quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com a escritora Deyse Magalhães


 

Mais tarde, sua trajetória seguiria por caminhos diversos. Graduou-se em Filosofia pela PUC Minas e passou a atuar como produtora cultural, agente cultural, pesquisadora popular, escritora e cronista, mantendo como eixo de seu trabalho a memória e a cultura do Jequitinhonha.

É membro fundadora da Associação dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha e da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha -ALVA, onde ocupa a Cadeira nº 12.

Mas talvez sua relação com a cultura possa ser compreendida por uma frase simples que aparece em sua própria fala:

“Eu vivo dentro desse ambiente.”

Uma cidade que carrega muitas histórias

Para compreender a escrita de Deyse, é preciso compreender também o lugar de onde ela vem.

Minas Novas aparece em seu relato como uma cidade de forte tradição cultural, marcada por festas religiosas, música, manifestações populares, vida política, produção intelectual e uma arquitetura que guarda parte de sua história.

É também uma cidade que mudou.

Deyse observa essas transformações a partir de uma memória construída na infância. Fala dos casarões que foram derrubados, das construções modernas que passaram a ocupar seus lugares e de uma forma de viver que, aos poucos, foi desaparecendo.

Ela se lembra de um tempo em que as pessoas se sentavam nas portas das casas, nas janelas ou nos bancos das praças. Um tempo de conversas demoradas, de histórias contadas oralmente e de uma convivência mais próxima.

Hoje, segundo ela, a relação com a cidade é outra.

A cultura de massa ocupa espaços cada vez maiores e as novas tecnologias modificaram também a maneira como as pessoas se relacionam com as histórias.

Hoje as pessoas estão ligadas mais ao celular e não têm paciência de ouvir tantas histórias.”

É justamente nesse ponto que sua escrita ganha outra dimensão.

Deyse não escreve somente para recordar.

Ela escreve porque sabe que o que existe hoje também poderá desaparecer amanhã.

Janelas azuis: quando a arquitetura vira memória

Em 2024, Deyse publicou Janelas Azuis, livro de poemas que estabelece uma relação direta com Minas Novas.

O título nasce de uma característica presente na arquitetura da cidade: as janelas azuis que aparecem em antigas casas, sobrados, igrejas e também em construções da zona rural.

Mas, para a escritora, essas janelas são muito mais do que elementos arquitetônicos.

Elas são portas para a memória.

“Nessas janelas azuis vêm lembranças de todos os sentidos”, conta. São lembranças da infância, da escola, das festas e das pessoas.

Por isso, Deyse define as janelas como uma espécie de passagem para a memória afetiva.

“Essas janelas azuis são poemas que remetem à memória afetiva.”

A cidade, nesse sentido, não é apenas cenário de sua poesia. É matéria da própria poesia.

A cidade de pau a pique

A relação entre literatura e território continua em Cidade de Pau a Pique, publicado em 2025.

Novamente, a arquitetura aparece como elemento de memória. O pau a pique, presente em construções históricas de Minas Novas, torna-se também uma maneira de olhar para a cidade e para seu passado.

Deyse não procura afastar sua literatura do cotidiano.

Ao contrário, transforma aquilo que está próximo em matéria literária: uma janela, uma rua, um rio, uma festa, uma casa, uma lembrança.

Sua escrita parece partir da ideia de que aquilo que é aparentemente simples pode carregar uma história enorme.

O rio que existe na memória

Entre todas as imagens presentes em sua literatura, o rio Fanado ocupa um lugar especial.

Existe o Fanado da infância e existe o Fanado que Deyse encontra hoje.

A comparação entre os dois provoca nela uma espécie de tristeza.

Ela lembra dos rios e córregos de águas limpas e cristalinas de sua infância e observa as transformações que ocorreram ao longo do tempo.

É uma lembrança que deixa de ser apenas individual.

Ao escrever sobre o rio, Deyse registra também uma paisagem em transformação.

E surge uma pergunta que atravessa sua escrita: o que restará dessas paisagens daqui a 50 ou 100 anos?

A pergunta não é apenas sobre o rio.

É sobre a própria cidade.

