sábado, 30 de maio de 2026

GIRO PELO VALE - Joaíma e o Vale do Jequitinhonha de Luto, o poeta da Aldeia " Zé Miranda " nos deixou


 

José Carlos Miranda Murta, Zé Miranda, nasceu em Joaíma, vale do Jequitinhonha e desde muito cedo se interessou pelas aulas de português na escola. Em 1984, por intermédio do amigo músico, compositor e poeta Rubens Espíndola fez sua iniciação FESTIVALESCA na cidade de Araçuaí participando do seu 1º FESTIVALE, onde teve a oportunidade de conhecer alguns poetas do Vale, que se tornaram seu espelho na literatura. Daquele ano em diante passou a ser um seguidor e perseguidor do evento e participou de várias oficinas, principalmente as de literatura que o FESTIVALE oferecia....aproveitou e degustou os momentos literários com Rozane Moreira e se embrenhou nos sonhos poéticos de João Evangelista até  Escrever seu 1º livro O VERSO E O INVERSO em 1999...e de lá pra cá já são 06 livros publicados... CASA DE VERSOS, 2002 CAMINHOS DI-versos, 2011 ALDEIA DE VERSOS, 2015 ALDEIA DE VERSOS II ( a saga continua), 2017 e por último TRILOGIA DA ALDEIA em 2019... onde Zé Miranda faz uma miscelânea de “causos” de suas gentes e seus fazeres e afazeres pitorescos da aldeia JOAÍMA. Lugar que ele insiste em alinhavar na lembrança dos seus irmãos e conterrâneos, contando as suas histórias e ou situações do cotidiano de cada um, respeitando sempre a veracidade dos fatos... e não pensa em parar com esse vício bom, no de ano de 2023, foi eleito para a ALVA -Academia de letras do Vale do Jequitinhonha, onde ocupa a cadeira de Nº 36, tendo como patrono o saudoso cantor, compositor e poeta Eustáquio Senna da vizinha cidade de Jequitinhonha, também era Membro do Movimentos dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha.

No Festivale de Pedra Azul no ano de 2002. A  Composição “ Cecilia “ de sua autoria com Rubens Espíndola, ganhou como melhor interprete, interpretada por  Ester Higino.

Vai na Paz meu amigo

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CONHECENDO O JEQUI - Muro de Pedra em Rubelita

Imagens da Internet

 

O Muro de Pedra, localizado no distrito quilombola de Lava Roupa, município de Rubelita/MG, é um marco histórico fundamental do Vale do Jequitinhonha. Esta estrutura não é apenas uma divisória física, mas um monumento à memória e à resiliência das populações escravizadas que, durante o período colonial, foram forçadas a moldar a paisagem da região.

Durante o Brasil Colônia, a ocupação das terras no interior de Minas Gerais estava profundamente ligada à mineração e à exploração agropecuária. Os muros de pedra, construídos manualmente com a técnica de "pedra seca" (sem o uso de argamassa), eram onipresentes nas propriedades coloniais, sua existência respondia a necessidades práticas e estratégicas dos senhores de terra. Em uma época de vastas sesmarias, os muros serviam para marcar territórios, garantir a posse de terras e separar áreas de pastagem de terrenos de cultivo.

A construção dessas estruturas era uma tarefa extenuante imposta às pessoas escravizadas. O trabalho manual de carregar, talhar e sobrepor pedras sob o sol escaldante do Jequitinhonha fazia parte do cotidiano de subjugação, sendo um exemplo da infraestrutura colonial erguida inteiramente pelo esforço braçal negro, mas também além da função agrícola, esses muros facilitavam o controle dos escravizados, dificultando fugas e organizando a circulação dentro das fazendas.

Hoje, o Muro de Pedra em Lava Roupa transcende sua função original de propriedade. Ele é interpretado pelas comunidades locais como um testemunho da força humana. Apesar de terem sido erguidos sob o chicote e a opressão, os muros sobreviveram ao tempo e à tentativa de apagamento histórico.

