Mais tarde, sua
trajetória seguiria por caminhos diversos. Graduou-se em Filosofia pela PUC
Minas e passou a atuar como produtora cultural, agente cultural, pesquisadora
popular, escritora e cronista, mantendo como eixo de seu trabalho a memória e a
cultura do Jequitinhonha.
É membro fundadora da
Associação dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha e da Academia de
Letras do Vale do Jequitinhonha -ALVA, onde ocupa a Cadeira nº 12.
Mas talvez sua relação
com a cultura possa ser compreendida por uma frase simples que aparece em sua
própria fala:
“Eu vivo dentro desse
ambiente.”
Uma cidade que carrega
muitas histórias
Para compreender a
escrita de Deyse, é preciso compreender também o lugar de onde ela vem.
Minas Novas aparece em
seu relato como uma cidade de forte tradição cultural, marcada por festas
religiosas, música, manifestações populares, vida política, produção
intelectual e uma arquitetura que guarda parte de sua história.
É também uma cidade que
mudou.
Deyse observa essas
transformações a partir de uma memória construída na infância. Fala dos
casarões que foram derrubados, das construções modernas que passaram a ocupar
seus lugares e de uma forma de viver que, aos poucos, foi desaparecendo.
Ela se lembra de um tempo
em que as pessoas se sentavam nas portas das casas, nas janelas ou nos bancos
das praças. Um tempo de conversas demoradas, de histórias contadas oralmente e
de uma convivência mais próxima.
Hoje, segundo ela, a
relação com a cidade é outra.
A cultura de massa ocupa
espaços cada vez maiores e as novas tecnologias modificaram também a maneira
como as pessoas se relacionam com as histórias.
“Hoje as pessoas estão
ligadas mais ao celular e não têm paciência de ouvir tantas histórias.”
É justamente nesse ponto
que sua escrita ganha outra dimensão.
Deyse não escreve somente
para recordar.
Ela escreve porque sabe
que o que existe hoje também poderá desaparecer amanhã.
Janelas azuis: quando a
arquitetura vira memória
Em 2024, Deyse publicou Janelas
Azuis, livro de poemas que estabelece uma relação direta com Minas Novas.
O título nasce de uma
característica presente na arquitetura da cidade: as janelas azuis que aparecem
em antigas casas, sobrados, igrejas e também em construções da zona rural.
Mas, para a escritora,
essas janelas são muito mais do que elementos arquitetônicos.
Elas são portas para a
memória.
“Nessas janelas azuis vêm
lembranças de todos os sentidos”, conta. São lembranças da
infância, da escola, das festas e das pessoas.
Por isso, Deyse define as
janelas como uma espécie de passagem para a memória afetiva.
“Essas janelas azuis são
poemas que remetem à memória afetiva.”
A cidade, nesse sentido,
não é apenas cenário de sua poesia. É matéria da própria poesia.
A cidade de pau a pique
A relação entre
literatura e território continua em Cidade de Pau a Pique, publicado em
2025.
Novamente, a arquitetura
aparece como elemento de memória. O pau a pique, presente em construções
históricas de Minas Novas, torna-se também uma maneira de olhar para a cidade e
para seu passado.
Deyse não procura afastar
sua literatura do cotidiano.
Ao contrário, transforma
aquilo que está próximo em matéria literária: uma janela, uma rua, um rio, uma
festa, uma casa, uma lembrança.
Sua escrita parece partir
da ideia de que aquilo que é aparentemente simples pode carregar uma história
enorme.
O rio que existe na
memória
Entre todas as imagens
presentes em sua literatura, o rio Fanado ocupa um lugar especial.
Existe o Fanado da
infância e existe o Fanado que Deyse encontra hoje.
A comparação entre os
dois provoca nela uma espécie de tristeza.
Ela lembra dos rios e
córregos de águas limpas e cristalinas de sua infância e observa as
transformações que ocorreram ao longo do tempo.
É uma lembrança que deixa
de ser apenas individual.
Ao escrever sobre o rio,
Deyse registra também uma paisagem em transformação.
E surge uma pergunta que
atravessa sua escrita: o que restará dessas paisagens daqui a 50 ou 100 anos?
A pergunta não é apenas
sobre o rio.
