quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Uma prosa com o poeta Terramar Luz


 

Terramar nasceu em estado de poesia

Entre a terra de onde veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha transforma memória, saudade, amor e pertencimento em literatura

Há pessoas que recebem um nome.

E há pessoas que parecem receber, junto com o nome, uma história.

Quando Terramar Alves Luz nasceu, em 10 de dezembro de 1988, sua mãe dizia estar em “estado de poesia”. O pai, que, segundo ele, tinha ideias hippies, chegou a mudar o nome que havia sido pensado para homenagear os avós: José, pelo lado paterno, e Othávio, pelo lado materno.

O menino acabou sendo Terramar.

Terra e mar.

E, no sobrenome, Luz.

Talvez seja apenas uma coincidência. Ou talvez algumas histórias comecem muito antes de percebermos que já estão sendo escritas.

Terramar nasceu em Almenara, no Vale do Jequitinhonha, e reside em Santo Antônio do Jacinto. Bacharel em Direito pela PUC Minas, é escritor, poeta, ativista e agente cultural. Desde a juventude, participa e ajuda a organizar eventos voltados à cultura e à literatura.

Aos 16 anos, começou a escrever poesia.

Passaram-se os anos.

Vieram a adolescência, as cartas de amor, as inquietações, a faculdade, a distância de casa, a saudade, os poemas guardados e uma vida inteira acontecendo entre um verso e outro.

Somente em agosto de 2026, depois de mais de duas décadas escrevendo, Terramar publicou seu primeiro livro, Declaração de um Piegas, pela Arejo Editorial.

Mas a história desse livro começa muito antes.

Antes do livro, havia a distância

Existe um momento importante na trajetória de Terramar que ajuda a compreender a poesia que viria depois: a saída do Vale para estudar Direito na PUC Minas, em Contagem.

Longe de casa, aquilo que antes fazia parte da paisagem cotidiana começou a aparecer de outra maneira. A terra passou a ser lembrança. A infância ganhou contornos de memória. As pessoas, os lugares e as experiências vividas no Vale do Jequitinhonha passaram a existir também dentro dele.

A distância não apagou o território.

Trouxe-o de volta em forma de poesia.

“Os poemas tornaram-se uma espécie de remédio para a alma”, conta.

É uma frase que ajuda a compreender Declaração de um Piegas. A poesia, para Terramar, foi se transformando ao longo da própria vida. Primeiro, vieram os poemas românticos e as cartinhas de amor da adolescência, durante um processo de autodescoberta.

Depois, surgiu uma escrita mais rebelde, marcada pelas indagações da vida e por poemas de cunho mais social.

Mais tarde, já maduro, veio a saudade da terra.

E foi nesse movimento de afastamento e lembrança que o Vale do Jequitinhonha ganhou ainda mais espaço em sua escrita.

Segundo Terramar, os poemas passaram a funcionar como um resgate das lembranças da infância e também como uma defesa do território que considera rico em cultura e resistência.

Do amor adolescente à memória de uma terra

A poesia de Terramar não nasceu pronta.

Ela foi mudando junto com ele.

O próprio livro acompanha esse percurso. Declaração de um Piegas é uma coletânea de poemas organizada em três capítulos: cidade, infância e amor.

São experiências diferentes, reunidas por uma escrita marcada por reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

“Para muitos poetas, a primeira linguagem seja o amor”, afirma.

No caso de Terramar, essa primeira linguagem apareceu nos poemas românticos e nas cartinhas de amor da adolescência. Com o tempo, porém, a escrita ganhou outras preocupações.

Vieram as perguntas sobre a vida.

Vieram os poemas de cunho social.

E veio também a necessidade de reencontrar, pela palavra, aquilo que havia ficado para trás.

A infância.

A terra.

A memória.

O Vale.

Vinte anos de poemas guardados

Existe uma espécie de silêncio antes de todo livro.

No caso de Terramar, esse silêncio durou mais de duas décadas.

Ele continuou escrevendo, acumulando poemas e mantendo a esperança de um dia publicar uma obra. O problema não era a falta de material. Era a dificuldade financeira.