Preservar essas estruturas é reconhecer a ancestralidade africana na formação do Vale do Jequitinhonha. Elas permanecem como um lembrete físico de que as comunidades atuais são herdeiras de um povo que, mesmo sob as condições mais brutais, deixou marcas na terra, transformando o trabalho forçado em um símbolo de identidade, tradição e resistência cultural que, séculos depois, continua a definir a identidade do povo mineiro

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre e Ciências Humanas



quinta-feira, 28 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Leituras reflexivas sobre a oralidade


 

A dica de leitura reflexiva da semana não é só uma sugestão de texto. É um convite para desacelerar e olhar com mais atenção para algo talvez simples e, ao mesmo tempo, urgente: a forma como um povo mantém viva a sua própria história.

O Vale do Jequitinhonha não entra aqui como cenário. Entra como voz. Como território que fala por meio da palavra dita, do causo contado na porta de casa, da poesia que nasce do cotidiano duro e bonito ao mesmo tempo, dos cantos que atravessam gerações sem precisar de permissão pra existir. É cultura que não depende só do livro pra ser literatura, ela já acontece antes da página. Só que existe um ponto delicado nisso tudo: o que fica só na oralidade corre risco de desaparecer não porque perde valor, mas porque perde registro, e quando isso acontece, não é só uma história que some, mas, é um pedaço inteiro de memória coletiva que deixa de atravessar o tempo. A próxima geração não perde apenas narrativas, perde também o caminho de volta pra entender quem é.

Nesse sentido, como apontam estudos sobre memória coletiva no Vale do Jequitinhonha, os causos e narrativas orais funcionam como espaço de valorização das relações culturais e da memória social (Carvalho; Cambraia; Paes, 2019). Esses relatos operam como um verdadeiro arquivo cultural vivo, registrando modos de vida e saberes que não se separam da comunidade Poletto (2025). A literatura do Vale não é menor, não é periférica, não é “simples”: ela é identidade em estado bruto. A poesia regional e a cultura popular local atuam como forma de resistência simbólica, permitindo que vozes do território sejam inscritas para além dos discursos oficiais (Machado, 2022; Antunes, 2000).

Deste modo, preservar não é um gesto romântico, é uma necessidade histórica. O que não é registrado vai sendo silenciado aos poucos até virar ausência. Por isso, escrever aqui não é só um ato estético; é um ato de permanência. Cada vez que alguém transforma um causo em conto, uma lembrança em texto, uma fala em poesia, está impedindo o esquecimento.

E não se trata apenas de grandes autores ou obras consolidadas. Trata-se de abrir espaço para todos que carregam suas experiências de vida e suas memórias: jovens, professores, trabalhadores, comunidades inteiras. Valorizar essa produção é parar de enxergar o território apenas pelas faltas e começar a reconhecê-lo pela abundância cultural que sempre existiu ali. Entender que um causo contado na cozinha já é literatura. Que uma história lembrada no fim da tarde já é patrimônio. No fim, preservar a literatura do Vale do Jequitinhonha não é guardar o passado como algo parado. É garantir que ele continue em movimento. Que ele siga falando. Que ele não seja interrompido. Porque quando um território perde suas palavras, ele não fica em silêncio. Ele fica incompleto.

 

 

Referências

ANTUNES, C. (2000). Movimentos do Vale: corpo e narrativa. Revista Em Tese, UFMG.

CARVALHO, M. A.; CAMBRAIA, R. P.; PAES, S. R. (2019). Trabalho e natureza nas representações sociais dos contos e causos. Extensão Rural, UFSM. https://periodicos.ufsm.br/extensaorural/article/view/35173

MACHADO, T. (2022). A produção poética do Vale do Jequitinhonha. Revista Synthesis, FAPAM. https://periodicos.fapam.edu.br/index.php/synthesis/article/view/589

POLETTO, C. (2025). Variação linguística em narrativas orais no Vale do Jequitinhonha. Dissertação de Mestrado, UFMG. https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/81951


Por



 

 

 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Literatura Negra: Vozes que Reescrevem a Nossa História


 

A literatura negra não é apenas um gênero literário; é um ato de resistência, um resgate de memórias silenciadas e uma ferramenta fundamental para a construção de uma identidade coletiva. Durante séculos, o cânone literário tradicional foi construído sob uma ótica eurocêntrica, negando a vivência, a subjetividade e a intelectualidade de autores e autoras negros à margem, ou pior, à invisibilidade absoluta.

