Soaram as trombetas.
Brilhava o circo com suas luzes multicores.
As arquibancadas estavam superlotadas para grande espetáculo.
Verdadeiro entusiasmo empolgava a multidão. Dentro de alguns minutos variam em
pessoa o incomparável "Farrú", o palhaço estupendo que encarna-va o
demônio e se transformava em um santo.
Enquanto o povo vibrava ansioso para o momento das incontroláveis
gargalhadas, Farrú velava o corpo da esposa amada.
Num modesto quarto de pensão chorava ele... chorava desesperado, ao
lado da que dormia para não mais acordar.
Enterrado numa velha poltrona traspassado pela dor, deixou a imaginação
confusa volver ao passado:
"Aconteceu há dois anos. Trabalhava com o Gran Circo Dois Mundos.
Era um guapo rapaz de vinte e três anos; bonitão, elegante e querido demais.
Percorria o sul do país.
Caminhando despreocupado postara-se um dia à porta de uma igreja.
Sentindo-se atraído pela quietude da. quele ambiente, ali penetrou e
ajoelhando-se diante da Imagem da Virgem, disse-lhe numa prece:
Senhora, a vida é boa. Tenho tudo o que desejo, todos me querem bem mas
falta-me algo para a felicidade completa...
Subitamente sentiu um suave perfume ao seu lado. Também ajoelhada,
fitando piedosamente a Santa Imagem estava uma jovem elegante, uma beleza
divinal. Parecia toda luz.
Tentara em vão desviar os olhos da encantadora criatura, que
ruborizou-se no vé-lo, Fitando-o, também ficou perturbada...
Saindo de mansinho esperou-a la fora e falou-lhe Bruscamente:
Perdoa me senhorita, mas eu estou atordoado. Creia-me, jamais fui
atingido por um sentimento tão forte. Você iluminou minha vida, Debalde
tentarei prosseguir sozinho. Diga-me seu nome, se aceita-me e o que me é dado
realizar para merecer o seu amor. Buscarei a lua e as estrelas. Desafiarei o
universo inteiro. Vencerei o demônio e tornar-me-ei um santo...
Presa de emoção, respondeu-lhe a jovem:
Márcia é o nome que recebi no batismo. Não sei porque, você parece
diferente de toda a gente que conheço...
Tomando-a pelas mãos suplicara-lhe:
Corramos a seus pais e recebamos as bênçãos do Senhor.
Loucura! Meu pai é rico e mau. Quer forçar-me a desposar um velho
devasso, alto funcionário público.
Caminharam pelo parque deserto. Trocaram beijos devoradores nos quais
se sentia a fusão das próprias almas.
Fugiram no dia seguinte.
Viveram plenamente a vida, alheios aos preconceitos. Entregaram-se ao
mais puro amor. Três meses depois, já bem distante, casaram-se.
Retornou ao circo. Jamais existiu maior felicidade.
-Morte impiedosa, porque arrancaste de mim que a amo tanto?...
Bateram à porta.
Era o diretor do circo com outras pessoas. Farrú em prantos recebeu as
condolências.
Amigo, disse-lhe o diretor - precisamos de ti por um momento.
Compreendemos e sentimos a tua dor, mas o público exige tua presença.
-Como posso eu?... perguntou entrecortando as palavras. não é por ti nem por mim, atalhou o diretor. É
pelo povo que te ama... é pelo povo que te aclama. Sa-crifica-te, não mates a
ilusão de milhares que te esperam. Iremos nós, tu e eu. Ficam os amigos com a
pobre Márcia.
De longe ouviam-se os gritos da multidão ansiosa.
Soaram novamente as trombetas.
Silêncio...
A banda de música entoou a tradicional marcha, anunciando a entrada do
"Palhaço".
Agora já podiam ver o fabuloso "Farrú" em carne e osso.
Andava devagar. Cabisbaixo. Com as pernas trêmulas, mudo, enxugava os
olhos. Chorava.
Todos os presentes retumbaram o circo com palmas, vivas e gargalhadas.
Nunca se apresentara tão cômico... O espetáculo atingia o clímax.
Chegou ao centro e parou. Olhando triste a imensa plateia falou com voz
comovida:
"Obrigado amigos. Pode a alma sofrer mas o corpo está em
forma".
Deu uma gargalhada e caiu...
O "corpo em forma" jazia inanimado, enquanto a "alma
sofredora" voou feliz para a Bem-Amada.
Conto do
livro “ Caminhos Estranhos” da escritora de Virgem da Lapa, Carmelina Murta Glória.


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