“Hoje em dia, publicar um livro não é barato e, sem o fomento cultural governamental, torna-se ainda mais difícil o primeiro lançamento para um jovem sem proventos”, explica.

Foi por meio da Lei Paulo Gustavo, instituída pela Lei Complementar nº 195/2022, que esse sonho conseguiu se tornar realidade.

Terramar selecionou parte dos poemas que vinha guardando desde os 16 anos e reuniu esse material em seu primeiro livro.

Assim nasceu Declaração de um Piegas.

O lançamento representa a passagem de uma produção que durante anos permaneceu guardada para uma obra que agora pode encontrar leitores.

E Terramar já pensa nos próximos passos.

“Espero que outros livros venham por aí...”

Um “piegas” assumido

O título do livro não tenta esconder a dimensão sentimental da escrita de Terramar.

Pelo contrário.

Declaração de um Piegas assume o romantismo confesso do eu lírico e a sensibilidade sentimentalista ou exagerada que o próprio título anuncia.

Os poemas reúnem experiências individuais, reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

Há amor.

Há memória.

Há saudade.

Há infância.

Há território.

E há uma maneira muito particular de assumir os sentimentos sem tentar diminuí-los.

O “piegas”, nesse caso, não parece funcionar como pedido de desculpas pela sensibilidade. É uma declaração.

O Vale escrito por quem precisou partir

Entre os poemas reunidos no livro, Terramar escolheria apenas um para apresentar o Jequitinhonha a alguém que nunca esteve na região.

O escolhido é “Vale do Jequitinhonha”, publicado na página 42 de Declaração de um Piegas.

A escolha não é casual.

O poema reúne algumas das imagens que atravessam sua trajetória: saudade, pertencimento, rio, terra, cultura e resistência.

Ele começa com a ausência:

“Saudade que sinto

Do meu lugar...”

Depois, a lembrança se transforma em declaração de amor à terra onde nasceu:

“O orgulho que carrego em mim,

Por este chão de tanta paixão,

Explode no meu coração.”

O rio aparece como elemento que banha cidades e também como caminho de memória:

“Com água e poesia,

Vai tornando tudo magia.”

E então surge uma afirmação que sintetiza a maneira como o poeta deseja representar sua região:

“O Vale não é da pobreza,

Mas sim da beleza!”

Mais adiante, beleza e resistência aparecem lado a lado:

“Mas também de resistência,

Deste povo simples e lutador.”

No poema de Terramar, o Vale é feito de barro, reza, canção, rio, memória, amor e resistência.

É o território visto por alguém que nasceu nele, precisou se afastar e continuou carregando-o consigo.

Mais que escrever, fazer circular

A relação de Terramar com a cultura não termina na publicação do livro.

Sua trajetória também passa pela atuação como agente cultural e pela participação em iniciativas voltadas à literatura, à memória e às manifestações culturais do Vale.

Em 2007, venceu a primeira Noite Literária de Santo Antônio do Jacinto.

Em 2021, recebeu o prêmio literário do VII Encontro de Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, com o poema Ser Poeta.

Em 2024, produziu o documentário Folia de São Sebastião da Comunidade Serra Alta, voltado para a memória, a religiosidade e as tradições da comunidade.

Quando fala sobre a literatura produzida atualmente no Vale do Jequitinhonha, Terramar volta a uma questão que conhece de perto: a dificuldade econômica enfrentada por escritores iniciantes.

Para ele, a falta de fomento para a publicação de livros dificulta a descoberta de novos artistas na literatura. Ele também chama atenção para outro obstáculo: nem todos conseguem acessar os recursos disponíveis, seja pela falta de informação, seja pela complexidade dos editais e pela necessidade de conhecimento técnico para participar dos processos de seleção.

Nesse cenário, destaca a importância do movimento de poetas e escritores do Vale do Jequitinhonha para a troca de saberes e o fortalecimento da cultura local.

Entre as possibilidades que enxerga para o movimento está a criação de coletâneas por meio do próprio coletivo.

