calou sua voz terrena e fez sua passagem espiritual, mas o eco de suas palavras permanece vibrante. Ele parte deixando um legado inestimável como jornalista e escritor, transcendendo as fronteiras de Felizburgo e Almenara para se tornar uma referência ética e cultural em toda a nossa região.

Sua trajetória foi marcada por uma dedicação à imprensa regional. Em tempos onde a informação muitas vezes passa despercebida, o Lobo tratou cada acontecimento do Vale com a seriedade e a paixão de quem entende que a escrita é, antes de tudo, um ato de amor à sua terra e ao seu povo. Ele não apenas noticiava; ele narrava a alma do Jequitinhonha.

A emblemática coluna "A Boca do Lobo" foi muito mais do que um espaço jornalístico; foi um bastião de coragem e uma lente crítica sobre a realidade local. Através dela, ele deu voz aos que precisavam ser ouvidos e imortalizou histórias que, sem sua caneta, teriam se perdido no tempo. Esse título, agora eterno, jamais será esquecido por aqueles que aprenderam a ver o mundo através de sua ótica sagaz.

Ao nos despedirmos, fica a saudade, mas prevalece a gratidão. O Lobo encerra seu ciclo físico, mas sua obra continua viva em cada página escrita e em cada mente que ele ajudou a despertar. Que sua memória continue a inspirar as futuras gerações de comunicadores a buscarem a verdade com a mesma garra e autenticidade que ele sempre demonstrou.

 

Jô Pinto

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre em Ciências Humanas.

 

 UM VALE DE POUCA LEITURA

Sebastião Lobo

É de assustar o baixíssimo índice de leitura no Vale do Jequitinhonha. A verdade é que minha terra carente está mais preocupada com o estômago do que em instruir-se. A propósito, já se disse por aqui que "leitura não enche barriga de ninguém".

Por tanto livros por estas bandas são coisa rara. Não têm saída, encalham. Dão prejuízo. São esquecidos nas prateleiras. Ocupam o lugar de outros tipos de publicações mais vendáveis, como por exemplo as didáticas. Essas sim, dão lucro. Saem logo. Alunos e professores são obrigados a comprá-las.

Em outros tempos, Cassandra Rios fazia o maior sucesso com seus livros pornográficos. O meu pé de laranja lima, do José Mauro de Vasconcelos, também foi muito vendido, por ter sido adaptado para novela. Paulo Coelho andou sendo procurado e... só. Depois todos sumiram, sem deixar sinal. Inclusive este último, apesar de ser uma celebridade.

A impressão que se tem é que os livros, mesmo de autores consagrados, foram proibidos na região.

Livrarias, bancas de jornais e revistas praticamente inexistem. Umas raras que existiam fecharam-se por falta de compradores e pela incidência de impostos. Seus donos quebraram quase todos. Outros, decepcionados, mudaram de atividade.

Ora, se os livros não são lidos, muito menos os jornais. A caça aos leitores para esse tipo de leitura é cansativa e desalentadora. Bate-se de porta em porta, explica-se as vantagens de se estar bem informado, que o jornal é uma escola de informação e cultura.

Detalhados os preços da assinatura ou venda avulsa do jornal, a pessoa procurada, via de regra, hesita entre o sim e o não. E quando se decide mais pela aquisição unitária, mesmo assinando um documento comprometedor, a maioria não tarda em desistir do compromisso assumido.

Pelo visto, essa abstinência de leitura ainda vai continuar por muito tempo no Vale. Convencer os ribeirinhos do Jequitinhonha de que "um país se faz com homens e livros", como disse Lobato. Todavia, como é esta a minha missão, vou continuar as visitas domiciliares, falando sobre a importância da leitura. Estarei sempre me lembrando de que é preferível a dor de não ter conseguido do que a vergonha de não ter tentado!

(VIGIA DO VALE - n° 752 - 13 de setembro de 1999)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

CONHECENDO O JEQUI - O centenário Jatobazeiro de Francisco Badaró

Foto: Jô Pinto

 

 

Localizado na histórica Praça do Rosário, no cruzamento entre a Travessa do Rosário e a Rua do Meio, o Jatobazeiro é um símbolo vivo da fé local. Situada a cerca de vinte metros da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a árvore teria sido plantada por volta de 1847. Segundo informação oral, a muda foi doada e plantada pelo proprietário da Fazenda das Almas, como um marco de devoção à padroeira e em celebração ao Termo de Compromisso da Irmandade do Rosario dos Homens Pretos do Sucuriú..

Atualmente, o Jatobazeiro ocupa um canteiro retangular de aproximadamente 8 metros. O espaço ao seu redor abriga uma academia ao ar livre, beneficiada pela ampla sombra da copa, enquanto seus frutos permanecem à disposição da comunidade.

 

Referencias

Arquivos: Politica de ICMS cultural do município.

 


 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura, "Mulheres da periferia no ensino superior"


 

A dica de leitura desta semana convida o leitor ( a) a refletirem sobre os desafios enfrentados por mulheres que constroem suas trajetórias acadêmicas no ensino superior a partir de territórios periféricos da Baixada Fluminense. O artigo de Estela Martini Willeman nasce da articulação entre pesquisa acadêmica e experiência docente, trazendo à tona histórias, tensões e vivências que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas no debate sobre educação superior no Brasil. Com base no materialismo histórico, a autora investiga como fatores sociais, econômicos, políticos e territoriais atravessam as escolhas, a permanência e o cotidiano de mulheres em cursos superiores majoritariamente femininos, localizados em Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. A análise se estrutura a partir de três eixos centrais : território, gênero e educação superior, que se entrelaçam na produção das desigualdades vividas pelas estudantes. A pesquisa combina abordagens qualitativas e quantitativas, utilizando questionários, entrevistas semiestruturadas e análise documental, o que permite compreender, para além dos números, as dimensões subjetivas que marcam essas trajetórias.

