Escritor,
advogado, leitor obsessivo e filho do Vale do Jequitinhonha, Giordano Leonardo
Alves transforma paisagem, memória e conflito social em literatura. Nesta
entrevista, ele fala sobre infância, influência de Naruto e Guimarães Rosa,
processo criativo, política, poesia e a necessidade quase física de escrever.
“Escrever é um formigamento na cacunda”: uma conversa com
Giordano Leonardo Alves
A literatura de Giordano Leonardo Alves nasce da
terra. Das margens dos rios, do azul da Serra do Itambé, das histórias sopradas
em bar de interior, das madrugadas de escrita e da inquietação diante das
injustiças do mundo. Aos 30 anos, o escritor e advogado de Santo Antônio do
Itambé, no Vale do Jequitinhonha, já publicou cinco livros, participou de
coletâneas e integra movimentos literários importantes da região.
Mas reduzir Giordano apenas à biografia formal
seria pouco. Sua fala mistura humor, filosofia, cultura pop, memória afetiva e
crítica social. Entre Naruto, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e o Pico do
Itambé, ele construiu uma escrita profundamente ligada ao território onde
nasceu e também à vontade de ultrapassar suas fronteiras.
Nesta entrevista, Giordano fala sobre infância,
literatura, processo criativo, política, poesia, pertencimento e o desafio de
continuar escrevendo em um mundo acelerado demais para escutar o silêncio das
páginas.
“Sou um provinciano pacato, com fome de mundo”
Giordano Leonardo Alves - quem é você para além do
currículo?
Giordano Leonardo Alves - ou seja, eu mesmo - é
alguém que encontrou, na beirada do rio e no azul da Serra do Itambé, o sonho
da escrita. Um sujeito que escuta passarinho, mas também escuta o grito das
injustiças e tenta deduzir disso tudo letras, rimas e prosa.
Sou nascido em Santo Antônio do Itambé, e é dessa
cidade do Jequitinhonha e do Rio Doce, cortada pelo Espinhaço, que vêm o contar
e a inspiração.
No final das
contas, o poeta por trás dessas palavras é um eterno provinciano pacato, com
fome de mundo e desejo de ficar.
“A
professora reclamava porque eu escrevia demais”
Quando
surgiu a vontade de escrever?
Difícil saber exatamente. Uma professora da
terceira série já reclamava:
“Esse Giordano escreve três páginas, uma história
desse tamanho. Mas eu pedi só dois parágrafos!”
Isso vem quase da beirada da natividade. Talvez eu
escrevesse porque queria me destacar em algum trem entre os colegas da escola.
Talvez por minha mãe, Magna, ser professora. Talvez pelas histórias
mirabolantes do bar do meu pai, Sebastião, que sempre foi um grande contador de
causos. Ou pelo meu tio Valter, insistindo: “vá estudar, menino!”.
Agora, teve também a fantasia. Senhor dos Anéis,
Harry Potter, Turma da Mônica, Naruto… tudo isso mexia comigo. E como naquela
época nem celular tinha nessas beiradas, a escrita virou a forma possível de
jogar essa barrancada de imaginação para fora.
Acho que quis escrever ali pelos 10 ou 11 anos.
“Naruto e
Guimarães Rosa coexistem muito bem”
Quais
autores e referências ajudaram a formar sua escrita?
A Serra, os rios, meus pais, meus professores e meu
tio foram as primeiras influências.
Dos autores, comecei pelos fantásticos e pelos
cartuns. Mas os primeiros nomes que realmente me atravessaram foram Machado de
Assis e Carlos Drummond de Andrade.
Depois o caldo engrossou. A leitura virou fissura.
Vieram Guimarães Rosa, Dostoievski, James Joyce,
William Faulkner, Jorge Amado… gente que me ensinou possibilidades diferentes
de linguagem, fluxo de consciência, construção de mundo.
Hoje faço um “mea culpa” importante: tenho tentado
reparar uma falha antiga, lendo mais escritoras. Clarice Lispector, Virgínia
Woolf… durante muito tempo houve uma indiferença quase automática em relação às
mulheres na literatura.
Isso precisa ser corrigido.
E existe também um retorno às raízes: ler Adão
Ventura, talvez o maior artista da minha cidade.
“Meu
primeiro livro nasceu de RPG, Senhor dos Anéis e interior mineiro”
Você se
lembra dos primeiros textos que escreveu?
Os primeiros textos foram os da escola —
brincadeira!
Eu gostava muito de fazer peças de teatro para os
colegas contracenarem. Tive uma fase de gostar de atuar, depois fui para os
roteiros e direção naquela pegada interiorana simples das pequenas salas.
