segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - São Cipriano


 

Atualmente circulam diversos grimórios, coletâneas de feitiços e magias, atribuídos a São Cipriano de Antioquia. Esses livros, conhecidos genericamente como Livros de São Cipriano, conteriam orações, rituais de magia negra e práticas ligadas ao ocultismo, supostamente escritos antes de sua conversão ao cristianismo. Mas afinal, quem foi o homem chamado Cipriano de Antioquia?

São Cipriano nasceu em 250, na Antioquia, região situada entre a Síria e a Arábia, então sob domínio da Fenícia. Filho de pais pagãos e muito ricos, desde a infância foi introduzido aos estudos da feitiçaria e das ciências ocultas, como alquimia, astrologia, adivinhação e diversas modalidades de magia.

Após longas viagens pelo Egito, Grécia e outros países, aperfeiçoando seus conhecimentos, aos trinta anos Cipriano chegou à Babilônia para conhecer a cultura ocultista dos caldeus, povo nômade que se estabeleceu no sudoeste da região, às margens do Eufrates. Foi ali que se converteu ao cristianismo, queimando seus manuscritos de feitiçaria e distribuindo seus bens entre os pobres.

A notícia de sua conversão chegou ao imperador romano Diocleciano, em Nicomédia. Cipriano foi perseguido, preso e torturado. Mesmo açoitado com pentes de ferro e lançado em uma caldeira fervente de banha e cera, não renunciou à fé. O feiticeiro Atanásio, seu antigo discípulo, acreditando que Cipriano usava algum sortilégio, tentou desafiá-lo invocando demônios e atirando-se na caldeira — mas morreu em poucos segundos.

Diante da resistência, Diocleciano ordenou sua execução. No dia 26 de setembro de 304, Cipriano foi decapitado às margens do rio Galo, em Nicomédia. Seu corpo permaneceu exposto por seis dias, até ser recolhido por cristãos e levado a Roma, sob os cuidados de uma senhora chamada Rufina. Mais tarde, já no império de Constantino, seus restos mortais foram transferidos para a Basílica de São João de Latrão.

O fascínio contemporâneo pelos Livros de São Cipriano revela que ainda buscamos respostas no mistério e no oculto. Mas a vida do santo nos lembra que o verdadeiro poder não está em dominar forças externas, e sim em transformar a si mesmo

 

 

Referência:

Cipriano de Antioquia. O Livro de São Cipriano: Capa Preta. Tradução e edições modernas disponíveis

Santos e Beatos da Igreja Católica (Vaticano). Disponível em: vatican.va Documentação oficial sobre santos e mártires da Igreja Católica.

 

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - Isidoro um negro de quilate


 

Em setembro de 2026, o espetáculo "Isidoro um Negro de Quilate com os artistas Evandro Passos e Do Xangô esteve em cartaz em Belo Horizonte, na Sala João Ceschiati do Palácio das Artes. Mais uma vez, o teatro cumpriu seu papel de dar voz às narrativas silenciadas e às histórias apagadas pelo tempo e pela memória oficial do país.

A montagem foi construída a partir das pesquisas de Jéssica Fernandes Mourão e Vitória Azevedo da Fonseca, que trouxeram à cena a figura de Isidoro Amorim Pereira, homem negro nascido na região de Diamantina, então Arraial do Tijuco, no século XVIII. Escravizado, minerador e faiscador de diamantes, Isidoro viveu uma trajetória marcada pela resistência. Perseguido e morto em 1809, tornou-se símbolo de força e inspiração para o povo do arraial.

Isidoro nasceu em 1799 e foi propriedade do padre Frei Rangel. Conseguiu sua liberdade e se destacou como minerador, encontrando grandes quantidades de diamantes. Esse sucesso despertou a perseguição do Intendente Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá, que assumiu o cargo em 1807, em meio às mudanças políticas trazidas pela chegada da corte portuguesa ao Brasil.

Com o monopólio da extração de diamantes pela Coroa, a Real Extração de Diamantes passou a controlar rigidamente a atividade. Ainda assim, Isidoro e seus companheiros seguiram garimpando de forma ilegal, dividindo os lucros e comprando alforrias de outros escravizados. Também fundaram quilombos na região, fortalecendo redes de solidariedade e resistência.

