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| Produção da Rapadura no quilombo de Cabeceira do Zabelê Francisco Badaró/MG - Foto: Solange Santos |
A
rapadura no Vale do Jequitinhonha extrapola os limites do mero valor
alimentício para se firmar como um complexo artefato socioeconômico e cultural.
Em uma região historicamente marcada pela escassez de recursos e por desafios
estruturais, a transformação artesanal da cana-de-açúcar traduz-se em uma
estratégia secular de sobrevivência e preservação da memória. Nesse contexto, a
manutenção dos engenhos tradicionais não representa apenas a salvaguarda de um saber fazer ancestral, mas constitui também um pilar fundamental para o
desenvolvimento sustentável da agricultura familiar e para a afirmação da
identidade cultural mineira.
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Em primeira análise, cabe destacar a relevância histórica e
nutricional da produção artesanal de rapadura. Historicamente, a introdução dos
engenhos no Jequitinhonha respondeu à necessidade de conservar a energia
calórica dos alimentos em um formato durável e de fácil transporte pelas
estradas do interior. O processo produtivo que abrange a moagem da cana, a
evaporação do caldo em tachos aquecidos a lenha e a moldagem em formas de
madeira, rejeita expressamente o uso de aditivos químicos e a padronização
impostos pela indústria dos ultra processados. Sob a perspectiva gastronômica,
essa técnica preserva um alimento denso e rico em minerais essenciais, cujo
perfil sensorial expressa as singularidades do microclima e do manejo do solo
de cada comunidade rural. Além da dimensão produtiva, a
rapadura opera como um importante motor de dinamização socioeconômica e
cooperação comunitária. Fundamentada nos princípios da agricultura familiar e
da economia solidária, a rotina dos engenhos fomenta o trabalho compartilhado e
os mutirões, fortalecendo os laços de solidariedade entre os produtores locais.
Ademais, a capacidade de adaptação desses agricultores diante das exigências do
mercado contemporâneo expressa-se na diversificação do produto, a partir da
incorporação de ingredientes regionais como amendoim, coco e leite. Essa
inovação agrega valor à produção, gera renda e assegura a permanência com
dignidade do homem no campo. Por fim, a persistência dessa tradição configura um ato de
resistência cultural em um cenário de crescente homogeneização alimentar
global. A rapadura do Vale do Jequitinhonha atua como um patrimônio imaterial
vivo, conectando o território à memória coletiva de gerações. Portanto,
valorizar esse saber ancestral é indispensável para promover a soberania
alimentar, incentivar o desenvolvimento sustentável e reconhecer a riqueza
histórica das comunidades rurais do interior do Brasil. Por Jô Pinto Quilombola,
Professor, Historiador, Escritor/Poetas e Produtor Cultural |

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