terça-feira, 22 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - Palhaço


 

Soaram as trombetas.

Brilhava o circo com suas luzes multicores.

As arquibancadas estavam superlotadas para grande espetáculo. Verdadeiro entusiasmo empolgava a multidão. Dentro de alguns minutos variam em pessoa o incomparável "Farrú", o palhaço estupendo que encarna-va o demônio e se transformava em um santo.

Enquanto o povo vibrava ansioso para o momento das incontroláveis gargalhadas, Farrú velava o corpo da esposa amada.

Num modesto quarto de pensão chorava ele... chorava desesperado, ao lado da que dormia para não mais acordar.

Enterrado numa velha poltrona traspassado pela dor, deixou a imaginação confusa volver ao passado:

"Aconteceu há dois anos. Trabalhava com o Gran Circo Dois Mundos. Era um guapo rapaz de vinte e três anos; bonitão, elegante e querido demais. Percorria o sul do país.

Caminhando despreocupado postara-se um dia à porta de uma igreja. Sentindo-se atraído pela quietude da. quele ambiente, ali penetrou e ajoelhando-se diante da Imagem da Virgem, disse-lhe numa prece:

Senhora, a vida é boa. Tenho tudo o que desejo, todos me querem bem mas falta-me algo para a felicidade completa...

Subitamente sentiu um suave perfume ao seu lado. Também ajoelhada, fitando piedosamente a Santa Imagem estava uma jovem elegante, uma beleza divinal. Parecia toda luz.

Tentara em vão desviar os olhos da encantadora criatura, que ruborizou-se no vé-lo, Fitando-o, também ficou perturbada...

Saindo de mansinho esperou-a la fora e falou-lhe Bruscamente:

Perdoa me senhorita, mas eu estou atordoado. Creia-me, jamais fui atingido por um sentimento tão forte. Você iluminou minha vida, Debalde tentarei prosseguir sozinho. Diga-me seu nome, se aceita-me e o que me é dado realizar para merecer o seu amor. Buscarei a lua e as estrelas. Desafiarei o universo inteiro. Vencerei o demônio e tornar-me-ei um santo...

Presa de emoção, respondeu-lhe a jovem:

Márcia é o nome que recebi no batismo. Não sei porque, você parece diferente de toda a gente que conheço...

Tomando-a pelas mãos suplicara-lhe:

Corramos a seus pais e recebamos as bênçãos do Senhor.

Loucura! Meu pai é rico e mau. Quer forçar-me a desposar um velho devasso, alto funcionário público.

Caminharam pelo parque deserto. Trocaram beijos devoradores nos quais se sentia a fusão das próprias almas.

Fugiram no dia seguinte.

Viveram plenamente a vida, alheios aos preconceitos. Entregaram-se ao mais puro amor. Três meses depois, já bem distante, casaram-se.

Retornou ao circo. Jamais existiu maior felicidade.

-Morte impiedosa, porque  arrancaste de mim que a amo tanto?...

Bateram à porta.

Era o diretor do circo com outras pessoas. Farrú em prantos recebeu as condolências.

Amigo, disse-lhe o diretor - precisamos de ti por um momento. Compreendemos e sentimos a tua dor, mas o público exige tua presença.

-Como posso eu?... perguntou entrecortando as palavras.  não é por ti nem por mim, atalhou o diretor. É pelo povo que te ama... é pelo povo que te aclama. Sa-crifica-te, não mates a ilusão de milhares que te esperam. Iremos nós, tu e eu. Ficam os amigos com a pobre Márcia.

De longe ouviam-se os gritos da multidão ansiosa.

Soaram novamente as trombetas.

Silêncio...

A banda de música entoou a tradicional marcha, anunciando a entrada do "Palhaço".

Agora já podiam ver o fabuloso "Farrú" em carne e osso.

Andava devagar. Cabisbaixo. Com as pernas trêmulas, mudo, enxugava os olhos. Chorava.

Todos os presentes retumbaram o circo com palmas, vivas e gargalhadas. Nunca se apresentara tão cômico... O espetáculo atingia o clímax.

Chegou ao centro e parou. Olhando triste a imensa plateia falou com voz comovida:

"Obrigado amigos. Pode a alma sofrer mas o corpo está em forma".

Deu uma gargalhada e caiu...

O "corpo em forma" jazia inanimado, enquanto a "alma sofredora" voou feliz para a Bem-Amada.


Conto do livro “ Caminhos Estranhos” da escritora de Virgem da Lapa, Carmelina Murta Glória.



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  Soaram as trombetas. Brilhava o circo com suas luzes multicores. As arquibancadas estavam superlotadas para grande espetáculo. Verdade...