A invisibilidade de vozes negras no mercado editorial e nas prateleiras das bibliotecas não foi um acidente, mas um projeto de apagamento cultural. Durante muito tempo, a história do Brasil e do mundo foi contada por quem detinha o poder da escrita, ignorando que o povo negro sempre foi protagonista de suas próprias narrativas. Quando autores negros eram publicados, muitas vezes suas obras eram reduzidas a estereótipos ou limitadas a temas de subalternidade, negando-lhes a humanidade e a complexidade que compõem a totalidade da experiência humana.

Felizmente, essa barreira tem sido rompida com vigor, o cenário literário contemporâneo conta com vozes poderosas que não apenas se destacam pela qualidade estética de suas obras, mas por denunciarem as estruturas de poder e celebrarem a ancestralidade.

Nomes como Conceição Evaristo, com sua "escrevivência", transformam o cotidiano em arte política. Bem como Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro, Maria Firmina dos Reis, que é Considerada a primeira romancista negra do Brasil. Cruz e Sousa, Conhecido como "O Cisne Negro", foi o principal poeta do Simbolismo no Brasil, como tantos outros, sem falar em  Machado de Assis, que embora tenha sido alvo de um processo de embranquecimento histórico, é hoje lido sob uma lente que reconhece a profunda crítica social e racial presente em seus escritos. Além deles, autores como Itamar Vieira Junior, Ana Maria Gonçalves e Jeferson Tenório têm trazido à tona questões urgentes sobre o trauma da escravidão, o racismo estrutural e o cotidiano nas periferias, provando que a literatura negra é vital para a compreensão da nossa nação.

Assim com todo país, a invisibilidade da literatura negra no Vale do Jequitinhonha é um fenômeno complexo, enraizado em disparidades históricas, socioeconômicas e em uma tradição que, muitas vezes, não compreende que a oralidade e as artes plásticas são também formas de expressões literárias .

O Vale do Jequitinhonha possui uma das expressões culturais mais vibrantes do Brasil, profundamente ligada a comunidades quilombolas e tradições afro-brasileiras. No entanto, o sistema literário tradicional tende a valorizar apenas o livro impresso e o cânone acadêmico, sem entender que  muitos dos pensamento, da história e da ancestralidade negra do Vale é preservado por meio de cantos, rezas, congadas, folias e contação de histórias. Essa forma de literatura oral é, frequentemente, deslegitimada ou ignorada pelos circuitos literários convencionais, nosso artesanato é uma Narrativa literária, a cerâmica de figurões e bonecas do Vale é uma forma de escrita visual e narrativa, no entanto, essa produção artística é muitas vezes "exotizada" como artesanato folclórico, separando-a da "literatura" e impedindo que o sujeito negro do Vale seja reconhecido como um autor/intelectual com voz própria.

Apesar dessa invisibilidade, há um movimento crescente de visibilização. Projetos de mapeamento das comunidades quilombolas,  tradições e fazedores de cultura têm buscado registrar a história e a memória dessas comunidades. Esse trabalho é um ato político,  ao tirar a história do negro do Vale do "invisível", ele transforma o território em um espaço de produção de saber e não apenas de exploração.

A literatura negra do Vale, portanto, está em processo de transição, e um dos exemplos mais emblemático  é Adão Ventura (1946–2004). Nascido em Santo Antônio do Itambé, no Vale do Jequitinhonha, ele é uma das vozes mais importantes da poesia negra brasileira, e que serviu de inspiração para uma geração, os novos autores e autoras, como: Ana Nice , Herena Barcelos, Claudio Bento,Thaisa Martins, Allef Heberton, Antonio Carmona, Iaurea Marques Amanda Veiga, Herica Silva, Jô Pinto e tantos outros que estão saindo das margens para se afirmar como uma voz necessária para entender a própria formação da identidade brasileira.

Dentro desse movimento de valorização e redescoberta da escrita negra, o projeto “Escrita Negra, descobrindo novos escritores” desenvolvido pelo quilombola, professor, historiador e pesquisador Jô Pinto, vem ocupando um lugar de visibilidade.

O trabalho de Jô Pinto vai além da análise acadêmica; trata-se de um esforço de curadoria e arqueologia literária. Ao mapear, difundir e fomentar a produção de autores e autoras negros, o projeto Escrita Negra atua como um elo entre o passado e o presente, garantindo que novos leitores tenham acesso a uma produção intelectual que foi intencionalmente escondida.

