terça-feira, 29 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Pote de ouro

Seu Eugênio era um homem de uma única paixão: o brilho do ouro e o peso frio das moedas, em vida, não gastava um centavo com luxos, nem mesmo com o básico. Vivia em uma casa caindo aos pedaços, comia o pão mais duro e vestia trapos esfarrapados. Para ele, cada moeda poupada era uma vitória contra a miséria que tanto temia, embora a verdadeira miséria estivesse instalada em sua própria alma. O seu maior tesouro, um pesado pote de barro recheado de reluzentes peças de ouro, estava enterrado sob as raízes de uma velha mangueira, nos fundos do quintal.

Quando a morte o levou de repente, sem tempo para confissões ou arrependimentos, o seu espírito recusou-se a partir. Preso à terra pelo forte laço da ganância, vagava pela propriedade como uma sombra fria e lamuriosa.

Certa noite, o espírito de Seu Eugênio apareceu para o velho Cipriano, o seu fiel e mal pago empregado, que continuava a cuidar do sítio abandonado. Com a voz cavernosa e o rosto pálido como a lua, o fantasma ordenou: Cipriano, meu bom rapaz... Minha alma não tem descanso porque o ouro está preso à terra, vá até a velha mangueira, cave fundo e desenterre o meu pote. Mas preste bem atenção: só podes retirá-lo depois da meia-noite, se fores antes, perderás tudo.

Cipriano, tomado de um misto de pavor e da esperança de finalmente mudar de vida, aceitou a incumbência.

Quando os ponteiros do relógio da igreja marcaram exatamente meia-noite, Cipriano,  já estava de pé, armado com uma enxada e uma lanterna a óleo. O vento soprava uivante, balançando os galhos da mangueira como braços fantasmagóricos. O coração do empregado batia descompassado no peito.

Assim que cravou a primeira pásada na terra seca, as assombrações começaram, a temperatura despencou drasticamente, fazendo sua respiração virar fumaça; uivos estridentes ecoaram por entre as árvores, como se dezenas de almas penadas estivessem sofrendo ao seu redor. De repente, a lanterna piscou e quase se apagou.

Cipriano olhou para o chão e viu a terra começar a se mexer sozinha. Formas disformes e escuras ergueram-se do solo, sussurrando maldições em seus ouvidos, tentando fazê-lo largar a ferramenta. Risadas sádicas ecoavam na escuridão e pedras invisíveis começaram a chover ao seu redor. O medo era paralisante, o suor frio escorria por sua testa, mas a lembrança do ouro o empurrava para a frente.

Com um grito de coragem, Cipriano deu a última enxadada. A lâmina bateu com um som metálico estridente!

Ele havia achado, e com as mãos trêmulas e usando apenas os dedos para raspar a terra, Cipriano puxou para fora um pote de barro pesado e empoeirado.

Ofegante, com o coração quase saltando pela boca e as visões desaparecendo com os primeiros raios de luz da madrugada que se aproximavam, sentou-se na grama e retirou a tampa de madeira do pote. Ele fechou os olhos, sorriu aliviado e imaginou a fortuna que estava prestes a ver.

Mas, ao olhar para o interior do pote, o sorriso congelou em seu rosto.

Não havia ouro. O pote estava completamente cheio de cinzas cinzentas e ossos humanos triturados, os restos mortais da própria família de Seu Eugênio, que ele havia deixado morrer de fome e abandono décadas atrás, trocando a vida deles por moedas que nunca existiram de verdade.

Enquanto Cipriano recuava, horrorizado e sufocado pelo cheiro fétido de sepultura, o espírito de Seu Eugênio materializou-se diante dele. O velho não trazia o semblante de um fantasma assustador, mas sim um sorriso desfigurado e sutil, banhado em lágrimas de pura loucura.

— O ouro nunca importou, Cipriano... sibilou a voz espectral, ecoando direto na mente do empregado. — Eu não guardava riquezas. Eu guardava o meu próprio inferno. E agora... você abriu a tampa. O tesouro passou a ser seu.

No segundo seguinte, o pote dissolveu-se em fumaça, que penetrou violentamente pela boca e pelos olhos de Cipriano. O empregado caiu de joelhos, gritando em agonia, enquanto sentia a própria ganância e o peso dos pecados de Eugênio corromperem sua alma para toda a eternidade. Quando o sol finalmente nasceu, já não era mais o mesmo; era apenas mais uma sombra silenciosa e vazia, condenada a guardar o nada e sua ganância sob a velha mangueira.

 

Por: Jô Pinto


Este conto é muito comum em cidades do Vale do Jequitinhonha. Fiz esta adaptação a partir dos relatos do canoeiro Tionil, de Itinga, em uma das muitas conversas que tive com ele.

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