segunda-feira, 15 de agosto de 2022

MEMÓRIA CULTURAL - Olho-de-boi

 

Imagem Internet

O olho-de-boi é uma semente originária da planta trepadeira lenhosa, conhecida cientificamente pelo nome Dioclea violácea, originária da Guiana e Brasil, encontrada em regiões de cerrado e caatinga.

É uma árvore de médio porte, de 15 a 20 metros, em geral bem copada,   tem o fruto que é uma  vagem curta de 6 cm, com uma a três sementes, geralmente. E esta semente de 1,5 cm é muito bonita, em duas cores vermelho e preto, principalmente.

Irmã Andrea Comune (2008) em seu livro “Recursos da Natureza para a saúde”, relata que a semente de olho de boi pisada e curtida no vinho branco, serve contra epilepsia e pedra nos rins.

Mas dependendo da região do Brasil, esta semente prensada se transforma em uma farinha nutritiva com funções fitoterápicas, conhecida na medicina popular por conta de suas propriedades parasiticida e formicida.

No entanto, seus benefícios no mundo espiritual são ainda mais poderosos. Em que a semente é utilizada como amuleto de proteção por espiritualistas e esotéricos. Entre umbandistas, o olho-de-boi possui propriedades energéticas capazes de dissipar energias ruins e afastar praguejos, mau-olhado, inveja e energias ruins. 

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terça-feira, 2 de agosto de 2022

O ASSUNTO É? - Rios

 

Rio Salinas - Reprodução internet 


Tomar banho no rio já foi uma diversão das jovens salinenses em tempos idos, não distantes. Certa senhora me contou que, iam levar marmita para as lavadeiras que labutavam às margens do rio Salinas, ensaboando, esfregando e quarando peças finas, enganavam a mãe e ficam no poço das moças atirando água umas nas outras. O rio corria caudaloso e rápido, formava espumas no movimento de descer pelas pedras limosas. Eram dias ensolarados de uma cidade pacata que crescia às margens do rio, por ele nutrida e banhada. Hoje olho para o rio e sempre me vem à cabeça essas histórias. Penso que deve ser muito triste o ter conhecido em outros tempos e olhar para ele agora, de margens nuas, invadido por esgoto que exala odor pestilento e mata os inúmeros peixes que ainda o povoam. Outro dia, havia nuvens de urubus no centro, comendo os peixes mortos pela falta de oxigenação das águas. As sociedades humanas costumam crescer às margens dos rios, porém, no sistema capitalista a água é contaminada em nome do lucro. As indústrias, a mineração e a agropecuária predatória atiram veneno, detritos e dejetos nas águas. Nesse sistema não nos relacionamos harmoniosamente uns com os outros e com a natureza. Deveríamos aprender com os povos indígenas, conviver com a natureza de forma harmoniosa. Olhando para o rio Salinas, penso no Tietê que já foi caudaloso, navegável e hoje é um fio de água poluída. Penso também no rio das Velhas e no rio Vieira em Montes Claros.  O    líquido é essencial para a continuidade da vida, não é por acaso que somos gerados dentro d’água no ventre de nossas mães. Espero que as futuras gerações modifiquem a forma de lidar com a natureza, afinal, como diz Ailton Krenak, somos parte dela.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

MEMÓRIA CULTURAL - O Selo Postal

 


Os filatelistas brasileiros estão comemorando  por todo o país, a emissão do primeiro selo em primeiro, de Agosto de 1843 . Porém, o primeiro selo postal do mundo, aconteceu em seis de Maio de 1840, com a figura da rainha Vitória, na Inglaterra . O selo postal, idealizado por Rowland Hill era chamado de “Penny Black”.

No Brasil podemos considerar que o registro de práticas dos Correios foi a carta enviada por Pedro Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, relatando sobre a descoberta do Brasil.

Embora  em 1663, que de fato iniciaram-se as primeiras atividades postais do Brasil, criando no período colonial o Correio da Capitania do Rio de Janeiro, e tinha como finalidades facilitar as trocas de correspondências entre o Brasil e Portugal. Com a Independência do Brasil, o serviço postal tornou-se algo essencial para o desenvolvimento do País.

