quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entre a memória e a poesia: Claudio Bento e a Jequitinhonha que continua vivendo dentro dele

 

Há lugares que a gente conhece. Há lugares que a gente carrega.

Para Cláudio Bento, Jequitinhonha é mais do que o lugar onde nasceu. É memória, infância, rio, cinema, comida, festas, personagens, poesia. É uma cidade que, mesmo pertencendo ao passado, continua vivendo dentro dele.

“Jequitinhonha é a minha ternura de infância”, diz o poeta.

Nascido em 8 de outubro de 1959, no nordeste de Minas Gerais, Cláudio Bento teve seu primeiro contato com a poesia ainda menino, no Grupo Escolar Nuno Melo. Desde então, construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à literatura, passando também pela música, pela composição, pelas oficinas e pelos movimentos culturais.

Mas, antes do poeta, existe o menino.

E é justamente por ele que esta conversa começa.

 

A infância tinha cheiro de rio

A avó de Cláudio era lavadeira. E quase todos os dias o levava para a ribeira.

Ali, o menino convivia com as mulheres que lavavam roupas enquanto cantavam músicas que, segundo ele, “só elas sabiam”. Convivia também com os canoeiros, que traziam peixes, frutas e verduras e dividiam com as lavadeiras na beira do rio.

Havia ainda os pescadores e os tropeiros.

Os tropeiros chegavam de longas viagens e acampavam nas brancas areias da praia. À noite, acendiam fogueiras, tocavam violão, cozinhavam e bebiam sob as estrelas.

Era uma Jequitinhonha pequena, bela, de casario histórico. Mas, entre tantas lembranças, algumas permanecem especialmente nítidas.

As velas multicoloridas das canoas.

As garças brancas pousando na areia e nas pedras.

O boi de janeiro pelas ruas.

A folia de reis cantando na sala de sua casa.

Os carnavais de mascarados.

“Se eu não tivesse vivenciado e bebido dessa riqueza cultural, eu não seria o poeta que sou hoje.”

 

O dia em que a poesia mostrou que podia vencer a morte

O primeiro encontro com a literatura aconteceu ainda na escola.

No final das aulas, a professora escolhia aleatoriamente um aluno para ler um poema de um pequeno livro que reunia nomes como Castro Alves, Olavo Bilac, Viriato Corrêa, Antero de Quental, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes.

Cláudio leu “Navio Negreiro”, “Meus oito anos”, “Canção do Exílio” e “Ou isto ou aquilo”.

Mas o que realmente o marcou veio depois.

Ele descobriu que aqueles poetas já haviam morrido.

E, mesmo assim, ele estava ali, dentro de uma sala de aula, lendo suas obras.

Foi então que percebeu na literatura uma espécie de permanência.

“Eu pressenti naquilo uma forma ainda que efêmera de ser eterno.”

Se aqueles poetas estavam mortos e continuavam sendo lidos, ele também queria um dia se tornar poeta para que alguém pudesse ler sua obra depois de sua morte.

Mas o caminho não foi imediato.

Antes dos vinte anos, ele conta que não tinha estilo nem uma temática definida. Foi quando descobriu Manuel Bandeira e encontrou nos poemas modernistas do autor um caminho possível.

Depois veio outra descoberta: para escrever, era preciso ler muito.

Não somente poesia, mas romances, crônicas, biografias, revistas e jornais.

Mais tarde, a leitura de Poema Sujo, de Ferreira Gullar, seria decisiva.

Foi ali que encontrou, definitivamente, sua temática.

A infância.

“É de fato um manancial inesgotável de criação literária e poética.”

 

A cidade que continua existindo

Existe uma Jequitinhonha que não ficou para trás.

Ela continua vivendo dentro do poeta.

É a cidade onde o Bicho de Pedra Azul vinha balançar o pé de algodão no quintal. Onde os meninos soltavam barquinhos de papel nas enxurradas. Onde as meninas brincavam de roda ao entardecer.

É a cidade que se alegrava com a chegada do circo.

Onde havia matinês no cinema.

