quinta-feira, 2 de julho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de Leitura da Semana: A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson


 

Há livros que oferecem boas ideias para a sala de aula e há aqueles que conseguem transformar a maneira como pensamos a educação. A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson, pertence a esse segundo grupo. Por isso, esta é a nossa dica de leitura da semana para professores, estudantes de licenciatura, pedagogos e todos os que acreditam no poder transformador da literatura.

Reconhecido como uma das principais referências brasileiras em letramento literário, Rildo Cosson amplia, nesta obra, uma discussão iniciada no já consagrado Letramento Literário: teoria e prática. Se naquele livro o autor apresenta caminhos para formar leitores literários, nesta nova publicação ele dá um passo além ao defender que a escrita literária também deve ocupar um espaço permanente na escola. Afinal, ler e escrever literatura são experiências que se complementam e contribuem para a formação humana dos estudantes.

O grande mérito da obra está justamente em aproximar teoria e prática. O autor não apresenta receitas prontas nem modelos engessados. Pelo contrário, convida o professor a refletir sobre sua prática pedagógica e mostra que é possível construir experiências significativas de leitura e escrita mesmo diante dos desafios cotidianos da escola. Em um contexto marcado pela cultura digital, pelas avaliações em larga escala e pelo avanço da Inteligência Artificial Generativa, sua proposta reafirma que formar leitores e escritores continua sendo uma das missões mais importantes da educação.

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando observamos como a literatura, durante muito tempo, foi tratada no ambiente escolar. Em muitas salas de aula, os textos literários serviram apenas como pretexto para ensinar regras gramaticais, identificar figuras de linguagem ou responder longos questionários de interpretação. Nessa lógica, a obra literária perde sua dimensão artística e humana, tornando-se apenas mais um conteúdo a ser avaliado.

Rildo Cosson propõe uma mudança de perspectiva, para ele, a literatura deve ser vivida como experiência, permitindo que os estudantes interpretem, sintam, questionem, dialoguem e construam sentidos coletivamente. O professor deixa de ser apenas o transmissor de respostas para assumir o papel de mediador, criando condições para que cada aluno desenvolva uma relação autêntica com os livros.

Essa proposta dialoga diretamente com o método apresentado em Letramento Literário: teoria e prática, obra em que Cosson sistematiza as conhecidas Sequências Didáticas de Leitura. A chamada Sequência Básica organiza o trabalho em quatro momentos: motivação, introdução, leitura e interpretação. A intenção é preparar o estudante para entrar no universo da obra, acompanhar a leitura de maneira orientada e criar oportunidades para que as interpretações sejam compartilhadas. Já a Sequência Expandida aprofunda esse percurso, explorando aspectos específicos do texto e suas relações com outras obras, autores e contextos culturais, valorizando a intertextualidade e ampliando os horizontes de leitura.

Mais do que uma metodologia, essas sequências expressam uma concepção de educação, que na ideia do autor a leitura e escrita são práticas sociais. Ninguém nasce gostando ou desgostando de ler. O interesse pela literatura é construído por meio das experiências vividas na família, na escola e nos espaços culturais. Quando os estudantes compartilham interpretações, debatem personagens, relacionam textos e descobrem diferentes maneiras de compreender uma mesma obra, passam a fazer parte de uma verdadeira comunidade de leitores. É justamente nessa dimensão coletiva que o letramento literário ganha sentido, aproximando-se das contribuições de Magda Soares ao compreender a leitura e a escrita como práticas inseridas na vida social.

A força dessa proposta pode ser percebida em experiências desenvolvidas em escolas brasileiras. Um exemplo foi realizado com uma turma do 8º ano do Ensino Fundamental, na Paraíba, onde professoras aplicaram a Sequência Básica de Cosson durante a leitura de poemas de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Ao longo das discussões, os estudantes registraram suas interpretações em pedaços de tecido que, posteriormente, foram reunidos em uma Colcha de Poemas. O projeto integrou literatura, arte, escrita e trabalho coletivo, demonstrando que a leitura pode ultrapassar as páginas do livro e transformar-se em uma vivência significativa para toda a turma.

