sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

CONHECENDO O JEQUI - O serial killers do Vale do Jequitinhonha

 

Fotografia de Febrônio Índio do Brasil e suas tatuagens / Crédito: Wikimedia Commons

Hoje trazemos na série conhecendo o Jequi, um personagem emblemático de nossa região, e que foi um dos maiores serial killers do país. Estamos falando de Febrônio Ferreira de Mattos , também conhecido como “Febrônio Índio do Brasil”

Natural do hoje distrito de São Pedro na cidade de Jequitinhonha, baixo médio Jequitinhonha nas  Minas Gerais.

Lançou um livro  “As Revelações do Príncipe do Fogo”  no  Rio de Janeiro em 1926. O livro chegou a ser confiscado e sua publicação suspensa.

 

Segue abaixo texto publicado por Pámela Malva, no site as aventura na historia da UOL – link no final da publicação.

 

Um menino Perturbado

Nascido em 1895, Febrônio Ferreira de Mattos era o segundo filho dos 14 tidos por Reginalda Ferreira de Mattos. Quando criança, ele sofria com as agressões do pai alcoólatra e, aos 12 anos, o menino fugiu, até chegar ao Rio de Janeiro.

Na Cidade Maravilhosa, Febrônio começou a colecionar uma série de crimes, como fraude, chantagem, suborno e roubo, tudo entre 1916 e 1929. Mas foi em 1920, quando tinha 25 anos, que o jovem teve uma visão que mudaria a sua vida.

No meio do delírio, uma mulher loira visitou o homem, afirmando que ele tinha um papel importante no mundo, já que era o “Filho da Luz”. Já tendo assumido o pseudônimo de Febrônio Índio do Brasil, ele teria a missão de purificar outros jovens.

Um purificador

Como parte do trabalho, ele deveria tatuar os garotos com o símbolo DCVXVI, uma representação das palavras Deus, Caridade, Virtude, Santidade, Vida e Ímã da vida. Ainda detido, Febrônio tatuou a frase “Eis o Filho da Luz” no próprio tórax.

Quando saiu da cadeira, em meados de 1921, o homem tornou-se associado do dentista Bruno Ferreira Gabina, mesmo que não tivesse qualquer formação. O problema veio poucos meses depois, quando o profissional simplesmente desapareceu.

Tendo assumido o diploma do Dr. Gabina, Febrônio abriu seu próprio consultório e, nele, atendeu pessoas de uma forma bastante controversa. Testemunhas chegaram a afirmar que, de maneira sádica, ele arrancou dentes de pacientes sem qualquer necessidade

Um homem sádico

Os crimes mais sérios, todavia, passaram a fazer parte da rotina do Filho da Luz quando ele começou a ter delírios. Certa vez, em outubro de 1926, Febrônio foi preso enquanto dançava completamente nú no topo do Pão de Açúcar.

Na época da detenção, ele chegou a ser internado e diagnosticado por distúrbios mentais, mas foi solto por não ter dinheiro o suficiente para pagar o tratamento. Mentindo de forma compulsória, ele foi preso novamente, agora em 1927.

Desta vez, ele abusou de dois companheiros de cela, mas acabou sendo solto de novo, por falta de provas. As acusações contra o Filho da Luz, entretanto, não paravam de aparecer na delegacia. E elas eram as mais perturbadoras.

Os delírios do Filho da Luz

Em um dia, ele foi pego dançando na frente de um garoto amarrado em uma árvore no Corcovado. No outro, o homem foi visto cozinhando a cabeça roubada de um cadáver. Nessa época, ele foi internado em um hospício, mas fugiu ao lado de dois jovens.

Acompanhando o homem por uma suposta oferta de emprego, os adolescentes de 17 anos foram estuprados por Febrônio. Mesmo sendo vítimas do homem, eles foram soltos, logo depois de receber as tatuagens no peito, como mandava a visão.

Mais tarde, ele chegou a ser preso por tatuar um garoto de 18 anos. O jovem, todavia, desapareceu, e o Filho da Luz foi solto, em 1927. Uma vez livre, ele tentou marcar a sigla no peito de Altamiro José Ribeiro, um jovem de 20 anos, que tentou resistir. Indignado com a atitude da vítima, Febrônio o estrangulou com um cipó.

Fim do caminho

A série de crimes chegou ao fim quando o criminoso sequestrou um menino de 10 anos, sob pretexto de lhe garantir um emprego. “Jonjoca” Ferreira foi tatuado, estuprado e morto por Febrônio. Ao lado do corpo, contudo, uma pista foi deixada pelo assassino.