Onde o menino ficava no alto das barrancas olhando a areia branca da praia e o espelho d’água do rio.

Onde as procissões serpenteavam pelos becos.

“Jequitinhonha não é apenas o lugar onde nasci, mas uma forma constante de dourar a memória do mundo.”

Talvez seja por isso que, em sua poesia, a cidade apareça tantas vezes.

Não como cenário.

Mas como memória.

 

Os personagens que entraram pela porta de casa

Alguns dos personagens que aparecem na memória de Cláudio não eram figuras distantes. Eram pessoas que faziam parte do cotidiano de sua família.

Joaquim Tatiaia, idealizador da folia do boi de janeiro, era amigo de sua avó e muitas vezes entrava na casa para tomar um café e conversar.

Sua avó também era amiga de Ambrósio, mestre da folia de reis.

Havia Chico Tejo, que guiava um carro de boi pela cidade, e Orlando Furini, carnavalesco e personagem importante dos carnavais.

Era esse “amálgama cultural” que estava ao redor do menino.

E foi essa convivência que ajudou a formar sua sensibilidade para admirar e respeitar a cultura popular de sua terra.

Cláudio também lembra de um tempo em que ninguém chamava aquelas manifestações de “folclore”.

O boi de janeiro e a folia de reis simplesmente faziam parte da vida.

A cultura era vivida.

Era cotidiana.

Era viva.

Ele recorda uma frase de Frei Chico: “chamar de folclore a cultura de um povo, é uma triste forma de discriminação”.

Para Cláudio, “a cultura não é plástica, ela é viva, e pulsa.”

 

O cinema, a avó e o homem que virou cachorro

Entre as lembranças da infância, há uma personagem central: sua avó.

Ela era indígena e analfabeta. Sabia escrever apenas o próprio nome.

Mas levava o neto ao cinema todos os dias.

O cinema era o lazer possível de uma época remota e, para Cláudio, tornou-se também uma importante formação.

Ele viu filmes do Neorrealismo italiano, do Avant-Garde francês, do Cinema Novo brasileiro, filmes mexicanos, westerns americanos, pornochanchadas e filmes de Mazzaropi.

A influência do cinema ajudaria a dar à sua poesia uma característica muito particular.

Uma poesia imagética.

Panorâmica.

Uma poesia em que, às vezes, o “ver” é mais simbolicamente importante que o “sentir”.

Mas a memória da avó também passa pela comida.

Torresmo fazia parte da alimentação diária.

E, como ela recebia muitos peixes dos canoeiros, peixe também estava quase todos os dias à mesa.

Piau, timburé, piabanha, piampara, traíra, piaba, lambari, cascudo e roncador.

Peixe frito.

Peixe cozido.

Tudo feito, segundo ele, com esmero e carinho.

E então aparece uma das histórias mais curiosas dessa memória.

Um canoeiro chamado Berrador contava que, à meia-noite de uma sexta-feira da Paixão, um homem muito distinto, vestido de terno de linho, gravata-borboleta e chapéu Panamá, bateu à sua porta.

O homem pediu para atravessar o rio.

Berrador pegou o remo e o levou até a outra margem.

Durante a travessia, conversaram sobre a vida, a seca e a falta de chuva.

Quando chegaram, o homem pediu que a travessia fosse colocada na conta dos Antunes.

E então aconteceu o inesperado.

O homem virou um cachorro enorme e desapareceu na escuridão do mato e da noite.

 

O rio que atravessou o poeta

O rio Jequitinhonha não aparece apenas na poesia de Cláudio.

Ele atravessou sua própria vida.

Era espaço de convivência.

Era estrada.

As viagens eram feitas de canoa. Parte do comércio acontecia pelo curso do rio, do litoral para o interior e do interior para o litoral.

Até estudantes viajavam de canoa para estudar no Colégio Nazaré, em Araçuaí.

E foi justamente às margens desse rio que nasceu o primeiro poema de Cláudio.

Ele estava sentado na areia, observando as muitas canoas abandonadas nas barrancas, quando surgiu a ideia de escrever “Canoa Quebrada”.

