terça-feira, 15 de setembro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O Último Apito do Trem

Imagens da Internet - Melhoradas digitalmente

A poeira vermelha do Jequitinhonha grudava no suor do rosto de Seu Juca como uma segunda pele. Ele tinha uns oitenta anos, mas guardava na memória o dia exato em que o metal da Estrada de Ferro Bahia-Minas cortou a calmaria daquela terra pela primeira vez. Era 1940 e alguma coisa, o tempo em que o "Trem " era o coração pulsante do sertão.

Para Seu Juca, a locomotiva não era apenas uma máquina de ferro e carvão; era um bicho vivo que trazia o mundo para dentro do vale. Quando o apito ecoava pelas gargantas das serras, a cidade inteira corria para a estação. Eram sacas de café, caixas de ferramentas, cartas de amor que vinham de longe e, sobretudo, gente. Gente que partia em busca de um destino e gente que voltava com histórias maiores do que a própria vida.

Naquela manhã de 1966, porém, o clima na plataforma era de velório, o vapor que saía da caldeira parecia o suspiro final de um gigante cansado. Cartas oficiais já haviam decretado a sentença: a ferrovia daria lugar ao asfalto, aos caminhões, ao "progresso" que vinha emborcado em pneus de borracha.

— Vai acabar tudo, Seu Juca — murmurou o jovem maquinista, enxugando as mãos graxentas em um estopa rasgada. — Dizem que o trem é coisa do passado.

Enquanto esperavam a ordem de partida, alguém de um dos vagões de passageiros começou a dedilhar um violão desafinado. A voz fina e chorosa de um rapaz jovem cortou o silêncio pesado da plataforma, cantando versos que pareciam nascer do próprio ferro enferrujado:

Ponta de Areia / Ponto de partida... O trem azul / Ferrovia Bahia-Minas / Santa Clara, Araçuaí...

— O progresso que desfaz o que une a gente não é progresso, meu filho. É desmantelo — murmurou, enquanto a música continuava baixinho, embalando o choro contido de uma senhora na janela.

As palavras pairaram no ar abafado, para quem morava ali, ouvir aqueles nomes cantados em tom de despedida era como ver a própria certidão de nascimento ser lida em voz alta. Ponta de Areia, palmeiras, o cais, o vento do mar que nunca chegava a ver o mar de verdade, mas trazia a promessa dele.

Seu Juca sentiu um nó na garganta. Olhou para os trilhos que sumiam no horizonte, serpenteando o verde seco e o vermelho do chão. Pensou nas comunidades que nasceram à beira da linha, nos comércios que prosperaram ao som das rodas batendo nos dormentes.

A campainha bateu pela última vez. O maquinista puxou a alavanca com uma lentidão dolorosa. A velha "Baiminas" arrancou, soltando baforadas densas de fumaça preta que pareciam carregar o luto de toda uma região. Seu Juca acompanhou o comboio com os olhos até que o último vagão sumisse na curva, engolido pela imensidão do sertão, enquanto o eco do violão ia morrendo na distância: “Tem que chegar / No trem da Bahia...”

Anos depois, os trilhos foram arrancados, vendidos como ferro velho, e o mato tomou conta do leito por onde antes corria o sangue daquela gente. Mas, nas noites de vento forte, quando o silêncio desaba sobre o vale, os mais antigos ainda juram que escutam, bem ao longe, o eco metálico daquela velha locomotiva, lembrando ao mundo o dia em que o sertão esteve, de verdade, ligado ao mar.

 

Jô Pinto

Em uma tarde quente de setembro na terra das Águas Brancas.

 

 

Obs: A Música "Ponta de Areia" foi lançada no ano de 1975, Álbum: Minas, o sétimo álbum de estúdio da carreira de Milton Nascimento. A letra de Fernando Brant foi inspirada pela história e pela desativação da ferrovia Bahia-Minas (a Baiminas). A música foi citada no texto para dar emoção a crônica.

 

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