Durante as investigações, os policiais reconheceram o boné utilizado por Febrônio para sair da cadeia em 1927. Assim, o criminoso foi rastreado e preso. Além da prova, os pais de Jonjoca ainda reconheceram o Filho da Luz, que, mais tarde, assumiu os crimes.

Pelas muitas acusações e por sua clara inconsistência mental, Febrônio foi internado no Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro, de onde tentou fugir. Sem sucesso no plano, ele permaneceu na instituição até 1984, quando morreu, aos 89 anos.

Texto Postado por PAMELA MALVA

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/tatuador-e-assassino-em-serie-o-insano-caso-de-febronio-indio-do-brasil.phtml

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

DIÁRIO DE LEITURA - Outros e Outros

 


O universo literário em tão pouco tempo tem me proporcionado experiências incríveis. Embora sempre tenha gostado de escrever, foi apenas em 2019 que decidi retomar a escrita com mais seriedade. Um conjunto de fatores influenciou nesse processo de recomeço, e eu agradeço, porque escrever se tornou extremamente necessário para o reencontro do equilíbrio emocional e espiritual que perdi em determinado momento de minha vida.

Isso aqui é meio de caminho. Não sei quando o caminho começou, nem depende, porque agora simplesmente é meio, e eu sei porque está acontecendo. A literatura sempre foi uma parte, de tudo que lembro, das letras no teto ao sonho de empalavrar a vida.

Uma das experiências proporcionadas é a oportunidade real de conhecer pessoas iluminadas, pessoas que somam em nossas vidas em todos os sentidos. Mesmo estando próximo dos(as) parceiros(as) de trabalho, praticamente não tivemos maiores chances de contatos pessoais, ainda.

Eu não sei que sorte de conseguir é essa que me acompanha. Talvez meus sonhos sejam simples. São, mas talvez minha sorte seja os outros. Esse meio daqui é parte do caminho com Jô, que vem de anos, vem de sonhos, e nunca paramos. Não temos essa coragem. Jô é outro. Um desses outros que coloca palavras na minha vida, e desde que sou criança. Em incontáveis meios. É difícil não admirar quem nos ensina. Do que é mais valioso: o respeito pela história. E ainda me falta muito. A vida é feita de história. Se não somos o que foi vivido, então nunca seríamos nada.

Como nasci para a literatura agora, coincidentemente num contexto de pandemia, esse contato, esse conhecimento está sendo construído até então, virtualmente. Este detalhe não me impediu de perceber algumas características sobre os trabalhos desenvolvidos por eles(as).

Jô é um outro próximo, que por tanto, portanto, tornou minha nascente literatura possível, em 2009, quando lançou “Memórias de Itinga”. Um livro que nasceu meu vizinho. Um sentimento todo novo, que ainda hoje não narro. E, uma nova vez, me convida a narrar, literaturas tantas desse vale, que independem de compreensão.

Quando recebi o convite do meu amigo Jô Pinto para fazer parte do grupo de colunistas, me senti honrado e ao mesmo tempo intimidado, creio não ser necessário explicar os motivos de me sentir honrado, mas acho interessante mencionar as razões de me sentir intimidado: uma delas foi a preocupação de não dar conta mesmo, uma vez que minha rotina é recheada de compromissos, assim como a rotina de quase todos. A outra, foi o medo de não corresponder às expectativas, afinal de contas, sei da dedicação do Jô em seus trabalhos, sei da dedicação do Jô com o blog.

E de um outro, outros outros, porque arte é feita de veredas e alhures. Aqui estou eu partilhando esse pedaço de meio também com Alex, que estimo há pouco, como se conhecesse há muito. Um escritor sensível e uma pessoa iluminada. É literatura do Vale e poesia de vida na certa.

Estar ao lado dessas pessoas, estar ao lado de Herena Barcelos (minha companheira de coluna), me faz querer acertar. Quando iniciamos novos projetos, é natural a presença do medo, mas, neste momento, o desejo do sucesso é muito maior.

Iniciamos, nós, mais uns nossos meios. Há fim? Claro, um dia o fim chega. Por isso o meio é tão valioso.

Espero que gostem dos conteúdos que carinhosamente pensaremos e traremos para vocês. Será uma alegria tê-los por aqui.

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

OPINIÃO DO BLOG - A alegria precisa continuar

 


A alegria precisa continuar. Nos últimos tempos a humanidade tem passado por uma prova de fogo, para acender os alertas e retomar a consciência do conviver.

