Dizem os mais antigos, naqueles
tempos em que as histórias não eram lidas em livros, mas sopradas ao pé do
ouvido durante as noites de escravatura, que o medo tem morada certa em
Itamarandiba. Não é lenda, não é crendice de quem não tem o que fazer; é uma
verdade que atravessa gerações e faz o sangue gelar de quem, por descuido ou
zombaria, não reza antes de deitar.
Tudo
começou com um fazendeiro, homem de posses, mas de pouca fé e língua solta.
Certo dia, tomado por um rancor que não cabia no peito, ele desrespeitou o
vigário da paróquia local. Em praça pública, aos gritos e desaforos, comparou o
padre a uma mula, acusando o homem de Deus de viver apenas da exploração do
suor alheio. O que o fazendeiro não sabia é que, ao insultar o vigário, ele
insultava o próprio ofício que aquele homem representava.
O vigário,
tomado por um pesar amargo, lançou uma praga que atravessou o tempo, Já que
tens tanta fome de criticar o que não compreendes, passarás a ter fome do que é
profano. Comerás tudo o que encontrar pela frente: calangos, serpentes, o sapo
que coaxa no brejo e até a sola de couro do teu próprio sapato. Serás tão gordo
que a tua própria barriga será o teu túmulo.
A profecia
não tardou a se cumprir. O fazendeiro começou a engordar de um jeito
sobrenatural. Ele comia os mantimentos, as frutas do pomar, as hortaliças.
Quando a dispensa esvaziou, passou a devorar os animais: bois, cavalos, porcos
e até as ervas daninhas. Dizem que, de tão cheio, o homem peidava um cheiro de
enxofre que empestava a redondeza.
Ele não
parou enquanto não devorou tudo o que havia ao seu redor. Quando, finalmente, o
monstro de carne que se tornara, pesando mais de mil quilos e rosnando como cão
raivoso, tentou saciar sua fome insaciável com seres humanos, o corpo não
aguentou. Caiu morto pelo chão, com o bucho prestes a explodir.
Para
enterrar aquele descomunal, foi preciso um esforço sem precedentes. Cortaram
toras de braúna para construir um caixão do tamanho de um cômodo, e foi
necessário um carro de boi com oito juntas de tração para levar o corpo até a
Matriz. Até hoje, quem percorre o chão de Itamarandiba diz que, em certos
pontos, as marcas profundas daquela carreta ainda são visíveis, como um sulco
de maldição gravado na terra.
O corpo foi
enterrado dentro da igreja, na esperança de que o poder das orações o
mantivesse em paz. Mas o que se viu depois foi uma sucessão de estranhezas, rachaduras
surgiam nas paredes, o cabelo do defunto aparecia misteriosamente nos lugares
mais inusitados, e o terror se instalou na comunidade. Anos mais tarde, quando
a antiga Matriz foi consumida por um incêndio misterioso, o povo não teve
dúvidas, era o Cão, dando o sinal de que o monstro ainda lá habitava.
Dizem que
o bicho não morreu de verdade. Ele vive nas frestas, nas rachaduras do
assoalho, manifestando-se na forma de formigas e tanajuras que saem debaixo da
terra. E quem ousa zombar, quem dorme sem oração, corre o risco de ver a
maldição despertar. Pois, como dizem os ancestrais, o monstro tem companhia, nas
noites de lua cheia, uma mulher de cinco metros de altura rodeia as ruínas da
igreja, à espera de quem se atreva a passar por perto sem a proteção da água
benta e de uma reza bem comprida.
Texto adaptado por Jô Pinto, com base no programa Terra
de Minas, exibido pela TV Globo.

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