É justamente nesse ponto que A Escrita Literária na Escola amplia a discussão. Se a leitura humaniza e amplia nossa compreensão da realidade, a escrita literária permite que os estudantes experimentem a linguagem como espaço de criação, imaginação e expressão. Escrever poemas, contos, crônicas ou narrativas ficcionais não significa formar escritores profissionais, mas desenvolver sensibilidade, criatividade, repertório cultural e capacidade de comunicar experiências e emoções. Ao produzir literatura, o aluno também aprende a ler de forma mais profunda, pois passa a compreender os recursos expressivos utilizados pelos autores.

Talvez esse seja o maior ensinamento do autor: a literatura não deve ocupar um espaço periférico na escola nem servir apenas de apoio para o ensino da gramática, ela precisa ser reconhecida como uma linguagem artística capaz de formar leitores críticos, escritores mais conscientes e cidadãos sensíveis às múltiplas formas de compreender o mundo.

Por isso, nossa dica de leitura da semana é A Escrita Literária na Escola, sem deixar de recomendar também Letramento Literário: teoria e prática, obra que complementa esse percurso e ajuda a compreender as bases da proposta desenvolvida pelo autor. Juntos, os dois livros constituem uma leitura indispensável para quem deseja transformar a literatura em uma experiência viva, significativa e verdadeiramente formadora dentro da escola.

E na sua escola? A literatura ainda aparece apenas como apoio para o ensino da gramática ou já ocupa um espaço de criação, diálogo e formação crítica? Compartilhe sua experiência nos comentários.


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terça-feira, 30 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda do Curisco


 

Na vastidão do sertão, , onde o sol castiga a terra e o horizonte treme de calor, a lenda do Curisco é uma daquelas histórias que os mais velhos contam ao redor do fogo, com a voz baixa e o olhar atento às nuvens carregadas. Dizem que, quando o céu racha num estrondo que faz a alma tremer, é porque um "curisco" caiu. Ali onde a luz toca o chão, nasce uma pedra, escondida na terra quente, esperando por quem tenha a curiosidade perigosa de a encontrar.

No encontro do Rio Jequitinhonha com o Rio Araçuaí, na antiga Barra do Pontal, hoje Itira, distrito de Araçuaí, numa tarde em que o céu se tingiu de um roxo sinistro, os irmãos Bento Lia brincavam próximo ao encontro dos rios. Um clarão cegante, seguido por um trovão que pareceu sacudir as entranhas da terra, marcou o lugar, curiosos, eles correram, e entre as pedras comuns, algo brilhava com uma cor cinza-azulado, pesada e estranhamente morna.

— É ela, Lia! A pedra que caiu do céu! — exclamou Bento.

Eles a pegaram, embrulharam na ponta da camisa e correram para casa, mal sabiam que, ao levarem a pedra para dentro, haviam trazido um "convite". Naquela noite, a casa dos pais não teve sossego, mesmo sem chuva, trovões secos ressoavam acima do telhado, exatamente sobre o quarto onde a pedra fora guardada. O ar dentro de casa ficou pesado, com um cheiro de metal, como se um aparelho elétrico estivesse queimando.

O pai, um homem de mãos calejadas e sabedor das leis da terra, acordou assustado, ao ver os filhos pálidos e o brilho fraco que emanava debaixo da cama deles, ele não precisou perguntar nada.

— Vocês mexeram com o que não deviam", sussurrou o pai.

 — O raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas ele nunca esquece onde deixou o seu rastro, ele não veio apenas uma vez; ele está voltando porque a pedra que ele perdeu agora tem um dono.

A mãe, segurando um terço, completou com o peso da sabedoria ancestral: — Se a pedra dormir aqui, o raio voltará para buscá-la, e ele não se importa se a casa estiver no caminho. Temos que devolver o que é do céu ao chão.

Sob a luz  de uma lamparina, o pai levou as crianças de volta ao local exato onde encontraram a pedra, o vento soprava estranho, uivando entre os galhos secos dos mandacarus. O pai, com respeito e o medo que se deve ter do sobrenatural, pediu licença ao céu e enterrou a pedra profundamente, exatamente onde o impacto a colocara.

Ao voltarem para casa, o silêncio lá fora era absoluto, o ar limpou-se, o cheiro metálico desapareceu e, pela primeira vez na noite, puderam dormir sem que o céu ameaçasse desabar sobre o telhado.