É sobre a própria cidade.
“O que essa escritora do
ano de 2025 escreveu?”
Talvez a resposta mais
reveladora da entrevista esteja justamente na maneira como Deyse imagina o
leitor do futuro.
Ela gostaria que, daqui a
50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e perguntasse:
“O que essa escritora do
ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como que era a cidade que ela enxergou
nesse tempo? Como eram as brincadeiras? Como eram as roupas? Como era a cultura
daquele tempo?”
É aí que a literatura se
aproxima do documento.
Deyse escreve pensando
que o presente também será memória.
Ela gostaria que seus
livros pudessem contar às gerações futuras como era viver em Minas Novas no seu
tempo. Que pudessem revelar os costumes, as brincadeiras, as roupas, os
lugares, os rios, a tranquilidade das ruas e as formas de convivência que
talvez não existem mais.
Há, nessa perspectiva,
uma preocupação com aquilo que ela própria sentiu falta ao procurar escritoras
de Minas Novas de outras épocas.
“Uma das dificuldades que
eu vejo é eu querendo ler algum escritor da minha cidade, de preferência
escritora, que eu sei que existiram muitas e que a gente não tem nada para ver
e nem saber de que elas falavam.”
Deyse parece querer
deixar para o futuro aquilo que não encontrou quando olhou para o passado.
A escritora também é
pesquisadora
Essa preocupação com a
memória aparece de maneira ainda mais evidente em seu trabalho mais recente.
Vida entre Pincéis,
que chega agora ao público, representa uma mudança de caminho em relação aos
livros anteriores. Depois da poesia, Deyse mergulha no livro de memórias.
Foram seis anos de
pesquisa sobre a trajetória de Genesco Murta, artista plástico nascido em Minas
Novas, que viveu posteriormente em Itinga e cuja trajetória, segundo a
pesquisadora, permanece pouco conhecida no próprio Vale do Jequitinhonha.
Deyse conta que encontrou
na trajetória de Genesco a história de um artista que saiu de uma realidade
rural e chegou a espaços importantes da arte, tendo estudado na França.
A pesquisa levou seis
anos.
O resultado é um livro
que, mais uma vez, nasce de uma inquietação: a necessidade de recuperar uma
memória que poderia permanecer esquecida.
Com Vida entre Pincéis,
Deyse deixa a poesia em segundo plano para entrar no território da memória
biográfica e da pesquisa.
É como se os gêneros
mudassem, mas a preocupação permanecesse a mesma.
Registrar antes que seja
tarde.
Uma cultura que precisa
ser contada
Quando fala sobre a
cultura de Minas Novas, Deyse demonstra uma preocupação que ultrapassa sua
própria produção.
Ela acredita que muitas
histórias ainda precisam ser levantadas e registradas.
Fala do artesanato, das
festas religiosas, das folias, das manifestações quilombolas, das bandas, das
marujadas e do Congado. Lembra também personagens ligados à política, à
educação, à vida religiosa, à medicina e a outros campos da história da cidade.
Para ela, existe uma
quantidade enorme de conhecimento ainda espalhado pela memória das pessoas.
O problema é que nem tudo
está registrado.
A Festa do Divino
Espírito Santo, por exemplo, é citada por Deyse como uma manifestação com mais
de dois séculos de existência que, apesar de sua importância, não possui o
mesmo tipo de registro institucional encontrado em outras tradições da cidade.
Na sua visão, é preciso
pesquisar, documentar e contar.
“Tem coisa demais que
precisa ser levantada.”
A frase resume uma
inquietação que aparece repetidamente em sua fala.
Cultura popular também
precisa de investimento
A preocupação de Deyse
não é apenas com o registro da cultura. É também com sua sobrevivência.
Ela observa que artistas,
escritores, músicos, dançarinos e produtores culturais frequentemente precisam
buscar recursos para conseguir realizar seus trabalhos.
“As pessoas que escrevem
precisam de alguém pra estar ali patrocinando, precisa passar o pires.”
Para ela, existe também
uma dificuldade cultural mais profunda: a sociedade foi pouco educada para
consumir e valorizar a cultura popular.
Grandes eventos de
cultura de massa encontram público e recursos com facilidade, enquanto
manifestações locais, livros, pesquisas e trabalhos de memória muitas vezes
enfrentam dificuldades para se sustentar.