O caso é que antigamente, o pagamento das cartas era feito pelos destinatários, caso este não aceitasse a correspondência, o correio ficava no prejuízo

O Brasil  foi o segundo país do mundo a aprovar  o uso de selos postais nas correspondências, foram utilizadas as figuras conhecidas por “olho de boi”, com  os valores  de 30, 60 e 90 réis, escritos numa esfera que lembrava a semente de mesmo nome.

Atualmente  os selos”olho de boi” são as estampas brasileiras mais disputadas pelos colecionadores.

O colecionismo de selos começou imediatamente logo após o primeiro selo, a  Filatelia cresceu, tornou-se o entretenimento mais praticado em todo o mundo, com entidades internacionais e nacionais em quase uma centena de países.

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terça-feira, 26 de julho de 2022

O ASSUNTO É? - Memórias

 

Os grilos estrilam lá longe. Estou sentada há algum tempo no batente da porta. Nos últimos meses tenho preguiça até de levantar, passo horas sentada. Fico vendo minha vida como num filme, algumas partes esmaecidas pelo tempo, fragmentos dos quais não me lembrava mais, vejo cenas em que estive, mas as enxergo como se fosse mera espectadora. Relembro minha chegada aqui na fazenda, vinha para lecionar para os filhos dos camponeses, ainda não havia escola, as aulas aconteciam na sala da casa de um fazendeiro local. Primeiro dia de aula, uma a uma as crianças chegavam, ressabiadas, as roupas de adulto mal ajustadas aos corpos franzinos, as unhas encardidas do trabalho com a terra. Eu as acompanhei até a idade adulta, eduquei seus filhos e netos. Logo ao chegar iniciei meus trabalhos com uma turma de adultos que frequentavam o curso noturno. Eram trabalhadores do campo, a maioria acima dos trinta anos, que, no entanto, não sabiam ler ou escrever, não sabiam fazer o “ó com o fundo da garrafa”, como eles mesmos diziam. Naquele tempo, usava-se segurar as mãos dos alunos para conduzi-los no processo da escrita. Assim conheci Antônio, um rapaz moreno, todos o chamavam de Preto. Sempre que ele chegava, meu coração disparava, trocávamos olhares durante as aulas, até que ele pediu minha mão. Acabamos nos casando em 1968. A partir de então, passei a trabalhar no campo e na sala de aula, trabalhava bastante, plantando e colhendo roça, fazendo comida para os camaradas, lavando tachos e mais tachos. Também era eu quem fazia a merenda das crianças, carregava os caldeirões de merenda com a ajuda das meninas do lugar, andávamos léguas. Era muito difícil. Trabalhando no campo e em sala de aula, acabei por fundar a escola do lugar, eduquei várias gerações. Eu, além de professora, fazia o papel de mãe de muitas moças. Aconselhava-as sobre assuntos femininos, como as regras, gravidez e outras coisas. As acolhia da fúria dos pais, como o senhor Joaquim que espancava as filhas com chicote de açoitar os animais, que chegava bêbado e entrava em casa atirando com sua espingarda contra a mulher e as filhas. Lembro-me de que muitas vezes as meninas da casa dormiam no mato, fugindo da fúria do pai. Era assim. Por longo tempo exerci a função de professora. Após me aposentar continuei a trabalhar no campo, auxiliando Antônio na lavoura. Já fazem seis anos que ele partiu e perdi a graça com tudo. Todas as noites vou ao seu túmulo que fica no alto aqui do nosso terreno, levo uma garrafa de café e fico horas conversando com ele, contando causos, dando risada, às vezes choro e pergunto o porquê de sua partida. Quando amanhece, desço aqui para casa para dar comida aos bichos e continuar essa vida até o dia em que Deus quiser. 

*Texto em homenagem à tia Maria José, “Tia Zezé” professora durante muitos anos na Comunidade Rural  Fazenda Catarina, município de Bocaiúva.