A proposta busca dá voz a autores que, de outra forma, permaneceriam no anonimato, bem como fornece subsídios para que escolas e universidades possam diversificar seus currículos com base em fontes sólidas e histórico-culturais, além do empoderamento ao verem a si mesmos representados na literatura, leitores negros encontram espelhamento, validação e inspiração para suas próprias trajetórias.

A literatura negra é a espinha dorsal que sustenta a verdade sobre quem somos. Ler autores negros é um exercício de ética, de empatia e de justiça histórica. Propostas e ações de valorização da literatura negra são fundamentais para que essa literatura saia dos nichos e ocupe o centro do debate público. Afinal, uma sociedade só pode se considerar verdadeiramente democrática quando todas as suas vozes, especialmente aquelas que foram silenciadas por tanto tempo, têm o direito de escrever a sua própria história.

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas

terça-feira, 26 de maio de 2026

Contos e Crônicas do Jequi - A lenda do Acaba - Mundo


 

Pode-se dizer que foi no Rio Jequitinhonha que se descobriu o diamante. Ao mesmo tempo, foram suas auríferas as quais contribuíram para abarrotar as arcas portuguesas.
Muitas são as serras: Serra do Batuque, Serra do Isidoro, Serra do Portão de Ferro, que ora se aproximando, ora se distanciando da cidade de Diamantina, circundam esse rio e formam seus vales, que tamanha atração exerceram sobre os aventureiros do passado. Mas nenhuma dessas serras garimpeiras têm histórias tão espantosas como a do Acaba-Mundo, no vale do cafundó, distante de Diamantina cerca de vinte quilômetros, na direção do Pico do Itambé.
Nesse local, chamado Poção do Moreira, o Rio Jequitinhonha corre espremido entre rochedos; seu leito é constituído de grandes blocos de pedra a que os garimpeiros dão o nome de emburrado.

Em 1768, João Fernandes de Oliveira, Antônio dos Santos Pinto e Domingos de Bastos Viana tinham arrematado o Quinto Contrato de diamantes e deram início a uma grande garimpagem. Mas o rio era caudaloso e para garimpar-se em seu leito tornou-se necessário secá-lo.Para secar o leito de um rio, os garimpeiros, a exemplo de seus antepassados, usavam três maneiras diferentes: cavavam um canal paralelo ao rio, é o mesmo cercado e as águas passam a correr no leito do canal; quando a natureza arenosa da margem do rio não permite tal providência, constroem os garimpeiros um aterro no sentido longitudinal da correnteza, obrigando o rio a recuar para uma das suas margens, ficando seu antigo leito, pelo menos em dois terços, seco e pronto para ser lavrado; finalmente, quando o rio corre entre os rochedos altos e abruptos, como no caso em questão, a única solução de que dispõem os garimpeiros é a construção de um bicame.

Então, os garimpeiros construíram um enorme bicame de madeira, isto é, um vasto cocho de tábuas que fica suspenso vários metros acima do leito do rio. Assim, as águas encurraladas deixam o álveo e passam a correr pelo citado bicame, permitindo que se lavre e se faça a cateação do cascalho.

Um bicame de mais de cem metros de comprimento por alguns metros de largura, todo construído de madeira, foi levantado naquele trecho da serra. Apoiado em andaime de troncos de madeiras e pedras, a enorme bica erguia-se bem alto sobre o abismo, no fundo do qual, rolavam as águas do Jequitinhonha.

Enquanto alguns escravos se ocupavam em mover as rústicas bombas para enxugar de todo o leito do rio desviado, outros negros em número de duzentos ou mais, assim como garimpeiros assalariados, trabalhavam lá embaixo, tendo sobre as cabeças o Jequitinhonha precariamente canalizado.

Certa vez, uma das juntas do bicame começou a vedar água. O administrador chamou o carapina e ordenou-lhe que subisse na caranguejola a fim de remediar o perigoso vazamento. Segundo se deduz, o artífice estava bêbado. Viu uma cunha solta, ergueu quanto pode o pesado martelo e desferiu o golpe. Mas errou. E foi tal a violência, que todo o bicame arriou fragorosamente sobre o rio seco e cascalhado onde, arcados quase nus, trabalhavam os homens. Conta-se que cerca de vinte negros morreram soterrados ou afogados nessa espantosa catástrofe.