Ao ouvir as próprias estudantes, o texto revela experiências atravessadas por cansaço, solidão, conflitos internos e sentimentos de não pertencimento, compondo um quadro complexo e profundamente humano da vida universitária em contextos periféricos. Um dos principais aportes do artigo está em evidenciar que o acesso à universidade não elimina, por si só, as desigualdades estruturais. Pelo contrário, muitas mulheres seguem enfrentando violências simbólicas e materiais, naturalizadas ao longo da história da região e reforçadas por discursos meritocráticos que desconsideram as condições reais de vida dessas estudantes. A permanência no ensino superior, nesse contexto, exige um esforço contínuo e, muitas vezes, solitário.

Além de um diagnóstico, a leitura provoca o questionamento sobre o papel das instituições de ensino e das políticas públicas na garantia de condições efetivas de permanência e cuidado. Ao colocar gênero e território no centro da análise, o artigo contribui para ampliar o debate sobre justiça social, educação e emancipação.

É uma leitura especialmente recomendada para educadores(as), estudantes, pesquisadores(as) e todas as pessoas interessadas em compreender como desigualdades históricas impactam o cotidiano universitário, lembrando-nos que, por trás dos dados, existem vidas, histórias e resistências.

Referência

Willeman, E. M. (2024). SOLIDÃO, DIVISÃO SUBJETIVA E CANSAÇO: : trajetórias de mulheres pobres no ensino superior. Periferia, 16(1), e76881. https://doi.org/10.12957/periferia.2024.76881.


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Nilo Peçanha, o presidente negro do Brasil, embranquecido pela história

Foto: Internet

 

Falar sobre Nilo Peçanha é entrar em um dos capítulos mais complexos e reveladores da história do Brasil. Ele foi, de fato, o primeiro (e até agora único) presidente com ascendência negra a ocupar o cargo de presidente da república, governou o Brasil de  14 de junho de 1909 até 15 de novembro de 1910. Nilo Peçanha é patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil

No entanto, a sua trajetória é frequentemente usada para discutir o embranquecimento, um fenômeno social e político que moldou a identidade brasileira.

Nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) em 1867, Nilo Peçanha era de origem humilde. Ele fez carreira no Direito e na política, chegando à vice-presidência na chapa de Afonso Pena. Com a morte de Pena, Nilo assumiu o cargo máximo do país.

Seu governo foi marcado por uma visão progressista para a época, com dois grandes marcos: Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a : Sob o comando do Marechal Rondon e criação do Ensino Técnico: Criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, que são as sementes dos atuais Institutos Federais (IFs).

O termo "embranquecimento" no Brasil não se refere apenas a uma política de imigração europeia para "limpar" a genética da população, mas também a um processo social e histórico de apagamento de traços raciais de figuras ilustres.

Na virada do século XX, ser um homem de sucesso e poder era incompatível com a imagem de uma pessoa negra ou mulata ( palavra pejorativa, ainda usada nos dias atuais). Por isso, as fotografias oficiais de Nilo Peçanha eram frequentemente retocadas. Em muitos retratos da época, sua pele aparece visivelmente mais clara e seus traços fenotípicos suavizados para se adequarem ao padrão estético da elite branca. ( inclusive sua foto oficial como presidente foi retocada)

Embora fosse apelidado pejorativamente por adversários como "o mulato de Campos", a história oficial, durante décadas, tratou sua cor como um detalhe irrelevante ou inexistente. Ao "esquecer" sua negritude, o sistema educacional brasileiro privou gerações de uma referência de liderança negra no topo do poder executivo.

Havia uma mentalidade na República Velha de que, se uma pessoa negra ascendia socialmente e se tornava culta e poderosa, ela deixava de ser vista como negra. O dinheiro e o cargo "lavavam" a cor. Esse é um pilar do Mito da Democracia Racial: a ideia de que o Brasil não tem racismo porque "quem quer, chega lá", ignorando que, para chegar lá, Nilo precisou performar uma identidade branca.

Esse mesmo processo histórico ocorreu com outros gigantes da nossa cultura, como o escritor Machado de Assis, que por muito tempo foi retratado como branco em livros didáticos, bem como Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira que também foi embranquecida pela história

Reconhecer Nilo Peçanha como um homem negro não é apenas uma questão de precisão histórica, mas um ato de reparação. Quando o Estado e a sociedade "embranquecem" seus heróis, eles reforçam a ideia de que o poder pertence a uma única raça.

Trazer à tona a cor de Nilo Peçanha ajuda a expor as contradições do Brasil: um país que teve um presidente negro apenas 21 anos após a abolição da escravatura, mas que fez de tudo para que ninguém percebesse ou lembrasse disso.

 

Referencia

CARVALHO. Marcelo A. M. de . O Presidente Afrodescendente: Nilo Peçanha e a Criação do Sistema Federal de Escolas de Aprendizes Artífices (1909 a 1930). Telha, 2022

 

Jô Pinto,

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre e Ciências Humanas.

CAUSOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O coronel Avarento

Imagem criada por IA   Esta história quem me contou foi o Seu Antônio Manelão. Um senhor negro, de estatura mediana e que já carregava uns 8...