Há lugares que a gente conhece. Há lugares que a gente carrega.
Para
Cláudio Bento, Jequitinhonha é mais do que o lugar onde nasceu. É memória,
infância, rio, cinema, comida, festas, personagens, poesia. É uma cidade que,
mesmo pertencendo ao passado, continua vivendo dentro dele.
“Jequitinhonha
é a minha ternura de infância”, diz o poeta.
Nascido
em 8 de outubro de 1959, no nordeste de Minas Gerais, Cláudio Bento teve seu
primeiro contato com a poesia ainda menino, no Grupo Escolar Nuno Melo. Desde
então, construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à
literatura, passando também pela música, pela composição, pelas oficinas e
pelos movimentos culturais.
Mas,
antes do poeta, existe o menino.
E
é justamente por ele que esta conversa começa.
A infância tinha cheiro
de rio
A
avó de Cláudio era lavadeira. E quase todos os dias o levava para a ribeira.
Ali,
o menino convivia com as mulheres que lavavam roupas enquanto cantavam músicas
que, segundo ele, “só elas sabiam”. Convivia também com os canoeiros, que
traziam peixes, frutas e verduras e dividiam com as lavadeiras na beira do rio.
Havia
ainda os pescadores e os tropeiros.
Os
tropeiros chegavam de longas viagens e acampavam nas brancas areias da praia. À
noite, acendiam fogueiras, tocavam violão, cozinhavam e bebiam sob as estrelas.
Era
uma Jequitinhonha pequena, bela, de casario histórico. Mas, entre tantas
lembranças, algumas permanecem especialmente nítidas.
As
velas multicoloridas das canoas.
As
garças brancas pousando na areia e nas pedras.
O
boi de janeiro pelas ruas.
A
folia de reis cantando na sala de sua casa.
Os
carnavais de mascarados.
“Se
eu não tivesse vivenciado e bebido dessa riqueza cultural, eu não seria o poeta
que sou hoje.”
O dia em que a poesia
mostrou que podia vencer a morte
O primeiro encontro com a
literatura aconteceu ainda na escola.
No final das aulas, a
professora escolhia aleatoriamente um aluno para ler um poema de um pequeno
livro que reunia nomes como Castro Alves, Olavo Bilac, Viriato Corrêa, Antero
de Quental, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes.
Cláudio leu “Navio
Negreiro”, “Meus oito anos”, “Canção do Exílio” e “Ou isto ou aquilo”.
Mas o que realmente o
marcou veio depois.
Ele descobriu que aqueles
poetas já haviam morrido.
E, mesmo assim, ele
estava ali, dentro de uma sala de aula, lendo suas obras.
Foi então que percebeu na
literatura uma espécie de permanência.
“Eu pressenti naquilo uma
forma ainda que efêmera de ser eterno.”
Se aqueles poetas estavam
mortos e continuavam sendo lidos, ele também queria um dia se tornar poeta para
que alguém pudesse ler sua obra depois de sua morte.
Mas o caminho não foi
imediato.
Antes dos vinte anos, ele
conta que não tinha estilo nem uma temática definida. Foi quando descobriu
Manuel Bandeira e encontrou nos poemas modernistas do autor um caminho
possível.
Depois veio outra
descoberta: para escrever, era preciso ler muito.
Não somente poesia, mas
romances, crônicas, biografias, revistas e jornais.
Mais tarde, a leitura de Poema
Sujo, de Ferreira Gullar, seria decisiva.
Foi ali que encontrou,
definitivamente, sua temática.
A infância.
“É de fato um manancial
inesgotável de criação literária e poética.”
A cidade que continua
existindo
Existe uma Jequitinhonha
que não ficou para trás.
Ela continua vivendo
dentro do poeta.
É a cidade onde o Bicho
de Pedra Azul vinha balançar o pé de algodão no quintal. Onde os meninos
soltavam barquinhos de papel nas enxurradas. Onde as meninas brincavam de roda
ao entardecer.
É a cidade que se
alegrava com a chegada do circo.
Onde havia matinês no
cinema.
Onde o menino ficava no
alto das barrancas olhando a areia branca da praia e o espelho d’água do rio.