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quarta-feira, 13 de julho de 2022

OPINIÃO DO BLOG - Turma do Heavy Metal, um bloco de Carnaval

 


Quem participava do Carnaval de Rua e Praia de Itinga no final das décadas de 1990 e inicio de 2000, com certeza conheceram a Turma do Heavy Metal, um bloco de carnaval com nome de um estilo musical do Rock. E muito achavam isso estranho, outros amavam, mas para entenderem irei narra a aqui a história de nossa turma.

Na casa de Bidinha, na Rua Prefeito Nilo Barbuda era o ponto de encontro dos jovens e adolescentes da rua, lá se ouvia musica, tendo como principal estilo o Rock pesado ( Iron Maiden Black Sabbath, AC/DC, Led Zeppelin, Guns N´ Roses, Sepultura e outros) contava historias , jogava sinuca era o ponto de diversão.

Em 1994, a prefeitura de Itinga criou o carnaval de Rua e Praia, com a noticia, Jô Pinto, Paulo Roberto e Bidinha resolvem criar um bloco para participar do carnaval, já que teria disputa de blocos, o nome do bloco foi escolhido por Bidinha, ela disse: “já que gostamos de Rock, porque não Heavy Metal”, todos acataram e assim surgiu a “A turma do Heavy Metal”, como símbolos da turma foram escolhidos dois mascotes, o primeiro  baseado no” Edde”, mascote do Iron Maiden e o segundo um anjo guerreiro.

Em 1994, o bloco tinha apenas 18 membros e as camisas foram confeccionadas manualmente, mas mesmo assim o bloco foi campeão. Depois caiu no gosto da população Itinguense e dos turistas e vários vieram fazer parte da turma, conseguindo ter mais 550 filiados.

Todos os anos a turma escolhia uma musica que seria sucesso no carnaval e criava uma alegoria baseada na musica. Alem dos mascotes oficiais, todas as camisas foram desenhadas por Jô Pinto ou Paulo Roberto.

Em 2004 o a turma do Heavy Metal deixou de competir, mas também a competição entre blocos foi extinta do carnaval de Itinga, Em 10 anos de existência o bloco venceu oito carnavais de rua em todas as categorias: Criatividade, Animação e Adereços, e ficou uma vez em segundo lugar.

A turma do Heavy Metal conseguiu juntar os acordes da guitarra metalica com o melodia e o tambor do samba, nossa turma de metaleiros fizeram e sempre faram parte da historia de Itinga e de seu carnaval.

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terça-feira, 12 de julho de 2022

O ASSUNTO É ? - Oxum e Narciso no espelho

 

Imagem internet

Certo dia ouvi a história que se segue: " Oxum a deusa de pele negra reluzente estava triste. Apesar de ser a deusa da beleza, que se veste de amarelo, que atraí homens e deuses com sua graça, seu mel, com suas pulseiras douradas e sua dança dos véus, ela não se sentia vista. A casa de Oxum estava sempre cheia de pessoas que comiam, bebiam e festejavam, porém ela não era reconhecida. Então procurou Exu, o deus da comunicação e confidenciou a ele seu estado de espírito, Exu perguntou: Oxum, onde estão seus abebés? Oxum respondeu: Eu dei os meus abebês. Exu retorquiu: Essa é a causa de sua tristeza, você não mais consegue se ver. Volte, recupere seus abebés e se mire, se enxergue tal como é. Então Oxum buscou seus espelhos e se olhou, ela se viu, reconheceu seu valor e sua alegria voltou". Essa história me calou fundo, pensei o quanto nós mulheres negras somos levadas a não nos enxergarmos, interiorizamos o desamor a que somos submetidas durante toda nossa existência. Grande parte das chefes de família brasileiras são mulheres negras e mães solo, que sofrem com a ausência de políticas públicas e com o racismo estrutural que encarcera seus companheiros e filhos. Carregando a família e o mundo nas costas, muitas vezes as mulheres negras são vistas como nervosas, irritadas, raivosas, esse estereótipo aparece no cinema e nas novelas e já foi apontado por teóricas negras como Audre Lorde e bell Hooks, dentre outras. Sofremos a solidão desde a infância, principalmente as nossas irmãs de pele mais escura, muito nos é exigido e pouco nos é dado. O resultado desse processo é o adoecimento físico e mental. A história da relação entre Oxum e os espelhos me remeteu ao mito ocidental de Narciso. Porém, diferente de Oxum que se ocupou tanto dos outros que esqueceu de si, Narciso se encanta tanto consigo que perde os vínculos sociais e sucumbe. Tal mito deu origem ao termo narcisismo, fascínio consigo mesmo, em detrimento dos outros. É o que os homens brancos vêm fazendo séculos, especialmente a partir do surgimento do Capitalismo, a despeito do bem da humanidade, do meio ambiente e da vida em comum na terra. Penso que uma comparação entre a relação de Oxum e de Narciso com os espelhos é uma boa forma de pensarmos as relações raciais e de gênero, bem como, os impactos destas sobre a continuidade de existência humana na terra. Axé!