A ousadia de Isidoro incomodava os interesses da Coroa. Uma recompensa foi oferecida por sua captura, e ele acabou traído por um companheiro. Emboscado, foi baleado e levado ao Tijuco em junho de 1809. O poeta Adão Ventura narra o episódio em Isidoro: Texturaafro:

 

– Foi no mês de junho de 1809

que Isidoro entrou preso no Tejuco.

Era triste espetáculo.

Vinha amarrado em um cavalo,

cercado de pedestres,

todo ensopado de sangue.(Isidoro: Texturaafro, p.12-13.)

LITERAFRO - www.letras.ufmg.br/literafro

 

Isidoro foi torturado por vinte dias até morrer em decorrência dos abusos.

Durante muito tempo, em Diamantina, falava-se apenas do Beco do Isidoro, em frente à Igreja do Rosário, sem se contar quem de fato havia sido esse homem. O local era, na verdade, referência à Intendência, onde Isidoro foi torturado e morto.

Embora tenha sido retratado por alguns como contraventor, sua história revela outra verdade: Isidoro comercializava diamantes para libertar outros escravizados e apoiar irmandades de pobres. Sua trajetória mostra que, mesmo diante da violência e da perseguição, ele transformou o garimpo em instrumento de liberdade e solidariedade.

Assim, o espetáculo e as pesquisas que o inspiraram resgatam a memória de Isidoro, reafirmando seu papel como símbolo de resistência e como parte fundamental da história cultural e social do Vale do Jequitinhonha.

 

Referencias:

Revista Faces de Clio | Dossiê Anarquismo(s) em Perspectiva: Isidoro:memórias e resistências https://periodicos.ufjf.br/index.php/facesdeclio/article/view/45513/28242

Santos, Joaquim Felício dos. 1976. Memórias do Distrito Diamantino. São Paulo: Itatiaia

Machado Filho, Aires da Mata. 1980. Arraial do Tijuco, cidade de Diamantina. Minas Gerais: Itatiaia.

Mariano, Delsa de Fátima dos Santos. Escravos e libertos: autores das ações de liberdade em Diamantina   (1850-1871). 2015.   Dissertação   de   Mestrado.   Universidade   Federal   dos   Vales Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina

4º Novembro Negro da UFVJM. Portal UFVJM. Disponível em: <https://portal.ufvjm.edu.br/agendas/eventos/2021/4-novembro-negro-da-ufvjm>. Acesso: 15 de set. 2023.


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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - A Cidade do Sol: um romance que ilumina as sombras da realidade feminina no Afeganistão

 

Se você está em busca de uma leitura intensa, profunda e transformadora, prepare-se para mergulhar nas páginas de A Cidade do Sol (A Thousand Splendid Suns), publicado em 2007 pelo renomado escritor afegão Khaled Hosseini.

Enquanto seu primeiro grande sucesso, O Caçador de Pipas, focou na amizade masculina e no peso da culpa, esta obra ilumina com maestria a cruel e sombria realidade das mulheres no Afeganistão. Vencedor do prêmio Indies Choice Book Award, o livro transforma estatísticas de guerra em rostos humanos, dores reais e pura resiliência.
Duas Gerações, Duas Histórias, Um Mesmo Destino

A narrativa atravessa mais de três décadas da história afegã, desde a década de 1970, passando pela invasão soviética, a violenta guerra civil dos anos 1990 até o domínio sufocante do regime Talibã. É em meio a esse cenário devastador que acompanhamos duas protagonistas inesquecíveis:

Mariam: Considerada uma harami (filha bastarda), cresceu isolada em uma cabana (kolba) com sua mãe amargurada. Rejeitada pela sociedade, aprendeu desde cedo a dura lição materna: "o dedo acusador da sociedade aponta sempre para as mulheres". Aos 15 anos, após uma tragédia familiar, é forçada a se casar com Rasheed, um sapateiro de Cabul trinta anos mais velho, agressivo e frustrado.

Laila: Nascida uma geração depois, é filha de um professor liberal que acredita no poder transformador da educação. Laila cresce em Cabul, estuda, é cercada de amor e apaixona-se por seu amigo de infância, Tariq. Porém, as bombas da guerra civil destroem sua família, seus sonhos e seu futuro.