Disse o pai aos filhos um ensinamento, em muitas regiões do Brasil, o " Curisco" é tratada como um objeto sagrado e perigoso. Uns diz que ela possui o poder de proteger a casa contra novos raios se enterrada no quintal por alguém que saiba o ritual, mas, se levada para dentro sem o devido respeito, ela se torna perigos, pois o raio em  fúria na tempestade, vem busca-lo.

 

Esse é uma história contado pelo meu pai João Antenor, no qual adaptei para esse conto.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - O Vale que Dói e o Vale que Cura: Reflexões Diante de "A Ferida Aberta"


 

Escrever sobre a própria terra nunca é uma tarefa simples. O livro A Ferida Aberta: Crônicas da Desigualdade, escrito pelo médico infectologista, ex-prefeito de Caraí e atual deputado federal, Dr. Heber Neiva (Vavá), surge não como apenas mais uma coletânea de histórias, mas como um espelho de realidades que cruzam os caminhos de quem percorre as estradas poeirentas e as comunidades dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Muitos poderiam esperar dos bastidores da escrita do autor um relato focado puramente nas "mazelas", aquela palavra desgastada que a mídia de fora adora usar para rotular e resumir a região. Mas a obra, lançada em 2025, vai muito além. O título A Ferida Aberta mexe com a própria identidade regional. O autor não olha para o povo com pena, mas com um profundo respeito pela resiliência local, usando a história para explicar a saúde, e a saúde para desvendar a história.

O Estetoscópio que Escuta a Fome

Para quem vive o cotidiano de cidades como Caraí, Catuji, Teófilo Otoni ou Diamantina, a obra impressiona porque humaniza o dado estatístico. O Dr. Heber utiliza o conceito científico de sindemia; a percepção de que uma doença não existe isolada da fome, do racismo, da pobreza e da ausência do Estado. Como o próprio autor define de forma cirúrgica na obra:

Para o médico do interior, o estetoscópio muitas vezes escuta o que não está no pulmão, mas na despensa vazia. A verdadeira ferida aberta que encontramos nas estradas poeirentas não é a da carne, mas a da invisibilidade de um povo que teima em sorrir mesmo quando o Estado se esquece de chegar.” O autor ainda menciona que: “quem é da região sabe exatamente o que isso significa: as longas caminhadas sob o sol escaldante para conseguir um atendimento, ou o trabalhador informal que esconde suas dores para não perder o dia de serviço”.

O livro traz à tona a personagem Damiana, que nasceu no Vale do Mucuri cercada por um paradoxo cruel: enquanto os grandes centros transformavam o HIV em uma condição crônica tratável, a desigualdade regional continuava a matar por falta de acesso. O autor mostra que "os patógenos biológicos são apenas relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de violência social".

Rompendo o Silêncio do Estigma e da Saúde Mental

Outro ponto crucial onde a obra toca na carne da região é a abordagem sobre o sofrimento psíquico e o isolamento, temas que ainda são tabus gigantescos nas pequenas cidades.

Tratar a mente nos rincões do Jequitinhonha é desafiar o silêncio. O sofrimento mental aqui se esconde nos quintais, amarrado pelo preconceito e pela falta de estradas. O isolamento geográfico acaba por se tornar um isolamento da própria alma.”

Ao longo das crônicas, o autor apresenta personagens reais, com identidades protegidas, cujas dores gritam por justiça. É o caso de Piedade, que faz questionar se o surto veio da mente ou do peso de uma sociedade opressora; e de Dolores, uma mulher marginalizada que questiona o próprio sistema: “Se eu fui vítima desde a barriga da minha mãe, por que sou eu quem termina atrás das grades?”. O livro escancara como o machismo regional e a escassez histórica de redes de apoio psicossocial destroem vidas em silêncio.

O Enfrentamento do HIV no Interior: Uma Luta Civilizatória

A maior força de A Ferida Aberta, e o que torna a sua recomendação um dever cívico, é a quebra do silêncio sobre a realidade das pessoas soropositivas longe das capitais. O preconceito nas cidades pequenas ainda age, muitas vezes, como um exílio em praça pública.

O vírus assusta, mas o estigma mata antes. No interior, a revelação de um diagnóstico positivo de HIV ecoa pelas paredes da cidade com o peso de uma sentença de exílio social. Acolher essa dor não é apenas um dever médico, é um resgate civilizatório.”