*Abebés: espelhos que Oxum traz nas mãos.

Essa história foi divulgada no perfil do babalorixá Sidnei Nogueira


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segunda-feira, 11 de julho de 2022

MEMÓRIA CULTURAL - Chiquinho da Farinha

 

Foto: Ângela Freire


Quem estiver em Araçuaí e for à feira, no sábado, procure por Chiquinho da Farinha. O lugar dele é sempre na área externa, nas imediações próximo ao estabelecimento  “Casa das Carnes”.

Rapaz de quarenta e seis anos,Osvaldo Teixeira Lopes Filho, mais conhecido por “Chiquinho da Farinha. Ele tem um sorriso encantador, de homem acanhado e muito trabalhador. Sua família paterna era da Comunidade de Calhauzinho.
O pai casou-se com Luzia da comunidade de Soledade. O casal veio  da zona   rural para a cidade em 1973. Foram morar no Bairro Esplanada, em situação de aluguel. Eles tiveram  sete filhos, sendo que os dois mais velhos, já falecidos; ficando Chiquinho com quatro irmãs.

Seus pais muito unidos, trabalhavam incansavelmente para dar conta do sustento da família, pois uma das meninas, nascera com síndrome de Down, exigindo mais cuidados e atenção.

Seu pai, era um homem de conceitos rígidos, trabalhava em lavoura e em  serviço braçal: abrindo cava para construção de casas, servente de pedreiro, abrindo fossa de banheiro, até que começou adoecer. Encontrou uma alternativa de ser feirante aos sábados, saia com a esposa, levava milho, feijão, farinha e goma para vender. Com todo esse esforço conseguiram alcançar o sonho da casa própria, no próprio bairro, na Rua São Pedro.

O pai começou a levar seu filho Chiquinho para a feira, a partir dos dez anos de idade. Ele ajudava carregar mercadoria e ficava ali, assessorando, com o tempo, o pai começou a apresentar mais  problemas de saúde  principalmente na coluna e outras queixas, tendo de se ausentar da feira, mas sua mãe lhe ajudava. Porém foi criando gosto pela atividade e aprendendo a lidar com a freguesia e fornecedores, passando a ir sozinho à feira.

Com o falecimento de sua mãe, de AVC, em 2004 e  seu pai em 2006, com sessenta e oito anos, de Enfizema Pulmonar, porque fumava muito, desde muito novo. O filho continuou o ofício optando por comercializar apenas farinha e goma.

Ele comercializa dois tipos de farinha, sendo farinha grossa adquirida do povoado de Alfredo Graça e farinha fina da Comunidade de Córrego do Narciso. Ele compra em média por duzentos e cinquenta reais o alqueire, que possui cinquenta pratos (medida utilizada) e vende por sete reais, o prato. Enquanto a goma, adquire da cidade de Taioberas.

Chiquinho revela com certa tristeza que em breve terá de parar de vender goma, porque as pessoas estão preferindo comprar do supermercado, julgam ser mais barato.

