quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Onde o sonho criou raiz: a estreia literária de Thaisa Martins


 

Com 110 páginas e reunindo dez contos, a obra foi lançada em 22 de agosto de 2026, no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), Campus Araçuaí, e também teve seu lançamento durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale, aproximando a nova publicação de leitores e leitoras e do movimento literário e cultural da região.

Mas, antes de existir o livro, existiam os cadernos.

Entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando tinha entre 8 e 11 anos, Thaisa criava histórias nos chamados “cadernos de redação”. Durante as férias escolares, ela e a irmã, lízian Martins ainda faziam comemorações em torno das experiências registradas nesses cadernos.

Naquele momento, ela não imaginava que aquelas histórias poderiam, décadas depois, transformar-se em um livro.

Hoje, olhando para trás, a autora reconhece naqueles cadernos as primeiras sementes de Onde o sonho criou raiz.

O tempo passou. Sua formação escolar, acadêmica e profissional foi conduzindo sua escrita para caminhos mais metódicos, e aquele universo imaginativo da infância acabou ficando distante.

Mas não desapareceu.

O reencontro com a literatura

O reencontro com a literatura começou a ganhar força em 2019, a partir da idealização de um dos clubes do projeto Leia Mulheres, em Araçuaí.

Vieram as oficinas de escrita literária, o contato com obras de autoras da região, a participação em eventos literários e a aproximação com o Movimento de Poetas e Escritores/as do Vale do Jequitinhonha.

Ao mesmo tempo, Thaisa ingressava no doutorado e aprofundava sua pesquisa sobre as escrevivências de mulheres negras.

Foi nesse cruzamento entre literatura, pesquisa, experiências coletivas e reconhecimento de si como mulher negra e escritora que o antigo desejo de publicar um livro começou a ganhar forma.

É desse encontro entre passado e presente que nasce Onde o sonho criou raiz.

Quando o sonho cria raiz

O título da obra carrega justamente essa relação entre a menina que escrevia e a mulher que, anos depois, voltou a se reconhecer como escritora.

Para Thaisa, o “sonho” representa o desejo antigo de escrever. A “raiz” se relaciona à ancestralidade, à memória e às pessoas que vieram antes dela.

As avós aparecem como referências importantes tanto no livro quanto em sua trajetória de pesquisa.

Por isso, quando a autora afirma que o sonho criou raiz, está falando também da possibilidade de aproximar duas versões de si mesma: a Thaisa criança e a Thaisa pesquisadora.

É um encontro entre o antes e o agora.

Dez contos, muitas histórias de mulheres

A obra reúne dez contos e apresenta ao leitor uma galeria de personagens femininas.

São mães, filhas, avós, irmãs, amantes e mulheres atravessadas por diferentes experiências, afetos, conflitos, desejos e dilemas.

Mas há uma característica importante nessa construção: nem sempre o leitor encontrará finais previsíveis.

No prefácio, escrito por Hérica Silva, os finais dos contos aparecem como possibilidades que podem ser felizes, inesperadas ou mesmo difíceis. E talvez seja justamente aí que a literatura de Thaisa encontre uma de suas características marcantes: não oferecer necessariamente aquilo que o leitor espera.

As histórias caminham entre o cotidiano, a memória e aquilo que muitas vezes permanece sem ser dito.

Que memórias permanecem na voz de uma avó?

O que acontece quando uma dor atravessa gerações?

Quantas histórias de mulheres permanecem escondidas porque nunca encontraram espaço para ser contadas?

São perguntas que podem acompanhar o leitor durante a leitura, sem revelar antecipadamente os enredos.

Um “grito ancestral”

Ainda se tratando da contribuição da Hérica Silva no prefácio,  ela utiliza uma expressão que chama atenção: “um grito ancestral”.

A expressão nasce de uma das histórias do livro, mas também pode ajudar a compreender o conjunto da obra.

A escrita reúne vozes femininas, memórias e experiências atravessadas por diferentes realidades sociais. Há delicadeza, mas também existem silêncios, perdas, conflitos e dores.