O desafio logístico denunciado no livro é uma realidade conhecida de perto por quem habita a região. Para fazer um exame de carga viral ou buscar a medicação antirretroviral, muitos pacientes precisam enfrentar horas de viagem em estradas precárias até os centros de referência regionais. Através do personagem Inocêncio, um jovem que nasceu com HIV e acabou encontrando o único "abraço" disponível no mundo do crime, o autor prova que a biologia, no interior, é refém da história e do desamparo.

Mais que Literatura, um Compromisso Coletivo

O que torna a indicação desta obra tão relevante não é apenas a qualidade da escrita, que mistura de forma brilhante a sensibilidade da crônica com a profundidade da análise histórica, mas o compromisso que o Dr. Heber assume com a população.

O valor arrecadado com a venda dos livros é totalmente destinado a entidades filantrópicas locais que apoiam e acolhem pessoas soropositivas nos Vales. Ler este livro, portanto, vai além do passatempo: é um ato de solidariedade ativa e de cidadania.

Para quem busca entender o Brasil real através das cicatrizes dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, A Ferida Aberta não é apenas uma recomendação de leitura: é um reencontro urgente com a nossa própria história.

 

Boa leitura.


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segunda-feira, 22 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - SEQUILHO


 

A palavra “sequilho” deriva de seco (com o sufixo -ilho), numa referência direta à sua textura característica. Em várias regiões do Brasil, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais, também são conhecidos como biscoitos de goma ou bolachas de polvilho. Os sequilhos são parte da tradição culinária brasileira, preparados à base de polvilho (ou amido), açúcar e manteiga. Herdaram esse nome por causa do processo de preparo, que os deixa secos por fora e macios por dentro, derretendo suavemente na boca.

De origem portuguesa, os sequilhos chegaram ao Brasil por volta do século XVII, trazidos pelos colonizadores. Aqui, os portugueses aprenderam com os povos indígenas a substituir o trigo por derivados da mandioca, como o polvilho, conferindo ao biscoito uma textura mais leve e crocante.

Até hoje, essa receita ganha variações e conquista corações em diferentes cantos do país. O sequilho de fubá preparado pela quilombola Rosaria Costa, do município de Chapada do Norte, mas que reside no município de Berilo, é exemplo vivo dessa tradição: carrega consigo não apenas sabor, mas também amor e história; ingredientes que são, afinal, os mais importantes da nossa região.

E talvez seja justamente isso que torna o sequilho tão especial: mais do que um simples biscoito, ele é memória afetiva, é ponte entre culturas, é símbolo da criatividade que transforma a simplicidade em delicadeza. Cada mordida nos lembra que a cozinha brasileira é feita de encontros, de trocas e de afetos que atravessam gerações.

No fundo, o sequilho é mais do que um biscoito: é uma metáfora da própria cultura brasileira. Simples nos ingredientes, mas sofisticado na memória que carrega, ele traduz a capacidade de transformar o cotidiano em afeto. Cada receita, cada variação, cada mão que amassa a massa é um elo invisível entre passado e presente, entre tradição e reinvenção. Ao provar um sequilho, não saboreamos apenas polvilho e açúcar, degustamos histórias, raízes e o calor humano que dá sentido à mesa mineira e nordestina.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

MEMÓRIA CULTRUAL - Profissão: Pedreiro entre a tradição e o futuro



O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é conhecido nacionalmente por sua riqueza cultural e pela força do trabalho manual, especialmente na cerâmica e nas artes populares. Mas o papel da construção civil na região também merece destaque. Historicamente, os pedreiros do Jequitinhonha foram responsáveis por erguer casas, igrejas e pequenas obras comunitárias que se tornaram símbolos da resistência e da identidade local. Em cidades como Araçuaí, Diamantina e Itamarandiba, a mão de obra artesanal sempre esteve ligada à realidade socioeconômica da região, marcada por limitações de recursos e pela valorização do saber transmitido de geração em geração.

A crítica que se impõe é que, enquanto a automação avança em grandes centros urbanos, regiões como o Vale do Jequitinhonha ainda dependem fortemente da tradição e da força humana na construção civil. Isso revela uma desigualdade estrutural: de um lado, máquinas capazes de assentar milhares de tijolos por dia; de outro, comunidades que preservam técnicas manuais como parte de sua cultura e sobrevivência. Essa dualidade mostra que o futuro da profissão de pedreiro não pode ser pensado apenas em termos de produtividade e redução de custos, mas também em relação ao impacto social e cultural em territórios onde o trabalho artesanal é parte da identidade coletiva.

