terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A maldição

Feita por IA

 

Essa é uma das muitas histórias que meu pai contava e que eu venho transformando-as em contos, na história de hoje, vamos contar a história de um lobisomem que andava outrora pelas terras onde é hoje o município de Itinga.

Era uma história antiga, daquelas que os mais velhos contavam ao redor do fogo, mas que trazia o peso da realidade para quem conhecia o destino daquela família.

Desde menino, carregava o fardo de um sangue inquieto. Nas noites em que a lua cheia despontava prateada e redonda no céu, o corpo infantil e depois o de homem feito contorcia-se em dores indescritíveis. Transformado em uma criatura monstruosa, metade homem, metade lobo, vagava pelas fazendas ao redor. Naquela época, o susto limitava-se ao gado assustado e aos cercados arrebentados; a fartura de animais impedia que o bicho voltasse sua fúria contra as pessoas.

A vida seguiu seu curso implacável, o menino cresceu, casou-se, teve filhos e tentou viver como qualquer outro homem. Contudo, quando o clarão da lua cheia iluminava o terreiro, ele inventava desculpas esfarrapadas, sumia na escuridão da noite e só retornava ao amanhecer, exausto e silencioso.

Certa vez, a família viajou para uma festa tradicional na zona rural, hospedando-se de um dia para o outro. No dia seguinte, embalado pela rotina da celebração, ele esqueceu-se completamente do calendário lunar. Só se deu conta do perigo quando já pegavam a estrada de volta e as primeiras sombras da noite começavam a engolir o horizonte. O pavor gelou-lhe o sangue: a noite de lua cheia já reinava lá fora, e a proximidade da maldição punha em risco quem ele mais amava.

Sem pensar duas vezes, virou-se para a esposa e ordenou com voz firme e desesperada: — Suba naquela árvore com as crianças agora mesmo! Não olhe para trás e não desça por nada deste mundo!

A mulher, sem entender absolutamente nada, tomou os filhos nos braços e subiu aos prantos, apavorada com a urgência no olhar do marido. Ele, sem dar explicações, sumiu correndo pela estrada escura, engolido pela noite cerrada.

As horas arrastavam-se penosamente, o silêncio da mata era cortado apenas pelos grilos e pelo medo. A mulher, agoniada com a demora do marido e o choro abafado das crianças, não suportou a angústia, convencida de que precisava buscar ajuda, desceu da árvore com os filhos e pôs-se a caminhar pela margem da estrada poeirenta.

Já passava da meia-noite quando um silêncio sepulcral abateu-se sobre o caminho. Um uivo longínquo e aterrorizante rompeu o ar. Instantes depois, a criatura colossal, uma silhueta disforme entre a fúria do lobo e a desolação do homem saltou para o meio da estrada.

A mãe, paralisada pelo horror, colocou os filhos atrás de si e começou a rezar em voz alta, implorando por proteção. Mas o bicho, cego pelo instinto feroz da lua, partiu para cima deles com violência cega. No meio da confusão e dos gritos de pavor, a criatura conseguiu arrebatar uma das crianças e disparou  em direção à mata densa, uivando para o céu.

Desesperada, sangrando e abraçada aos dois filhos restantes, a mulher correu sem rumo até avistar uma casa isolada. Bateu desesperadamente à porta. Os moradores, sobressaltados com a urgência, abriram e acolheram a família, cuidando dos feridos com urgência.

Entre soluços e tremores, ela contou o horror que acabara de viver, os donos da casa entreolharam-se com gravidade: — Você não é daqui, menina? — perguntaram. — Não — respondeu ela, a voz frágil. — Está tudo explicado. Você não conhece a lenda do lobisomem, um homem desta região, em noites de lua cheia, transforma-se em fera e ataca animais e pessoas... Infelizmente, ele levou o seu filho.

A mulher desabou em prantos convulsivos que duraram o resto da madrugada. Ao raiar do dia, agradeceu aos anfitriões e iniciou o caminho de volta para casa, o coração pesava com uma suspeita terrível que ela já não ousava recusar.

Ao chegar, encontrou a porta da frente entreaberta. Entrou devagar. Deitado na cama, ainda grogue pelo sono profundo do amanhecer, estava o marido. Entre os dentes dele, havia pedaços de tecido ensanguentados da roupa do filho; em sua mão firme, os retalhos restantes da vestimenta da criança.

A revelação foi um golpe mortal em sua alma, sem dizer uma só palavra, a mulher recolheu os filhos, fechou a porta e partiu para nunca mais voltar. Ninguém jamais soube o rumo que tomou.

Diz a lenda, contudo, que quando o homem despertou e encontrou a roupa do filho e os fiapos presos em sua boca, compreendeu a tragédia que cometera. Um grito de dor estrangulou-se em sua garganta, seguido de um choro desesperado que nunca mais teve fim.

Desde então, conta-se que ele vaga pelas estradas desertas , chorando e à procura de sua esposa e de seus filhos para implorar perdão. Mas, quando a lua cheia brilha soberana no céu, o bicho-homem desperta de novo, vagando pelas matas e amedrontando os descuidados que o ousam desafiar a escuridão de uma noite de lua cheia.


História adaptada por Jô Pinto, contada pelo seu pai João Antenor em seu tempo de criança. 

 

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