Passamos por décadas desafiando Deus com o nosso egoísmo e nosso egocentrismo. Fizemos e desfizemos em nome de um lucro desenfreado e a custas de uma exploração desumana e excludente.

A corrupção tornou se a regular da vida e milhões e milhões dependendo de esmolas e restos. A pandemia está aí, nossa luz, nossa segunda chance de retomar o humano que há em nós. Tempo de resignificar a nossa postura e a nossa capacidade de amar.

Nos separamos para atentarmos para uma reflexão do nosso eu, ignoramos, e aproveitando o momento tirando vantagens sobre quem desatento se tornou fragilizado. O olhar pra frente, a busca da fé e o foco em dias melhores, deveriam ser as nossas bandeiras, não estamos tirando dez na prova de fogo. Continuamos a olhar para os nossos interesses e às velhas políticas  que continuam ditando o ritmo em meio ao sofrer.

Erguer a cabeça e assumir que precisamos mudar e transformar nosso viver,  não dá mais para seguir como antes.

 Resignificar, amar e fazer a diferença,  os mortos não podem ser só mortos ou dados de uma pandemia, são luzes que se acendem para podermos importar com todos.

Mas, a lâmpada do nosso coração precisa estar acesa para brilhar e animar a tantos que ainda não entenderam e que precisam buscar novos caminhos.


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

MEMÓRIA CULTURAL - Renda Hhandoti no Vale do Jequitinhonha

 GUARDIÃ DA RENDA NHANDOTI NO VALE DO JEQUITINHONHA


 

            Maria Elizabete Pereira dos Santos, é  quilombola, sua origem remonta da comunidade do Arraial dos Crioulos, em Araçuaí,  em seus sessenta e um anos, é daquelas mulheres fortes, mas de uma doçura inigualável!  Entre tantas habilidades e talentos nas artes manuais, ela abriu o baú de seus dotes e nos contou como aprendeu a fazer renda nhandoti.

            Ela  tinha uma tia, por nome de Ana, que morava no Morro da Liga , que em 1979, decorrente ao período das enchentes, teve de se mudar para o bairro Mutirão - Araçuaí,  havia ficado paralítica e uma senhora chamada Maura lhe ensinou a tecer como forma de entretenimento. E assim criou  gosto pela arte e tecia dia e noite. 

             Maria Elizabete, muito jovem, foi trabalhar de babá na casa de Maura, porém à noite, ia dormir na casa da Tia Ana. Porque quando terminava o serviço, já era tarde, não havia luz elétrica, o caminho para o Arraial dos Crioulos era cheio de mato, muito perigoso.  O jeito era pernoitar na casa da tia. E lá vendo a tia tecer, começou por brincadeira, e quando se deu por conta, já estava fazendo com desenvoltura a renda nhandoti. As duas ficavam até altas horas tecendo e conversando.

            Ela fala que é uma técnica muito fácil de fazer, basta arranjar linha, pedaço de madeira, papelão para servir de molde. Revela ainda que, prepara tudo artesanalmente e cria seus próprios moldes e tramas a seu gosto e criatividade.

            A renda são composições de flores ou rosetas em formas circulares, que vão sendo produzidas, depois de uma boa quantidade, podem se transformar em toalhas, caminhos de mesas, vários acessórios de cama e mesa, chegando  até mesmo em peças ornamentais, conforme o interesse de quem adquire as peças.


            Bisbilhotando um pouco mais sobre a renda, descobrimos que     chegou á América latina  através das Ilhas Canárias, na Espanha, como técnica tenerife;  aculturando-se na região do Paraguai, onde  foi recriada e batizada com o nome  ñanduti, que significa teia  de aranha em guarani. A partir do Paraguai a renda chegou ao Brasil, tecida sobre uma trama radial montada, utilizando-se de motivos circulares.


            Assim, Maria Elizabete Pereira dos Santos, é uma guardiã desta técnica de tecelagem tradicional, de suas mãos parece brotar uma poesia transformada  em renda e arrematada pelos fios  que decoram sua vida  e suas emoções de alma feminina , por tramas de alegrias e espiritualidade

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

OPINIÃO DO BLOG - Um sol para cada um

 