O Vale do Jequitinhonha, portanto, simboliza o desafio de equilibrar modernização e tradição. Se por um lado a automação promete eficiência, por outro, ela corre o risco de invisibilizar comunidades que mantêm viva a memória da construção manual. O pedreiro jequitinhonhense não é apenas um trabalhador: é guardião de uma prática que moldou cidades, fortaleceu laços comunitários e deu forma a um patrimônio cultural que não pode ser substituído por algoritmos e braços robóticos.

Assim, incluir o Vale do Jequitinhonha nessa discussão amplia a crítica: o futuro da construção civil precisa considerar não apenas a velocidade das máquinas, mas também o valor humano e cultural que sustenta regiões inteiras. O pedreiro mineiro, seja em Ouro Preto ou no Jequitinhonha, carrega em suas mãos não apenas tijolos, mas a história e a identidade de um povo, por isso fiquei pensando: No futuro, quem construirá sua casa, será um pedreiro ou um robô?

 

Referencias:

Rezende, Maria Beatriz – Patrimônio Arquitetônico de Minas Gerais

Silva, João Batista – Automação na Construção Civil: Robótica e Inteligência Artificial

A evolução dos robôs de alvenaria: mudando as regras da construção tradicional https://www.archdaily.com.br/br/928479/a-evolucao-dos-robos-de-alvenaria-mudando-as-regras-da-construcao-tradicional

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Nitheroy: a revista que ajudou a consolidar uma literatura brasileira

 

Quando falamos sobre a história da literatura brasileira, geralmente lembramos de grandes escritores, poemas e romances que marcaram diferentes épocas. No entanto, poucos conhecem uma publicação que desempenhou um papel importante na formação da identidade cultural do país: a revista Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes.

Publicada em Paris, em 1836, a revista surgiu em um momento em que o Brasil ainda buscava consolidar sua identidade após a Independência, proclamada em 1822. Seu objetivo era estimular reflexões sobre literatura, artes, ciência e sociedade, contribuindo para o desenvolvimento intelectual e cultural da jovem nação.

A criação da Nitheroy foi iniciativa de três intelectuais brasileiros que viviam na Europa: Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem. Influenciados pelas ideias que circulavam no continente europeu, eles acreditavam que o Brasil precisava desenvolver uma produção cultural capaz de expressar suas próprias características, sem depender exclusivamente dos modelos estrangeiros.

A revista adotou como lema a frase “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”, demonstrando seu compromisso com a valorização da cultura nacional. Embora tenha tido apenas duas edições, sua importância histórica ultrapassou sua curta existência. Os artigos publicados abordavam temas diversos. Além da literatura e das artes, a revista trazia discussões sobre economia, comércio, ciência e outros assuntos considerados fundamentais para o progresso do país. Essa variedade revela uma característica marcante do período: a crença de que o desenvolvimento de uma nação dependia tanto do crescimento material quanto do fortalecimento da educação, da cultura e do conhecimento.

Entre os textos mais relevantes publicados na Nitheroy está o “Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil”, escrito por Gonçalves de Magalhães. Nesse trabalho, o autor defende a valorização da produção literária nacional e propõe uma reflexão sobre os caminhos que a literatura brasileira deveria seguir. Suas ideias contribuíram para a consolidação do movimento romântico no Brasil, que ganharia força nas décadas seguintes.

Por essa razão, a Nitheroy é frequentemente apontada pelos estudiosos como uma publicação fundamental para a história da literatura brasileira e para o desenvolvimento do Romantismo no país. Mais do que uma simples revista, ela representou um esforço coletivo de pensar o Brasil a partir de sua própria realidade cultural, em um período em que o país buscava afirmar sua identidade também no campo das letras.

Quase duzentos anos após sua publicação, a Nitheroy continua despertando o interesse de pesquisadores e leitores. Sua trajetória demonstra como uma iniciativa de curta duração pode deixar um legado duradouro, influenciando a forma como uma nação compreende sua cultura, sua literatura e sua identidade.

