quinta-feira, 8 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - A Cidade do Sol: um romance que ilumina as sombras da realidade feminina no Afeganistão

 

Se você está em busca de uma leitura intensa, profunda e transformadora, prepare-se para mergulhar nas páginas de A Cidade do Sol (A Thousand Splendid Suns), publicado em 2007 pelo renomado escritor afegão Khaled Hosseini.

Enquanto seu primeiro grande sucesso, O Caçador de Pipas, focou na amizade masculina e no peso da culpa, esta obra ilumina com maestria a cruel e sombria realidade das mulheres no Afeganistão. Vencedor do prêmio Indies Choice Book Award, o livro transforma estatísticas de guerra em rostos humanos, dores reais e pura resiliência.
Duas Gerações, Duas Histórias, Um Mesmo Destino

A narrativa atravessa mais de três décadas da história afegã, desde a década de 1970, passando pela invasão soviética, a violenta guerra civil dos anos 1990 até o domínio sufocante do regime Talibã. É em meio a esse cenário devastador que acompanhamos duas protagonistas inesquecíveis:

Mariam: Considerada uma harami (filha bastarda), cresceu isolada em uma cabana (kolba) com sua mãe amargurada. Rejeitada pela sociedade, aprendeu desde cedo a dura lição materna: "o dedo acusador da sociedade aponta sempre para as mulheres". Aos 15 anos, após uma tragédia familiar, é forçada a se casar com Rasheed, um sapateiro de Cabul trinta anos mais velho, agressivo e frustrado.

Laila: Nascida uma geração depois, é filha de um professor liberal que acredita no poder transformador da educação. Laila cresce em Cabul, estuda, é cercada de amor e apaixona-se por seu amigo de infância, Tariq. Porém, as bombas da guerra civil destroem sua família, seus sonhos e seu futuro.

Grávida, ferida e sozinha no mundo, Laila é acolhida por Rasheed e vê-se obrigada a aceitar tornar-se sua segunda esposa para proteger a vida do filho que carrega. É nesse ambiente de opressão e violência doméstica que as trajetórias de Mariam e Laila se cruzam.

 A Frase que Resumiu o Destino de Laila

Se há uma citação que define a mensagem essencial da infância de Laila e o pensamento visionário de seu pai, é esta:

"O casamento pode esperar; a educação, não. Você é uma menina inteligentíssima... Vai poder ser o que quiser, Laila. E também sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de você tanto quanto dos seus homens, talvez até mais. Porque uma sociedade não tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres não forem instruídas, Laila. Nenhuma chance."

 Sororidade e Resistência: Os Temas Centrais

O grande trunfo de A Cidade do Sol é atuar como um verdadeiro documento social disfarçado de ficção, tocando em feridas abertas:

A Opressão Doméstica e Institucionalizada: Hosseini escancara o significado de viver sob as leis extremistas do Talibã. As mulheres perdem o direito de estudar, trabalhar, rir em público ou andar desacompanhadas na rua. Dentro de casa, o sofrimento continua sob o controle físico e psicológico de um casamento abusivo.

Sororidade como Sobrevivência: O relacionamento entre Mariam e Laila começa com hostilidade e ciúmes, alimentados pela manipulação de Rasheed. Contudo, a dor compartilhada transforma essa rivalidade em uma das amizades mais bonitas e leais da literatura. Elas tornam-se o escudo e a força uma da outra.

A Metáfora dos Suspiros: Logo no início, a mãe de Mariam ensina que "cada floco de neve é o suspiro de uma mulher magoada em algum lugar do mundo". Essa poesia dolorosa ecoa por toda a leitura, mostrando como a dor feminina no Afeganistão é silenciosa, porém constante.

 O Estilo Inconfundível de Khaled Hosseini

A escrita de Hosseini é ágil, fluida, crua e extremamente visual. Ele não poupa o leitor do sofrimento e das ruínas materiais e emocionais de Cabul, mas equilibra essa crueza com momentos de extrema sensibilidade e afeto.

Ao folhear as páginas, você não encontrará príncipes encantados ou finais de fadas perfeitos. Trata-se de uma narrativa real que, embora retrate uma cultura distante, desperta uma empatia universal. É uma leitura densa que frequentemente provoca lágrimas, mas que prende o leitor pelo desejo urgente de saber se aquelas duas mulheres encontrarão a liberdade.

