Com
110 páginas e reunindo dez contos, a obra foi lançada em 22 de agosto de 2026,
no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), Campus Araçuaí, e também
teve seu lançamento durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale, aproximando
a nova publicação de leitores e leitoras e do movimento literário e cultural da
região.
Mas,
antes de existir o livro, existiam os cadernos.
Entre
o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando tinha entre 8 e 11 anos,
Thaisa criava histórias nos chamados “cadernos de redação”. Durante as férias
escolares, ela e a irmã, lízian Martins ainda faziam comemorações em torno das
experiências registradas nesses cadernos.
Naquele
momento, ela não imaginava que aquelas histórias poderiam, décadas depois,
transformar-se em um livro.
Hoje,
olhando para trás, a autora reconhece naqueles cadernos as primeiras sementes
de Onde o sonho criou raiz.
O
tempo passou. Sua formação escolar, acadêmica e profissional foi conduzindo sua
escrita para caminhos mais metódicos, e aquele universo imaginativo da infância
acabou ficando distante.
Mas
não desapareceu.
O reencontro com a literatura
O
reencontro com a literatura começou a ganhar força em 2019, a partir da
idealização de um dos clubes do projeto Leia Mulheres, em Araçuaí.
Vieram
as oficinas de escrita literária, o contato com obras de autoras da região, a
participação em eventos literários e a aproximação com o Movimento de Poetas e
Escritores/as do Vale do Jequitinhonha.
Ao
mesmo tempo, Thaisa ingressava no doutorado e aprofundava sua pesquisa sobre as
escrevivências de mulheres negras.
Foi
nesse cruzamento entre literatura, pesquisa, experiências coletivas e
reconhecimento de si como mulher negra e escritora que o antigo desejo de
publicar um livro começou a ganhar forma.
É
desse encontro entre passado e presente que nasce Onde o sonho criou raiz.
Quando o sonho cria raiz
O
título da obra carrega justamente essa relação entre a menina que escrevia e a
mulher que, anos depois, voltou a se reconhecer como escritora.
Para
Thaisa, o “sonho” representa o desejo antigo de escrever. A “raiz” se relaciona
à ancestralidade, à memória e às pessoas que vieram antes dela.
As
avós aparecem como referências importantes tanto no livro quanto em sua
trajetória de pesquisa.
Por
isso, quando a autora afirma que o sonho criou raiz, está falando também da
possibilidade de aproximar duas versões de si mesma: a Thaisa criança e a
Thaisa pesquisadora.
É
um encontro entre o antes e o agora.
Dez contos, muitas histórias de mulheres
A
obra reúne dez contos e apresenta ao leitor uma galeria de personagens
femininas.
São
mães, filhas, avós, irmãs, amantes e mulheres atravessadas por diferentes
experiências, afetos, conflitos, desejos e dilemas.
Mas
há uma característica importante nessa construção: nem sempre o leitor
encontrará finais previsíveis.
No
prefácio, escrito por Hérica Silva, os finais dos contos aparecem como
possibilidades que podem ser felizes, inesperadas ou mesmo difíceis. E talvez
seja justamente aí que a literatura de Thaisa encontre uma de suas
características marcantes: não oferecer necessariamente aquilo que o leitor
espera.
As
histórias caminham entre o cotidiano, a memória e aquilo que muitas vezes
permanece sem ser dito.
Que
memórias permanecem na voz de uma avó?
O
que acontece quando uma dor atravessa gerações?
Quantas
histórias de mulheres permanecem escondidas porque nunca encontraram espaço
para ser contadas?
São
perguntas que podem acompanhar o leitor durante a leitura, sem revelar
antecipadamente os enredos.
Um “grito ancestral”
Ainda
se tratando da contribuição da Hérica Silva no prefácio, ela utiliza uma expressão que chama atenção:
“um grito ancestral”.
A
expressão nasce de uma das histórias do livro, mas também pode ajudar a
compreender o conjunto da obra.
A
escrita reúne vozes femininas, memórias e experiências atravessadas por
diferentes realidades sociais. Há delicadeza, mas também existem silêncios,
perdas, conflitos e dores.
É
uma escrita que permite que aquilo que ficou guardado encontre uma
possibilidade de expressão.
