Seu
Eugênio era um homem de uma única paixão: o brilho do ouro e o peso frio das
moedas, em vida, não gastava um centavo com luxos, nem mesmo com o básico.
Vivia em uma casa caindo aos pedaços, comia o pão mais duro e vestia trapos
esfarrapados. Para ele, cada moeda poupada era uma vitória contra a miséria que
tanto temia, embora a verdadeira miséria estivesse instalada em sua própria
alma. O seu maior tesouro, um pesado pote de barro recheado de reluzentes peças
de ouro, estava enterrado sob as raízes de uma velha mangueira, nos fundos do
quintal.
Quando a morte o levou de repente, sem tempo para
confissões ou arrependimentos, o seu espírito recusou-se a partir. Preso à
terra pelo forte laço da ganância, vagava pela propriedade como uma sombra fria
e lamuriosa.
Certa noite, o espírito de Seu Eugênio apareceu para o
velho Cipriano, o seu fiel e mal pago empregado, que continuava a cuidar do
sítio abandonado. Com a voz cavernosa e o rosto pálido como a lua, o fantasma
ordenou: Cipriano, meu bom rapaz... Minha alma não tem descanso porque o ouro
está preso à terra, vá até a velha mangueira, cave fundo e desenterre o meu
pote. Mas preste bem atenção: só podes retirá-lo depois da meia-noite, se fores
antes, perderás tudo.
Cipriano, tomado de um misto de pavor e da esperança de
finalmente mudar de vida, aceitou a incumbência.
Quando os ponteiros do relógio da igreja marcaram
exatamente meia-noite, Cipriano, já
estava de pé, armado com uma enxada e uma lanterna a óleo. O vento soprava
uivante, balançando os galhos da mangueira como braços fantasmagóricos. O
coração do empregado batia descompassado no peito.
Assim que cravou a primeira pásada na terra seca, as
assombrações começaram, a temperatura despencou drasticamente, fazendo sua
respiração virar fumaça; uivos estridentes ecoaram por entre as árvores, como
se dezenas de almas penadas estivessem sofrendo ao seu redor. De repente, a
lanterna piscou e quase se apagou.
Cipriano olhou para o chão e viu a terra começar a se mexer
sozinha. Formas disformes e escuras ergueram-se do solo, sussurrando maldições
em seus ouvidos, tentando fazê-lo largar a ferramenta. Risadas sádicas ecoavam
na escuridão e pedras invisíveis começaram a chover ao seu redor. O medo era
paralisante, o suor frio escorria por sua testa, mas a lembrança do ouro o
empurrava para a frente.
Com um grito de coragem, Cipriano deu a última enxadada. A
lâmina bateu com um som metálico estridente!
Ele havia achado, e com as mãos trêmulas e usando apenas os
dedos para raspar a terra, Cipriano puxou para fora um pote de barro pesado e
empoeirado.
Ofegante, com o coração quase saltando pela boca e as
visões desaparecendo com os primeiros raios de luz da madrugada que se
aproximavam, sentou-se na grama e retirou a tampa de madeira do pote. Ele
fechou os olhos, sorriu aliviado e imaginou a fortuna que estava prestes a ver.
Mas, ao olhar para o interior do pote, o sorriso congelou
em seu rosto.
Não havia ouro. O pote estava completamente cheio de cinzas
cinzentas e ossos humanos triturados, os restos mortais da própria família de
Seu Eugênio, que ele havia deixado morrer de fome e abandono décadas atrás,
trocando a vida deles por moedas que nunca existiram de verdade.
Enquanto Cipriano recuava, horrorizado e sufocado pelo
cheiro fétido de sepultura, o espírito de Seu Eugênio materializou-se diante
dele. O velho não trazia o semblante de um fantasma assustador, mas sim um
sorriso desfigurado e sutil, banhado em lágrimas de pura loucura.
— O ouro nunca importou, Cipriano... sibilou a voz
espectral, ecoando direto na mente do empregado. — Eu não guardava riquezas. Eu
guardava o meu próprio inferno. E agora... você abriu a tampa. O tesouro passou
a ser seu.
No segundo seguinte, o pote dissolveu-se em fumaça, que
penetrou violentamente pela boca e pelos olhos de Cipriano. O empregado caiu de
joelhos, gritando em agonia, enquanto sentia a própria ganância e o peso dos
pecados de Eugênio corromperem sua alma para toda a eternidade. Quando o sol
finalmente nasceu, já não era mais o mesmo; era apenas mais uma sombra
silenciosa e vazia, condenada a guardar o nada e sua ganância sob a velha
mangueira.
Por: Jô Pinto
Este conto é muito comum em cidades do Vale do Jequitinhonha. Fiz esta adaptação a partir dos relatos do canoeiro Tionil, de Itinga, em uma das muitas conversas que tive com ele.

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