 A Cidade do Sol é muito mais do que um romance histórico; é um manifesto sobre a dignidade humana, o sacrifício e a força inabalável do espírito feminino diante do horror.

Ao terminar o livro, o título ganha um significado totalmente novo: a "cidade do sol" não é apenas Cabul sob a luz do dia, mas a esperança e o amor que essas mulheres carregam dentro de si, mesmo nas noites mais escuras.

Mesmo com o passar dos anos e o recente retorno do Talibã ao poder, a obra continua assustadoramente atual e urgente. Ler esta história é um convite a valorizar a nossa liberdade, praticar a empatia e escutar vozes que o mundo insiste em calar.

E ao fechar a última página, é impossível não se fazer a pergunta final: quantas Mariams e Lailas ainda vivem em silêncio pelo mundo hoje?

 

BOA LEITURA!


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Boneca, o sonho da artesã

Imagem internet

 

No chão árido de Santana do Araçuaí, comunidade pertencente ao município de Itinga, o tempo corria devagar, embalado pelo vento seco do sertão mineiro. Ali nasceu Izabel, em 1924, trazendo nos olhos a curiosidade de quem parecia ver o mundo antes mesmo de ele se desenhar.

Desde pequena, os passos da menina seguiam os rastros da mãe, Idalina Maria de Jesus, uma mulher de mãos calejadas que transformava a barro cinzento em potes, panelas e pratos indispensáveis à vida da roça. Izabel olhava em silêncio. Cada gesto da mãe ao apertar o barro era guardado em seu peito como um segredo sagrado.

Mas o ofício tinha dono e o recurso, dono e preço. Na fazenda onde viviam, o barro era ouro raro. O pai precisava marchar até a propriedade vizinha para trazer um punhado daquela terra fértil, que vinha racionada para a louça utilitária. Para a menina Izabel, restava apenas a imaginação. Ela criava suas fantasias colando retalhos de pano em sabugos de milho, dando vida a personagens invisíveis que habitavam seu universo de menina humilde. Ela ouvia falar em bonecas de verdade nas histórias que vagavam pelo vento, mas nunca tinha visto uma.

Foi escondida, no recanto onde os adultos não olhavam, que Izabel ousou tocar na terra proibida. Com dedos ágeis e leves, roubou um pouco de barro guardado e começou a moldar. Não fez panelas. Fez o seu próprio sonho.

Inspirada na forma arredondada de uma moringa, sua imaginação rompeu os limites do utilitário. A primeira imagem que lhe saltou aos olhos da alma foi a de uma mãe com o filho no colo, um retrato vivo do afeto que a impressionava e a acolhia. Depois, os dedos inquietos modelaram noivas de vestidos brancos longos e armados, pura miragem de beleza que ela tanto admirava e que parecia pertencer a um mundo distante.

Quando o sol começava a se deitar e a lenha estalava para acender o grande forno da família, lá vinha a menina coragem, com suas pequenas peças esculpidas às escondidas. A princípio, o sobressalto da mãe. Mas, ao ver a perfeição ingênua daquelas figuras de barro cru, a dureza se desfazia em brasa mansa. Idalina abria espaço no fogo e queimava as bonecas junto com os potes de sempre.

O que começou como um segredo de infância nos sulcos do sertão não coube nas cercas do Jequitinhonha. O barro que assou no forno humilde ganhou o mundo, viajou oceanos, encantou galerias e consagrou Mestra Izabel para a eternidade. Mas, para quem olhava bem de perto, cada boneca de cerâmica ainda guardava a mesma menina de Santana do Araçuaí, colando retalhos de esperança num tempo em que sonhar era o único ofício permitido.


 Crônica criada por Jô Pinto, a partir da história de vida da artesã Izabel Mendes. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A cultura popular no palco


 

No mês de setembro, Itinga e Araçuaí receberam a estreia do espetáculo infantil Turma da Feliciana, inspirado no projeto de Educação Patrimonial Arte de Viver, do idealizador José Claudionor dos Santos Pinto. A iniciativa, que já está em sua quarta fase, integra o Programa de Educação e Difusão para o Patrimônio Cultural e tem se destacado pelo uso de histórias em quadrinhos (HQs) como recurso pedagógico nas escolas da rede municipal. O material tem alcançado principalmente o público infantil, despertando curiosidade e encantamento.