Porque, para Terramar, fortalecer a literatura regional também passa por criar caminhos para que os escritores possam publicar, circular e ser conhecidos.

Dentro e fora do Vale.

Um livro que começou antes de existir

Há algo curioso na trajetória de Declaração de um Piegas.

Embora tenha sido publicado apenas agora, ele começou a ser escrito muito antes de existir como livro.

Começou aos 16 anos.

Passou pela adolescência.

Atravessou a saída do Vale.

Chegou à vida universitária.

Conheceu a distância.

Encontrou a saudade.

Voltou para a infância.

Guardou cartas de amor, inquietações, reflexões, dúvidas, sonhos e experiências.

Esperou.

Até que uma parte desse acervo encontrasse uma forma de chegar ao mundo.

Por isso, o livro reúne mais do que poemas escritos em momentos diferentes. Reúne também diferentes momentos de quem os escreveu.

O adolescente que descobria a poesia.

O jovem que questionava a vida.

O estudante que deixou sua terra.

O homem que encontrou na escrita uma maneira de lidar com a saudade.

E o agente cultural que continua olhando para o território de onde veio.

Entre a terra e o mar

Terramar conta que seu nome carrega os quatro elementos naturais clássicos. Terra e mar estão explícitos. O ar e o fogo completariam a existência. E o sobrenome Luz acrescentaria mais uma camada.

Ele também relaciona essa combinação ao seu signo, Sagitário, que associa à liberdade e à aventura.

Mais do que uma curiosidade sobre o nome, porém, existe nele uma história que Terramar reconhece como parte de sua identidade.

“Mais tarde, compreendi que a poesia, de fato, já existia em mim desde o meu nascimento.”

Talvez seja por isso que ele tenha transformado a própria chegada ao mundo em poema.

Em Quando Eu Nasci, escreve:

“Quando eu nasci,

Minha mãe me dizia

Que estava em estado de poesia.”

E, quase no final, retorna àquela ideia que parece atravessar toda a sua trajetória:

“Mais que um filho,

Um poeta ali nascia.”

A poesia que começou como experiência íntima ganhou o território como companhia.

A saudade ganhou versos.

A memória ganhou páginas.

E o Vale ganhou uma voz entre tantas outras que ajudam a contar sua história.

A poesia como lugar de retorno

Talvez seja essa uma das imagens mais fortes deixadas pela trajetória de Terramar Alves Luz.

Sair.

Sentir falta.

Lembrar.

Escrever.

E voltar por meio das palavras.

Declaração de um Piegas nasce desse percurso.

É uma coletânea de poemas escritos ao longo de mais de duas décadas, mas também é o resultado de uma relação contínua com as experiências, os afetos, as memórias e o território.

O menino que nasceu em Almenara tornou-se poeta.

O jovem que começou a escrever aos 16 anos guardou seus poemas.

O estudante que deixou o Vale encontrou na poesia uma maneira de lidar com a distância.

O agente cultural passou a atuar também na preservação e valorização da cultura de sua região.

E, em 2026, o que durante tantos anos esteve guardado ganhou finalmente um livro.

Talvez o próprio nome ajude a contar essa história.

Terra, como origem.

Mar, como movimento.

Luz, como parte do nome que o acompanha desde o nascimento.

Entre eles, existe um poeta.

Ou, nas palavras que Terramar escolheu para sua própria biografia:

“Não sou Alegre nem Triste sou Poeta.”

E talvez seja justamente aí que essa história encontre seu ponto final.

Ou, quem sabe, apenas o primeiro verso de uma nova página.

 

A poesia, essa velha companheira de quem insiste em lembrar, continua encontrando novas maneiras de permanecer.


Por



 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Palhaço


 

Soaram as trombetas.

Brilhava o circo com suas luzes multicores.

As arquibancadas estavam superlotadas para grande espetáculo. Verdadeiro entusiasmo empolgava a multidão. Dentro de alguns minutos variam em pessoa o incomparável "Farrú", o palhaço estupendo que encarna-va o demônio e se transformava em um santo.