Onde as procissões
serpenteavam pelos becos.
“Jequitinhonha não é
apenas o lugar onde nasci, mas uma forma constante de dourar a memória do
mundo.”
Talvez seja por isso que,
em sua poesia, a cidade apareça tantas vezes.
Não como cenário.
Mas como memória.
Os personagens que
entraram pela porta de casa
Alguns dos personagens
que aparecem na memória de Cláudio não eram figuras distantes. Eram pessoas que
faziam parte do cotidiano de sua família.
Joaquim Tatiaia,
idealizador da folia do boi de janeiro, era amigo de sua avó e muitas vezes
entrava na casa para tomar um café e conversar.
Sua avó também era amiga
de Ambrósio, mestre da folia de reis.
Havia Chico Tejo, que
guiava um carro de boi pela cidade, e Orlando Furini, carnavalesco e personagem
importante dos carnavais.
Era esse “amálgama
cultural” que estava ao redor do menino.
E foi essa convivência
que ajudou a formar sua sensibilidade para admirar e respeitar a cultura
popular de sua terra.
Cláudio também lembra de
um tempo em que ninguém chamava aquelas manifestações de “folclore”.
O boi de janeiro e a
folia de reis simplesmente faziam parte da vida.
A cultura era vivida.
Era cotidiana.
Era viva.
Ele recorda uma frase de
Frei Chico: “chamar de folclore a cultura de um povo, é uma triste forma de
discriminação”.
Para Cláudio, “a cultura
não é plástica, ela é viva, e pulsa.”
O cinema, a avó e o homem
que virou cachorro
Entre as lembranças da
infância, há uma personagem central: sua avó.
Ela era indígena e analfabeta.
Sabia escrever apenas o próprio nome.
Mas levava o neto ao
cinema todos os dias.
O cinema era o lazer
possível de uma época remota e, para Cláudio, tornou-se também uma importante
formação.
Ele viu filmes do
Neorrealismo italiano, do Avant-Garde francês, do Cinema Novo brasileiro,
filmes mexicanos, westerns americanos, pornochanchadas e filmes de Mazzaropi.
A influência do cinema
ajudaria a dar à sua poesia uma característica muito particular.
Uma poesia imagética.
Panorâmica.
Uma poesia em que, às
vezes, o “ver” é mais simbolicamente importante que o “sentir”.
Mas a memória da avó
também passa pela comida.
Torresmo fazia parte da
alimentação diária.
E, como ela recebia
muitos peixes dos canoeiros, peixe também estava quase todos os dias à mesa.
Piau, timburé, piabanha,
piampara, traíra, piaba, lambari, cascudo e roncador.
Peixe frito.
Peixe cozido.
Tudo feito, segundo ele,
com esmero e carinho.
E então aparece uma das
histórias mais curiosas dessa memória.
Um canoeiro chamado
Berrador contava que, à meia-noite de uma sexta-feira da Paixão, um homem muito
distinto, vestido de terno de linho, gravata-borboleta e chapéu Panamá, bateu à
sua porta.
O homem pediu para
atravessar o rio.
Berrador pegou o remo e o
levou até a outra margem.
Durante a travessia,
conversaram sobre a vida, a seca e a falta de chuva.
Quando chegaram, o homem
pediu que a travessia fosse colocada na conta dos Antunes.
E então aconteceu o
inesperado.
O homem virou um cachorro
enorme e desapareceu na escuridão do mato e da noite.
O rio que atravessou o
poeta
O rio Jequitinhonha não
aparece apenas na poesia de Cláudio.
Ele atravessou sua
própria vida.
Era espaço de
convivência.
Era estrada.
As viagens eram feitas de
canoa. Parte do comércio acontecia pelo curso do rio, do litoral para o
interior e do interior para o litoral.
Até estudantes viajavam
de canoa para estudar no Colégio Nazaré, em Araçuaí.
E foi justamente às
margens desse rio que nasceu o primeiro poema de Cláudio.
Ele estava sentado na
areia, observando as muitas canoas abandonadas nas barrancas, quando surgiu a
ideia de escrever “Canoa Quebrada”.
Mais tarde, o poema virou
música, com composição de Rubens Espíndola.