Ao revisitar a história dessa publicação, percebemos que a construção de uma literatura nacional não acontece de forma repentina. Ela é resultado do trabalho de escritores, pensadores e editores que acreditam na força da cultura como elemento de transformação. Nesse sentido, a Nitheroy ocupa um lugar de destaque na memória literária brasileira, não por ter sido a única iniciativa de seu tempo, mas por ter ajudado a consolidar ideias que marcariam profundamente a literatura produzida no Brasil ao longo do século XIX.

Referências

BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836). Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/nitheroyrevista-brasiliense-1836/. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

BIBLIOTECA NACIONAL. Nitheroy: Revista Brasiliense, Sciencias, Lettras e Artes. Acervo Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://acervo.bn.gov.br. Acesso em: 3 jun. 2026.

 

LOTUFO, Marcelo. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836): A Political Bridge Between Rio de Janeiro, Paris, and Hispanic America. Journal of Lusophone Studies, v. 1, n. 1, 2016.

 

NITHEROY: Revista Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836. Acervo Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1272. Acesso em: 3 jun. 2026.


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

OPINIÃO DO BLOG - A camisa da seleção brasileira é símbolo de uma nação.


 

Durante décadas, a camisa "amarelinha" da Seleção Brasileira de Futebol transcendeu o esporte para se consolidar como o maior símbolo de identidade e união nacional. Independentemente de classe social, credo ou ideologia, o verde e amarelo representava o orgulho de um povo a cada Copa do Mundo. No entanto, o acirramento da polarização política no Brasil contemporâneo promoveu uma profunda ressignificação desse manto, que deixou de pertencer a todos os cidadãos para se tornar um estandarte de disputas partidárias e ideológicas.

O processo de partidarização da camisa verde e amarela ganhou força expressiva a partir das manifestações de 2014 e consolidou-se nas eleições de 2018 e 2022.  Quando movimentos de direita, adotaram o uniforme como vestimenta oficial em manifestações políticas. Ao transformar a camisa em um símbolo de adesão a um governo ou pauta específica, perdeu-se a neutralidade que a caracterizava. Vestir a "amarelinha" deixou de ser um ato puramente esportivo e passou a ser lido, por grande parte da sociedade, como uma declaração de alinhamento ideológico excludente.

Essa apropriação gerou um racha no comportamento social dos brasileiros, por um lado, muitos passaram a evitar o uso da camisa em espaços públicos por receio de hostilidades, julgamentos ou conflitos. A autocensura tornou-se evidente, esvaziando as ruas de verde e amarelo durante os eventos esportivos. Por outro lado, a camisa azul, uniforme reserva e as camisas de clubes de futebol ganharam protagonismo, sendo utilizadas por aqueles que queriam torcer pela Seleção sem carregar o estigma político atrelado ao uniforme principal. Houve, portanto, uma fragmentação do sentimento de patriotismo.

A polarização política feriu um dos pilares da cultura e da autoestima nacional ao sequestrar o maior símbolo do futebol brasileiro. Para que a camisa da Seleção Brasileira volte a unir o país, é necessário um processo de despolitização, no qual a sociedade civil, os meios de comunicação e as entidades esportivas reafirmem que as cores da bandeira pertencem à pluralidade do povo brasileiro, e não a grupos políticos. Somente assim o verde e amarelo poderá novamente representar a celebração do esporte e a unidade de uma nação.

A camisa da Seleção Brasileira sempre foi e será, historicamente, o maior símbolo de união e identidade do povo brasileiro. Conhecida mundialmente como a "Amarelinha", ela transcende o esporte e se transforma em um verdadeiro manto de orgulho nacional.

A cada Copa do Mundo, o verde e o amarelo tomavam conta das ruas, unindo diferentes classes sociais, crenças e origens em um único sentimento de esperança e celebração. Mais do que vestir atletas, estampar a "amarelinha" sempre foi  celebrar a alegria, a resiliência e a criatividade que caracterizam a alma brasileira, por isso ela precisa voltar a ser um símbolo de união nacional.


Jô Pinto - Itinga/MG

Quilombola, Historiador, Pesquisador e Mestre em Ciências Humanas 

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de Leitura da Semana: A Escrita Literária na Escola, de Rildo Cosson

  Há livros que oferecem boas ideias para a sala de aula e há aqueles que conseguem transformar a maneira como pensamos a educação. A Escrit...