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A poeira
vermelha do Jequitinhonha grudava no suor do rosto de Seu Juca como uma segunda
pele. Ele tinha uns oitenta anos, mas guardava na memória o dia exato em que o
metal da Estrada de Ferro Bahia-Minas cortou a calmaria daquela terra pela
primeira vez. Era 1940 e alguma coisa, o tempo em que o "Trem " era o
coração pulsante do sertão.
Para Seu Juca, a locomotiva não era
apenas uma máquina de ferro e carvão; era um bicho vivo que trazia o mundo para
dentro do vale. Quando o apito ecoava pelas gargantas das serras, a cidade
inteira corria para a estação. Eram sacas de café, caixas de ferramentas,
cartas de amor que vinham de longe e, sobretudo, gente. Gente que partia em
busca de um destino e gente que voltava com histórias maiores do que a própria
vida.
Naquela manhã de 1966, porém, o clima na
plataforma era de velório, o vapor que saía da caldeira parecia o suspiro final
de um gigante cansado. Cartas oficiais já haviam decretado a sentença: a
ferrovia daria lugar ao asfalto, aos caminhões, ao "progresso" que
vinha emborcado em pneus de borracha.
— Vai acabar tudo, Seu Juca — murmurou o
jovem maquinista, enxugando as mãos graxentas em um estopa rasgada. — Dizem que
o trem é coisa do passado.
Enquanto
esperavam a ordem de partida, alguém de um dos vagões de passageiros começou a
dedilhar um violão desafinado. A voz fina e chorosa de um rapaz jovem cortou o
silêncio pesado da plataforma, cantando versos que pareciam nascer do próprio
ferro enferrujado:
Ponta de Areia / Ponto de partida... O trem azul / Ferrovia Bahia-Minas / Santa Clara,
Araçuaí...
— O progresso que desfaz o que une a
gente não é progresso, meu filho. É desmantelo — murmurou, enquanto a música
continuava baixinho, embalando o choro contido de uma senhora na janela.
As palavras pairaram no ar abafado, para
quem morava ali, ouvir aqueles nomes cantados em tom de despedida era como ver
a própria certidão de nascimento ser lida em voz alta. Ponta de Areia,
palmeiras, o cais, o vento do mar que nunca chegava a ver o mar de verdade, mas
trazia a promessa dele.
Seu Juca sentiu um nó na garganta. Olhou
para os trilhos que sumiam no horizonte, serpenteando o verde seco e o vermelho
do chão. Pensou nas comunidades que nasceram à beira da linha, nos comércios
que prosperaram ao som das rodas batendo nos dormentes.
A campainha bateu pela última vez. O
maquinista puxou a alavanca com uma lentidão dolorosa. A velha
"Baiminas" arrancou, soltando baforadas densas de fumaça preta que
pareciam carregar o luto de toda uma região. Seu Juca acompanhou o comboio com
os olhos até que o último vagão sumisse na curva, engolido pela imensidão do
sertão, enquanto o eco do violão ia morrendo na distância: “Tem que chegar / No trem da
Bahia...”
Anos depois, os trilhos foram
arrancados, vendidos como ferro velho, e o mato tomou conta do leito por onde
antes corria o sangue daquela gente. Mas, nas noites de vento forte, quando o
silêncio desaba sobre o vale, os mais antigos ainda juram que escutam, bem ao
longe, o eco metálico daquela velha locomotiva, lembrando ao mundo o dia em que
o sertão esteve, de verdade, ligado ao mar.
Jô Pinto
Em uma tarde quente
de setembro na terra das Águas Brancas.
Obs: A Música "Ponta de Areia" foi lançada no ano de 1975, Álbum:
Minas, o sétimo álbum de estúdio da carreira de Milton Nascimento. A letra de
Fernando Brant foi inspirada pela história e pela desativação da ferrovia
Bahia-Minas (a Baiminas). A música foi citada no texto para dar emoção a crônica.

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