Grávida, ferida e sozinha no mundo, Laila é acolhida por Rasheed e vê-se obrigada a aceitar tornar-se sua segunda esposa para proteger a vida do filho que carrega. É nesse ambiente de opressão e violência doméstica que as trajetórias de Mariam e Laila se cruzam.

 A Frase que Resumiu o Destino de Laila

Se há uma citação que define a mensagem essencial da infância de Laila e o pensamento visionário de seu pai, é esta:

"O casamento pode esperar; a educação, não. Você é uma menina inteligentíssima... Vai poder ser o que quiser, Laila. E também sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de você tanto quanto dos seus homens, talvez até mais. Porque uma sociedade não tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres não forem instruídas, Laila. Nenhuma chance."

 Sororidade e Resistência: Os Temas Centrais

O grande trunfo de A Cidade do Sol é atuar como um verdadeiro documento social disfarçado de ficção, tocando em feridas abertas:

A Opressão Doméstica e Institucionalizada: Hosseini escancara o significado de viver sob as leis extremistas do Talibã. As mulheres perdem o direito de estudar, trabalhar, rir em público ou andar desacompanhadas na rua. Dentro de casa, o sofrimento continua sob o controle físico e psicológico de um casamento abusivo.

Sororidade como Sobrevivência: O relacionamento entre Mariam e Laila começa com hostilidade e ciúmes, alimentados pela manipulação de Rasheed. Contudo, a dor compartilhada transforma essa rivalidade em uma das amizades mais bonitas e leais da literatura. Elas tornam-se o escudo e a força uma da outra.

A Metáfora dos Suspiros: Logo no início, a mãe de Mariam ensina que "cada floco de neve é o suspiro de uma mulher magoada em algum lugar do mundo". Essa poesia dolorosa ecoa por toda a leitura, mostrando como a dor feminina no Afeganistão é silenciosa, porém constante.

 O Estilo Inconfundível de Khaled Hosseini

A escrita de Hosseini é ágil, fluida, crua e extremamente visual. Ele não poupa o leitor do sofrimento e das ruínas materiais e emocionais de Cabul, mas equilibra essa crueza com momentos de extrema sensibilidade e afeto.

Ao folhear as páginas, você não encontrará príncipes encantados ou finais de fadas perfeitos. Trata-se de uma narrativa real que, embora retrate uma cultura distante, desperta uma empatia universal. É uma leitura densa que frequentemente provoca lágrimas, mas que prende o leitor pelo desejo urgente de saber se aquelas duas mulheres encontrarão a liberdade.

 A Cidade do Sol é muito mais do que um romance histórico; é um manifesto sobre a dignidade humana, o sacrifício e a força inabalável do espírito feminino diante do horror.

Ao terminar o livro, o título ganha um significado totalmente novo: a "cidade do sol" não é apenas Cabul sob a luz do dia, mas a esperança e o amor que essas mulheres carregam dentro de si, mesmo nas noites mais escuras.

Mesmo com o passar dos anos e o recente retorno do Talibã ao poder, a obra continua assustadoramente atual e urgente. Ler esta história é um convite a valorizar a nossa liberdade, praticar a empatia e escutar vozes que o mundo insiste em calar.

E ao fechar a última página, é impossível não se fazer a pergunta final: quantas Mariams e Lailas ainda vivem em silêncio pelo mundo hoje?

 

BOA LEITURA!


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Boneca, o sonho da artesã

Imagem internet

 

No chão árido de Santana do Araçuaí, comunidade pertencente ao município de Itinga, o tempo corria devagar, embalado pelo vento seco do sertão mineiro. Ali nasceu Izabel, em 1924, trazendo nos olhos a curiosidade de quem parecia ver o mundo antes mesmo de ele se desenhar.

Desde pequena, os passos da menina seguiam os rastros da mãe, Idalina Maria de Jesus, uma mulher de mãos calejadas que transformava a barro cinzento em potes, panelas e pratos indispensáveis à vida da roça. Izabel olhava em silêncio. Cada gesto da mãe ao apertar o barro era guardado em seu peito como um segredo sagrado.

Mas o ofício tinha dono e o recurso, dono e preço. Na fazenda onde viviam, o barro era ouro raro. O pai precisava marchar até a propriedade vizinha para trazer um punhado daquela terra fértil, que vinha racionada para a louça utilitária. Para a menina Izabel, restava apenas a imaginação. Ela criava suas fantasias colando retalhos de pano em sabugos de milho, dando vida a personagens invisíveis que habitavam seu universo de menina humilde. Ela ouvia falar em bonecas de verdade nas histórias que vagavam pelo vento, mas nunca tinha visto uma.