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu?”

Talvez a resposta mais reveladora da entrevista esteja justamente na maneira como Deyse imagina o leitor do futuro.

Ela gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e perguntasse:

“O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como que era a cidade que ela enxergou nesse tempo? Como eram as brincadeiras? Como eram as roupas? Como era a cultura daquele tempo?”

É aí que a literatura se aproxima do documento.

Deyse escreve pensando que o presente também será memória.

Ela gostaria que seus livros pudessem contar às gerações futuras como era viver em Minas Novas no seu tempo. Que pudessem revelar os costumes, as brincadeiras, as roupas, os lugares, os rios, a tranquilidade das ruas e as formas de convivência que talvez não existem mais.

Há, nessa perspectiva, uma preocupação com aquilo que ela própria sentiu falta ao procurar escritoras de Minas Novas de outras épocas.

“Uma das dificuldades que eu vejo é eu querendo ler algum escritor da minha cidade, de preferência escritora, que eu sei que existiram muitas e que a gente não tem nada para ver e nem saber de que elas falavam.”

Deyse parece querer deixar para o futuro aquilo que não encontrou quando olhou para o passado.

A escritora também é pesquisadora

Essa preocupação com a memória aparece de maneira ainda mais evidente em seu trabalho mais recente.

Vida entre Pincéis, que chega agora ao público, representa uma mudança de caminho em relação aos livros anteriores. Depois da poesia, Deyse mergulha no livro de memórias.

Foram seis anos de pesquisa sobre a trajetória de Genesco Murta, artista plástico nascido em Minas Novas, que viveu posteriormente em Itinga e cuja trajetória, segundo a pesquisadora, permanece pouco conhecida no próprio Vale do Jequitinhonha.

Deyse conta que encontrou na trajetória de Genesco a história de um artista que saiu de uma realidade rural e chegou a espaços importantes da arte, tendo estudado na França.

A pesquisa levou seis anos.

O resultado é um livro que, mais uma vez, nasce de uma inquietação: a necessidade de recuperar uma memória que poderia permanecer esquecida.

Com Vida entre Pincéis, Deyse deixa a poesia em segundo plano para entrar no território da memória biográfica e da pesquisa.

É como se os gêneros mudassem, mas a preocupação permanecesse a mesma.

Registrar antes que seja tarde.

Uma cultura que precisa ser contada

Quando fala sobre a cultura de Minas Novas, Deyse demonstra uma preocupação que ultrapassa sua própria produção.

Ela acredita que muitas histórias ainda precisam ser levantadas e registradas.

Fala do artesanato, das festas religiosas, das folias, das manifestações quilombolas, das bandas, das marujadas e do Congado. Lembra também personagens ligados à política, à educação, à vida religiosa, à medicina e a outros campos da história da cidade.

Para ela, existe uma quantidade enorme de conhecimento ainda espalhado pela memória das pessoas.

O problema é que nem tudo está registrado.

A Festa do Divino Espírito Santo, por exemplo, é citada por Deyse como uma manifestação com mais de dois séculos de existência que, apesar de sua importância, não possui o mesmo tipo de registro institucional encontrado em outras tradições da cidade.

Na sua visão, é preciso pesquisar, documentar e contar.

“Tem coisa demais que precisa ser levantada.”

A frase resume uma inquietação que aparece repetidamente em sua fala.

Cultura popular também precisa de investimento

A preocupação de Deyse não é apenas com o registro da cultura. É também com sua sobrevivência.

Ela observa que artistas, escritores, músicos, dançarinos e produtores culturais frequentemente precisam buscar recursos para conseguir realizar seus trabalhos.

“As pessoas que escrevem precisam de alguém pra estar ali patrocinando, precisa passar o pires.”

Para ela, existe também uma dificuldade cultural mais profunda: a sociedade foi pouco educada para consumir e valorizar a cultura popular.

Grandes eventos de cultura de massa encontram público e recursos com facilidade, enquanto manifestações locais, livros, pesquisas e trabalhos de memória muitas vezes enfrentam dificuldades para se sustentar.