Enquanto o povo vibrava ansioso para o momento das incontroláveis gargalhadas, Farrú velava o corpo da esposa amada.

Num modesto quarto de pensão chorava ele... chorava desesperado, ao lado da que dormia para não mais acordar.

Enterrado numa velha poltrona traspassado pela dor, deixou a imaginação confusa volver ao passado:

"Aconteceu há dois anos. Trabalhava com o Gran Circo Dois Mundos. Era um guapo rapaz de vinte e três anos; bonitão, elegante e querido demais. Percorria o sul do país.

Caminhando despreocupado postara-se um dia à porta de uma igreja. Sentindo-se atraído pela quietude da. quele ambiente, ali penetrou e ajoelhando-se diante da Imagem da Virgem, disse-lhe numa prece:

Senhora, a vida é boa. Tenho tudo o que desejo, todos me querem bem mas falta-me algo para a felicidade completa...

Subitamente sentiu um suave perfume ao seu lado. Também ajoelhada, fitando piedosamente a Santa Imagem estava uma jovem elegante, uma beleza divinal. Parecia toda luz.

Tentara em vão desviar os olhos da encantadora criatura, que ruborizou-se no vé-lo, Fitando-o, também ficou perturbada...

Saindo de mansinho esperou-a la fora e falou-lhe Bruscamente:

Perdoa me senhorita, mas eu estou atordoado. Creia-me, jamais fui atingido por um sentimento tão forte. Você iluminou minha vida, Debalde tentarei prosseguir sozinho. Diga-me seu nome, se aceita-me e o que me é dado realizar para merecer o seu amor. Buscarei a lua e as estrelas. Desafiarei o universo inteiro. Vencerei o demônio e tornar-me-ei um santo...

Presa de emoção, respondeu-lhe a jovem:

Márcia é o nome que recebi no batismo. Não sei porque, você parece diferente de toda a gente que conheço...

Tomando-a pelas mãos suplicara-lhe:

Corramos a seus pais e recebamos as bênçãos do Senhor.

Loucura! Meu pai é rico e mau. Quer forçar-me a desposar um velho devasso, alto funcionário público.

Caminharam pelo parque deserto. Trocaram beijos devoradores nos quais se sentia a fusão das próprias almas.

Fugiram no dia seguinte.

Viveram plenamente a vida, alheios aos preconceitos. Entregaram-se ao mais puro amor. Três meses depois, já bem distante, casaram-se.

Retornou ao circo. Jamais existiu maior felicidade.

-Morte impiedosa, porque  arrancaste de mim que a amo tanto?...

Bateram à porta.

Era o diretor do circo com outras pessoas. Farrú em prantos recebeu as condolências.

Amigo, disse-lhe o diretor - precisamos de ti por um momento. Compreendemos e sentimos a tua dor, mas o público exige tua presença.

-Como posso eu?... perguntou entrecortando as palavras.  não é por ti nem por mim, atalhou o diretor. É pelo povo que te ama... é pelo povo que te aclama. Sa-crifica-te, não mates a ilusão de milhares que te esperam. Iremos nós, tu e eu. Ficam os amigos com a pobre Márcia.

De longe ouviam-se os gritos da multidão ansiosa.

Soaram novamente as trombetas.

Silêncio...

A banda de música entoou a tradicional marcha, anunciando a entrada do "Palhaço".

Agora já podiam ver o fabuloso "Farrú" em carne e osso.

Andava devagar. Cabisbaixo. Com as pernas trêmulas, mudo, enxugava os olhos. Chorava.

Todos os presentes retumbaram o circo com palmas, vivas e gargalhadas. Nunca se apresentara tão cômico... O espetáculo atingia o clímax.

Chegou ao centro e parou. Olhando triste a imensa plateia falou com voz comovida:

"Obrigado amigos. Pode a alma sofrer mas o corpo está em forma".

Deu uma gargalhada e caiu...

O "corpo em forma" jazia inanimado, enquanto a "alma sofredora" voou feliz para a Bem-Amada.


