É
com profundo respeito e gratidão que Itinga se despede de Dalvina Soares
Pereira, carinhosamente conhecida por todos como Dalva.
Nascida na comunidade do Frade em 7 de novembro de 1942, Dalva construiu sua vida na comunidade da Água
Fria Fábrica. Foi casada com José Maria "Carnaval", com quem compartilhou a
dádiva de ter seis filhos e ver sua árvore familiar florescer.
Sua voz, marcante e potente, era a alma das nossas
tradições, ela estava presente nos terços e nas folias, mas era na Sexta-feira
Santa, durante a adoração do Senhor Morto, que o seu canto tocava o mais
profundo de nossos corações, com uma fé inabalável, ela entoava benditos, ladainhas e incelências, mantendo
viva a chama da nossa cultura e da religiosidade.
Seu valor imensurável para a nossa identidade foi
reconhecido ainda em vida, quando recebeu o prêmio da Política Nacional Aldir
Blanc, do Ministério da Cultura, Governo Federal, etapa do município de Itinga
em 2025, como "Mestra dos Benditos" uma honraria mais do que merecida
para quem dedicou a vida a guardar nossas memórias cantadas.
O nosso
eterno obrigado, Mestra Dalva.
Assim ela
descreveu seu amor ao cantos dos Benditos
Meu
nome é Dalvina, mas sou mais conhecida como Dalva. Sou uma das filhas de
Jusina. Eu e meus irmãos passávamos a noite nos presépios e, na Sexta-feira
Santa, ela ensinava a todos os filhos as rezas e os benditos, eu mesma comecei
a aprender quando tinha 9 anos e nunca mais parei.
Então, hoje continuo tendo aquele compromisso de cantar nos
presépios toda vez que me convidam, se eu estiver bem, vou com o maior prazer.
Mas a Semana Santa é o principal: toda sexta-feira, eu vou lá adorar o Senhor
Morto e cantar os benditos. Tem ano que não consigo ir devido à idade. Hoje são
poucas as pessoas que sabem os benditos antigos; eu e meus irmãos sempre
cantávamos, mas muitos deles já morreram: o Timirim, a Dê de Flora, a Dedê
(minha sobrinha) e a minha amiga Lozina. Mas hoje também está diferente: antes
a gente ficava a noite toda na igreja, e hoje não fica mais.
Eu me sinto bem. As pessoas gostam quando eu canto os
benditos, acham bonitos e isso também ajuda na fé das pessoas, na minha e na
dos outros. Eu canto por gosto, é uma forma de rezar, e acho que isso faz bem
para os outros.
Entrevista
feita por sua filha Rita para concorrer ao prêmio da Politica Nacional Aldir
Blanc do município de Itinga.
Para mim é uma despedida pela força da mulher negra que manteve viva a tradição dos benditos na sexta-feira santa, mas também como membro da família, ela foi s segunda esposa de meu avô.
Vai na luz!
A Mestra dos Benditos
Jô Pinto – Itinga/MG
Nasceu menina com os olhos atentos,
Ouvindo da mãe o que o tempo guardou.
Tinha nove anos, primeiros acentos,
E a voz de Jusina em sua alma ecoou.
Aprendeu a reza, o canto, o lamento,
E nunca mais a sua voz silenciou.
Caminha a noite nos Santos Presépios,
A fé é a vela que acende o olhar.
Se o corpo permite, vencendo o tempo,
Lá vai
a Dalvina, de pronto, cantar.
Na Sexta da Paixão, nos dias mais sérios,
Ao Senhor Morto ela vai adorar.
Chora a saudade de quem já partiu,
Do canto dos irmãos que o vento levou:
Que a morte apartou.
A igreja mudou, o silêncio caiu,
Mas dentro de Dalva o bendito ficou.
Pois poucos são hoje os que sabem o tom
E a nota antiga da reza fiel.
Um elo sagrado da terra com o céu.
Aos olhos do povo, traz paz ao rosto,
Erguendo da fé o mais lindo véu.
Cantadora da vida, da reza e do amor,
Que ajuda a alma do outro a crer.
Sua voz é remédio que acalma a dor,
É herança viva que não vai morrer,
Pois foi um dom dado por Deus, Nosso Senhor.
Link – Ela cantando o Bendito a Escrava
Feliciana

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