As cidades históricas
brasileiras são frequentemente apresentadas como joias do período colonial da
nossa identidade nacional. Minas Novas, Diamantina, Ouro Preto, Paraty,
Salvador, Olinda e tantas outras que encantam turistas com seus casarios
coloniais, igrejas banhadas a ouro e ruas de pedra sabão. No entanto, existe um
abismo ético entre a estética dessas fachadas e a memória do esforço humano que
as ergueu. Ao vangloriar a herança arquitetônica europeia, o discurso oficial
frequentemente higieniza a história, transformando o sangue e o suor de povos
negros e indígenas em meras notas de rodapé ou, pior, em silêncio absoluto.
A beleza dessas cidades,
celebrada por sua sofisticação técnica, é o resultado direto de um sistema de
exploração extrema. Cada pedra colocada nos calçamentos chamados de pé de
moleque e cada entalhe nas igrejas de Minas Gerais foram executados por mãos
escravizadas que, ironicamente, eram impedidas de frequentar plenamente os
espaços que construíam. A opulência das igrejas não era apenas uma homenagem ao
divino, mas uma demonstração de poder das elites coloniais sobre a mão de obra
negra e indígena.
Embora nomes como Aleijadinho
tenham ganhado destaque, a vasta maioria dos mestres de obras, carpinteiros e
pedreiros negros permanece no anonimato, sendo o mérito da civilização
atribuído apenas aos colonizadores.
O problema não reside na
preservação dos prédios, mas na forma como eles são narrados. O turismo
cultural tende a focar no estilo artístico, enquanto negligencia o contexto
sociopolítico.
Muitas vezes, a escravidão é tratada como um período
de transição necessário, e não como o crime humanitário que sustentou a
economia daquelas cidades.
Já parou para pensar que antes
do traçado urbano colonial, o território era habitado e manejado por povos
originários, cujas tecnologias e conhecimentos geográficos foram apropriados e
cujas vidas foram ceifadas pela expansão urbana e pelo genocídio.
Para que essas cidades deixem
de ser apenas cenários de contemplação estética e passem a ser espaços de
consciência, é preciso que a narrativa mude. Reconhecer o protagonismo negro e
indígena não diminui o valor arquitetônico, mas confere a ele uma profundidade
ética. É necessário destacar as rotas de fuga, os quilombos urbanos e a
resistência cultural que pulsava nos subsolos e nas senzalas, à sombra dos
casarões.
Somente quando admitirmos que o esplendor das nossas igrejas e palacetes está impregnado com o suor de quem foi desumanizado, poderemos olhar para o passado sem a cegueira do privilégio. A preservação deve servir não apenas para manter a pedra de pé, mas para manter viva a verdade sobre quem a carregou nas costas.
A história dos vencedores é escrita sobre o silêncio dos vencidos; a
beleza das cidades históricas é a cicatriz de uma ferida que ainda não fechou.
Jô Pinto – Itinga/MG
Quilombola, Professor, Historiador e Mestre em Ciências Humanas.

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