Quando
falamos sobre a história da literatura brasileira, geralmente lembramos de
grandes escritores, poemas e romances que marcaram diferentes épocas. No
entanto, poucos conhecem uma publicação que desempenhou um papel importante na
formação da identidade cultural do país: a revista Nitheroy: Revista
Brasiliense, Sciencias, Letras e Artes.
Publicada
em Paris, em 1836, a revista surgiu em um momento em que o Brasil ainda buscava
consolidar sua identidade após a Independência, proclamada em 1822. Seu
objetivo era estimular reflexões sobre literatura, artes, ciência e sociedade,
contribuindo para o desenvolvimento intelectual e cultural da jovem nação.
A
criação da Nitheroy foi iniciativa de três intelectuais brasileiros
que viviam na Europa: Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo
Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem. Influenciados pelas ideias que
circulavam no continente europeu, eles acreditavam que o Brasil precisava
desenvolver uma produção cultural capaz de expressar suas próprias
características, sem depender exclusivamente dos modelos estrangeiros.
A
revista adotou como lema a frase “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”,
demonstrando seu compromisso com a valorização da cultura nacional. Embora
tenha tido apenas duas edições, sua importância histórica ultrapassou sua curta
existência. Os artigos publicados abordavam temas diversos. Além da literatura
e das artes, a revista trazia discussões sobre economia, comércio, ciência e
outros assuntos considerados fundamentais para o progresso do país. Essa
variedade revela uma característica marcante do período: a crença de que o
desenvolvimento de uma nação dependia tanto do crescimento material quanto do
fortalecimento da educação, da cultura e do conhecimento.
Entre
os textos mais relevantes publicados na Nitheroy está o “Ensaio sobre
a História da Literatura do Brasil”, escrito por Gonçalves de Magalhães. Nesse
trabalho, o autor defende a valorização da produção literária nacional e propõe
uma reflexão sobre os caminhos que a literatura brasileira deveria seguir. Suas
ideias contribuíram para a consolidação do movimento romântico no Brasil, que
ganharia força nas décadas seguintes.
Por
essa razão, a Nitheroy é frequentemente apontada pelos estudiosos como
uma publicação fundamental para a história da literatura brasileira e para o
desenvolvimento do Romantismo no país. Mais do que uma simples revista, ela
representou um esforço coletivo de pensar o Brasil a partir de sua própria
realidade cultural, em um período em que o país buscava afirmar sua identidade
também no campo das letras.
Quase
duzentos anos após sua publicação, a Nitheroy continua despertando o
interesse de pesquisadores e leitores. Sua trajetória demonstra como uma
iniciativa de curta duração pode deixar um legado duradouro, influenciando a
forma como uma nação compreende sua cultura, sua literatura e sua identidade.
Ao
revisitar a história dessa publicação, percebemos que a construção de uma
literatura nacional não acontece de forma repentina. Ela é resultado do
trabalho de escritores, pensadores e editores que acreditam na força da cultura
como elemento de transformação. Nesse sentido, a Nitheroy ocupa um
lugar de destaque na memória literária brasileira, não por ter sido a única
iniciativa de seu tempo, mas por ter ajudado a consolidar ideias que marcariam
profundamente a literatura produzida no Brasil ao longo do século XIX.
Referências
BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ
MINDLIN. Nitheroy, Revista Brasiliense (1836). Universidade de São
Paulo. Disponível em: https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/nitheroyrevista-brasiliense-1836/.
Acesso em: 3 jun. 2026.
BIBLIOTECA NACIONAL. Nitheroy:
Revista Brasiliense, Sciencias, Lettras e Artes. Acervo Digital da
Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://acervo.bn.gov.br.
Acesso em: 3 jun. 2026.
LOTUFO, Marcelo. Nitheroy, Revista
Brasiliense (1836): A Political Bridge Between Rio de Janeiro, Paris, and
Hispanic America. Journal of Lusophone Studies, v. 1, n. 1, 2016.
NITHEROY: Revista Brasiliense,
Sciencias, Letras e Artes. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836. Acervo Digital
da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1272.
Acesso em: 3 jun. 2026.
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