Hoje, decorridos tantos anos, ainda ecoa na imaginação da gente simples da região, o clamor e os lamentos de tantos homens sacrificados nos garimpos do Acaba - Mundo. Ao passarem por aqueles lugares, os trabalhadores das lavras, particularmente os negros, benzem-se e não raro murmuram entre os dentes:  Te esconjuro, Acaba-Mundo!

Quando os trabalhos de garimpo eram difíceis e o diamante demorava a aparecer no fundo da bateia ou das peneiras, a proteção das almas vítimas do Acaba-Mundo era pedida pelos garimpeiros. Na vizinhança da Mata dos Crioulos, que outrora era esconderijo dos negros fugidos das Senzalas, existe uma bela cachoeira do Jequitinhonha Preto.

O som de suas águas, que despencam de uma grande altura a ponto de produzir uma neblina perene, é levado a longas distâncias pelo vento, através dos garimpos. Não raro, em pleno dia, um lavrador de cascalho abandona a sua bateia ou o seu jogo de peneiras e volta correndo para o rancho. É o som da queda d` água que tem o nome de Cachoeira do Encantado. Se lhe perguntam porque fugiu, responde que aquele cantochão nada mais é que o queixume dos negros mortos, há séculos, na tragédia do Acaba-Mundo.  'É o sinal de que seus espíritos estão correndo as lavras. Quem teimar em cavar e lavar o cascalho mesmo que encontre um diamante, e o dando, se encanta e desaparece!'


Conto retirado do sitio -  https://contosdediamantina.webnode.pt/news/a-lenda-do-acaba-mundo/

quinta-feira, 21 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura: Dissertação sobre as Antologia Poéticas do Jequitinhonha I e II do Professor Thiago Machado de Matos


 

A dica de leitura da semana é a dissertação Palavras em suor maior: duas antologias poéticas do Baixo Jequitinhonha na década de oitenta, defendida pelo pesquisador Thiago Machado de Matos Silva na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Muito além de ser um trabalho acadêmico, trata-se de uma leitura essencial para entender como a literatura do Vale do Jequitinhonha se estrutura a partir de uma relação direta com o território, a memória e a experiência coletiva.

O estudo parte de duas obras centrais da poesia regional: Jequitinhonha: Antologia Poética (1982) e Jequitinhonha: Antologia Poética II (1985).

Esses livros reuniram poetas que ajudaram a consolidar uma identidade literária própria no Vale, entre eles Tadeu Martins, José Machado de Mattos, Wesley Pioest, Gonzaga Medeiros e Jansen Chaves. Mais do que simples coletâneas, essas obras funcionaram como registros de um movimento cultural em que a poesia passa a ser também uma forma de leitura e afirmação do território.

Um dos conceitos mais importantes da dissertação é a ideia de uma “poética de conhecimento da terra”, que ajuda a entender que essa produção literária não descreve o Vale de fora, mas nasce dele. O rio Jequitinhonha, por exemplo, aparece não apenas como paisagem, mas como presença viva e simbólica, atravessando os poemas como personagem e memória ao mesmo tempo. Em alguns momentos, especialmente na leitura da obra de José Machado de Mattos, o rio se transforma em uma espécie de “rio da memória”, onde experiência individual e história coletiva se misturam.

 A dissertação também observa como essa poesia trabalha o tempo e a transformação. No caso de José Machado, o rio surge tanto como marca de vitalidade quanto como sinal de mudança e desgaste histórico, especialmente a partir do final do século XX. Já em outros autores, como Wesley Pioest, a cidade surge como construção fragmentada, feita de camadas de lembranças, como se fosse um espaço atravessado por múltiplos tempos.

Na década de 1980, as antologias surgiram como parte de um movimento cultural fundamental no Baixo Jequitinhonha, reunindo poetas que buscavam afirmar uma voz própria dentro da literatura mineira. Décadas depois, Thiago Machado de Matos Silva retomou esse material em sua pesquisa de mestrado, oferecendo uma leitura crítica que organiza e amplia o sentido dessas obras. Após sua defesa, a dissertação passou a circular amplamente em formato digital, tornando-se referência para estudos sobre literatura regional.

O principal mérito do trabalho está em dar forma conceitual a algo que já aparecia na prática poética do Vale: a ideia de que o Jequitinhonha não é apenas tema literário, mas uma forma de linguagem e pensamento.