A nova proposta nasceu da inspiração da educadora Ângela Freire, que apresentou o projeto ao edital da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais ( Edital 08/2024 - Desenvolvimento de Projeto). A ideia de adaptar o conteúdo para o teatro foi prontamente abraçada pelo Grupo Teatral Itinguense e Grupo Vozes de Araçuaí. Nos diálogos que antecederam a montagem, ficou clara a necessidade de criar uma ponte entre HQs, teatro infantil e patrimônio imaterial, formando um ecossistema educativo rico, lúdico e interativo. Sob a direção cênica de Allef Heberton dos Santos Murta, coube a tarefa de aproximar essas linguagens artísticas e dar vida ao espetáculo.

O uso dessas expressões artísticas, associado à preservação da identidade cultural, estimula desde cedo valores como empatia, oralidade e sentimento de pertencimento. Afinal, para preservar o patrimônio cultural de uma cidade, é preciso conhecê-lo, vivenciá-lo e aproximar-se de forma significativa dos contextos locais.

O espetáculo trouxe três narrativas do universo da cultura popular do Vale do Jequitinhonha para o palco. Essa escolha reforça como a oralidade se reinventa nos tempos atuais: se antes as histórias eram transmitidas pelos griôs em rodas de conversa, hoje o teatro assume esse papel, contando de forma lúdica e envolvente episódios marcantes da região. Entre os destaques estão: Escrava Feliciana, personagem que simboliza resistência e memória histórica. Luciana Teixeira, figura feminina que representa força e identidade cultural. Rio Jequitinhonha, elemento vital para a vida, a economia e a cultura da região.

Ao reunir essas histórias, o espetáculo reafirma o papel do teatro como guardião da memória coletiva e como ferramenta pedagógica capaz de aproximar crianças e jovens de suas raízes culturais.



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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Onde o sonho criou raiz: a estreia literária de Thaisa Martins


 

Com 110 páginas e reunindo dez contos, a obra foi lançada em 22 de agosto de 2026, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), Campus Araçuaí, e também teve seu lançamento durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale, aproximando a nova publicação de leitores e leitoras e do movimento literário e cultural da região.

Mas, antes de existir o livro, existiam os cadernos.

Entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando tinha entre 8 e 11 anos, Thaisa criava histórias nos chamados “cadernos de redação”. Durante as férias escolares, ela e a irmã, lízian Martins ainda faziam comemorações em torno das experiências registradas nesses cadernos.

Naquele momento, ela não imaginava que aquelas histórias poderiam, décadas depois, transformar-se em um livro.

Hoje, olhando para trás, a autora reconhece naqueles cadernos as primeiras sementes de Onde o sonho criou raiz.

O tempo passou. Sua formação escolar, acadêmica e profissional foi conduzindo sua escrita para caminhos mais metódicos, e aquele universo imaginativo da infância acabou ficando distante.

Mas não desapareceu.

O reencontro com a literatura

O reencontro com a literatura começou a ganhar força em 2019, a partir da idealização de um dos clubes do projeto Leia Mulheres, em Araçuaí.

Vieram as oficinas de escrita literária, o contato com obras de autoras da região, a participação em eventos literários e a aproximação com o Movimento de Poetas e Escritores/as do Vale do Jequitinhonha.

Ao mesmo tempo, Thaisa ingressava no doutorado e aprofundava sua pesquisa sobre as escrevivências de mulheres negras.

Foi nesse cruzamento entre literatura, pesquisa, experiências coletivas e reconhecimento de si como mulher negra e escritora que o antigo desejo de publicar um livro começou a ganhar forma.

É desse encontro entre passado e presente que nasce Onde o sonho criou raiz.

Quando o sonho cria raiz

O título da obra carrega justamente essa relação entre a menina que escrevia e a mulher que, anos depois, voltou a se reconhecer como escritora.

Para Thaisa, o “sonho” representa o desejo antigo de escrever. A “raiz” se relaciona à ancestralidade, à memória e às pessoas que vieram antes dela.

As avós aparecem como referências importantes tanto no livro quanto em sua trajetória de pesquisa.

Por isso, quando a autora afirma que o sonho criou raiz, está falando também da possibilidade de aproximar duas versões de si mesma: a Thaisa criança e a Thaisa pesquisadora.

É um encontro entre o antes e o agora.

Dez contos, muitas histórias de mulheres

A obra reúne dez contos e apresenta ao leitor uma galeria de personagens femininas.

São mães, filhas, avós, irmãs, amantes e mulheres atravessadas por diferentes experiências, afetos, conflitos, desejos e dilemas.