A canção participou do
terceiro Festival da Canção do Festivale, em 1982, em Itaobim, ficando entre as
dez finalistas.
Não era pouco.
Entre os concorrentes
estavam nomes como Rubinho do Vale e Heitor Pedra Azul.
O rio, naquele momento,
não era apenas lembrança.
Era também o começo de
uma trajetória.
Do búzio ao oceano
A relação de Cláudio com
o oceano também começou na infância.
Na sala de sua casa havia
um grande búzio sobre a mesa de centro.
Quando colocado no
ouvido, o som parecia o barulho do mar.
Ele nunca havia ouvido o
mar.
Mas sua avó dizia que
aquele era o barulho do mar.
O oceano passou a ocupar
um lugar simbólico em sua vida.
Para ele, foi através do
mar que a cultura negra chegou ao país e também por ele vieram culturas que
enriqueceram a história brasileira.
Há ainda a beleza, o
mistério e o símbolo de fé.
Sempre que está diante do
oceano, Cláudio diz viver um momento de reflexão.
E também de respeito aos
orixás do candomblé, ao pular as sete ondas.
Quando algumas tradições
começaram a desaparecer
Nem tudo permaneceu.
Cláudio olha para as
manifestações culturais de sua infância e percebe mudanças profundas.
O boi de janeiro, que
antes era uma festa popular de grande magnitude, tinha cordões imensos e
provocava grande exaltação do público.
Hoje, ele sente tristeza
ao ver os bois na rua sem a valorização que deveriam receber.
As folias de reis
desapareceram.
As festas de largo, como
as de Iemanjá e Cosme e Damião, tornaram-se praticamente inexistentes.
Para o poeta, muita coisa
mudou.
Outras coisas
desapareceram “no limbo do progresso”.
Um Vale de encantamento
Durante muito tempo, o
Vale do Jequitinhonha foi apresentado principalmente pela pobreza e pela
carência.
A poesia de Cláudio
escolhe outro caminho.
O Vale que ele procura
apresentar é um vale de encantamento.
Um lugar de memória.
De paisagens
arrebatadoras.
Um lugar digno para
viver.
Porque, para ele, o
orgulho de ser do Vale não vem da pobreza.
Vem da cultura.
Da música.
Da poesia.
Do artesanato.
Das raízes profundas.
“Todo filho do vale tem
orgulho de ser do vale.”
O poeta do mimeógrafo
A poesia de Cláudio
também nasceu junto com o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.
Os primeiros dois
Festivales já haviam acontecido em 1980 e 1981.
Os primeiros livros eram
feitos artesanalmente, rodados em mimeógrafo, muitas vezes sem revisão e sem
maiores cuidados.
As dificuldades eram grandes.
Cláudio e o poeta
Wellington Miranda precisavam pedir papel e cartolina na prefeitura para
imprimir os livros.
Era uma época de sonhos.
E também de ditadura.
Para eles, literatura e
arte eram formas possíveis de resistência.
Ser poeta naquele momento
era ser visto como marginal.
Não havia crédito.
E, como ele conta, os
jovens cabeludos ainda eram considerados “maconheiros em potencial”.
Mas veio a primeira Antologia
Poética do Vale do Jequitinhonha, reunindo cinco poetas da região.
A publicação tornou-se um
divisor de águas para a literatura produzida no Vale e influenciou inúmeros
poetas a escrever e trabalhar com poesia.
Quatro décadas depois
O menino que começou
lendo poemas em uma sala de aula chegou muito mais longe do que imaginava.
Cláudio reconhece que sua
poesia mudou com o tempo, com a leitura e com a maturidade.
Mas ele próprio diz que
não era o único a perceber essa transformação.
Críticos literários,
poetas e professores como Pollyanna de Matos Vecchio, Marli Fróes, João
Evangelista Rodrigues, Wesley Pioest e Heloísa Buarque de Holanda estão entre
os nomes citados por ele.
E há uma frase que resume
bem essa trajetória:
“Eu não acreditava que
aqueles livrinhos mimeografados me levassem a algum lugar.”
Ainda bem que estava
enganado.
“A poesia já me deu muito
mais do que eu esperava dela.”