Foi escondida, no recanto onde os adultos não olhavam, que Izabel ousou tocar na terra proibida. Com dedos ágeis e leves, roubou um pouco de barro guardado e começou a moldar. Não fez panelas. Fez o seu próprio sonho.

Inspirada na forma arredondada de uma moringa, sua imaginação rompeu os limites do utilitário. A primeira imagem que lhe saltou aos olhos da alma foi a de uma mãe com o filho no colo, um retrato vivo do afeto que a impressionava e a acolhia. Depois, os dedos inquietos modelaram noivas de vestidos brancos longos e armados, pura miragem de beleza que ela tanto admirava e que parecia pertencer a um mundo distante.

Quando o sol começava a se deitar e a lenha estalava para acender o grande forno da família, lá vinha a menina coragem, com suas pequenas peças esculpidas às escondidas. A princípio, o sobressalto da mãe. Mas, ao ver a perfeição ingênua daquelas figuras de barro cru, a dureza se desfazia em brasa mansa. Idalina abria espaço no fogo e queimava as bonecas junto com os potes de sempre.

O que começou como um segredo de infância nos sulcos do sertão não coube nas cercas do Jequitinhonha. O barro que assou no forno humilde ganhou o mundo, viajou oceanos, encantou galerias e consagrou Mestra Izabel para a eternidade. Mas, para quem olhava bem de perto, cada boneca de cerâmica ainda guardava a mesma menina de Santana do Araçuaí, colando retalhos de esperança num tempo em que sonhar era o único ofício permitido.


 Crônica criada por Jô Pinto, a partir da história de vida da artesã Izabel Mendes. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A cultura popular no palco


 

No mês de setembro, Itinga e Araçuaí receberam a estreia do espetáculo infantil Turma da Feliciana, inspirado no projeto de Educação Patrimonial Arte de Viver, do idealizador José Claudionor dos Santos Pinto. A iniciativa, que já está em sua quarta fase, integra o Programa de Educação e Difusão para o Patrimônio Cultural e tem se destacado pelo uso de histórias em quadrinhos (HQs) como recurso pedagógico nas escolas da rede municipal. O material tem alcançado principalmente o público infantil, despertando curiosidade e encantamento.

A nova proposta nasceu da inspiração da educadora Ângela Freire, que apresentou o projeto ao edital da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais ( Edital 08/2024 - Desenvolvimento de Projeto). A ideia de adaptar o conteúdo para o teatro foi prontamente abraçada pelo Grupo Teatral Itinguense e Grupo Vozes de Araçuaí. Nos diálogos que antecederam a montagem, ficou clara a necessidade de criar uma ponte entre HQs, teatro infantil e patrimônio imaterial, formando um ecossistema educativo rico, lúdico e interativo. Sob a direção cênica de Allef Heberton dos Santos Murta, coube a tarefa de aproximar essas linguagens artísticas e dar vida ao espetáculo.

O uso dessas expressões artísticas, associado à preservação da identidade cultural, estimula desde cedo valores como empatia, oralidade e sentimento de pertencimento. Afinal, para preservar o patrimônio cultural de uma cidade, é preciso conhecê-lo, vivenciá-lo e aproximar-se de forma significativa dos contextos locais.

O espetáculo trouxe três narrativas do universo da cultura popular do Vale do Jequitinhonha para o palco. Essa escolha reforça como a oralidade se reinventa nos tempos atuais: se antes as histórias eram transmitidas pelos griôs em rodas de conversa, hoje o teatro assume esse papel, contando de forma lúdica e envolvente episódios marcantes da região. Entre os destaques estão: Escrava Feliciana, personagem que simboliza resistência e memória histórica. Luciana Teixeira, figura feminina que representa força e identidade cultural. Rio Jequitinhonha, elemento vital para a vida, a economia e a cultura da região.

Ao reunir essas histórias, o espetáculo reafirma o papel do teatro como guardião da memória coletiva e como ferramenta pedagógica capaz de aproximar crianças e jovens de suas raízes culturais.



