terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Monstro de Itamarandiba


 

Dizem os mais antigos, naqueles tempos em que as histórias não eram lidas em livros, mas sopradas ao pé do ouvido durante as noites de escravatura, que o medo tem morada certa em Itamarandiba. Não é lenda, não é crendice de quem não tem o que fazer; é uma verdade que atravessa gerações e faz o sangue gelar de quem, por descuido ou zombaria, não reza antes de deitar.

Tudo começou com um fazendeiro, homem de posses, mas de pouca fé e língua solta. Certo dia, tomado por um rancor que não cabia no peito, ele desrespeitou o vigário da paróquia local. Em praça pública, aos gritos e desaforos, comparou o padre a uma mula, acusando o homem de Deus de viver apenas da exploração do suor alheio. O que o fazendeiro não sabia é que, ao insultar o vigário, ele insultava o próprio ofício que aquele homem representava.

O vigário, tomado por um pesar amargo, lançou uma praga que atravessou o tempo, Já que tens tanta fome de criticar o que não compreendes, passarás a ter fome do que é profano. Comerás tudo o que encontrar pela frente: calangos, serpentes, o sapo que coaxa no brejo e até a sola de couro do teu próprio sapato. Serás tão gordo que a tua própria barriga será o teu túmulo.

A profecia não tardou a se cumprir. O fazendeiro começou a engordar de um jeito sobrenatural. Ele comia os mantimentos, as frutas do pomar, as hortaliças. Quando a dispensa esvaziou, passou a devorar os animais: bois, cavalos, porcos e até as ervas daninhas. Dizem que, de tão cheio, o homem peidava um cheiro de enxofre que empestava a redondeza.

Ele não parou enquanto não devorou tudo o que havia ao seu redor. Quando, finalmente, o monstro de carne que se tornara, pesando mais de mil quilos e rosnando como cão raivoso, tentou saciar sua fome insaciável com seres humanos, o corpo não aguentou. Caiu morto pelo chão, com o bucho prestes a explodir.

Para enterrar aquele descomunal, foi preciso um esforço sem precedentes. Cortaram toras de braúna para construir um caixão do tamanho de um cômodo, e foi necessário um carro de boi com oito juntas de tração para levar o corpo até a Matriz. Até hoje, quem percorre o chão de Itamarandiba diz que, em certos pontos, as marcas profundas daquela carreta ainda são visíveis, como um sulco de maldição gravado na terra.

O corpo foi enterrado dentro da igreja, na esperança de que o poder das orações o mantivesse em paz. Mas o que se viu depois foi uma sucessão de estranhezas, rachaduras surgiam nas paredes, o cabelo do defunto aparecia misteriosamente nos lugares mais inusitados, e o terror se instalou na comunidade. Anos mais tarde, quando a antiga Matriz foi consumida por um incêndio misterioso, o povo não teve dúvidas, era o Cão, dando o sinal de que o monstro ainda lá habitava.

Dizem que o bicho não morreu de verdade. Ele vive nas frestas, nas rachaduras do assoalho, manifestando-se na forma de formigas e tanajuras que saem debaixo da terra. E quem ousa zombar, quem dorme sem oração, corre o risco de ver a maldição despertar. Pois, como dizem os ancestrais, o monstro tem companhia, nas noites de lua cheia, uma mulher de cinco metros de altura rodeia as ruínas da igreja, à espera de quem se atreva a passar por perto sem a proteção da água benta e de uma reza bem comprida.

 

Texto adaptado por Jô Pinto, com base no programa Terra de Minas, exibido pela TV Globo.

 

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Monstro de Itamarandiba

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