E talvez a própria
entrevista seja uma prova disso.
Quando o poema vira
música
A literatura, para
Cláudio, nunca esteve isolada.
A relação com a música é,
como ele define, “intrínseca”.
Desde o início havia um
sonho: ouvir um poema seu transformado em música.
O sonho se realizou.
E foi além.
Ele tornou-se parceiro de
muitos compositores do Vale e também de fora dele.
Poesia e música caminham
juntas em sua trajetória.
A poesia como lugar de
memória
Pode um poema preservar a
memória de uma comunidade?
Para Cláudio, sim.
Um poema pode ser um
“artefato de preservação da memória”.
Ele considera a
literatura do Vale muito forte porque a vivência da região é única e sua
cultura possui nuances que não são facilmente encontradas em outras culturas.
Mas há também uma
preocupação.
É preciso união.
Foi por isso que surgiu a
ideia de criar a Associação de Poetas, depois de uma viagem a Salvador com a
poeta Herena Barcelos.
Criar antologias.
Fortalecer a Noite
Literária do Festivale.
Promover mais oficinas de
literatura.
Não apenas durante o
Festivale, mas no cotidiano das cidades da região.
Porque preservar a
memória também significa mantê-la viva.
A imagem que ficou
Depois de tantas
histórias, tantas décadas e tantos versos, resta uma pergunta: se fosse
possível deixar apenas uma imagem da Jequitinhonha para as próximas gerações,
qual seria?
A resposta de Cláudio não
poderia estar mais ligada àquilo que atravessa toda a sua trajetória.
O rio.
As canoas.
A praia.
As garças sobrevoando as
águas.
É uma imagem que, segundo
ele, hoje se tornou impossível.
E sua resposta termina
com uma crítica à realidade atual, atribuída à ação do poder e à incompetência
dos gestores municipais.
Mas a imagem permanece.
O rio.
As canoas.
As garças.
E, entre elas, a memória
de um menino que um dia descobriu que os poetas podiam morrer e, ainda assim,
continuar vivos.
Depois da conversa
Há poetas que escrevem
sobre um lugar.
Cláudio Bento parece
escrever a partir dele.
Em sua poesia,
Jequitinhonha não aparece apenas como cenário. Está nas ruas, no rio, nas
casas, nos quintais, nos sabores, nas festas, nos personagens e, sobretudo, nas
lembranças de quem viveu aquele lugar.
Ao revisitar a infância e
sua trajetória de mais de quatro décadas na literatura, Cláudio Bento mostra
que a poesia também pode ser uma maneira de guardar aquilo que o tempo
transforma.
O canoeiro, a avó, o
tamarindeiro, o cais, a comida, a brincadeira no rio e tantos outros elementos
do cotidiano tornam-se palavras e, assim, continuam existindo.
Talvez seja essa uma das
maiores forças de sua obra: transformar a memória em poesia e fazer da poesia
uma casa para a memória.
E, enquanto houver versos
para contar, aquela Jequitinhonha continuará navegando.
Para não deixar o rio
partir
Ao ouvir Cláudio Bento,
fica a impressão de que algumas cidades não desaparecem completamente. Elas
mudam de lugar. Saem das ruas, das festas, das canoas e das margens do rio e
passam a morar na memória de quem as viveu.
É assim que Jequitinhonha
aparece em sua trajetória: como lembrança, mas também como matéria viva de
poesia.
Talvez seja esse o poder
da literatura de Cláudio. Fazer com que uma lavadeira continue cantando, que
uma canoa ainda atravesse o rio, que as garças continuem sobrevoando a praia e
que uma infância, mesmo distante no tempo, possa novamente ser visitada.
No fim da conversa, fica
uma imagem.
O rio, as canoas, a praia
e as garças.
Uma paisagem que o poeta
sabe que já não existe como antes, mas que permanece inteira em sua memória.
E talvez seja justamente
por isso que ele continua escrevendo.
Para que aquilo que o
tempo levou não desapareça por completo.
Para que Jequitinhonha
continue existindo.
Ao menos enquanto houver
alguém disposto a lembrá-la.
E enquanto houver poesia,
o rio ainda estará correndo.
Por Solange Santos
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