Foto: Ricardo Azoury


Um sol para cada um. O "valino, termo carinhoso dado aos homens e mulheres que fazem sua história no Vale do Jequitinhonha, pelo grande poeta Jota Neris, trazem na alma um desejo grande em escrever e deixar sua história como legado de lutas e construções. A luta, nem é percebida como algo alheio ao cotidiano dado. E assim o somos. O vale é o berço que gera todos os dias filhos e filhas para manter viva a história desse sertanejo, deste caboclo, desde ser de pelejas e certezas. Não existe uma reclamação estrutural com o sol escaldante que nos ilumina 365 dias por ano. Tudo flui na normalidade da vida. Oferece calor e aquece o coração daquele que espera confiante a chuva cair. Ilumina aquele que a doença fez cair. Alimenta aquele que colheu e seca no couro o feijão e o milho. É a luz que ilumina esse ser para produzir culturas e saberes. Um terreno fértil que brota da argila, da fibra, da palavra, da madeira e das belas pedras que o espaço oferece. Tudo que o torna rico e imponente, único no mundo. A dinâmica da vida segue um fluxo de uma tranqüilidade e uma simplicidade ímpar. Cada causo, cada conto é uma história de vida. No vale se aprende na dificuldade em meio a seca a exaltar o cuidado e a sustentabilidade. A água escassa é suprida pela solidariedade e partilha. Tem sua história contada e cantada. De dona Maria a Sebastiana cada bom dia é possibilidade de nova vida. Povo que se renova pela cultura e história. Com um olhar de fé, transformam o impossível, como gigantes erguem projetos de vida e de luz. Vale das riquezas, das lavadeiras, das benzedeiras e dos corais e violeiros. Vivem na harmonia em conformidade com o sol de cada dia, se encontram e se combinam em cada gesto de irmãos. O sol, este não se intimida e nem se acovarda, de fato, para cada um.

 

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Colunistas do Blog " Espaço Livre"


Para uma melhor diversidade, para levar novas textos e visões diferentes sobre este espaço livre e de múltiplos assuntos relacionados a Cultura, Literatura,  Memória e a História, de modo especial a do Vale do Jequitinhonha o blog agora contará com mais três novos colunistas:  Alex Konrado, Herena Barcelos e Otacílio Mendes e completa a equipe Ângela Freire e Jô Pinto


Alex Konrado Vieira Costa


Nasceu em 15 de Julho de 1989, em Osasco – SP. Com 4 anos de idade muda para o estado de Minas Gerais, residindo respectivamente nas cidades de Medina e Comercinho, ambas, cidades localizadas no Vale do Jequitinhonha. Alex é poeta, escritor, agente cultural e também trabalha como professor de ensino religioso na rede estadual. Costuma desenvolver projetos onde faz o uso da literatura como uma ferramenta ativa e educativa a favor de inúmeras causas sociais. É integrante do Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha

 

Herena Barcelos



Nutricionista, mestranda em Estudos Rurais, agente cultural, sertaneja de Itinga, Vale do Jequitinhonha-MG, é escritora por necessidade e de teimosia, integrante do Coletivo do VOHEJAR de Itinga e Também o Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha

 

Otacílio Mendes


Nascido em Itinga. Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia pela PUC Minas. Pós Graduado em Educação do Ensino superior. Professor de Filosofia na rede estadual de ensino de Minas, Poeta, escritor e integra o Coletivo do VOHEJAR de Itinga e Também o Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha

 

Ângela Gomes Freire



Natural de Araçuaí, Estudante do Curso de Licenciatura do Campo na UFVJM, Professora, Graduada em Turismo. Atriz do Grupo Teatral Vozes de Araçuaí, Agente e Produtora Cultural, especialista em política de Patrimônio Cultural. Escritora, Cronista, Poeta e integra o  Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha

 

José Claudionor dos Santos Pinto



Mas conhecido como Jô Pinto, natural de Itinga, Idealizador do Blog “ Espaço Livre ”, Professor, Graduado em História ( UNOPAR), especialista em Ensino de Filosofia ( IFNMG), Estudante na especialização de Ensino de Direitos Humanos e Geografia ( UFVJM), Técnico em Política de Patrimônio Cultural. Poeta, escritor e integra o Coletivo do VOHEJAR de Itinga e Também o Coletivo dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha

 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

MEMÓRIA CULTURAL - "Fazer o bem sem olhar a quem"

 

Foto: Internet


Antigamente tudo era difícil, quando morria um pobre, muitas vezes era sepultado enrolado em um lençol , porque caixão , só para quem pagasse por ele. Velar o defunto na nossa região, sempre foi muito importante, é da nossa cultura. Mas, sempre houve diferença entre o morto pobre e o morto rico.   

