A
poeta paulista, nascida em São João da Boa Vista em 1940, será a autora
homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece
entre 22 e 26 de julho. A escolha não é à toa: Orides é considerada uma das vozes
mais potentes e ao mesmo tempo mais discretas, da poesia brasileira
contemporânea. Quase “desconhecida”, ou, mais precisamente, inclassificável,
escreveu versos secos, limpos, de inspiração filosófica e profunda atenção ao
mundo natural, deixando uma produção marcada por uma concisão próxima do
silêncio.
Dona
de uma escrita econômica e densamente reflexiva, Orides publicou livros
fundamentais como Transposição (1969), Helianto (1973), Alba
(1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Sua poesia é feita de
versos curtos, linguagem enxuta e intensidade concentrada. Nada sobra. Cada
palavra parece colocada ali depois de muito silêncio. Não por acaso, ela se
aproximou do zen-budismo nos anos 1970, e essa dimensão contemplativa atravessa
sua obra. Mas, não se engane: apesar da brevidade dos poemas, a leitura não é
“leve” no sentido superficial. Orides exige pausa. Ela fala de natureza,
pássaros, flores, rios, de existência, limite e transcendência. É aquela poesia
que parece simples na primeira leitura e, quando você volta, revela outra
camada.
Formada
em Filosofia pela USP, teve o reconhecimento de grandes nomes da crítica, como
Antônio Candido, que elogiou a “parcimoniosa opulência” de seus versos. Ganhou
o Prêmio Jabuti em 1983 por Alba e o prêmio da APCA em 1996 por Teia,
seu último livro publicado em vida. Ainda assim, viveu grande parte da vida com
dificuldades financeiras e em relativo isolamento. Daí o apelido que a
acompanha até hoje: “aristocrata selvagem” — uma mistura de sofisticação
intelectual com vida material precária.
Agora,
com a homenagem na Flip 2026, sua obra ganha novo fôlego. A editora Hedra
anunciou o relançamento dos cinco livros publicados em vida, além de um box com
a obra completa. Também estão previstas novas publicações sobre a autora,
incluindo biografia e coletânea de entrevistas. Após sua morte, sua produção já
havia sido reunida em Poesia reunida (Cosac Naify, 2006) e Poesia
completa (Hedra, 2015), esta última com 22 poemas inéditos. Traduções de
sua obra foram publicadas na Espanha, França e Estados Unidos.
Se
você quiser começar por algum livro, Alba é uma ótima porta de
entrada. Transposição, seu livro de estreia, também ajuda a entender
desde cedo a força e a lucidez que atravessariam toda a sua obra. Para sentir
um pouco dessa força, vale ler este poema de Transposição:
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Referências
GAZETA O GLOBO. Poeta
Orides Fontela será a autora homenageada da Flip 2026. O Globo, 10 fev.
2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/noticia/2026/02/10/poeta-orides-fontela-a-aristocrata-selvagem-e-a-autora-homenageada-da-flip-2026.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2026.
BRAVO!. Quem foi
Orides Fontela, poeta paulista e a homenageada da 24ª Flip. Disponível em:
https://bravo.abril.com.br/literatura/quem-foi-orides-fontela-poeta-paulista-e-a-homenageada-da-24a-flip/.
Acesso em: 16 fev. 2026.
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