Nesta
semana, a colunista indica o romance A construção, obra de estreia da
escritora brasiliense Andressa Marques, publicado em 2024. O livro apresenta
uma narrativa sensível e socialmente relevante ao articular temas como memória,
identidade racial e pertencimento social. A obra acompanha a trajetória de
Jordana, jovem estudante que integra a primeira geração de cotistas nas
universidades públicas brasileiras. Ao narrar as experiências da personagem,
Andressa Marques constrói um enredo que dialoga com questões contemporâneas,
abordando desafios sociais e históricos a partir de uma perspectiva subjetiva e
profundamente humana.
Andressa
nasceu em Taguatinga, Distrito Federal, é doutora em Literatura pela
Universidade de Brasília (UnB) e desenvolve pesquisas voltadas à formação do
leitor e à autoria negra. Sua trajetória acadêmica e social dialoga com a
construção temática do romance, evidenciando um ponto de vista comprometido com
o debate sobre desigualdade racial e inclusão educacional.
A
narrativa acompanha Jordana desde seu ingresso na Universidade de Brasília por
meio do sistema de cotas raciais até o processo de adaptação ao ambiente
acadêmico. Ao longo da obra, são apresentadas as inseguranças e os conflitos
enfrentados pela protagonista diante de um espaço historicamente elitizado. O
romance evidencia as dificuldades relacionadas ao sentimento de pertencimento e
às desigualdades estruturais presentes na universidade, revelando experiências
que ultrapassam o âmbito individual. Em determinado momento, a personagem
reflete sobre as diferenças sociais observadas no cotidiano universitário ao
afirmar que “a opção para elas, era o único jeito para nós” (MARQUES, 2024, p.
13), evidenciando a distância entre realidades sociais distintas.
Além
da experiência universitária, a obra estabelece um diálogo constante entre
passado e presente, ao recuperar a memória dos trabalhadores responsáveis pela
construção de Brasília. Nesse sentido, o romance apresenta uma perspectiva
histórica que evidencia a invisibilização dessas trajetórias e seus impactos
nas gerações posteriores. A narrativa reforça a importância da memória como
processo de reconstrução identitária, destacando que “a memória é água com
sedimentos” (MARQUES, 2024, p. 11), metáfora que sugere a complexidade do
resgate histórico e afetivo.
Outro
aspecto relevante da obra refere-se às relações familiares, especialmente entre
Jordana e seu pai, Marco, militante sindical e integrante do movimento negro.
Essa relação evidencia tensões geracionais e expectativas relacionadas à
responsabilidade histórica da nova geração que acessa o ensino superior. O
romance demonstra que o ingresso na universidade representa não apenas uma
conquista individual, mas também coletiva, vinculada às lutas sociais da
população negra.
A
trajetória da protagonista também é marcada pela construção de vínculos sociais
e políticos dentro da universidade, principalmente por meio da participação em
movimentos estudantis e espaços de resistência cultural. Ao longo da narrativa,
Jordana passa a compreender a universidade como espaço de disputa simbólica e
transformação social. Tal processo fortalece sua identidade e amplia sua
percepção sobre o papel da educação na superação das desigualdades sociais. Outro
elemento significativo da obra é a valorização da ancestralidade e da
religiosidade de matriz africana, que aparece como herança cultural e
fundamento identitário da protagonista. A reconstrução da história familiar de
Jordana evidencia a continuidade das experiências de exclusão e resistência ao
longo das gerações, estabelecendo paralelos entre a construção da capital
federal, a formação da identidade familiar e o processo de autoconhecimento da
personagem.
Estruturalmente,
o romance desenvolve uma narrativa polifônica e não linear, entrelaçando tempos
distintos que se complementam na construção da história. Essa construção
narrativa amplia o significado simbólico do título da obra, que remete
simultaneamente à edificação da cidade de Brasília, à reconstrução da memória
histórica e à formação subjetiva da protagonista. Ao apresentar uma narrativa
sensível e crítica, Andressa Marques contribui para ampliar o debate sobre
inclusão educacional e representatividade racial, evidenciando o papel da
literatura como instrumento de reflexão social e histórica.
REFERÊNCIA
FIALHO, Elisangela Aparecida Lopes. A
construção, de Andressa Marques: trajetórias negras e pertencimento na
universidade. Literafro, 2025.
MARQUES, Andressa. A construção.
São Paulo: Editora Nós, 2024.
CUTI. Negroesia. Belo
Horizonte: Mazza Edições, 2007.
TENÓRIO, Jeferson. De onde eles
vêm. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
Por