Mais tarde, o poema virou música, com composição de Rubens Espíndola.

A canção participou do terceiro Festival da Canção do Festivale, em 1982, em Itaobim, ficando entre as dez finalistas.

Não era pouco.

Entre os concorrentes estavam nomes como Rubinho do Vale e Heitor Pedra Azul.

O rio, naquele momento, não era apenas lembrança.

Era também o começo de uma trajetória.

 

Do búzio ao oceano

A relação de Cláudio com o oceano também começou na infância.

Na sala de sua casa havia um grande búzio sobre a mesa de centro.

Quando colocado no ouvido, o som parecia o barulho do mar.

Ele nunca havia ouvido o mar.

Mas sua avó dizia que aquele era o barulho do mar.

O oceano passou a ocupar um lugar simbólico em sua vida.

Para ele, foi através do mar que a cultura negra chegou ao país e também por ele vieram culturas que enriqueceram a história brasileira.

Há ainda a beleza, o mistério e o símbolo de fé.

Sempre que está diante do oceano, Cláudio diz viver um momento de reflexão.

E também de respeito aos orixás do candomblé, ao pular as sete ondas.

 

Quando algumas tradições começaram a desaparecer

Nem tudo permaneceu.

Cláudio olha para as manifestações culturais de sua infância e percebe mudanças profundas.

O boi de janeiro, que antes era uma festa popular de grande magnitude, tinha cordões imensos e provocava grande exaltação do público.

Hoje, ele sente tristeza ao ver os bois na rua sem a valorização que deveriam receber.

As folias de reis desapareceram.

As festas de largo, como as de Iemanjá e Cosme e Damião, tornaram-se praticamente inexistentes.

Para o poeta, muita coisa mudou.

Outras coisas desapareceram “no limbo do progresso”.

 

Um Vale de encantamento

Durante muito tempo, o Vale do Jequitinhonha foi apresentado principalmente pela pobreza e pela carência.

A poesia de Cláudio escolhe outro caminho.

O Vale que ele procura apresentar é um vale de encantamento.

Um lugar de memória.

De paisagens arrebatadoras.

Um lugar digno para viver.

Porque, para ele, o orgulho de ser do Vale não vem da pobreza.

Vem da cultura.

Da música.

Da poesia.

Do artesanato.

Das raízes profundas.

“Todo filho do vale tem orgulho de ser do vale.”

 

O poeta do mimeógrafo

A poesia de Cláudio também nasceu junto com o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

Os primeiros dois Festivales já haviam acontecido em 1980 e 1981.

Os primeiros livros eram feitos artesanalmente, rodados em mimeógrafo, muitas vezes sem revisão e sem maiores cuidados.

As dificuldades eram grandes.

Cláudio e o poeta Wellington Miranda precisavam pedir papel e cartolina na prefeitura para imprimir os livros.

Era uma época de sonhos.

E também de ditadura.

Para eles, literatura e arte eram formas possíveis de resistência.

Ser poeta naquele momento era ser visto como marginal.

Não havia crédito.

E, como ele conta, os jovens cabeludos ainda eram considerados “maconheiros em potencial”.

Mas veio a primeira Antologia Poética do Vale do Jequitinhonha, reunindo cinco poetas da região.

A publicação tornou-se um divisor de águas para a literatura produzida no Vale e influenciou inúmeros poetas a escrever e trabalhar com poesia.

 

Quatro décadas depois

O menino que começou lendo poemas em uma sala de aula chegou muito mais longe do que imaginava.

Cláudio reconhece que sua poesia mudou com o tempo, com a leitura e com a maturidade.

Mas ele próprio diz que não era o único a perceber essa transformação.

Críticos literários, poetas e professores como Pollyanna de Matos Vecchio, Marli Fróes, João Evangelista Rodrigues, Wesley Pioest e Heloísa Buarque de Holanda estão entre os nomes citados por ele.

E há uma frase que resume bem essa trajetória:

“Eu não acreditava que aqueles livrinhos mimeografados me levassem a algum lugar.”

Ainda bem que estava enganado.

“A poesia já me deu muito mais do que eu esperava dela.”

