quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura da semana, livro "A construção"


 


Nesta semana, a colunista indica o romance A construção, obra de estreia da escritora brasiliense Andressa Marques, publicado em 2024. O livro apresenta uma narrativa sensível e socialmente relevante ao articular temas como memória, identidade racial e pertencimento social. A obra acompanha a trajetória de Jordana, jovem estudante que integra a primeira geração de cotistas nas universidades públicas brasileiras. Ao narrar as experiências da personagem, Andressa Marques constrói um enredo que dialoga com questões contemporâneas, abordando desafios sociais e históricos a partir de uma perspectiva subjetiva e profundamente humana.

Andressa nasceu em Taguatinga, Distrito Federal, é doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e desenvolve pesquisas voltadas à formação do leitor e à autoria negra. Sua trajetória acadêmica e social dialoga com a construção temática do romance, evidenciando um ponto de vista comprometido com o debate sobre desigualdade racial e inclusão educacional.

A narrativa acompanha Jordana desde seu ingresso na Universidade de Brasília por meio do sistema de cotas raciais até o processo de adaptação ao ambiente acadêmico. Ao longo da obra, são apresentadas as inseguranças e os conflitos enfrentados pela protagonista diante de um espaço historicamente elitizado. O romance evidencia as dificuldades relacionadas ao sentimento de pertencimento e às desigualdades estruturais presentes na universidade, revelando experiências que ultrapassam o âmbito individual. Em determinado momento, a personagem reflete sobre as diferenças sociais observadas no cotidiano universitário ao afirmar que “a opção para elas, era o único jeito para nós” (MARQUES, 2024, p. 13), evidenciando a distância entre realidades sociais distintas.

Além da experiência universitária, a obra estabelece um diálogo constante entre passado e presente, ao recuperar a memória dos trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília. Nesse sentido, o romance apresenta uma perspectiva histórica que evidencia a invisibilização dessas trajetórias e seus impactos nas gerações posteriores. A narrativa reforça a importância da memória como processo de reconstrução identitária, destacando que “a memória é água com sedimentos” (MARQUES, 2024, p. 11), metáfora que sugere a complexidade do resgate histórico e afetivo.

Outro aspecto relevante da obra refere-se às relações familiares, especialmente entre Jordana e seu pai, Marco, militante sindical e integrante do movimento negro. Essa relação evidencia tensões geracionais e expectativas relacionadas à responsabilidade histórica da nova geração que acessa o ensino superior. O romance demonstra que o ingresso na universidade representa não apenas uma conquista individual, mas também coletiva, vinculada às lutas sociais da população negra.

A trajetória da protagonista também é marcada pela construção de vínculos sociais e políticos dentro da universidade, principalmente por meio da participação em movimentos estudantis e espaços de resistência cultural. Ao longo da narrativa, Jordana passa a compreender a universidade como espaço de disputa simbólica e transformação social. Tal processo fortalece sua identidade e amplia sua percepção sobre o papel da educação na superação das desigualdades sociais. Outro elemento significativo da obra é a valorização da ancestralidade e da religiosidade de matriz africana, que aparece como herança cultural e fundamento identitário da protagonista. A reconstrução da história familiar de Jordana evidencia a continuidade das experiências de exclusão e resistência ao longo das gerações, estabelecendo paralelos entre a construção da capital federal, a formação da identidade familiar e o processo de autoconhecimento da personagem.

Estruturalmente, o romance desenvolve uma narrativa polifônica e não linear, entrelaçando tempos distintos que se complementam na construção da história. Essa construção narrativa amplia o significado simbólico do título da obra, que remete simultaneamente à edificação da cidade de Brasília, à reconstrução da memória histórica e à formação subjetiva da protagonista. Ao apresentar uma narrativa sensível e crítica, Andressa Marques contribui para ampliar o debate sobre inclusão educacional e representatividade racial, evidenciando o papel da literatura como instrumento de reflexão social e histórica.

 

REFERÊNCIA

 

FIALHO, Elisangela Aparecida Lopes. A construção, de Andressa Marques: trajetórias negras e pertencimento na universidade. Literafro, 2025.

 

MARQUES, Andressa. A construção. São Paulo: Editora Nós, 2024.

 

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

 

TENÓRIO, Jeferson. De onde eles vêm. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.


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  Nesta semana, a colunista indica o romance A construção , obra de estreia da escritora brasiliense Andressa Marques, publicado em 2024. ...