terça-feira, 20 de outubro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Encanto do Boi de Janeiro do Vale do Jequitinhonha

Boi Coquis de Rubim - Foto: Jô Pinto

O sol de janeiro no Vale do Jequitinhonha não apaga o brilho das madrugadas. Ele acorda o sertão com o repicar do triângulo, o estrondo grave da caixa e a sanfona arfante que embala a poeira das ruas. É o tempo de dar passagem à criatura de armação de taquara, couro e pano chita estampado: o Boi de Janeiro.

A história do Boi de Janeiro se trança nas veredas da colonização brasileira. À medida que a pecuária se expandia pelos sertões do Nordeste e subia pelas margens do Rio São Francisco e do Rio Jequitinhonha, os caminhos do gado e os passos dos vaqueiros desenharam uma geografia festiva.

A figura do boi chegou ao Vale entre os séculos XIX e início do XX, trazida por tropeiros, vaqueiros e migrantes que cruzavam as fronteiras com a Bahia. Em cidades como Pedra Azul, Jequitinhonha, Itaobim, Rubim, Salto da Divisa e outras, a devoção católica às Folias de Reis encontrou o folguedo popular. O boi renasceu nos braços de mestres artesãos e foliões populares, que montavam a armação de bambu e cobriam a figura sagrada e profana para reinar nos primeiros dias do ano.

O Boi de Janeiro do Jequitinhonha é irmão em matiz e raiz do Bumba Meu Boi maranhense e do Boi-Bumbá amazônico. Todos nascem do mesmo matriz sincrética, a fusão das tradições ibéricas dos autos ibero-medievais, a espiritualidade indígena e os ritmos e batuques dos povos africanos escravizados.

Entretanto, enquanto o Bumba Meu Boi do Nordeste se estrutura em uma narrativa dramática (com os personagens do Pai Francisco, da Mãe Catirina e a ressurreição ritual do boi), e o Boi-Bumbá do Norte se expande nas grandes arenas operísticas de Parintins, o Boi de Janeiro se moldou à alma mineira e ao ciclo dos Santos Reis.

Sincronia Festiva é diferente do Bumba Meu Boi, que costuma desfile nas festas juninas (São João), o Boi do Vale surge exclusivamente no ciclo de Natal e Reis, entre os dias 1º e 6 de janeiro.

Profano e Sagrado, ele é guiado pelos mestres de folia e reiseiros, ao mesmo tempo que pede bênçãos e orações de casa em casa, incita a folia nas praças.

No Vale do Jequitinhonha, o Boi de Janeiro é um acontecimento comunitário e itinerante, ele não pertence a palcos fixos, a rua é seu terreiro, e a porta das casas, seu altar.

O boi é geralmente confeccionado com armação leve de bambu, taquara e ripa de madeira, coberta por um vistoso tecido de chitão estampado. A cabeça costuma ser o crânio real de um bovino ou esculpida com esmero.

O  boi é acompanhamento por músicos tocando sanfona, caixa, bumbo, pandeiro, triângulo e gaitas. A contradança e os versos improvisados pelos Mestres dão o tom. E tem também a Boneca-Gigante, onde os nomes variam, Maria Manteiga, A Maria Tereza, Nega Maluca, figura pitoresca com corpo de balaio e taquara, roupas coloridas e peruca, que dança em miudinho acompanhando as investidas do boi.

A Brincadeira acontece quando o boi corre atrás das crianças e dos adultos, dando marradas imaginárias, simulando susto e coragem na comunidade.

Nas noites festivas, o mestre puxa os versos saudando os moradores:

"Lá vem o sol, lá vem a lua,

Lá vem Boi de Janeiro passeando pela rua..."

E quando o dono da casa recebe a comitiva e contribui com a folia, os reiseiros entoam a benção de despedida:

"Deus lhe pague a tua esmola,

Deus lhe dê muito o que dá...

No reino do só se vendo."

A festa atinge seu clímax em 6 de janeiro (Dia de Reis). Em algumas cidades do Vale, ocorre a tradicional "Repartição do Boi", um ritual simbólico e cantado em que as partes do animal são ironicamente distribuídas entre os moradores e figuras proeminentes da cidade, mesclando humor, crítica social e celebração da partilha comunitária.

O Boi de Janeiro não é apenas uma máscara ou uma carcaça de pano, é a própria identidade sertaneja que ganha vida, lembrando que a arte no Jequitinhonha nasce da simplicidade, da fé e do abraço coletivo.

 

Jô Pinto – Itinga/MG

Quilombola, Professor, Historiador, Escritor/Poeta e Produtor Cultural

 


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