Sua preocupação,
portanto, não é com a cultura apenas como lembrança.
É com a cultura como
prática viva.
As histórias que ainda
esperam para ser contadas
Talvez um dos aspectos
mais bonitos da trajetória de Deyse seja perceber que, mesmo depois de tantos
livros, pesquisas e anos de atuação cultural, ela não considera sua tarefa
concluída.
Pelo contrário.
Quando perguntada sobre o
que ainda gostaria de escrever, começa a listar histórias.
O artesanato de Minas
Novas. Os pioneiros. Os políticos. As pessoas que marcaram a vida eclesiástica.
Os moradores que participaram de guerras e revoluções. A educação. As festas.
As folias. As comunidades quilombolas. As bandas. O Congado. A gastronomia.
E então aparecem as
quitandas e os quitutes.
Receitas que, segundo
ela, carregam mais de dois séculos de existência.
É como se Minas Novas,
para Deyse, fosse uma biblioteca ainda parcialmente sem catalogação.
Há histórias nas casas.
Nos rios.
Nas festas.
Nas cozinhas.
Nas igrejas.
Nas ruas.
Nas lembranças dos mais
velhos.
E também nas pessoas.
Escrever contra o
esquecimento
Deyse Magalhães saiu de
Minas Novas, vive há décadas em Belo Horizonte, mas sua literatura continua
voltada para o lugar onde sua história começou.
Sua cidade natal aparece
nos títulos dos livros, nas paisagens, nos personagens, nos rios e nas
lembranças.
Mas talvez apareça
principalmente como uma pergunta.
O que permanecerá?
O que será esquecido?
Quem contará as histórias
das pessoas que viveram antes de nós?
Quem registrará as
festas, as receitas, as brincadeiras, as roupas, os rios, as casas e as
conversas nas portas?
Deyse encontrou uma
resposta possível na escrita.
Escrever.
Pesquisar.
Registrar.
Contar.
Talvez por isso sua
literatura não seja apenas uma literatura sobre o passado. É também uma
literatura sobre o futuro.
Um dia, alguém poderá
abrir Janelas Azuis, Cidade de Pau a Pique ou Vida entre
Pincéis e tentar descobrir como era Minas Novas no tempo em que Deyse
viveu.
E talvez encontre ali
aquilo que ela própria gostaria de encontrar nos livros das escritoras que
vieram antes dela: uma cidade vista por dentro, através dos olhos de quem a
viveu.
Uma cidade que mudou, mas
que continua existindo nas palavras.
Uma cidade que ela levou
consigo.
Ou, como sua própria
escrita parece demonstrar, uma cidade que encontrou nela uma maneira de
permanecer.
Talvez seja justamente aí
que esteja a força da escrita de Deyse Magalhães; ela não escreve apenas sobre
o que passou, escreve também para que o presente não passe despercebido.
Ao ouvi-la falar sobre
Minas Novas, sobre as festas, as casas, os rios, as pessoas, os sabores, os
artistas e tantas histórias que ainda precisam ser registradas, fica evidente
que sua literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.
Deyse gostaria que, daqui
a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e se perguntasse: “O que essa
escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como era a cidade que ela
enxergava naquele tempo?”
Talvez esta matéria faça
parte dessa resposta.
Porque registrar uma
história é também dizer que ela importa. É guardar no papel aquilo que poderia
desaparecer na pressa do tempo. E, no caso de Minas Novas, há ainda muitas
histórias esperando por alguém que se sente, escute e escreva.
Enquanto algumas janelas
azuis continuam abertas para a memória, enquanto o Fanado ainda corre, mesmo
transformado pelos anos, e enquanto alguém se dispuser a ouvir os mais velhos,
registrar suas palavras e contar suas histórias, Minas Novas continuará encontrando
maneiras de permanecer.
Deyse saiu de sua cidade,
mas nunca deixou de escrevê-la, e talvez essa seja uma das formas mais bonitas
de pertencimento: levar um lugar consigo e, através das palavras, devolvê-lo ao
mundo.
E daqui a cinquenta anos,
quando alguém perguntar como era Minas Novas em nosso tempo, quais histórias
teremos deixado para responder?

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