Mas a primeira obra mesmo foi “Guerreiros Isi”, uma
fantasia claramente influenciada por Senhor dos Anéis.
Era a história de um elfo e um mago. Tudo surgiu
por causa do RPG. Um menino de Sete Lagoas, parente de uma prima, apareceu nas
férias trazendo aqueles “badulaques inovadores das grandes capitais”: dados,
fichas, personagens.
Eu era o mago. Meu amigo Raé era o elfo. Juninho
era o narrador.
Escrevi tudo a lápis em dois cadernos. Nunca
finalizei.
Depois vieram poemas, contos e, muitos anos mais
tarde, “O Silêncio das Sombras”, livro que nasceu inicialmente como fanfic em
fóruns da internet antiga.
O fórum se chamava “Naruto Shippuden 2009”. Meu
nickname era “Lobo Solitário”. O que restou disso foram as madrugadas viradas
escrevendo e uma saudade danada daquela internet mais comunitária.
“Ler até
o olho doer”
Que
conselho você daria para quem quer começar a escrever?
Primeiro: leia.
Quando achar que já deu, leia mais.
Leia até o olho doer.
Procure bons filmes. Leia brasileiros e
brasileiras. Leia livros desafiadores. Ulysses, de Joyce, e Grande Sertão:
Veredas me ensinaram muito sobre brincar com a prosa, o fluxo de consciência e
perder o medo da linguagem, entender que a lógica e a correção podem vir
depois, enquanto a prosa vai abrindo caminho.
Também acho importante valorizar o Espinhaço,
conhecer a própria terra, escutar o próprio lugar.
E outra coisa: não fique travado corrigindo tudo
enquanto escreve. Primeiro deixe a ideia sair inteira. Depois você revisa.
Hoje existem ferramentas úteis para isso, inclusive
as inteligências artificiais, inovadoras e perigosas ao mesmo tempo, mas elas
precisam ser usadas com cuidado e sabedoria.
O mais importante continua sendo sentar e insistir.
Teimar com o teclado, com o lápis, com a caneta.
E existe uma verdade dura nisso tudo: o poeta é o
profeta com fome.
Se a pessoa escreve buscando apenas fama ou
sucesso, talvez seja melhor procurar outra arte. Claro que aplauso é bom, todo
mundo gosta de umas palmas, de um evento, de algum reconhecimento. Mas isso não
sustenta a escrita.
Escrever exige aceitar o calor e o inferno
paradisíaco dessa contradição entre cérebro, dedos, imaginação e mundo.
Por isso, o conselho final continua sendo simples:
vá lá e escreva sem dó nem piedade.
“A
inspiração aparece até lavando vasilha”
Como
funciona seu processo criativo?
A inspiração pode surgir perto de um rio, diante de
uma árvore ou da serra. Mas também pode aparecer lavando vasilha, lendo alguma
coisa ou acordando de madrugada para anotar uma frase.
É quase um mantra constante. Uma espécie de “arte
de vida”.
Agora, escrever mesmo exige o momento certo. É
sentar, sofrer um pouco, se alegrar um pouco e deixar sair.
Normalmente, primeiro junto palavras, notícias,
cenas, trejeitos, imagens. Depois aparece alguma ideia de livro ou texto. Aí
tento imaginar uma estrutura geral, quase um sumário mental.
Os personagens vêm depois — e chega um momento em
que eles mandam mais do que eu.
O estilo também nasce durante a escrita. Tem horas
que parece um transe: o tempo desaparece, as letras se perdem e você fica
transtornado diante do computador.
Mas sou de fôlego curto. Escrevo uma hora, uma hora
e meia no máximo. Depois a cabeça sai soltando fumaça.
“Tenho
apego às minhas criaturas de papel”
Você
gostaria de adaptar suas obras para teatro, cinema ou música?
Já pensei em teatro. Acho que seria bonito.
Cinema eu vejo com mais distância. Sou do pequeno
mundo ainda. E dizem que o filme sempre vira outro trem diferente do livro.
Talvez por isso eu tenha certo apego às minhas
criaturas de papel.
“A
literatura ainda é uma forma de resistência”
Como você
enxerga a relação dos jovens com a leitura hoje?
A gente precisa ser realista: o Brasil nunca foi
exatamente um país leitor.
E não acho justo colocar toda a culpa nas redes
sociais ou no celular.
O maior problema continua sendo a sobrevivência. A
maioria das pessoas trabalha demais, vive cansada, preocupada em pagar conta,
ajudar a família, resolver urgências da vida. Entre as pessoas pobres — ou
seja, a maioria do país —, a brutalidade da jornada 6x1, o cansaço e o próprio
interesse de manter a população afastada da imaginação acabam empurrando a
leitura para longe.
Ler exige tempo, silêncio e certa solidão.