Mas há uma característica importante nessa construção: nem sempre o leitor encontrará finais previsíveis.

No prefácio, escrito por Hérica Silva, os finais dos contos aparecem como possibilidades que podem ser felizes, inesperadas ou mesmo difíceis. E talvez seja justamente aí que a literatura de Thaisa encontre uma de suas características marcantes: não oferecer necessariamente aquilo que o leitor espera.

As histórias caminham entre o cotidiano, a memória e aquilo que muitas vezes permanece sem ser dito.

Que memórias permanecem na voz de uma avó?

O que acontece quando uma dor atravessa gerações?

Quantas histórias de mulheres permanecem escondidas porque nunca encontraram espaço para ser contadas?

São perguntas que podem acompanhar o leitor durante a leitura, sem revelar antecipadamente os enredos.

Um “grito ancestral”

Ainda se tratando da contribuição da Hérica Silva no prefácio,  ela utiliza uma expressão que chama atenção: “um grito ancestral”.

A expressão nasce de uma das histórias do livro, mas também pode ajudar a compreender o conjunto da obra.

A escrita reúne vozes femininas, memórias e experiências atravessadas por diferentes realidades sociais. Há delicadeza, mas também existem silêncios, perdas, conflitos e dores.

É uma escrita que permite que aquilo que ficou guardado encontre uma possibilidade de expressão.

Quando escrever também é viver

A trajetória de Thaisa Martins ajuda a compreender a importância da literatura em sua obra.

Sua participação no Leia Mulheres de Araçuaí, do qual foi uma das fundadoras na cidade e onde atua na coordenação, aproximou-a ainda mais da produção literária de autoria feminina.

O projeto promove encontros em torno de livros escritos por mulheres e tornou-se parte importante de seu reencontro com o universo literário.

Paralelamente, sua trajetória acadêmica levou-a a pesquisar mulheres negras e violência.

Em 2025, Thaisa concluiu o doutorado com a tese Erguendo a voz: um ensaio sobre o enfrentamento à violência através das escrevivências de mulheres negras.

É nesse percurso que aparece um conceito fundamental para compreender sua escrita: a escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo.

A escrevivência estabelece uma relação profunda entre escrita, experiência, memória e vida, especialmente a partir das experiências de mulheres negras.

Em Onde o sonho criou raiz, esse conceito atravessa a maneira como Thaisa olha para a literatura e para as personagens que constrói.

Entre a pesquisadora e a menina dos cadernos

Talvez uma das imagens mais bonitas para compreender o livro seja justamente o encontro entre essas duas Thaisas.

De um lado, a menina que criava histórias nos cadernos.

Do outro, a mulher que se tornou pesquisadora, doutora, leitora, integrante de um coletivo literário e agora escritora publicada.

O livro nasce desse encontro.

A própria autora reconhece que algumas escolhas de linguagem presentes nos contos não estão necessariamente submetidas à escrita acadêmica ou à chamada norma culta padrão.

A literatura permite experimentar, criar ritmos, aproximar-se da oralidade e encontrar outras maneiras de contar.

É como se a menina dos cadernos finalmente pudesse conversar com a pesquisadora.

E dessa conversa nasceu o livro.

Uma escritora do Vale

O lançamento em Araçuaí também situa a obra no território onde parte importante da trajetória literária da autora foi construída.

O Vale do Jequitinhonha possui uma produção cultural marcada por diferentes formas de expressão, e a literatura também faz parte desse cenário.

Thaisa Martins integra esse movimento por meio de sua atuação no Leia Mulheres de Araçuaí, de sua aproximação com escritores e escritoras da região e agora com a publicação de seu primeiro livro.

O lançamento de Onde o sonho criou raiz em Araçuaí e sua apresentação durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale colocam a obra em circulação entre leitores e leitoras do próprio território.

Para quem fica a dica?

Se você gosta de contos, literatura escrita por mulheres, histórias atravessadas por memória e ancestralidade, ou quer conhecer novas vozes da literatura produzida no Vale do Jequitinhonha, Onde o sonho criou raiz pode entrar na sua lista de leituras.

São dez histórias, mas muitas possibilidades de leitura.

Algumas podem provocar identificação. Outras podem causar desconforto. Algumas podem fazer o leitor lembrar de alguém. Outras talvez deixem uma pergunta que continua presente depois da última página.