            O defunto de posses, antigamente,  atraia muita gente, seu velório era regado  com muita bebida e comilança. Matava-se porco, galinha, novilha, a comida era feita naqueles tachos grandes; a fogueira era preparada desde quando anunciava a passagem; tinha muita oração: terço, ladainha, ofício e rosário; mas a cada momento, uma rodada de biscoito, café, cachaça e farofa. Além disso  não faltava gente para  contar as boas ações do morto, aliás , todo falecido virava santo, na boca de quem velava dia e noite, quanto maior  a bebedeira,  melhor ficava a vida do falecido!

            Numa destas, faleceu numa cidade do Vale do Jequitinhonha, um pobre homem, figura que as pessoas  rejeitavam, entregue a sorte de quem lhe dava um gole da aguardente mais rasa que tivesse.           

                 Morava sozinho, num quartinho, tinha por parente apenas uma irmã. Também era uma pobre vivente, mas lhe  assistia diariamente com uma xícara de café e um mísero prato de comida, para sustentar seu corpo esquelético, consumido pelo álcool  e a solidão.

               Certa manhã, sua irmã encontrou-lhe estirado em sua cama de vara, desfalecido, sem vida. Ela começou a gritar por um vizinho, que lhe acudisse, levando uma vela, para que seu irmão não se perdesse na escuridão da passagem.

             Após a encomendação da alma, havia o problema do sepultamento, pois a cidade tinha o cemitério municipal e só se enterrava  com caixão. Mas a pobre mulher não possuía nenhum vintém. O jeito era recorrer as almas caridosas. A mulher saiu chorando , em direção a igreja, para pedir auxílio aos cristãos e também pedir para anunciar  no alto falante, mesmo sabendo que não teria ninguém para velar seu irmão. Chegando na igreja, deparou-se com uma das ajudantes e ministra da eucaristia , contou-lhe o ocorrido . A ministra da eucaristia, uma destemida senhora, baixinha, sempre de batom vermelho carmim, salto alto , daquela que  ” fazia o bem, sem olhar a quem”, depois de ouvi-la , deu-lhe o ombro amigo,  confortando-lhe.Solicitou-lhe que retornasse para  casa de seu irmão, e, começasse a organizar o banho e pegasse a roupa melhor para lhe vestir e deixasse o resto por sua conta. A pobre órfã, sem compreender, obedeceu a ministra e saiu soluçando em suas tristezas.

            A ministra da eucaristia elevou seu pensamento a Deus, agarrou-se  a seu rosário, ligou o alto falante e avisou:

 __Nesta manhã, do dia tal, faleceu nosso irmão, fulano de tal. Pedimos aos irmãos de boa vontade e de fé em Cristo, que vá velar o pobre homem, pois mesmo sendo um pobre coitado em vida na terra, é também um filho de Deus!

            Largou o alto falante, fez a reverência ao Cristo e saiu em direção a prefeitura, que ficava  próxima dali. Adentrou-se , indo até a antessala do gabinete do prefeito, onde estava a secretária, que logo atalhou, repreendendo-lhe:

___O que a Senhora deseja? O prefeito está muito ocupado, pode falar comigo, que eu passo para ele.

            A ministra da eucaristia, mirou a mulher furiosa e num gesto que não ouviu, lhe deu satisfação:

___Eu vim aqui ter com o prefeito, e o assunto é de interesse dele, portanto eu falarei com ele. E, foi adentrando-se, já deparando com o prefeito se ajeitando em seu terno de linho, estendendo a mão para cumprimentá-la, indicando  o assento  para se acomodar. No entanto a senhora não se deu ao trabalho e foi logo  despejando sua fúria, em sua boa retórica.

__Prefeito, eu vim aqui para comunicar o falecimento de fulano de tal. Acabei de anunciar no alto falante. Mas a irmã dele não tem  como encomendar o caixão, nem a taxa do cemitério, portanto você como autoridade desta cidade, deve zelar pelos desfavorecidos, e eu sei que há recurso que ampara os necessitados, o caso é simples: Estou aqui para te avisar que estou descendo para casa do morto, e daqui uma hora, se você não providenciar o caixão, arrumarei uns homens para trazer o defunto e colocar encima  de sua mesa, para eu rezar as últimas orações ,caso não tenha as condições dignas para enterrar, vou sair junto com o povo e deixarei, o corpo  nesta mesa, para você .Passar bem!

            Dito em palavras entoadas em alto e bom tom, virou-se em retirada, conforme o prometido. O prefeito saiu em sua reconciliação, mas a ministra, sequer lhe olhou, só se ouvia o toc-toc de seu  sapato de salto alto.