Sua preocupação, portanto, não é com a cultura apenas como lembrança.

É com a cultura como prática viva.

As histórias que ainda esperam para ser contadas

Talvez um dos aspectos mais bonitos da trajetória de Deyse seja perceber que, mesmo depois de tantos livros, pesquisas e anos de atuação cultural, ela não considera sua tarefa concluída.

Pelo contrário.

Quando perguntada sobre o que ainda gostaria de escrever, começa a listar histórias.

O artesanato de Minas Novas. Os pioneiros. Os políticos. As pessoas que marcaram a vida eclesiástica. Os moradores que participaram de guerras e revoluções. A educação. As festas. As folias. As comunidades quilombolas. As bandas. O Congado. A gastronomia.

E então aparecem as quitandas e os quitutes.

Receitas que, segundo ela, carregam mais de dois séculos de existência.

É como se Minas Novas, para Deyse, fosse uma biblioteca ainda parcialmente sem catalogação.

Há histórias nas casas.

Nos rios.

Nas festas.

Nas cozinhas.

Nas igrejas.

Nas ruas.

Nas lembranças dos mais velhos.

E também nas pessoas.

Escrever contra o esquecimento

Deyse Magalhães saiu de Minas Novas, vive há décadas em Belo Horizonte, mas sua literatura continua voltada para o lugar onde sua história começou.

Sua cidade natal aparece nos títulos dos livros, nas paisagens, nos personagens, nos rios e nas lembranças.

Mas talvez apareça principalmente como uma pergunta.

O que permanecerá?

O que será esquecido?

Quem contará as histórias das pessoas que viveram antes de nós?

Quem registrará as festas, as receitas, as brincadeiras, as roupas, os rios, as casas e as conversas nas portas?

Deyse encontrou uma resposta possível na escrita.

Escrever.

Pesquisar.

Registrar.

Contar.

Talvez por isso sua literatura não seja apenas uma literatura sobre o passado. É também uma literatura sobre o futuro.

Um dia, alguém poderá abrir Janelas Azuis, Cidade de Pau a Pique ou Vida entre Pincéis e tentar descobrir como era Minas Novas no tempo em que Deyse viveu.

E talvez encontre ali aquilo que ela própria gostaria de encontrar nos livros das escritoras que vieram antes dela: uma cidade vista por dentro, através dos olhos de quem a viveu.

Uma cidade que mudou, mas que continua existindo nas palavras.

Uma cidade que ela levou consigo.

Ou, como sua própria escrita parece demonstrar, uma cidade que encontrou nela uma maneira de permanecer.

Talvez seja justamente aí que esteja a força da escrita de Deyse Magalhães; ela não escreve apenas sobre o que passou, escreve também para que o presente não passe despercebido.

Ao ouvi-la falar sobre Minas Novas, sobre as festas, as casas, os rios, as pessoas, os sabores, os artistas e tantas histórias que ainda precisam ser registradas, fica evidente que sua literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.

Deyse gostaria que, daqui a 50 ou 100 anos, alguém encontrasse seus livros e se perguntasse: “O que essa escritora do ano de 2025 escreveu? De que ela falava? Como era a cidade que ela enxergava naquele tempo?”

Talvez esta matéria faça parte dessa resposta.

Porque registrar uma história é também dizer que ela importa. É guardar no papel aquilo que poderia desaparecer na pressa do tempo. E, no caso de Minas Novas, há ainda muitas histórias esperando por alguém que se sente, escute e escreva.

Enquanto algumas janelas azuis continuam abertas para a memória, enquanto o Fanado ainda corre, mesmo transformado pelos anos, e enquanto alguém se dispuser a ouvir os mais velhos, registrar suas palavras e contar suas histórias, Minas Novas continuará encontrando maneiras de permanecer.

Deyse saiu de sua cidade, mas nunca deixou de escrevê-la, e talvez essa seja uma das formas mais bonitas de pertencimento: levar um lugar consigo e, através das palavras, devolvê-lo ao mundo.

E daqui a cinquenta anos, quando alguém perguntar como era Minas Novas em nosso tempo, quais histórias teremos deixado para responder?

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