E é isso que uma boa leitura faz: continua conversando com a gente mesmo depois que o livro é fechado.

A história por trás da história

Para conhecer um pouco mais sobre o caminho que levou Thaisa Martins dos cadernos da infância à publicação de seu primeiro livro, conversei com a autora sobre três aspectos fundamentais de sua trajetória: a origem do desejo de escrever, o significado do título e a presença da escrevivência em sua produção literária.

Nas respostas, Thaisa fala da menina que escrevia entre 1998 e 2001, do reencontro com a literatura a partir do Leia Mulheres, de sua pesquisa acadêmica e da descoberta de si mesma como mulher negra e escritora.

Ela também fala sobre suas avós, ancestralidade, resistência e sobre o compromisso de abordar questões de raça, gênero e classe sem abrir mão da imaginação e da leveza que acompanham o ato de criar histórias.

No fundo, suas respostas confirmam aquilo que o título já anuncia:

o sonho não ficou para trás. Ele criou raiz.


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terça-feira, 29 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Pote de ouro

Seu Eugênio era um homem de uma única paixão: o brilho do ouro e o peso frio das moedas, em vida, não gastava um centavo com luxos, nem mesmo com o básico. Vivia em uma casa caindo aos pedaços, comia o pão mais duro e vestia trapos esfarrapados. Para ele, cada moeda poupada era uma vitória contra a miséria que tanto temia, embora a verdadeira miséria estivesse instalada em sua própria alma. O seu maior tesouro, um pesado pote de barro recheado de reluzentes peças de ouro, estava enterrado sob as raízes de uma velha mangueira, nos fundos do quintal.

Quando a morte o levou de repente, sem tempo para confissões ou arrependimentos, o seu espírito recusou-se a partir. Preso à terra pelo forte laço da ganância, vagava pela propriedade como uma sombra fria e lamuriosa.

Certa noite, o espírito de Seu Eugênio apareceu para o velho Cipriano, o seu fiel e mal pago empregado, que continuava a cuidar do sítio abandonado. Com a voz cavernosa e o rosto pálido como a lua, o fantasma ordenou: Cipriano, meu bom rapaz... Minha alma não tem descanso porque o ouro está preso à terra, vá até a velha mangueira, cave fundo e desenterre o meu pote. Mas preste bem atenção: só podes retirá-lo depois da meia-noite, se fores antes, perderás tudo.

Cipriano, tomado de um misto de pavor e da esperança de finalmente mudar de vida, aceitou a incumbência.

Quando os ponteiros do relógio da igreja marcaram exatamente meia-noite, Cipriano,  já estava de pé, armado com uma enxada e uma lanterna a óleo. O vento soprava uivante, balançando os galhos da mangueira como braços fantasmagóricos. O coração do empregado batia descompassado no peito.

Assim que cravou a primeira pásada na terra seca, as assombrações começaram, a temperatura despencou drasticamente, fazendo sua respiração virar fumaça; uivos estridentes ecoaram por entre as árvores, como se dezenas de almas penadas estivessem sofrendo ao seu redor. De repente, a lanterna piscou e quase se apagou.

Cipriano olhou para o chão e viu a terra começar a se mexer sozinha. Formas disformes e escuras ergueram-se do solo, sussurrando maldições em seus ouvidos, tentando fazê-lo largar a ferramenta. Risadas sádicas ecoavam na escuridão e pedras invisíveis começaram a chover ao seu redor. O medo era paralisante, o suor frio escorria por sua testa, mas a lembrança do ouro o empurrava para a frente.

Com um grito de coragem, Cipriano deu a última enxadada. A lâmina bateu com um som metálico estridente!

Ele havia achado, e com as mãos trêmulas e usando apenas os dedos para raspar a terra, Cipriano puxou para fora um pote de barro pesado e empoeirado.

Ofegante, com o coração quase saltando pela boca e as visões desaparecendo com os primeiros raios de luz da madrugada que se aproximavam, sentou-se na grama e retirou a tampa de madeira do pote. Ele fechou os olhos, sorriu aliviado e imaginou a fortuna que estava prestes a ver.

Mas, ao olhar para o interior do pote, o sorriso congelou em seu rosto.

Não havia ouro. O pote estava completamente cheio de cinzas cinzentas e ossos humanos triturados, os restos mortais da própria família de Seu Eugênio, que ele havia deixado morrer de fome e abandono décadas atrás, trocando a vida deles por moedas que nunca existiram de verdade.

