Escrever sobre a própria
terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da
Desigualdade, escrito pelo médico infectologista, ex-prefeito de
Caraí e atual deputado federal, Dr. Heber Neiva (Vavá), surge não como apenas
mais uma coletânea de histórias, mas como um espelho de realidades que cruzam
os caminhos de quem percorre as estradas poeirentas e as comunidades dos Vales
do Jequitinhonha e Mucuri.
Muitos poderiam esperar
dos bastidores da escrita do autor um relato focado puramente nas
"mazelas", aquela palavra desgastada que a mídia de fora adora usar
para rotular e resumir a região. Mas a obra, lançada em 2025, vai muito além. O
título A Ferida Aberta mexe com a própria identidade regional.
O autor não olha para o povo com pena, mas com um profundo respeito pela
resiliência local, usando a história para explicar a saúde, e a saúde para
desvendar a história.
O Estetoscópio que Escuta a Fome
Para quem vive o cotidiano
de cidades como Caraí, Catuji, Teófilo Otoni ou Diamantina, a obra impressiona
porque humaniza o dado estatístico. O Dr. Heber utiliza o conceito científico
de sindemia; a percepção de que uma doença não
existe isolada da fome, do racismo, da pobreza e da ausência do Estado. Como o
próprio autor define de forma cirúrgica na obra:
“Para o médico do
interior, o estetoscópio muitas vezes escuta o que não está no pulmão, mas na
despensa vazia. A verdadeira ferida aberta que encontramos nas estradas
poeirentas não é a da carne, mas a da invisibilidade de um povo que teima em
sorrir mesmo quando o Estado se esquece de chegar.” O autor ainda menciona que:
“quem é da região sabe exatamente o que isso significa: as longas caminhadas
sob o sol escaldante para conseguir um atendimento, ou o trabalhador informal
que esconde suas dores para não perder o dia de serviço”.
O livro traz à tona a
personagem Damiana, que nasceu no Vale do Mucuri cercada por um paradoxo cruel:
enquanto os grandes centros transformavam o HIV em uma condição crônica
tratável, a desigualdade regional continuava a matar por falta de acesso. O
autor mostra que "os patógenos biológicos são apenas
relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de
violência social".
Rompendo o Silêncio do Estigma e da Saúde Mental
Outro ponto crucial onde a
obra toca na carne da região é a abordagem sobre o sofrimento psíquico e o
isolamento, temas que ainda são tabus gigantescos nas pequenas cidades.
“Tratar a mente nos
rincões do Jequitinhonha é desafiar o silêncio. O sofrimento mental aqui se
esconde nos quintais, amarrado pelo preconceito e pela falta de estradas. O
isolamento geográfico acaba por se tornar um isolamento da própria alma.”
Ao longo das crônicas, o
autor apresenta personagens reais, com identidades protegidas, cujas dores
gritam por justiça. É o caso de Piedade, que faz questionar se o surto veio da
mente ou do peso de uma sociedade opressora; e de Dolores, uma mulher marginalizada
que questiona o próprio sistema: “Se eu fui vítima desde a
barriga da minha mãe, por que sou eu quem termina atrás das grades?”.
O livro escancara como o machismo regional e a escassez histórica de redes de
apoio psicossocial destroem vidas em silêncio.
O Enfrentamento do HIV no Interior: Uma Luta Civilizatória
A maior força de A Ferida Aberta, e o que torna a sua recomendação um
dever cívico, é a quebra do silêncio sobre a realidade das pessoas
soropositivas longe das capitais. O preconceito nas cidades pequenas ainda age,
muitas vezes, como um exílio em praça pública.
“O vírus assusta, mas o
estigma mata antes. No interior, a revelação de um diagnóstico positivo de HIV
ecoa pelas paredes da cidade com o peso de uma sentença de exílio social.
Acolher essa dor não é apenas um dever médico, é um resgate civilizatório.”
O desafio logístico
denunciado no livro é uma realidade conhecida de perto por quem habita a
região. Para fazer um exame de carga viral ou buscar a medicação
antirretroviral, muitos pacientes precisam enfrentar horas de viagem em
estradas precárias até os centros de referência regionais. Através do
personagem Inocêncio, um jovem que nasceu com HIV e acabou encontrando o único
"abraço" disponível no mundo do crime, o autor prova que a biologia,
no interior, é refém da história e do desamparo.
Mais que Literatura, um Compromisso Coletivo
O que torna a indicação desta obra tão
relevante não é apenas a qualidade da escrita, que
mistura de forma brilhante a sensibilidade da crônica com a profundidade da
análise histórica, mas o compromisso que o Dr. Heber assume com a população.
O valor arrecadado com a
venda dos livros é totalmente destinado a entidades filantrópicas
locais que apoiam e acolhem pessoas soropositivas nos Vales. Ler
este livro, portanto, vai além do passatempo: é um ato de solidariedade ativa e
de cidadania.
Para quem busca entender o
Brasil real através das cicatrizes dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, A Ferida Aberta não é apenas uma recomendação de
leitura: é um reencontro urgente com a nossa própria história.
Boa leitura.
Por