Conto do livro “ Caminhos Estranhos” da escritora de Virgem da Lapa, Carmelina Murta Glória.



terça-feira, 15 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Último Apito do Trem

Imagens da Internet - Melhoradas digitalmente

A poeira vermelha do Jequitinhonha grudava no suor do rosto de Seu Juca como uma segunda pele. Ele tinha uns oitenta anos, mas guardava na memória o dia exato em que o metal da Estrada de Ferro Bahia-Minas cortou a calmaria daquela terra pela primeira vez. Era 1940 e alguma coisa, o tempo em que o "Trem " era o coração pulsante do sertão.

Para Seu Juca, a locomotiva não era apenas uma máquina de ferro e carvão; era um bicho vivo que trazia o mundo para dentro do vale. Quando o apito ecoava pelas gargantas das serras, a cidade inteira corria para a estação. Eram sacas de café, caixas de ferramentas, cartas de amor que vinham de longe e, sobretudo, gente. Gente que partia em busca de um destino e gente que voltava com histórias maiores do que a própria vida.

Naquela manhã de 1966, porém, o clima na plataforma era de velório, o vapor que saía da caldeira parecia o suspiro final de um gigante cansado. Cartas oficiais já haviam decretado a sentença: a ferrovia daria lugar ao asfalto, aos caminhões, ao "progresso" que vinha emborcado em pneus de borracha.

— Vai acabar tudo, Seu Juca — murmurou o jovem maquinista, enxugando as mãos graxentas em um estopa rasgada. — Dizem que o trem é coisa do passado.

Enquanto esperavam a ordem de partida, alguém de um dos vagões de passageiros começou a dedilhar um violão desafinado. A voz fina e chorosa de um rapaz jovem cortou o silêncio pesado da plataforma, cantando versos que pareciam nascer do próprio ferro enferrujado:

Ponta de Areia / Ponto de partida... O trem azul / Ferrovia Bahia-Minas / Santa Clara, Araçuaí...

— O progresso que desfaz o que une a gente não é progresso, meu filho. É desmantelo — murmurou, enquanto a música continuava baixinho, embalando o choro contido de uma senhora na janela.

As palavras pairaram no ar abafado, para quem morava ali, ouvir aqueles nomes cantados em tom de despedida era como ver a própria certidão de nascimento ser lida em voz alta. Ponta de Areia, palmeiras, o cais, o vento do mar que nunca chegava a ver o mar de verdade, mas trazia a promessa dele.

Seu Juca sentiu um nó na garganta. Olhou para os trilhos que sumiam no horizonte, serpenteando o verde seco e o vermelho do chão. Pensou nas comunidades que nasceram à beira da linha, nos comércios que prosperaram ao som das rodas batendo nos dormentes.

A campainha bateu pela última vez. O maquinista puxou a alavanca com uma lentidão dolorosa. A velha "Baiminas" arrancou, soltando baforadas densas de fumaça preta que pareciam carregar o luto de toda uma região. Seu Juca acompanhou o comboio com os olhos até que o último vagão sumisse na curva, engolido pela imensidão do sertão, enquanto o eco do violão ia morrendo na distância: “Tem que chegar / No trem da Bahia...”

Anos depois, os trilhos foram arrancados, vendidos como ferro velho, e o mato tomou conta do leito por onde antes corria o sangue daquela gente. Mas, nas noites de vento forte, quando o silêncio desaba sobre o vale, os mais antigos ainda juram que escutam, bem ao longe, o eco metálico daquela velha locomotiva, lembrando ao mundo o dia em que o sertão esteve, de verdade, ligado ao mar.

 

Jô Pinto

Em uma tarde quente de setembro na terra das Águas Brancas.

 

 

Obs: A Música "Ponta de Areia" foi lançada no ano de 1975, Álbum: Minas, o sétimo álbum de estúdio da carreira de Milton Nascimento. A letra de Fernando Brant foi inspirada pela história e pela desativação da ferrovia Bahia-Minas (a Baiminas). A música foi citada no texto para dar emoção a crônica.