Enquanto Cipriano recuava, horrorizado e sufocado pelo cheiro fétido de sepultura, o espírito de Seu Eugênio materializou-se diante dele. O velho não trazia o semblante de um fantasma assustador, mas sim um sorriso desfigurado e sutil, banhado em lágrimas de pura loucura.

— O ouro nunca importou, Cipriano... sibilou a voz espectral, ecoando direto na mente do empregado. — Eu não guardava riquezas. Eu guardava o meu próprio inferno. E agora... você abriu a tampa. O tesouro passou a ser seu.

No segundo seguinte, o pote dissolveu-se em fumaça, que penetrou violentamente pela boca e pelos olhos de Cipriano. O empregado caiu de joelhos, gritando em agonia, enquanto sentia a própria ganância e o peso dos pecados de Eugênio corromperem sua alma para toda a eternidade. Quando o sol finalmente nasceu, já não era mais o mesmo; era apenas mais uma sombra silenciosa e vazia, condenada a guardar o nada e sua ganância sob a velha mangueira.

 

Por: Jô Pinto


Este conto é muito comum em cidades do Vale do Jequitinhonha. Fiz esta adaptação a partir dos relatos do canoeiro Tionil, de Itinga, em uma das muitas conversas que tive com ele.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Uma prosa com o poeta Terramar Luz


 

Terramar nasceu em estado de poesia

Entre a terra de onde veio e os caminhos que o levaram para longe, o poeta do Vale do Jequitinhonha transforma memória, saudade, amor e pertencimento em literatura

Há pessoas que recebem um nome.

E há pessoas que parecem receber, junto com o nome, uma história.

Quando Terramar Alves Luz nasceu, em 10 de dezembro de 1988, sua mãe dizia estar em “estado de poesia”. O pai, que, segundo ele, tinha ideias hippies, chegou a mudar o nome que havia sido pensado para homenagear os avós: José, pelo lado paterno, e Othávio, pelo lado materno.

O menino acabou sendo Terramar.

Terra e mar.

E, no sobrenome, Luz.

Talvez seja apenas uma coincidência. Ou talvez algumas histórias comecem muito antes de percebermos que já estão sendo escritas.

Terramar nasceu em Almenara, no Vale do Jequitinhonha, e reside em Santo Antônio do Jacinto. Bacharel em Direito pela PUC Minas, é escritor, poeta, ativista e agente cultural. Desde a juventude, participa e ajuda a organizar eventos voltados à cultura e à literatura.

Aos 16 anos, começou a escrever poesia.

Passaram-se os anos.

Vieram a adolescência, as cartas de amor, as inquietações, a faculdade, a distância de casa, a saudade, os poemas guardados e uma vida inteira acontecendo entre um verso e outro.

Somente em agosto de 2026, depois de mais de duas décadas escrevendo, Terramar publicou seu primeiro livro, Declaração de um Piegas, pela Arejo Editorial.

Mas a história desse livro começa muito antes.

Antes do livro, havia a distância

Existe um momento importante na trajetória de Terramar que ajuda a compreender a poesia que viria depois: a saída do Vale para estudar Direito na PUC Minas, em Contagem.

Longe de casa, aquilo que antes fazia parte da paisagem cotidiana começou a aparecer de outra maneira. A terra passou a ser lembrança. A infância ganhou contornos de memória. As pessoas, os lugares e as experiências vividas no Vale do Jequitinhonha passaram a existir também dentro dele.

A distância não apagou o território.

Trouxe-o de volta em forma de poesia.

“Os poemas tornaram-se uma espécie de remédio para a alma”, conta.

É uma frase que ajuda a compreender Declaração de um Piegas. A poesia, para Terramar, foi se transformando ao longo da própria vida. Primeiro, vieram os poemas românticos e as cartinhas de amor da adolescência, durante um processo de autodescoberta.

Depois, surgiu uma escrita mais rebelde, marcada pelas indagações da vida e por poemas de cunho mais social.

Mais tarde, já maduro, veio a saudade da terra.

E foi nesse movimento de afastamento e lembrança que o Vale do Jequitinhonha ganhou ainda mais espaço em sua escrita.

Segundo Terramar, os poemas passaram a funcionar como um resgate das lembranças da infância e também como uma defesa do território que considera rico em cultura e resistência.

Do amor adolescente à memória de uma terra

A poesia de Terramar não nasceu pronta.

