Lá para o lado do Jequitinhonha, havia um menino,
atentado, malcriado, traquinas
toda vida. O nome dele era João Jiló.
Estava na
época de Semana Santa (lá no interior, dizem que, na época de Semana Santa, o
pessoal costuma ficar quieto em casa, não fala alto, não liga rádio, ninguém
casa, ninguém dança em época de Semana Santa). O João Jiló,
atentado demais, cismou
que ia sair para o mato para passarinhar. A mãe dele
disse:
– Menino, ocê
não vai não que vai acontecer alguma coisa ruim com cê, porque época de Semana
Santa não é época da gente matar nada.
João Jiló, teimoso demais,
pegou a espingardinha, colocou ela nas
costas e saiu.
Andou, andou, andou... Chegou lá, tinha uma árvore alta e, lá no alto,
tinha um passarinho. Era um passarinho diferente do que se estava acostumado a ver, mas o menino
nem ligou. Pegou
a espingardinha, assim, fez a mira e, quando ele foi pra puxar o
gatilho, o passarinho cantou:
–
Não me mata não, João Jiló / Tô aqui pra cantar,
João Jiló / Sou
bichim do mato, João Jiló / Para piá.
Mas o menino nem ligou para aquela cantoria, puxou o gatilho e derrubou o passarinho no chão.
Ele foi se aproximando e, quando foi para apanhar o bichinho, não é que ele
cantou de novo?
–
Não me panha não, João Jiló / Tô aqui pra cantar,
João Jiló / Sou
bichim do mato, João Jiló / Para piá.
O menino,
que não estava nem aí para aquela cantoria, pegou o passarinho e pegou o caminho de casa. No meio do caminho, ele come-çou a pensar: Eu não vou levar esse passarinho lá pra casa não, porque mãe não vai deixar eu mexer nele. Eu vou arrumar
ele aqui mesmo. Mas, quando ele foi arrancar a primeira pena do passarinho, olha a danada da
cantoria aí de novo:
–
Não me despena não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló /
Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.
E o menino depenou o passarinho; depois ele acendeu um fogo para
sapecar o passarinho. Quando a chama estava alta, o menino foi para chegar o
passarinho no fogo, a tal da cantoria de novo:
Não me sapeca não, João Jiló / Tô aqui
pra cantar, João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.
E o menino não estava nem aí para aquela cantoria
do passarinho e sapecou
o bicho. Sapecou
ele bem sapecadinho; depois correu com ele lá para o rio para partir o bicho. Mas
ele foi para partir o passarinho, a tal da cantoria de novo:
– Não me parte não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou
bichim do mato, João Jiló / Para piá.
E o menino,
que não estava nem aí, partiu o passarinho. Lavou ele bem lavadinho e depois
deixou ele lá no sol uns dois dias secando. Depois do bichinho bem seco – ainda era época de Semana Santa,
ele foi para cozinha,
escondido da mãe, para fritar.
Colocou a gordura
no fogo. Quando ela estava pipocando, que o menino foi para jogar o passarinho
lá dentro, olha ele cantando de novo:
– Não me frita não, João Jiló /
Tô aqui pra cantar,
João Jiló / Sou bichim do mato, João Jiló / Para piá.
E o menino
fritou o passarinho, bem frito. Quando ele foi para comer, não é que ele cantou
ainda pela derradeira vez?
– Não me come não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou
bichim do mato, João Jiló / Para piá.
E o menino não estava nem aí para o bicho cantando e comeu
o passarinho. Mas depois que ele comeu o passarinho, a barriga dele começou a crescer, a estufar, até virar um mundo de barriga. Lá de den-tro da barriga dele, começou a sair
uma voz. A voz falava assim:
– Ui, ui, eu quero sair.
O menino falou:
–
Ah, se você quer sair,
você sai.
– Ui, ui, eu
quero sair.
– Ah, se você quer sair, você
sai.
– Ui, ui, eu
quero sair.
– Não já falei? Se você quer sair, você sai – disse o menino.
De repente, TUUUMMM!!!!!!
A barriga do menino estourou e o passarinho foi embora. E dizem que o
passarinho está por aí até hoje, voando e cantando a tal da musiquinha:
– Não me mata não, João Jiló / Tô aqui pra cantar, João Jiló / Sou
bichim do mato, João Jiló / Para piá.

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