É uma escrita que permite que aquilo que ficou guardado encontre uma possibilidade de expressão.

Quando escrever também é viver

A trajetória de Thaisa Martins ajuda a compreender a importância da literatura em sua obra.

Sua participação no Leia Mulheres de Araçuaí, do qual foi uma das fundadoras na cidade e onde atua na coordenação, aproximou-a ainda mais da produção literária de autoria feminina.

O projeto promove encontros em torno de livros escritos por mulheres e tornou-se parte importante de seu reencontro com o universo literário.

Paralelamente, sua trajetória acadêmica levou-a a pesquisar mulheres negras e violência.

Em 2025, Thaisa concluiu o doutorado com a tese Erguendo a voz: um ensaio sobre o enfrentamento à violência através das escrevivências de mulheres negras.

É nesse percurso que aparece um conceito fundamental para compreender sua escrita: a escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo.

A escrevivência estabelece uma relação profunda entre escrita, experiência, memória e vida, especialmente a partir das experiências de mulheres negras.

Em Onde o sonho criou raiz, esse conceito atravessa a maneira como Thaisa olha para a literatura e para as personagens que constrói.

Entre a pesquisadora e a menina dos cadernos

Talvez uma das imagens mais bonitas para compreender o livro seja justamente o encontro entre essas duas Thaisas.

De um lado, a menina que criava histórias nos cadernos.

Do outro, a mulher que se tornou pesquisadora, doutora, leitora, integrante de um coletivo literário e agora escritora publicada.

O livro nasce desse encontro.

A própria autora reconhece que algumas escolhas de linguagem presentes nos contos não estão necessariamente submetidas à escrita acadêmica ou à chamada norma culta padrão.

A literatura permite experimentar, criar ritmos, aproximar-se da oralidade e encontrar outras maneiras de contar.

É como se a menina dos cadernos finalmente pudesse conversar com a pesquisadora.

E dessa conversa nasceu o livro.

Uma escritora do Vale

O lançamento em Araçuaí também situa a obra no território onde parte importante da trajetória literária da autora foi construída.

O Vale do Jequitinhonha possui uma produção cultural marcada por diferentes formas de expressão, e a literatura também faz parte desse cenário.

Thaisa Martins integra esse movimento por meio de sua atuação no Leia Mulheres de Araçuaí, de sua aproximação com escritores e escritoras da região e agora com a publicação de seu primeiro livro.

O lançamento de Onde o sonho criou raiz em Araçuaí e sua apresentação durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale colocam a obra em circulação entre leitores e leitoras do próprio território.

Para quem fica a dica?

Se você gosta de contos, literatura escrita por mulheres, histórias atravessadas por memória e ancestralidade, ou quer conhecer novas vozes da literatura produzida no Vale do Jequitinhonha, Onde o sonho criou raiz pode entrar na sua lista de leituras.

São dez histórias, mas muitas possibilidades de leitura.

Algumas podem provocar identificação. Outras podem causar desconforto. Algumas podem fazer o leitor lembrar de alguém. Outras talvez deixem uma pergunta que continua presente depois da última página.

E é isso que uma boa leitura faz: continua conversando com a gente mesmo depois que o livro é fechado.

A história por trás da história

Para conhecer um pouco mais sobre o caminho que levou Thaisa Martins dos cadernos da infância à publicação de seu primeiro livro, conversei com a autora sobre três aspectos fundamentais de sua trajetória: a origem do desejo de escrever, o significado do título e a presença da escrevivência em sua produção literária.

Nas respostas, Thaisa fala da menina que escrevia entre 1998 e 2001, do reencontro com a literatura a partir do Leia Mulheres, de sua pesquisa acadêmica e da descoberta de si mesma como mulher negra e escritora.

Ela também fala sobre suas avós, ancestralidade, resistência e sobre o compromisso de abordar questões de raça, gênero e classe sem abrir mão da imaginação e da leveza que acompanham o ato de criar histórias.

No fundo, suas respostas confirmam aquilo que o título já anuncia:

o sonho não ficou para trás. Ele criou raiz.


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