Ela foi mudando junto com ele.

O próprio livro acompanha esse percurso. Declaração de um Piegas é uma coletânea de poemas organizada em três capítulos: cidade, infância e amor.

São experiências diferentes, reunidas por uma escrita marcada por reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

“Para muitos poetas, a primeira linguagem seja o amor”, afirma.

No caso de Terramar, essa primeira linguagem apareceu nos poemas românticos e nas cartinhas de amor da adolescência. Com o tempo, porém, a escrita ganhou outras preocupações.

Vieram as perguntas sobre a vida.

Vieram os poemas de cunho social.

E veio também a necessidade de reencontrar, pela palavra, aquilo que havia ficado para trás.

A infância.

A terra.

A memória.

O Vale.

Vinte anos de poemas guardados

Existe uma espécie de silêncio antes de todo livro.

No caso de Terramar, esse silêncio durou mais de duas décadas.

Ele continuou escrevendo, acumulando poemas e mantendo a esperança de um dia publicar uma obra. O problema não era a falta de material. Era a dificuldade financeira.

“Hoje em dia, publicar um livro não é barato e, sem o fomento cultural governamental, torna-se ainda mais difícil o primeiro lançamento para um jovem sem proventos”, explica.

Foi por meio da Lei Paulo Gustavo, instituída pela Lei Complementar nº 195/2022, que esse sonho conseguiu se tornar realidade.

Terramar selecionou parte dos poemas que vinha guardando desde os 16 anos e reuniu esse material em seu primeiro livro.

Assim nasceu Declaração de um Piegas.

O lançamento representa a passagem de uma produção que durante anos permaneceu guardada para uma obra que agora pode encontrar leitores.

E Terramar já pensa nos próximos passos.

“Espero que outros livros venham por aí...”

Um “piegas” assumido

O título do livro não tenta esconder a dimensão sentimental da escrita de Terramar.

Pelo contrário.

Declaração de um Piegas assume o romantismo confesso do eu lírico e a sensibilidade sentimentalista ou exagerada que o próprio título anuncia.

Os poemas reúnem experiências individuais, reflexões, dúvidas, sonhos e vivências.

Há amor.

Há memória.

Há saudade.

Há infância.

Há território.

E há uma maneira muito particular de assumir os sentimentos sem tentar diminuí-los.

O “piegas”, nesse caso, não parece funcionar como pedido de desculpas pela sensibilidade. É uma declaração.

O Vale escrito por quem precisou partir

Entre os poemas reunidos no livro, Terramar escolheria apenas um para apresentar o Jequitinhonha a alguém que nunca esteve na região.

O escolhido é “Vale do Jequitinhonha”, publicado na página 42 de Declaração de um Piegas.

A escolha não é casual.

O poema reúne algumas das imagens que atravessam sua trajetória: saudade, pertencimento, rio, terra, cultura e resistência.

Ele começa com a ausência:

“Saudade que sinto

Do meu lugar...”

Depois, a lembrança se transforma em declaração de amor à terra onde nasceu:

“O orgulho que carrego em mim,

Por este chão de tanta paixão,

Explode no meu coração.”

O rio aparece como elemento que banha cidades e também como caminho de memória:

“Com água e poesia,

Vai tornando tudo magia.”

E então surge uma afirmação que sintetiza a maneira como o poeta deseja representar sua região:

“O Vale não é da pobreza,

Mas sim da beleza!”

Mais adiante, beleza e resistência aparecem lado a lado:

“Mas também de resistência,

Deste povo simples e lutador.”

No poema de Terramar, o Vale é feito de barro, reza, canção, rio, memória, amor e resistência.

É o território visto por alguém que nasceu nele, precisou se afastar e continuou carregando-o consigo.

Mais que escrever, fazer circular

A relação de Terramar com a cultura não termina na publicação do livro.

Sua trajetória também passa pela atuação como agente cultural e pela participação em iniciativas voltadas à literatura, à memória e às manifestações culturais do Vale.

Em 2007, venceu a primeira Noite Literária de Santo Antônio do Jacinto.

Em 2021, recebeu o prêmio literário do VII Encontro de Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, com o poema Ser Poeta.

Em 2024, produziu o documentário Folia de São Sebastião da Comunidade Serra Alta, voltado para a memória, a religiosidade e as tradições da comunidade.