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com a escritora Deyse Magalhães


 

Mais tarde, sua trajetória seguiria por caminhos diversos. Graduou-se em Filosofia pela PUC Minas e passou a atuar como produtora cultural, agente cultural, pesquisadora popular, escritora e cronista, mantendo como eixo de seu trabalho a memória e a cultura do Jequitinhonha.

É membro fundadora da Associação dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha e da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha -ALVA, onde ocupa a Cadeira nº 12.

Mas talvez sua relação com a cultura possa ser compreendida por uma frase simples que aparece em sua própria fala:

“Eu vivo dentro desse ambiente.”

Uma cidade que carrega muitas histórias

Para compreender a escrita de Deyse, é preciso compreender também o lugar de onde ela vem.

Minas Novas aparece em seu relato como uma cidade de forte tradição cultural, marcada por festas religiosas, música, manifestações populares, vida política, produção intelectual e uma arquitetura que guarda parte de sua história.

É também uma cidade que mudou.

Deyse observa essas transformações a partir de uma memória construída na infância. Fala dos casarões que foram derrubados, das construções modernas que passaram a ocupar seus lugares e de uma forma de viver que, aos poucos, foi desaparecendo.

Ela se lembra de um tempo em que as pessoas se sentavam nas portas das casas, nas janelas ou nos bancos das praças. Um tempo de conversas demoradas, de histórias contadas oralmente e de uma convivência mais próxima.

Hoje, segundo ela, a relação com a cidade é outra.

A cultura de massa ocupa espaços cada vez maiores e as novas tecnologias modificaram também a maneira como as pessoas se relacionam com as histórias.

“Hoje as pessoas estão ligadas mais ao celular e não têm paciência de ouvir tantas histórias.”

É justamente nesse ponto que sua escrita ganha outra dimensão.

Deyse não escreve somente para recordar.

Ela escreve porque sabe que o que existe hoje também poderá desaparecer amanhã.

Janelas azuis: quando a arquitetura vira memória

Em 2024, Deyse publicou Janelas Azuis, livro de poemas que estabelece uma relação direta com Minas Novas.

O título nasce de uma característica presente na arquitetura da cidade: as janelas azuis que aparecem em antigas casas, sobrados, igrejas e também em construções da zona rural.

Mas, para a escritora, essas janelas são muito mais do que elementos arquitetônicos.

Elas são portas para a memória.

“Nessas janelas azuis vêm lembranças de todos os sentidos”, conta. São lembranças da infância, da escola, das festas e das pessoas.

Por isso, Deyse define as janelas como uma espécie de passagem para a memória afetiva.

“Essas janelas azuis são poemas que remetem à memória afetiva.”

A cidade, nesse sentido, não é apenas cenário de sua poesia. É matéria da própria poesia.

A cidade de pau a pique

A relação entre literatura e território continua em Cidade de Pau a Pique, publicado em 2025.

Novamente, a arquitetura aparece como elemento de memória. O pau a pique, presente em construções históricas de Minas Novas, torna-se também uma maneira de olhar para a cidade e para seu passado.

Deyse não procura afastar sua literatura do cotidiano.

Ao contrário, transforma aquilo que está próximo em matéria literária: uma janela, uma rua, um rio, uma festa, uma casa, uma lembrança.

Sua escrita parece partir da ideia de que aquilo que é aparentemente simples pode carregar uma história enorme.

O rio que existe na memória

Entre todas as imagens presentes em sua literatura, o rio Fanado ocupa um lugar especial.

Existe o Fanado da infância e existe o Fanado que Deyse encontra hoje.

A comparação entre os dois provoca nela uma espécie de tristeza.

Ela lembra dos rios e córregos de águas limpas e cristalinas de sua infância e observa as transformações que ocorreram ao longo do tempo.

É uma lembrança que deixa de ser apenas individual.

Ao escrever sobre o rio, Deyse registra também uma paisagem em transformação.

E surge uma pergunta que atravessa sua escrita: o que restará dessas paisagens daqui a 50 ou 100 anos?

A pergunta não é apenas sobre o rio.