            Sobe morro, desce morro, quando ela chegou na porta do casebre do falecido, estacionava  também   um carro, com um caixão , e um funcionário da prefeitura com as vestes novas e até o cordão de São Francisco. Em seguida também chegou o prefeito, que decretou o fechamento do expediente da prefeitura, para acompanhar o sepultamento  do pobre cristão.

            Assim aquele homem, sofredor e solitário  em toda sua vida na terra, pode ter por uma vez, companhias para levar-lhe até o cemitério  e ter um enterro digno.

          Exemplos como este, podemos constatar em muitas cidades, rendemos graças e louvores as pessoas de bem, que cumpriram seu papel de cristão e de ser humano, seja lutando, brigando ou exigindo  justiça e tratamento digno aos desfavorecidos  e vulneráveis da cidade.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

GIRO PELO VALE - Itinga de luto, faleceu Pe. Lucas Evangelista Gusmão.

 

Faleceu na manhã desta sexta feira, 29/01, em Belo Horizonte, o Pe. Lucas Evangelista Gusmão.

Natural de Itinga, filho de Dona Neuza Evangelista e de Zenom Gusmão, descobriu desde a sua adolescência a vocação para o sacerdócio.

Ordenou - se Padre em 1976, sua ordenação foi realizada pelo bispo Dom Silvestre Luis Scandian S.V.D.

Foi pároco em Águas Vermelhas, Coronel Murta, Medina e atualmente estava na paróquia Nossa Senhora do Patrocínio, cidade de Itaipé.

Deixará saudades na família e amigos, mas ele vai ao encontro do pai celestial, tendo a certeza que levou p evangelho a quem precisou.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

MEMÓRIA CULTURAL - Capela de Santa Cruz

Foto: Angela Freire

Uma construção no alto de morro, da Rua Aimorés, próxima a Igreja Matriz de Araçuaí, em estilo singular,  numa arquitetura vernacular, encontra-se a Capela de Santa Cruz. Ela sofreu durante muitos anos, com o isolamento que provocou  processo de arruinamento, mas no bojo das memórias, não faltaram histórias para compor a sua existência neste  local.

Nunca houve nenhum estudo, que comprovasse a verdadeira origem deste templo. Mas as fontes  orais não permitiram o esquecimento deste bem, segundo João Guimarães Rosa: “Só sabemos de nós mesmos com muita confusão”. Então temos de reconhecer que a comunidade  constrói o saber que a sustenta, e o saber da religião popular é uma memória salva pelas redes sociais de trocas  e a religiosidade popular não é acervo histórico, mas manifestação de vida, ao qual a vida social não pode ser explicada unicamente pela concepção dos que dela participam, já que há causas profundas que escapam à consciência dos falantes.

Na busca para se explicar a Capela de Santa Cruz, a oralidade popular nos oferta algumas versões, das quais mencionamos algumas mais freqüentes, entre as pessoas mais velhas, que ouviram falar sobre esta capela:

I.Teria sido local de sepultar pessoas que cometiam suicídio. Antigamente a Igreja Católica não permitia sepultar os suicidas com outras pessoas, pois consideravam o cemitério da cidade, como “campo santo”, por isso não podia macular o lugar, enterrando pessoas que cometeram tal pecado.

II. Em frente à capela, havia um cruzeiro com os símbolos do martírio de Cristo. Por isso contavam que o templo, servia para guardar os objetos da semana santa.  Relata inclusive um episódio, decorrente a uma das enchentes que assolaram a cidade, todos os paramentos, alfaias e imagens foram perdidas, e, o esquife com Senhor morto, teria sido encontrado chegando no encontro das águas do Araçuaí, com o Jequitinhonha.  Na ocasião os Franciscanos mandaram  construir a Capela de santa Cruz . Havia inclusive a celebração em 3 de Maio, anualmente, para comemorar a festa de Santa Cruz. A programação era composta de terço, procissão, o cruzeiro e a capela eram iluminados com lamparinas de azeite.

III. A mulata Luciana Teixeira, fundadora da cidade, teria erguido a capelinha no alto do morro, para poder rezar. Após o desentendimento com o Padre em Itira, não podia entrar em nenhuma igreja católica. Havia a restrição, quanto às  prostitutas, elas não podiam entrar em igreja, por estarem vivendo em pecado.  Mesmo sem o vigário, era celebrada a festa de Santa Cruz, no dia 3 de Maio.

 Tal devoção possui raízes em Portugal, prática religiosa que persiste por alguns lugares do país. A festa  de santa Cruz, caiu no esquecimento, mas a capela ainda resiste a um passado de muitas histórias  que o povo conta e reconta, em suas  diferentes  versões.