Assim como seu pai, segue sua atividade como complemento de renda, pois exerce atividade de limpador de quintal e jardineiro, porém devido aos esforços repetitivos, tem apresentado fortes dores na coluna. Atualmente prefere   trabalho apenas de jardinagem e ora com suas duas irmãs mais novas.

A feira é um local de muitos negócios, fluxo de muita gente circulando em seus múltiplos interesses, seja para vender, comprar, passear e apreciar. Mas cada um traz suas memórias que assim como Chiquinho, seguem complementando sua renda, sustentando suas famílias e mantendo a tradição.

Parabéns a Chiquinho, pelo seu trabalho, honradez e simplicidade!

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quinta-feira, 7 de julho de 2022

DIÁRIO DE LEITURA - Escritor Wander Conceição, lança importante obra literária para Diamantina e para o Vale


No dia 02 de Julho desse corrente ano o Pesquisador, Poeta e Escritor Wander Conceição, natural da cidade de Diamantina, lançou uma importante obra literária de titulo “Desafinado, das Cinzas da Acayaca á Bossa Nova”. Uma obra de pesquisa histórica e musical, um legado para cidade de Diamantina e para o Vale do Jequitinhonha.

 

Assim descreveu a Poeta Beth Guedes sobre o Livro

Leitores, poetas, artistas! Lançamento do livro: Desafinado! Uma obra de pesquisa histórica e musical e ainda sob os primeiros acordes da Bossa Nova nascidos num banheiro em Diamantina, por João Gilberto, que enriquece o acervo cultural de Diamantina!

Noite de Autógrafos: Entre falas, testemunhos, emoções, lágrimas, risos, o escritor Wander Conceição representa toda uma geração de poetas, escritores, músicos, artistas, que lutamos muito para o reconhecimento e valorização da nossa arte, porque os artistas vivem de sonhos!

Cada livro publicado, música gravada, fotografia, tela pintada, estandarte há uma trajetória de muita luta, sacrifícios, mas a conquista do pódio no enriquecimento para a cultura compensa os percalços da caminhada!

Wander Conceição, poetas, escritores, músicos, artistas temos histórias de luta, superação, engajamento nos movimentos culturais desde a década de 80 em Diamantina e hoje colhemos merecidamente os frutos, afinal somos todos acervos artístico-culturais de nossas e futuras gerações.

Os artistas se eternizam em suas obras!


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terça-feira, 5 de julho de 2022

O ASSUNTO É? - O pacto da branquitude: Dica de leitura

 


Sempre que pensamos a questão étnico-racial, o foco é nas pessoas não brancas e nas formas de opressão que sofrem ao longo do tempo. Entretanto, convém perceber que, se determinados grupos são racializados em negativo, e logo, prejudicados, significa que há os que são  racializados em positivo e beneficiados  no decorrer da história.  Tive acesso a essa mudança no ângulo de análise das questões raciais a partir de livros que problematizam a branquitude, que expõem sua construção, que a desnaturalizam como norma hegemônica. Nos últimos anos temos ouvido de lideranças negras, que a questão do racismo não pode ser considerada um problema dos negros e indígenas, e sim dos brancos, afinal, foram eles que inventaram o racismo e o mantém em funcionamento. Portanto, é necessário que os brancos que se pretendem antirracistas primeiramente reconheçam que desfrutam de privilégios em relação ao demais grupos racializados. Maria Aparecida Bento é uma importante referência na compreensão da branquitude e do pacto  não verbalizado que os brancos estabelecem entre si com prejuízo dos demais grupos étnicos. A autora é doutora em Psicologia e há anos se dedica à pesquisa sobre o racismo em empresas e organizações. Em 1991 ajudou a fundar o Centro de Estudos das relações de trabalho e desigualdades (Ceert) instituição que atua no sentido de promover a diversidade no interior de grandes empresas e corporações. No livro “O pacto da branquitude”   Cida Bento analisa como, ao longo do tempo, os brancos construíram estratégias para manter suas vantagens em relação aos negros, ao mesmo tempo em que silenciaram sobre as ações anti-humanitárias cometidas pelos seus antepassados, cujos frutos de privilégios são colhidos ainda hoje.  Ao longo da pesquisa a autora percebeu que os negros e negras são rejeitados no mercado de trabalho em benefício dos brancos, há acordos tácitos entre os brancos em priorizar indivíduos do mesmo grupo racial na hora da contratação,  progressão na carreira ou acesso a cargos e salários elevados. A justificativa mais usada é a da meritocracia. Bento traz vários exemplos ao longo da história que exemplificam como esse pacto têm funcionado no Brasil, dentre eles: A lei de terras que favoreceu o acesso à terra aos brancos em 1850, impossibilitando sua aquisição aos negros no momento em que o tráfico negreiro foi proibido, a lei de imigração que priorizada  europeus brancos.  Me lembrei do código penal de 1890 que criminalizava o candomblé, a Capoeira  como estratégias para encarcerar a população negra na Primeira república. Atualmente, temos outras estratégias para a manutenção dos privilégios dos brancos em detrimentos dos demais grupos racializados.  Isso mesmo, o racismo se readapta a cada contexto e se faz eficaz na manutenção da desigualdade. O livro “O pacto da branquitude” é uma importante contribuição para abalar as bases do racismo estrutural. Boa leitura!