 Para quem se interessa por literatura brasileira contemporânea, cultura mineira ou estudos de território, trata-se de um mergulho que ajuda a perceber como poesia, memória e espaço se organizam de forma inseparável.

 

Referência:

SILVA, Thiago Machado de Matos. Palavras em suor maior: duas antologias poéticas do Baixo Jequitinhonha na década de oitenta. 2012. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Montes Claros, Unimontes, Montes Claros, 2012.

 

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terça-feira, 19 de maio de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - João Jiló



para o lado do Jequitinhonha, havia um menino, atentado, malcriado, traquinas toda vida. O nome dele era João Jiló.

Estava na época de Semana Santa (lá no interior, dizem que, na época de Semana Santa, o pessoal costuma ficar quieto em casa, não fala alto, não liga rádio, ninguém casa, ninguém dança em época de Semana Santa). O João Jiló, atentado demais, cismou que ia sair para o mato para passarinhar. A mãe dele disse:

– Menino, ocê não vai não que vai acontecer alguma coisa ruim com cê, porque época de Semana Santa não é época da gente matar nada.

João Jiló, teimoso demais, pegou a espingardinha, colocou ela nas costas e saiu.

Andou, andou, andou... Chegou lá, tinha uma árvore alta e, no alto, tinha um passarinho. Era um passarinho diferente do que se estava acostumado a ver, mas o menino nem ligou. Pegou a espingardinha, assim, fez a mira e, quando ele foi pra puxar o gatilho, o passarinho cantou:

    Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

Mas o menino nem ligou para aquela cantoria, puxou o gatilho e derrubou o passarinho no chão. Ele foi se aproximando e, quando foi para apanhar o bichinho, não é que ele cantou de novo?

    Não me panha não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

O menino, que não estava nem aí para aquela cantoria, pegou o passarinho e pegou o caminho de casa. No meio do caminho, ele come-çou a pensar: Eu não vou levar esse passarinho pra casa não, porque mãe não vai deixar eu mexer nele. Eu vou arrumar ele aqui mesmo. Mas, quando ele foi arrancar a primeira pena do passarinho, olha a danada da cantoria aí de novo:

    Não me despena não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino depenou o passarinho; depois ele acendeu um fogo para sapecar o passarinho. Quando a chama estava alta, o menino foi para chegar o passarinho no fogo, a tal da cantoria de novo:

 

    Não me sapeca não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para aquela cantoria do passarinho e sapecou o bicho. Sapecou ele bem sapecadinho; depois correu com ele lá para o rio para partir o bicho. Mas ele foi para partir o passarinho, a tal da cantoria de novo:

      –  Não me parte não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino, que não estava nem aí, partiu o passarinho. Lavou ele bem lavadinho e depois deixou ele lá no sol uns dois dias secando. Depois do bichinho bem seco ainda era época de Semana Santa, ele foi para cozinha, escondido da mãe, para fritar. Colocou a gordura no fogo. Quando ela estava pipocando, que o menino foi para jogar o passarinho lá dentro, olha ele cantando de novo:

  Não me frita não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino fritou o passarinho, bem frito. Quando ele foi para comer, não é que ele cantou ainda pela derradeira vez?

  Não me come não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para o bicho cantando e comeu o passarinho. Mas depois que ele comeu o passarinho, a barriga dele começou a crescer, a estufar, até virar um mundo de barriga. de den-tro da barriga dele, começou a sair uma voz. A voz falava assim:

  Ui, ui, eu quero sair. O menino falou:

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Não falei? Se você quer sair, você sai disse o menino.

De repente, TUUUMMM!!!!!! A barriga do menino estourou e o passarinho foi embora. E dizem que o passarinho está por aí até hoje, voando e cantando a tal da musiquinha:

  Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

 

  Essa história foi contada pelo contador Francisco Lourenço Borges. E esta n livro  Histórias contadas no Jardim Mandala” Organizado por Josiley Souza - FALE/UFMG -  2018

GIRO PELO VALE - Joaíma e o Vale do Jequitinhonha de Luto, o poeta da Aldeia " Zé Miranda " nos deixou

  José Carlos Miranda Murta, Zé Miranda, nasceu em Joaíma, vale do Jequitinhonha e desde muito cedo se interessou pelas aulas de português n...