Dizem  ainda que, havia o costume no dia da festa de Santa Cruz, o povo ao redor do cruzeiro , fazia a penitência de cem vezes ajoelhar-se e levantar-se, fazendo o sinal da cruz  a reza:

Alma minha, ponha-se rígida e forte, que a morte é certa e ela virá. No caminho encontrará o inimigo da alma e assim dirá: Arreda Satanás, que em mim em parte nenhum não terá. No dia de Santa Cruz, cem vezes me ajoelhei, cem vezes me  “apelosinei!”

 

https://www.facebook.com/tempo.cuidar/videos/298940078152890/?__so__=serp_videos_tab

 

 


 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

OPINIÃO DO BLOG - Crônica. Pele escura, por Otacilio Mendes

 



Crônica. Pele escura

Otacilio Mendes – Itinga/MG

 

Que raiva de ser preto. Era essa a ideia que tinha quando ainda adolescente tentava compreender o mundo.  Eu não era otacilio, era aquele negrinho do alto do cruzeiro. Não conseguiam me ver como um ser normal e com nome. E ainda brincavam com isso, que eu achava que era um elogio, o negrinho do pastoreio. No fundo eu ficava feliz por se tratar de um grande personagem da literatura, porém, não imaginava o grau de racismo proferido naquele elogio. Não entendia o riso no final da frase dita. Quando me despertei para a razão, deixei de ser besta, como diz o nosso povo, percebi o quão discriminado eu era numa sociedade de negros. Já ouvi de mães de negros, a expressão aquele negro para se referir a mim.  O racismo estrutural tem os pilares profundos e como eu na minha inocência, tem milhões sendo elogiados no trabalho, na sociedade, na igreja, nas escolas e em cada pedaço de chão que possam estar os negros. Hoje sei que minha voz é forte o bastante como qualquer outra voz para gritar: chega! Vamos viver a harmonia da humanidade onde o amor e a fraternidade andam juntas. Chega de alimentar esta estrutura podre que faz sofrer no íntimo aqueles que já sofreram na história. Ser negro é uma ligação direta com os trabalhos menos remunerados. Fui numa palestra e como atrasou um pouco fiquei no meio da plateia de professores e acabei me identificando para um professora e ela imediatamente quis que a colega conhecesse o professor Otacilio. E a colega passou um raio laiser de código de barras em todas a extensão do meu corpo e disse: ah, é você o palestrante? Eu percebi que o detector dela era racista e resolvi contar a minha história de vida naquela palestra. No final ela me pediu desculpas com outro ato de racismo. "Menino" como você fala bem. O orgulho é tanto em poder ter a pele escura, de ter visto o Brasil surgir com a colaboração de tantos braços pretos e do suor da pele escura no processo de construção. Hoje sei que a minha negritude agrada muito mais que desagrada, sei que o negro tímido e discriminado, cresceu e se encheu da mais profunda razão e se revestiu de fé. Percebi a importância de olhar para tudo com um olhar racional, capaz de ajudar o racista a entender o mundo. Calar, nunca mais. Que raiva que tenho quando vejo negros calados.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MEMÓRIA CULTURAL - Pífano

 


            O pífano é um instrumento musical, similar a flauta transversal feito  artesanalmente, por isso  em alguns lugares é  conhecido  como flauta de taboca ou de taquara.

            No Brasil há referência do pífano a partir de 1584, através de um dos jesuítas, Fernão Cardim. Estes religiosos se dedicaram a preparação da fé católica e ao trabalho educativo. Percebendo que não seria possível converter os Índios a fé católica sem que soubessem ler e escrever. Os Jesuítas desejavam convertê-los ao cristianismo e aos valores europeus; os colonos estavam interessados em usá-los como escravos.

            Fernão Cardim ingressou-se na Companhia de Jesus, vindo para o Brasil em 1.583 visitando  diversas regiões do Brasil, citando o instrumento acompanhado de tambores, nas mãos de índios e de portugueses, associado a manobras militares ou comemorações religiosas.No século XVIII o uso pífano esteve presente em festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Vale do Jequitinhonha.

          Por tanto o pífano foi introduzido junto à população por duas vias: a via indígena, que vem da época da colonização, da introdução do pífano pelos índios e tem a segunda via – em Minas, por exemplo, onde ele é vinculado aos negros, sem qualquer traço indígena e com um toque militar.