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segunda-feira, 4 de julho de 2022

MEMÓRIA CULTURAL - A Pharmácia

                                                                  

 

Imagem da Internet

A história da farmácia no Brasil iniciou-se no século XVI. Apesar de sabermos que os indígenas possuíam um conhecimento muito grande da natureza.

Os primeiros Jesuítas trouxeram cirurgiões barbeiros, profissional de saúde que cuidava da higiene e da saúde da tripulação. Este cirurgião barbeiro carregava sua botica, que era uma maleta contendo medicamentos e insumos de saúde, e, assim comercializavam e acessavam ao medicamento de forma rudimentar.

 Na expedição de Tomé de Souza,  trouxeram  o primeiro boticário chamado Diogo de Castro,   autorizado pela coroa portuguesa para cuidar das pessoas na viagem. E o Padre José de Anchieta,fez diversos relatos por meio de cartas quanto a importância dos boticas, para cuidar dos doentes.

Assim outros  comerciantes também vendiam suas boticas em barbearias, sapatarias, dentro das áreas comercias. Qualquer pessoa podia vender medicamento, sem nenhum conhecimento técnico da época.

Em 1730 a profissão de boticários foi regulamentado em Coimbra - Portugal. As pessoas iam e vinham para trabalhar no Brasil. E o local chamado botica,  passou a ser relacionado a estabelecimento. Aproximando da farmácia que  conhecemos nos dias de hoje. Mais tarde vieram as fiscalizações e exigências quanto ao acondicionamento e preparo  dos medicamentos.

Em 1.809 fundou-se a primeira  faculdade de Medicina no Rio de Janeiro  e nesta havia uma cadeira para o curso de farmácia. Portanto, o aluno desta faculdade  tinha duas opções: ser médico ou farmacêutico, isso durou até 1.839. Porque nesta data  fundou-se a primeira escola independente de Farmácia, da América Latina, em Ouro Preto, que atualmente conhecemos como UFOP. Ainda existe o curso até os dias atuais, porém ocupando em outro local. Pois o antigo lugar foi destinado ao museu de farmácia.

Araçuaí, em 1950 tinha três farmácias, de Almicar da Cunha Melo, de Ary Gonzaga Jaime e de Narciso Colares. No livro “Araçuai, ano 1950”(2004) , o autor Lindolfo Ernesto Paixão diz:

“Só uma parte da população  podia a elas recorrer. Outra parte só depois de esgotar as tentativas com benzedeiras, simpatias e promessas. A terceira parte continuava esperando a luz divina.”(página 65/66)

Em 2022 a cidade além de superar o triplo do número de farmácia daquela época, podemos contar com curso de farmácia a distância e a crença na ação divina e dos ensinamentos dos mais velhos ainda perdura com força e muita fé.

