terça-feira, 19 de maio de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - João Jiló



para o lado do Jequitinhonha, havia um menino, atentado, malcriado, traquinas toda vida. O nome dele era João Jiló.

Estava na época de Semana Santa (lá no interior, dizem que, na época de Semana Santa, o pessoal costuma ficar quieto em casa, não fala alto, não liga rádio, ninguém casa, ninguém dança em época de Semana Santa). O João Jiló, atentado demais, cismou que ia sair para o mato para passarinhar. A mãe dele disse:

– Menino, ocê não vai não que vai acontecer alguma coisa ruim com cê, porque época de Semana Santa não é época da gente matar nada.

João Jiló, teimoso demais, pegou a espingardinha, colocou ela nas costas e saiu.

Andou, andou, andou... Chegou lá, tinha uma árvore alta e, no alto, tinha um passarinho. Era um passarinho diferente do que se estava acostumado a ver, mas o menino nem ligou. Pegou a espingardinha, assim, fez a mira e, quando ele foi pra puxar o gatilho, o passarinho cantou:

    Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

Mas o menino nem ligou para aquela cantoria, puxou o gatilho e derrubou o passarinho no chão. Ele foi se aproximando e, quando foi para apanhar o bichinho, não é que ele cantou de novo?

    Não me panha não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

O menino, que não estava nem aí para aquela cantoria, pegou o passarinho e pegou o caminho de casa. No meio do caminho, ele come-çou a pensar: Eu não vou levar esse passarinho pra casa não, porque mãe não vai deixar eu mexer nele. Eu vou arrumar ele aqui mesmo. Mas, quando ele foi arrancar a primeira pena do passarinho, olha a danada da cantoria aí de novo:

    Não me despena não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino depenou o passarinho; depois ele acendeu um fogo para sapecar o passarinho. Quando a chama estava alta, o menino foi para chegar o passarinho no fogo, a tal da cantoria de novo:

 

    Não me sapeca não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para aquela cantoria do passarinho e sapecou o bicho. Sapecou ele bem sapecadinho; depois correu com ele lá para o rio para partir o bicho. Mas ele foi para partir o passarinho, a tal da cantoria de novo:

      –  Não me parte não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino, que não estava nem aí, partiu o passarinho. Lavou ele bem lavadinho e depois deixou ele lá no sol uns dois dias secando. Depois do bichinho bem seco ainda era época de Semana Santa, ele foi para cozinha, escondido da mãe, para fritar. Colocou a gordura no fogo. Quando ela estava pipocando, que o menino foi para jogar o passarinho lá dentro, olha ele cantando de novo:

  Não me frita não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino fritou o passarinho, bem frito. Quando ele foi para comer, não é que ele cantou ainda pela derradeira vez?

  Não me come não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

E o menino não estava nem para o bicho cantando e comeu o passarinho. Mas depois que ele comeu o passarinho, a barriga dele começou a crescer, a estufar, até virar um mundo de barriga. de den-tro da barriga dele, começou a sair uma voz. A voz falava assim:

  Ui, ui, eu quero sair. O menino falou:

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Ah, se você quer sair, você sai.

  Ui, ui, eu quero sair.

  Não falei? Se você quer sair, você sai disse o menino.

De repente, TUUUMMM!!!!!! A barriga do menino estourou e o passarinho foi embora. E dizem que o passarinho está por aí até hoje, voando e cantando a tal da musiquinha:

  Não me mata não, João Jiló / aqui pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.

 

  Essa história foi contada pelo contador Francisco Lourenço Borges. E esta n livro  Histórias contadas no Jardim Mandala” Organizado por Josiley Souza - FALE/UFMG -  2018

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