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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Onde o sonho criou raiz: a estreia literária de Thaisa Martins


 

Com 110 páginas e reunindo dez contos, a obra foi lançada em 22 de agosto de 2026, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), Campus Araçuaí, e também teve seu lançamento durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale, aproximando a nova publicação de leitores e leitoras e do movimento literário e cultural da região.

Mas, antes de existir o livro, existiam os cadernos.

Entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando tinha entre 8 e 11 anos, Thaisa criava histórias nos chamados “cadernos de redação”. Durante as férias escolares, ela e a irmã, lízian Martins ainda faziam comemorações em torno das experiências registradas nesses cadernos.

Naquele momento, ela não imaginava que aquelas histórias poderiam, décadas depois, transformar-se em um livro.

Hoje, olhando para trás, a autora reconhece naqueles cadernos as primeiras sementes de Onde o sonho criou raiz.

O tempo passou. Sua formação escolar, acadêmica e profissional foi conduzindo sua escrita para caminhos mais metódicos, e aquele universo imaginativo da infância acabou ficando distante.

Mas não desapareceu.

O reencontro com a literatura

O reencontro com a literatura começou a ganhar força em 2019, a partir da idealização de um dos clubes do projeto Leia Mulheres, em Araçuaí.

Vieram as oficinas de escrita literária, o contato com obras de autoras da região, a participação em eventos literários e a aproximação com o Movimento de Poetas e Escritores/as do Vale do Jequitinhonha.

Ao mesmo tempo, Thaisa ingressava no doutorado e aprofundava sua pesquisa sobre as escrevivências de mulheres negras.

Foi nesse cruzamento entre literatura, pesquisa, experiências coletivas e reconhecimento de si como mulher negra e escritora que o antigo desejo de publicar um livro começou a ganhar forma.

É desse encontro entre passado e presente que nasce Onde o sonho criou raiz.

Quando o sonho cria raiz

O título da obra carrega justamente essa relação entre a menina que escrevia e a mulher que, anos depois, voltou a se reconhecer como escritora.

Para Thaisa, o “sonho” representa o desejo antigo de escrever. A “raiz” se relaciona à ancestralidade, à memória e às pessoas que vieram antes dela.

As avós aparecem como referências importantes tanto no livro quanto em sua trajetória de pesquisa.

Por isso, quando a autora afirma que o sonho criou raiz, está falando também da possibilidade de aproximar duas versões de si mesma: a Thaisa criança e a Thaisa pesquisadora.

É um encontro entre o antes e o agora.

Dez contos, muitas histórias de mulheres

A obra reúne dez contos e apresenta ao leitor uma galeria de personagens femininas.

São mães, filhas, avós, irmãs, amantes e mulheres atravessadas por diferentes experiências, afetos, conflitos, desejos e dilemas.

Mas há uma característica importante nessa construção: nem sempre o leitor encontrará finais previsíveis.

No prefácio, escrito por Hérica Silva, os finais dos contos aparecem como possibilidades que podem ser felizes, inesperadas ou mesmo difíceis. E talvez seja justamente aí que a literatura de Thaisa encontre uma de suas características marcantes: não oferecer necessariamente aquilo que o leitor espera.

As histórias caminham entre o cotidiano, a memória e aquilo que muitas vezes permanece sem ser dito.

Que memórias permanecem na voz de uma avó?

O que acontece quando uma dor atravessa gerações?

Quantas histórias de mulheres permanecem escondidas porque nunca encontraram espaço para ser contadas?

São perguntas que podem acompanhar o leitor durante a leitura, sem revelar antecipadamente os enredos.

Um “grito ancestral”

Ainda se tratando da contribuição da Hérica Silva no prefácio,  ela utiliza uma expressão que chama atenção: “um grito ancestral”.

A expressão nasce de uma das histórias do livro, mas também pode ajudar a compreender o conjunto da obra.

A escrita reúne vozes femininas, memórias e experiências atravessadas por diferentes realidades sociais. Há delicadeza, mas também existem silêncios, perdas, conflitos e dores.

É uma escrita que permite que aquilo que ficou guardado encontre uma possibilidade de expressão.

Quando escrever também é viver

A trajetória de Thaisa Martins ajuda a compreender a importância da literatura em sua obra.

Sua participação no Leia Mulheres de Araçuaí, do qual foi uma das fundadoras na cidade e onde atua na coordenação, aproximou-a ainda mais da produção literária de autoria feminina.