É sobre a própria cidade.

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu?”

Talvez a resposta mais reveladora da entrevista esteja justamente na maneira como Deyse imagina o leitor do futuro.

Ela gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e perguntasse:

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como que era a cidade que ela enxergou nesse tempo? Como eram as brincadeiras? Como eram as roupas? Como era a cultura daquele tempo?”

É aí que a literatura se aproxima do documento.

Deyse escreve pensando que o presente também será memória.

Ela gostaria que seus livros pudessem contar às gerações futuras como era viver em Minas Novas no seu tempo. Que pudessem revelar os costumes, as brincadeiras, as roupas, os lugares, os rios, a tranquilidade das ruas e as formas de convivência que talvez não existem mais.

Há, nessa perspectiva, uma preocupação com aquilo que ela própria sentiu falta ao procurar escritoras de Minas Novas de outras épocas.

“Uma das dificuldades que eu vejo é eu querendo ler algum escritor da minha cidade, de preferência escritora, que eu sei que existiram muitas e que a gente não tem nada para ver e nem saber de que elas falavam.”

Deyse parece querer deixar para o futuro aquilo que não encontrou quando olhou para o passado.

A escritora também é pesquisadora

Essa preocupação com a memória aparece de maneira ainda mais evidente em seu trabalho mais recente.

Vida entre Pincéis, que chega agora ao público, representa uma mudança de caminho em relação aos livros anteriores. Depois da poesia, Deyse mergulha no livro de memórias.

Foram seis anos de pesquisa sobre a trajetória de Genesco Murta, artista plástico nascido em Minas Novas, que viveu posteriormente em Itinga e cuja trajetória, segundo a pesquisadora, permanece pouco conhecida no próprio Vale do Jequitinhonha.

Deyse conta que encontrou na trajetória de Genesco a história de um artista que saiu de uma realidade rural e chegou a espaços importantes da arte, tendo estudado na França.

A pesquisa levou seis anos.

O resultado é um livro que, mais uma vez, nasce de uma inquietação: a necessidade de recuperar uma memória que poderia permanecer esquecida.

Com Vida entre Pincéis, Deyse deixa a poesia em segundo plano para entrar no território da memória biográfica e da pesquisa.

É como se os gêneros mudassem, mas a preocupação permanecesse a mesma.

Registrar antes que seja tarde.

Uma cultura que precisa ser contada

Quando fala sobre a cultura de Minas Novas, Deyse demonstra uma preocupação que ultrapassa sua própria produção.

Ela acredita que muitas histórias ainda precisam ser levantadas e registradas.

Fala do artesanato, das festas religiosas, das folias, das manifestações quilombolas, das bandas, das marujadas e do Congado. Lembra também personagens ligados à política, à educação, à vida religiosa, à medicina e a outros campos da história da cidade.

Para ela, existe uma quantidade enorme de conhecimento ainda espalhado pela memória das pessoas.

O problema é que nem tudo está registrado.

A Festa do Divino Espírito Santo, por exemplo, é citada por Deyse como uma manifestação com mais de dois séculos de existência que, apesar de sua importância, não possui o mesmo tipo de registro institucional encontrado em outras tradições da cidade.

Na sua visão, é preciso pesquisar, documentar e contar.

“Tem coisa demais que precisa ser levantada.”

A frase resume uma inquietação que aparece repetidamente em sua fala.

Cultura popular também precisa de investimento

A preocupação de Deyse não é apenas com o registro da cultura. É também com sua sobrevivência.

Ela observa que artistas, escritores, músicos, dançarinos e produtores culturais frequentemente precisam buscar recursos para conseguir realizar seus trabalhos.

“As pessoas que escrevem precisam de alguém pra estar ali patrocinando, precisa passar o pires.”

Para ela, existe também uma dificuldade cultural mais profunda: a sociedade foi pouco educada para consumir e valorizar a cultura popular.

Grandes eventos de cultura de massa encontram público e recursos com facilidade, enquanto manifestações locais, livros, pesquisas e trabalhos de memória muitas vezes enfrentam dificuldades para se sustentar.