            O pífano no Brasil esteve associado à área militar até o século 19, como  instrumento militar, ligado à infantaria, dentro das forças portuguesas. O pífano, tal como nos exércitos europeus ia à frente da infantaria enquanto na cavalaria havia o trompete. Há inúmeros documentos que mencionam o pífano, inclusive no tempo de Dom João VI, que em sua guarda de honra tinha pífanos e caixas (tambores), mas, não se usa mais este instrumento com conotação militar. 

             Atualmente existem centenas de grupos pelo Brasil formados, em grande parte por descendentes dos primeiros tocadores de pífano, que guardam similaridade com o que existia há alguns séculos.

            É possível encontrar ainda grupos de pífanos em grande número de cidades do nordeste, norte de Minas, notadamente no interior. Nas capitais ou nas grandes cidades já não se guarda a mesma tradição. Assim como a sua denominação varia, a sua composição também tem sensíveis diferenças, mas seus instrumentos básicos são dois pífanos, um surdo, um tarol e um bombo ou zabumba.

            O tocador de pífano é chamado de pifeiro, músico autodidata, sabe as músicas, as melodias oralmente, muitas delas criadas por ele mesmo, por outras bandas ou por alguém que ele conhece e sabe de ouvido. Em geral ele é membro de uma família de pifeiros, ou está dentro de uma comunidade onde ele aprende de ouvido. Suas referências são visuais e auditivas.

            Os componentes das bandas são, na sua maioria, trabalhadores rurais que se ocupam da agricultura de subsistência, trabalhando no "alugado", ou cultivando sua pequena roça. Reúnem-se antes de cada apresentação e repassam o repertório. O pifeiro tradicional, está mais ligado ao ambiente rural. São pessoas simples, que lidam com o campo, plantações, gado, situados em um nível social às vezes menos favorecido. Mas isto não é uma característica apenas dos pifeiros porque também, antigamente quem tocava nas bandas de música eram escravos que faziam outros serviços e além disso tocavam outros instrumentos.

            Nos tempos atuais  também tem o pifeiro urbano que aprendeu o pífano pelos discos, pelos CDs , em oficinas de convivência social. Mas tem ocorrido muito modificações quanto ao material do instrumento, que originalmente  era de taquara, está sendo substituído por cano de PVC com a justificativa de ser material fácil de se encontrar e de baixo custo em estabelecimentos comerciais.

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

FESTIVALE 40 anos - Agradecimentos

 


Depois de 40 Semanas de homenagens do Blog Espaço livre aos 40 anos do FESTIVALE, chegou a hora dos agradecimentos.

Foram 95 matérias em homenagem aos 40 anos do FESTIVALE: Narrativas, depoimentos e fotos, todas essas matérias geraram mais de 14 mil visualizações no blog.

Sendo assim quero agradecer primeiramente a Deus, que nos permitiu concluir esse projeto em um ano tão conturbado.

Agradecer a todas as pessoas que mandaram seus depoimentos, seja por convite ou que acharam necessário escrever algo sobre sua trajetória no FESTIVALE. Minha gratidão a todos, aos que atenderam nosso convite e enviaram seus textos e também aqueles que por algum motivo não tiveram como enviar.

Aos idealizadores deste evento, por nos dá a oportunidade de celebrar ano a no o que temos de melhor, nossa “ Cultura Popular”

Ao Movimento Cultural do Vale do Jequitinhonha ( Grupos de Cultura Popular, Artesãos, Músicos, Poetas, Grupos de Teatro e agentes culturais) porque de fato são vocês que realizam o FESTIVALE.

A FECAJE, que apesar de todas as dificuldades e adversidades consegue manter nosso FESTIVALE vivo a cada ano.

A todos que de uma forma direta ou indireta contribuíram e contribui no fazer cultural do FESTIVALE.

             Agradecer as mais de 110 mil visualizações que nosso blog atingiu nesses 10 anos de existência, e as matérias sobre o FESTIVALE contribuíram para esse resultado.

            OBS: Nosso blog é um espaço livre, sendo assim, quem quiser pode nos enviar sua narrativa sobre o FESTIVALE, que teremos o maior prazer em publicar.

              

      FONTE: todas as informações sobre o FESTIVALE publicadas durante estas 40 semanas, foram retirada do projeto piloto do livro  com titulo de “ Festivale: Cultura e resistência de um povo” de minha autoria e no qual pretendemos lançar nesse ano que se inicia.

 

Muito obrigado!

Jô Pinto, quilombola, professor, produtor/gestor cultural e idealizador deste blog

 

 

 

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda da Acayaca

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