Quando fala sobre a literatura produzida atualmente no Vale do Jequitinhonha, Terramar volta a uma questão que conhece de perto: a dificuldade econômica enfrentada por escritores iniciantes.

Para ele, a falta de fomento para a publicação de livros dificulta a descoberta de novos artistas na literatura. Ele também chama atenção para outro obstáculo: nem todos conseguem acessar os recursos disponíveis, seja pela falta de informação, seja pela complexidade dos editais e pela necessidade de conhecimento técnico para participar dos processos de seleção.

Nesse cenário, destaca a importância do movimento de poetas e escritores do Vale do Jequitinhonha para a troca de saberes e o fortalecimento da cultura local.

Entre as possibilidades que enxerga para o movimento está a criação de coletâneas por meio do próprio coletivo.

Porque, para Terramar, fortalecer a literatura regional também passa por criar caminhos para que os escritores possam publicar, circular e ser conhecidos.

Dentro e fora do Vale.

Um livro que começou antes de existir

Há algo curioso na trajetória de Declaração de um Piegas.

Embora tenha sido publicado apenas agora, ele começou a ser escrito muito antes de existir como livro.

Começou aos 16 anos.

Passou pela adolescência.

Atravessou a saída do Vale.

Chegou à vida universitária.

Conheceu a distância.

Encontrou a saudade.

Voltou para a infância.

Guardou cartas de amor, inquietações, reflexões, dúvidas, sonhos e experiências.

Esperou.

Até que uma parte desse acervo encontrasse uma forma de chegar ao mundo.

Por isso, o livro reúne mais do que poemas escritos em momentos diferentes. Reúne também diferentes momentos de quem os escreveu.

O adolescente que descobria a poesia.

O jovem que questionava a vida.

O estudante que deixou sua terra.

O homem que encontrou na escrita uma maneira de lidar com a saudade.

E o agente cultural que continua olhando para o território de onde veio.

Entre a terra e o mar

Terramar conta que seu nome carrega os quatro elementos naturais clássicos. Terra e mar estão explícitos. O ar e o fogo completariam a existência. E o sobrenome Luz acrescentaria mais uma camada.

Ele também relaciona essa combinação ao seu signo, Sagitário, que associa à liberdade e à aventura.

Mais do que uma curiosidade sobre o nome, porém, existe nele uma história que Terramar reconhece como parte de sua identidade.

“Mais tarde, compreendi que a poesia, de fato, já existia em mim desde o meu nascimento.”

Talvez seja por isso que ele tenha transformado a própria chegada ao mundo em poema.

Em Quando Eu Nasci, escreve:

“Quando eu nasci,

Minha mãe me dizia

Que estava em estado de poesia.”

E, quase no final, retorna àquela ideia que parece atravessar toda a sua trajetória:

“Mais que um filho,

Um poeta ali nascia.”

A poesia que começou como experiência íntima ganhou o território como companhia.

A saudade ganhou versos.

A memória ganhou páginas.

E o Vale ganhou uma voz entre tantas outras que ajudam a contar sua história.

A poesia como lugar de retorno

Talvez seja essa uma das imagens mais fortes deixadas pela trajetória de Terramar Alves Luz.

Sair.

Sentir falta.

Lembrar.

Escrever.

E voltar por meio das palavras.

Declaração de um Piegas nasce desse percurso.

É uma coletânea de poemas escritos ao longo de mais de duas décadas, mas também é o resultado de uma relação contínua com as experiências, os afetos, as memórias e o território.

O menino que nasceu em Almenara tornou-se poeta.

O jovem que começou a escrever aos 16 anos guardou seus poemas.

O estudante que deixou o Vale encontrou na poesia uma maneira de lidar com a distância.

O agente cultural passou a atuar também na preservação e valorização da cultura de sua região.

E, em 2026, o que durante tantos anos esteve guardado ganhou finalmente um livro.

Talvez o próprio nome ajude a contar essa história.

Terra, como origem.

Mar, como movimento.

Luz, como parte do nome que o acompanha desde o nascimento.

Entre eles, existe um poeta.

Ou, nas palavras que Terramar escolheu para sua própria biografia:

“Não sou Alegre nem Triste sou Poeta.”

E talvez seja justamente aí que essa história encontre seu ponto final.

Ou, quem sabe, apenas o primeiro verso de uma nova página.

 

A poesia, essa velha companheira de quem insiste em lembrar, continua encontrando novas maneiras de permanecer.


Por



 

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