Sua preocupação, portanto, não é com a cultura apenas como lembrança.

É com a cultura como prática viva.

As histórias que ainda esperam para ser contadas

Talvez um dos aspectos mais bonitos da trajetória de Deyse seja perceber que, mesmo depois de tantos livros, pesquisas e anos de atuação cultural, ela não considera sua tarefa concluída.

Pelo contrário.

Quando perguntada sobre o que ainda gostaria de escrever, começa a listar histórias.

O artesanato de Minas Novas. Os pioneiros. Os políticos. As pessoas que marcaram a vida eclesiástica. Os moradores que participaram de guerras e revoluções. A educação. As festas. As folias. As comunidades quilombolas. As bandas. O Congado. A gastronomia.

E então aparecem as quitandas e os quitutes.

Receitas que, segundo ela, carregam mais de dois séculos de existência.

É como se Minas Novas, para Deyse, fosse uma biblioteca ainda parcialmente sem catalogação.

Há histórias nas casas.

Nos rios.

Nas festas.

Nas cozinhas.

Nas igrejas.

Nas ruas.

Nas lembranças dos mais velhos.

E também nas pessoas.

Escrever contra o esquecimento

Deyse Magalhães saiu de Minas Novas, vive há décadas em Belo Horizonte, mas sua literatura continua voltada para o lugar onde sua história começou.

Sua cidade natal aparece nos títulos dos livros, nas paisagens, nos personagens, nos rios e nas lembranças.

Mas talvez apareça principalmente como uma pergunta.

O que permanecerá?

O que será esquecido?

Quem contará as histórias das pessoas que viveram antes de nós?

Quem registrará as festas, as receitas, as brincadeiras, as roupas, os rios, as casas e as conversas nas portas?

Deyse encontrou uma resposta possível na escrita.

Escrever.

Pesquisar.

Registrar.

Contar.

Talvez por isso sua literatura não seja apenas uma literatura sobre o passado. É também uma literatura sobre o futuro.

Um dia, alguém poderá abrir Janelas Azuis, Cidade de Pau a Pique ou Vida entre Pincéis e tentar descobrir como era Minas Novas no tempo em que Deyse viveu.

E talvez encontre ali aquilo que ela própria gostaria de encontrar nos livros das escritoras que vieram antes dela: uma cidade vista por dentro, através dos olhos de quem a viveu.

Uma cidade que mudou, mas que continua existindo nas palavras.

Uma cidade que ela levou consigo.

Ou, como sua própria escrita parece demonstrar, uma cidade que encontrou nela uma maneira de permanecer.

Talvez seja justamente aí que esteja a força da escrita de Deyse Magalhães; ela não escreve apenas sobre o que passou, escreve também para que o presente não passe despercebido.

Ao ouvi-la falar sobre Minas Novas, sobre as festas, as casas, os rios, as pessoas, os sabores, os artistas e tantas histórias que ainda precisam ser registradas, fica evidente que sua literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.

Deyse gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e se perguntasse: “O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como era a cidade que ela enxergava naquele tempo?”

Talvez esta matéria faça parte dessa resposta.

Porque registrar uma história é também dizer que ela importa. É guardar no papel aquilo que poderia desaparecer na pressa do tempo. E, no caso de Minas Novas, há ainda muitas histórias esperando por alguém que se sente, escute e escreva.

Enquanto algumas janelas azuis continuam abertas para a memória, enquanto o Fanado ainda corre, mesmo transformado pelos anos, e enquanto alguém se dispuser a ouvir os mais velhos, registrar suas palavras e contar suas histórias, Minas Novas continuará encontrando maneiras de permanecer.

Deyse saiu de sua cidade, mas nunca deixou de escrevê-la, e talvez essa seja uma das formas mais bonitas de pertencimento: levar um lugar consigo e, através das palavras, devolvê-lo ao mundo.

E daqui a cinquenta anos, quando alguém perguntar como era Minas Novas em nosso tempo, quais histórias teremos deixado para responder?

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