quarta-feira, 6 de maio de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Cidades históricas e à exclusão


As cidades históricas brasileiras são frequentemente apresentadas como joias do período colonial da nossa identidade nacional. Minas Novas, Diamantina, Ouro Preto, Paraty, Salvador, Olinda e tantas outras que encantam turistas com seus casarios coloniais, igrejas banhadas a ouro e ruas de pedra sabão. No entanto, existe um abismo ético entre a estética dessas fachadas e a memória do esforço humano que as ergueu. Ao vangloriar a herança arquitetônica europeia, o discurso oficial frequentemente higieniza a história, transformando o sangue e o suor de povos negros e indígenas em meras notas de rodapé ou, pior, em silêncio absoluto.

A beleza dessas cidades, celebrada por sua sofisticação técnica, é o resultado direto de um sistema de exploração extrema. Cada pedra colocada nos calçamentos chamados de pé de moleque e cada entalhe nas igrejas de Minas Gerais foram executados por mãos escravizadas que, ironicamente, eram impedidas de frequentar plenamente os espaços que construíam. A opulência das igrejas não era apenas uma homenagem ao divino, mas uma demonstração de poder das elites coloniais sobre a mão de obra negra e indígena.

Embora nomes como Aleijadinho tenham ganhado destaque, a vasta maioria dos mestres de obras, carpinteiros e pedreiros negros permanece no anonimato, sendo o mérito da civilização atribuído apenas aos colonizadores.

O problema não reside na preservação dos prédios, mas na forma como eles são narrados. O turismo cultural tende a focar no estilo artístico, enquanto negligencia o contexto sociopolítico.

 Muitas vezes, a escravidão é tratada como um período de transição necessário, e não como o crime humanitário que sustentou a economia daquelas cidades.

Já parou para pensar que antes do traçado urbano colonial, o território era habitado e manejado por povos originários, cujas tecnologias e conhecimentos geográficos foram apropriados e cujas vidas foram ceifadas pela expansão urbana e pelo genocídio.

Para que essas cidades deixem de ser apenas cenários de contemplação estética e passem a ser espaços de consciência, é preciso que a narrativa mude. Reconhecer o protagonismo negro e indígena não diminui o valor arquitetônico, mas confere a ele uma profundidade ética. É necessário destacar as rotas de fuga, os quilombos urbanos e a resistência cultural que pulsava nos subsolos e nas senzalas, à sombra dos casarões.

Somente quando admitirmos que o esplendor das nossas igrejas e palacetes está impregnado com o suor de quem foi desumanizado, poderemos olhar para o passado sem a cegueira do privilégio. A preservação deve servir não apenas para manter a pedra de pé, mas para manter viva a verdade sobre quem a carregou nas costas.


A história dos vencedores é escrita sobre o silêncio dos vencidos; a beleza das cidades históricas é a cicatriz de uma ferida que ainda não fechou.

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre em Ciências Humanas.

 

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