O projeto promove encontros em torno de livros escritos por mulheres e tornou-se parte importante de seu reencontro com o universo literário.

Paralelamente, sua trajetória acadêmica levou-a a pesquisar mulheres negras e violência.

Em 2025, Thaisa concluiu o doutorado com a tese Erguendo a voz: um ensaio sobre o enfrentamento à violência através das escrevivências de mulheres negras.

É nesse percurso que aparece um conceito fundamental para compreender sua escrita: a escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo.

A escrevivência estabelece uma relação profunda entre escrita, experiência, memória e vida, especialmente a partir das experiências de mulheres negras.

Em Onde o sonho criou raiz, esse conceito atravessa a maneira como Thaisa olha para a literatura e para as personagens que constrói.

Entre a pesquisadora e a menina dos cadernos

Talvez uma das imagens mais bonitas para compreender o livro seja justamente o encontro entre essas duas Thaisas.

De um lado, a menina que criava histórias nos cadernos.

Do outro, a mulher que se tornou pesquisadora, doutora, leitora, integrante de um coletivo literário e agora escritora publicada.

O livro nasce desse encontro.

A própria autora reconhece que algumas escolhas de linguagem presentes nos contos não estão necessariamente submetidas à escrita acadêmica ou à chamada norma culta padrão.

A literatura permite experimentar, criar ritmos, aproximar-se da oralidade e encontrar outras maneiras de contar.

É como se a menina dos cadernos finalmente pudesse conversar com a pesquisadora.

E dessa conversa nasceu o livro.

Uma escritora do Vale

O lançamento em Araçuaí também situa a obra no território onde parte importante da trajetória literária da autora foi construída.

O Vale do Jequitinhonha possui uma produção cultural marcada por diferentes formas de expressão, e a literatura também faz parte desse cenário.

Thaisa Martins integra esse movimento por meio de sua atuação no Leia Mulheres de Araçuaí, de sua aproximação com escritores e escritoras da região e agora com a publicação de seu primeiro livro.

O lançamento de Onde o sonho criou raiz em Araçuaí e sua apresentação durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale colocam a obra em circulação entre leitores e leitoras do próprio território.

Para quem fica a dica?

Se você gosta de contos, literatura escrita por mulheres, histórias atravessadas por memória e ancestralidade, ou quer conhecer novas vozes da literatura produzida no Vale do Jequitinhonha, Onde o sonho criou raiz pode entrar na sua lista de leituras.

São dez histórias, mas muitas possibilidades de leitura.

Algumas podem provocar identificação. Outras podem causar desconforto. Algumas podem fazer o leitor lembrar de alguém. Outras talvez deixem uma pergunta que continua presente depois da última página.

E é isso que uma boa leitura faz: continua conversando com a gente mesmo depois que o livro é fechado.

A história por trás da história

Para conhecer um pouco mais sobre o caminho que levou Thaisa Martins dos cadernos da infância à publicação de seu primeiro livro, conversei com a autora sobre três aspectos fundamentais de sua trajetória: a origem do desejo de escrever, o significado do título e a presença da escrevivência em sua produção literária.

Nas respostas, Thaisa fala da menina que escrevia entre 1998 e 2001, do reencontro com a literatura a partir do Leia Mulheres, de sua pesquisa acadêmica e da descoberta de si mesma como mulher negra e escritora.

Ela também fala sobre suas avós, ancestralidade, resistência e sobre o compromisso de abordar questões de raça, gênero e classe sem abrir mão da imaginação e da leveza que acompanham o ato de criar histórias.

No fundo, suas respostas confirmam aquilo que o título já anuncia:

o sonho não ficou para trás. Ele criou raiz.


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terça-feira, 29 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Pote de ouro

Seu Eugênio era um homem de uma única paixão: o brilho do ouro e o peso frio das moedas, em vida, não gastava um centavo com luxos, nem mesmo com o básico. Vivia em uma casa caindo aos pedaços, comia o pão mais duro e vestia trapos esfarrapados. Para ele, cada moeda poupada era uma vitória contra a miséria que tanto temia, embora a verdadeira miséria estivesse instalada em sua própria alma. O seu maior tesouro, um pesado pote de barro recheado de reluzentes peças de ouro, estava enterrado sob as raízes de uma velha mangueira, nos fundos do quintal.