Quando escrever também é viver
A
trajetória de Thaisa Martins ajuda a compreender a importância da literatura em
sua obra.
Sua
participação no Leia Mulheres de Araçuaí, do qual foi uma das fundadoras na
cidade e onde atua na coordenação, aproximou-a ainda mais da produção literária
de autoria feminina.
O
projeto promove encontros em torno de livros escritos por mulheres e tornou-se
parte importante de seu reencontro com o universo literário.
Paralelamente,
sua trajetória acadêmica levou-a a pesquisar mulheres negras e violência.
Em
2025, Thaisa concluiu o doutorado com a tese Erguendo a voz: um ensaio sobre
o enfrentamento à violência através das escrevivências de mulheres negras.
É
nesse percurso que aparece um conceito fundamental para compreender sua
escrita: a escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição
Evaristo.
A
escrevivência estabelece uma relação profunda entre escrita, experiência,
memória e vida, especialmente a partir das experiências de mulheres negras.
Em
Onde o sonho criou raiz, esse conceito atravessa a maneira como Thaisa
olha para a literatura e para as personagens que constrói.
Entre a pesquisadora e a menina dos cadernos
Talvez
uma das imagens mais bonitas para compreender o livro seja justamente o
encontro entre essas duas Thaisas.
De
um lado, a menina que criava histórias nos cadernos.
Do
outro, a mulher que se tornou pesquisadora, doutora, leitora, integrante de um
coletivo literário e agora escritora publicada.
O
livro nasce desse encontro.
A
própria autora reconhece que algumas escolhas de linguagem presentes nos contos
não estão necessariamente submetidas à escrita acadêmica ou à chamada norma
culta padrão.
A
literatura permite experimentar, criar ritmos, aproximar-se da oralidade e
encontrar outras maneiras de contar.
É
como se a menina dos cadernos finalmente pudesse conversar com a pesquisadora.
E
dessa conversa nasceu o livro.
Uma escritora do Vale
O
lançamento em Araçuaí também situa a obra no território onde parte importante
da trajetória literária da autora foi construída.
O
Vale do Jequitinhonha possui uma produção cultural marcada por diferentes
formas de expressão, e a literatura também faz parte desse cenário.
Thaisa
Martins integra esse movimento por meio de sua atuação no Leia Mulheres de
Araçuaí, de sua aproximação com escritores e escritoras da região e agora com a
publicação de seu primeiro livro.
O
lançamento de Onde o sonho criou raiz em Araçuaí e sua apresentação
durante a 3ª FLIPAMPÃ – Em Fronteiras do Vale colocam a obra em circulação
entre leitores e leitoras do próprio território.
Para quem fica a dica?
Se
você gosta de contos, literatura escrita por mulheres, histórias atravessadas
por memória e ancestralidade, ou quer conhecer novas vozes da literatura
produzida no Vale do Jequitinhonha, Onde o sonho criou raiz pode entrar
na sua lista de leituras.
São
dez histórias, mas muitas possibilidades de leitura.
Algumas
podem provocar identificação. Outras podem causar desconforto. Algumas podem
fazer o leitor lembrar de alguém. Outras talvez deixem uma pergunta que
continua presente depois da última página.
E
é isso que uma boa leitura faz: continua conversando com a gente mesmo depois
que o livro é fechado.
A história por trás da história
Para
conhecer um pouco mais sobre o caminho que levou Thaisa Martins dos cadernos da
infância à publicação de seu primeiro livro, conversei com a autora sobre três
aspectos fundamentais de sua trajetória: a origem do desejo de escrever, o
significado do título e a presença da escrevivência em sua produção literária.
Nas
respostas, Thaisa fala da menina que escrevia entre 1998 e 2001, do reencontro
com a literatura a partir do Leia Mulheres, de sua pesquisa acadêmica e da
descoberta de si mesma como mulher negra e escritora.
Ela
também fala sobre suas avós, ancestralidade, resistência e sobre o compromisso
de abordar questões de raça, gênero e classe sem abrir mão da imaginação e da
leveza que acompanham o ato de criar histórias.
No
fundo, suas respostas confirmam aquilo que o título já anuncia:
o sonho não ficou para trás. Ele criou raiz.
Por

