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| Boi Coquis de Rubim - Foto: Jô Pinto |
O sol de janeiro no Vale do
Jequitinhonha não apaga o brilho das madrugadas. Ele acorda o sertão com o
repicar do triângulo, o estrondo grave da caixa e a sanfona arfante que embala
a poeira das ruas. É o tempo de dar passagem à criatura de armação de taquara,
couro e pano chita estampado: o Boi de Janeiro.
A história do Boi de Janeiro se
trança nas veredas da colonização brasileira. À medida que a pecuária se
expandia pelos sertões do Nordeste e subia pelas margens do Rio São Francisco e
do Rio Jequitinhonha, os caminhos do gado e os passos dos vaqueiros desenharam
uma geografia festiva.
A figura do boi chegou ao Vale entre
os séculos XIX e início do XX, trazida por tropeiros, vaqueiros e migrantes que
cruzavam as fronteiras com a Bahia. Em cidades como Pedra Azul, Jequitinhonha,
Itaobim, Rubim, Salto da Divisa e outras, a devoção católica às Folias de Reis
encontrou o folguedo popular. O boi renasceu nos braços de mestres artesãos e
foliões populares, que montavam a armação de bambu e cobriam a figura sagrada e
profana para reinar nos primeiros dias do ano.
O Boi de Janeiro do Jequitinhonha é
irmão em matiz e raiz do Bumba Meu Boi maranhense e do Boi-Bumbá amazônico.
Todos nascem do mesmo matriz sincrética, a fusão das tradições ibéricas dos
autos ibero-medievais, a espiritualidade indígena e os ritmos e batuques dos
povos africanos escravizados.
Entretanto, enquanto o Bumba Meu Boi
do Nordeste se estrutura em uma narrativa dramática (com os personagens do Pai
Francisco, da Mãe Catirina e a ressurreição ritual do boi), e o Boi-Bumbá do
Norte se expande nas grandes arenas operísticas de Parintins, o Boi de Janeiro
se moldou à alma mineira e ao ciclo dos Santos Reis.
Sincronia Festiva é diferente do Bumba Meu Boi, que costuma desfile nas festas
juninas (São João), o Boi do Vale surge exclusivamente no ciclo de Natal e
Reis, entre os dias 1º e 6 de janeiro.
Profano e Sagrado, ele é guiado pelos mestres de folia e reiseiros, ao mesmo tempo que pede bênçãos e
orações de casa em casa, incita a folia nas praças.
No Vale do Jequitinhonha, o Boi de
Janeiro é um acontecimento comunitário e itinerante, ele não pertence a palcos
fixos, a rua é seu terreiro, e a porta das casas, seu altar.
O boi é geralmente confeccionado com
armação leve de bambu, taquara e ripa de madeira, coberta por um vistoso tecido
de chitão estampado. A cabeça costuma ser o crânio real de um bovino ou
esculpida com esmero.
O boi é acompanhamento por músicos tocando sanfona, caixa, bumbo, pandeiro, triângulo e gaitas. A contradança e os versos improvisados pelos Mestres dão o tom. E tem também a Boneca-Gigante, onde os nomes variam, Maria Manteiga, A Maria Tereza, Nega Maluca, figura pitoresca com corpo de balaio e taquara, roupas coloridas e peruca, que dança em miudinho acompanhando as investidas do boi.
A
Brincadeira acontece quando o boi corre atrás das crianças e dos
adultos, dando marradas imaginárias, simulando susto e coragem na comunidade.
Nas noites festivas, o mestre puxa os
versos saudando os moradores:
"Lá vem o sol, lá vem a lua,
Lá vem Boi de Janeiro passeando pela rua..."
E quando o dono da casa recebe a comitiva e contribui
com a folia, os reiseiros entoam a benção de despedida:
"Deus lhe pague a tua esmola,
Deus lhe dê muito o que dá...
No reino do só se vendo."
A festa atinge seu clímax em 6 de
janeiro (Dia de Reis). Em algumas cidades do Vale, ocorre a tradicional "Repartição
do Boi", um ritual simbólico e cantado em que as partes do animal são
ironicamente distribuídas entre os moradores e figuras proeminentes da cidade,
mesclando humor, crítica social e celebração da partilha comunitária.
O Boi de Janeiro não é apenas uma
máscara ou uma carcaça de pano, é a própria identidade sertaneja que ganha
vida, lembrando que a arte no Jequitinhonha nasce da simplicidade, da fé e do
abraço coletivo.
Jô Pinto – Itinga/MG
Quilombola, Professor, Historiador, Escritor/Poeta
e Produtor Cultural

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