Só depois disso vem a questão das telas.
Nesse cenário, a literatura continua tendo um papel
enorme. Ela denuncia, incomoda, faz sonhar e oferece algo que nenhuma tela
substitui: a experiência profunda do ponto de vista.
O processo de leitura exige a tranquila virada de
página, e não o resumo ansioso.
Ler é lutar contra a preguiça que o mundo tenta
impor.
Como diria Sartre, é uma maneira de estar no mundo
e percebê-lo. E como diria Adão Ventura, a literatura ainda pode ser faca para
cortar a paradeza.
Pode parecer exagero, mas acredito mesmo que isso
ajuda os jovens a qualificarem sua visão de humanidade.
E existe uma coisa curiosa: o ChatGPT pode até
fazer o Pico do Itambé falar, mas ele só ganha asas específicas quando a
imaginação humana entra como centro da criação.
“O Vale
do Jequitinhonha ainda tem muita história para contar”
Sua
poesia dialoga muito com o Vale e com questões sociais. Isso é consciente?
Totalmente.
Minha poesia caminha muito por dois eixos: o amor
pelo Vale do Jequitinhonha e a denúncia das violências sociais, raciais e
econômicas.
Existe uma tentativa constante de vender progresso
para essa região enquanto muita exploração continua acontecendo.
Como Marx já dizia — e Florestan Fernandes reforça
com pitadas de Abdias do Nascimento —, os mais desvalidos continuam sendo
explorados. E aqui isso tem nome, cor, classe social e consequência prática.
Ao mesmo tempo, o Vale é um lugar profundamente
rico culturalmente. Existe uma história indígena gigantesca, uma identidade
própria, uma memória coletiva muito forte.
A literatura pode revelar isso — ou reinventar isso
pela imaginação.
A poesia daqui denuncia e encanta ao mesmo tempo.
“O Pico
do Itambé é um ser vivo”
Você tem
algum poema especialmente importante para você?
Tenho muito carinho por “Pela Janela da Roça”, do
livro Das Muitas Formas de Dizer, Ita. Ele tem cheiro de mato, de pulo de
pinguela, de vontade de voltar.
Também gosto muito de “O Menino Itambé”, da
coletânea Rio de Palavras.
O poema nasceu com dois objetivos: fazer as pessoas
conhecerem mais o Pico do Itambé e brincar com as palavras terminadas nesse
acento tão característico.
Aquela serra que tanto amo hoje é sujeito de
direitos. Para mim, ela é um ser vivo.
“Escrever
é um formigamento na cacunda”
Quais
projetos você está desenvolvendo atualmente?
Nunca para.
Escrever é um formigamento na cacunda e uma pancada
na costela do peito.
Tenho inúmeros projetos ainda escapados do papel e
um medo constante de faltar tempo para colocar tudo no mundo.
A maioria das minhas histórias continua ligada ao
Itambé. Quiçá todas.
Hoje estou envolvido em uma coletânea fantástica do
Movimento dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, uma obra em
homenagem a Adão Ventura, um livro escrito a quatro mãos com o escritor Danilo
Arnaldo e dois livros de poesia previstos para os próximos anos.
Também estou revisando uma obra infantojuvenil de
suspense.
Mas o projeto principal é um romance ambientado na
década de 1960 em Santo Antônio do Itambé. Já são três anos brigando com ele.
Esse livro vem me arrancando uma água danada.
E acredito muito no trabalho coletivo. O consenso é
difícil, exige paciência e escuta, mas ele nos lembra que não somos o centro do
mundo.
Ao mesmo tempo, como naquela ideia bonita de
Sidarta observado por Govinda, o mundo também emana da gente.
Na doideira mundana, talvez a boniteza esteja
justamente nisso que Guimarães Rosa insinuava: mudar o tempo inteiro sem deixar
de pertencer.
“Escrever
não pode ser só busca por fama”
Para
terminar: o que é escrever para você?
Escrever é insistir.
É aceitar a solidão criativa. É conviver com o
vazio, com a dúvida e com a vontade de abandonar tudo.
Mas também é criar mundos.
Se a pessoa busca apenas fama ou sucesso, talvez
seja melhor procurar outra arte.
Claro que aplauso é bom. Todo mundo gosta. Mas ele
não pode ser o combustível principal.
A escrita exige uma mistura estranha de disciplina,
delírio, planejamento, paciência e coragem.
No fim, escrever talvez seja isso: sentar diante do
teclado e insistir até que alguma coisa floresça.
Porque, quando pega, não para mais.
E
talvez seja exatamente isso que move sua literatura: a insistência de continuar
criando, mesmo quando o mundo parece apressado demais para escutar.
Por