E talvez a própria entrevista seja uma prova disso.

 

Quando o poema vira música

A literatura, para Cláudio, nunca esteve isolada.

A relação com a música é, como ele define, “intrínseca”.

Desde o início havia um sonho: ouvir um poema seu transformado em música.

O sonho se realizou.

E foi além.

Ele tornou-se parceiro de muitos compositores do Vale e também de fora dele.

Poesia e música caminham juntas em sua trajetória.

 

A poesia como lugar de memória

Pode um poema preservar a memória de uma comunidade?

Para Cláudio, sim.

Um poema pode ser um “artefato de preservação da memória”.

Ele considera a literatura do Vale muito forte porque a vivência da região é única e sua cultura possui nuances que não são facilmente encontradas em outras culturas.

Mas há também uma preocupação.

É preciso união.

Foi por isso que surgiu a ideia de criar a Associação de Poetas, depois de uma viagem a Salvador com a poeta Herena Barcelos.

Criar antologias.

Fortalecer a Noite Literária do Festivale.

Promover mais oficinas de literatura.

Não apenas durante o Festivale, mas no cotidiano das cidades da região.

Porque preservar a memória também significa mantê-la viva.

 

A imagem que ficou

Depois de tantas histórias, tantas décadas e tantos versos, resta uma pergunta: se fosse possível deixar apenas uma imagem da Jequitinhonha para as próximas gerações, qual seria?

A resposta de Cláudio não poderia estar mais ligada àquilo que atravessa toda a sua trajetória.

O rio.

As canoas.

A praia.

As garças sobrevoando as águas.

É uma imagem que, segundo ele, hoje se tornou impossível.

E sua resposta termina com uma crítica à realidade atual, atribuída à ação do poder e à incompetência dos gestores municipais.

Mas a imagem permanece.

O rio.

As canoas.

As garças.

E, entre elas, a memória de um menino que um dia descobriu que os poetas podiam morrer e, ainda assim, continuar vivos.

 

Depois da conversa

Há poetas que escrevem sobre um lugar.

Cláudio Bento parece escrever a partir dele.

Em sua poesia, Jequitinhonha não aparece apenas como cenário. Está nas ruas, no rio, nas casas, nos quintais, nos sabores, nas festas, nos personagens e, sobretudo, nas lembranças de quem viveu aquele lugar.

Ao revisitar a infância e sua trajetória de mais de quatro décadas na literatura, Cláudio Bento mostra que a poesia também pode ser uma maneira de guardar aquilo que o tempo transforma.

O canoeiro, a avó, o tamarindeiro, o cais, a comida, a brincadeira no rio e tantos outros elementos do cotidiano tornam-se palavras e, assim, continuam existindo.

Talvez seja essa uma das maiores forças de sua obra: transformar a memória em poesia e fazer da poesia uma casa para a memória.

E, enquanto houver versos para contar, aquela Jequitinhonha continuará navegando.

 

Para não deixar o rio partir

Ao ouvir Cláudio Bento, fica a impressão de que algumas cidades não desaparecem completamente. Elas mudam de lugar. Saem das ruas, das festas, das canoas e das margens do rio e passam a morar na memória de quem as viveu.

É assim que Jequitinhonha aparece em sua trajetória: como lembrança, mas também como matéria viva de poesia.

Talvez seja esse o poder da literatura de Cláudio. Fazer com que uma lavadeira continue cantando, que uma canoa ainda atravesse o rio, que as garças continuem sobrevoando a praia e que uma infância, mesmo distante no tempo, possa novamente ser visitada.

No fim da conversa, fica uma imagem.

O rio, as canoas, a praia e as garças.

Uma paisagem que o poeta sabe que já não existe como antes, mas que permanece inteira em sua memória.

E talvez seja justamente por isso que ele continua escrevendo.

Para que aquilo que o tempo levou não desapareça por completo.

Para que Jequitinhonha continue existindo.

Ao menos enquanto houver alguém disposto a lembrá-la.

E enquanto houver poesia, o rio ainda estará correndo.

 

Por Solange Santos



 

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