Quando a morte o levou de repente, sem tempo para confissões ou arrependimentos, o seu espírito recusou-se a partir. Preso à terra pelo forte laço da ganância, vagava pela propriedade como uma sombra fria e lamuriosa.

Certa noite, o espírito de Seu Eugênio apareceu para o velho Cipriano, o seu fiel e mal pago empregado, que continuava a cuidar do sítio abandonado. Com a voz cavernosa e o rosto pálido como a lua, o fantasma ordenou: Cipriano, meu bom rapaz... Minha alma não tem descanso porque o ouro está preso à terra, vá até a velha mangueira, cave fundo e desenterre o meu pote. Mas preste bem atenção: só podes retirá-lo depois da meia-noite, se fores antes, perderás tudo.

Cipriano, tomado de um misto de pavor e da esperança de finalmente mudar de vida, aceitou a incumbência.

Quando os ponteiros do relógio da igreja marcaram exatamente meia-noite, Cipriano,  já estava de pé, armado com uma enxada e uma lanterna a óleo. O vento soprava uivante, balançando os galhos da mangueira como braços fantasmagóricos. O coração do empregado batia descompassado no peito.

Assim que cravou a primeira pásada na terra seca, as assombrações começaram, a temperatura despencou drasticamente, fazendo sua respiração virar fumaça; uivos estridentes ecoaram por entre as árvores, como se dezenas de almas penadas estivessem sofrendo ao seu redor. De repente, a lanterna piscou e quase se apagou.

Cipriano olhou para o chão e viu a terra começar a se mexer sozinha. Formas disformes e escuras ergueram-se do solo, sussurrando maldições em seus ouvidos, tentando fazê-lo largar a ferramenta. Risadas sádicas ecoavam na escuridão e pedras invisíveis começaram a chover ao seu redor. O medo era paralisante, o suor frio escorria por sua testa, mas a lembrança do ouro o empurrava para a frente.

Com um grito de coragem, Cipriano deu a última enxadada. A lâmina bateu com um som metálico estridente!

Ele havia achado, e com as mãos trêmulas e usando apenas os dedos para raspar a terra, Cipriano puxou para fora um pote de barro pesado e empoeirado.

Ofegante, com o coração quase saltando pela boca e as visões desaparecendo com os primeiros raios de luz da madrugada que se aproximavam, sentou-se na grama e retirou a tampa de madeira do pote. Ele fechou os olhos, sorriu aliviado e imaginou a fortuna que estava prestes a ver.

Mas, ao olhar para o interior do pote, o sorriso congelou em seu rosto.

Não havia ouro. O pote estava completamente cheio de cinzas cinzentas e ossos humanos triturados, os restos mortais da própria família de Seu Eugênio, que ele havia deixado morrer de fome e abandono décadas atrás, trocando a vida deles por moedas que nunca existiram de verdade.

Enquanto Cipriano recuava, horrorizado e sufocado pelo cheiro fétido de sepultura, o espírito de Seu Eugênio materializou-se diante dele. O velho não trazia o semblante de um fantasma assustador, mas sim um sorriso desfigurado e sutil, banhado em lágrimas de pura loucura.

— O ouro nunca importou, Cipriano... sibilou a voz espectral, ecoando direto na mente do empregado. — Eu não guardava riquezas. Eu guardava o meu próprio inferno. E agora... você abriu a tampa. O tesouro passou a ser seu.

No segundo seguinte, o pote dissolveu-se em fumaça, que penetrou violentamente pela boca e pelos olhos de Cipriano. O empregado caiu de joelhos, gritando em agonia, enquanto sentia a própria ganância e o peso dos pecados de Eugênio corromperem sua alma para toda a eternidade. Quando o sol finalmente nasceu, já não era mais o mesmo; era apenas mais uma sombra silenciosa e vazia, condenada a guardar o nada e sua ganância sob a velha mangueira.

 

Por: Jô Pinto


Este conto é muito comum em cidades do Vale do Jequitinhonha. Fiz esta adaptação a partir dos relatos do canoeiro Tionil, de Itinga, em uma das muitas conversas que tive com ele.

MEMÓRIA CULTURAL - São Cipriano

  Atualmente circulam diversos grimórios, coletâneas de feitiços e magias, atribuídos a São Cipriano de Antioquia . Esses livros, conhecidos...