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segunda-feira, 6 de junho de 2022

MEMÓRIA CULTURAL - Conectar Coletivos

 

Foto: Soll Santos

            A pandemia da COVID-19 interrompeu muitas possibilidades e projetos pessoais e coletivos, principalmente para o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

O  setor cultural  foi  um dos primeiros a fechar suas atividades, e dos últimos a serem autorizados ao retorno presencial. Entre perdas, isolamento e incertezas  dois coletivos decidiram  persistir num  encontro.

Diz o ditado popular: “palavra dada,palavra empenhada”, O Coral do Nossa Senhora do Rosário  e o MC Eduardo DW , embrenharam na única  possibilidade disponível nesta pandemia, o uso da internet.

Enfrentando os desafios e turbulências com a utilização da tecnologia, mas com as conexões compatíveis ao coração destes artistas., foram se conhecendo gradativamente, acertando idéias, construindo versos, trocando poesias  e  alimentando-se pelas veias do rap e da cultura do Vale do Jequitinhonha.

            O Coral do Rosário produziu em 1998 o seu primeiro CD, nomeado de “Queremos navegar” e agora chegando em sua trajetória de aproximadamente 37 anos de existência, celebra  com  força inesgotável de navegantes da cultura, depararam no porto do rap, através do MC Eduardo DW, um agitador cultural em Belo Horizonte, poeta do Coleti voz Sarau de Periferia, Slam Clube da Luta e MC da banda de Rap Projeto ManObra e do grupo A Corte.

            Estas aproximações de mundos e resistência cultural da cultura negra, convergiu para o projeto “O Circuito o RAP é o Encontro”. Proposta visando a  criação  de um  circuito para potencializar a pesquisa e a exposição artística, trabalhando com coletivos distintos, a fim de ampliar a circulação da música e poesia mineira , além  da cadeia produtiva de arte e cultura brasileira. Encontraram na música lugares de congruência em vários diálogos marcantes que fez desnudar a presença feminina, com sua irreverência, revelada  nestes versos:

Do fundo da feira                                  

...

Desci a ladeira,

Fui lá no mercado

Perguntar  para Eduardo

Não sou mulher de recado

_Que coisa é essa de versos falados?

 Nesses arranjos de circuito e encontros despontaram com forte ressoar da vida cotidiana, a poesia falada e de autoria feminina, que na fronteira do Brasil profundo é escancarada:

Quando alembro as feições do rapaz,

que morava na beira da lagoa

eu  namorei  sutil...

 

            Neste ano de 2022, celebramos no Brasil, o centenário  da Semana de Arte Moderna,  no Vale do Jequitinhonha esta fase do modernismo  pode ser reverenciada pela criação dos movimentos culturais, com destaque para o FESTIVALE, nos anos  de 1980, que ainda resiste às duras penas.

            A atitude desta conexão entre coletivos de resistência, parece despontar de algo mais intenso e real da contemporaneidade quanto a   valorização  da diversidade cultural e a intensidade de força  para a luta de resistências e existências da cultura negra, neste país.


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quarta-feira, 1 de junho de 2022

GIRO PELO VALE - Morre Maurício Cavalho e deixa de luto a Cultura do Vale do Jequitinhonha

 



Mauricio Carvalho , nasceu em Araçuaí/MG, filho de seu Antonio Claudio e de Dona Nadeje Aparecida e irmão de Regina, Marcelo, Marcio e Claudinho.

Militante político e cultural ajudou a fortalecer a democracia, a cultura e a poesia do Vale do Jequitinhonha.

Em 1983, lançou o livro “ Caminheiro entre a Realidade e a Utopia” , um livro que assim descreveu o prefaciador Tadeu Martins:

O poeta amigo Mauricio Carvalho, que traz no coração o Vale e seu povo, faz ecoar nesse seu primeiro passo literário, CAMINHEIRO, o grito que não é só seu, mas de todo o Jequitinhonha-"... E esse grito / que vem de bocas/das gargantas/negras, brancas / mestiças, brasileiras / se espalha logo/tremula uma bandeira / e o grito unissono se faz ouvir: Liberdade... Liberdade..."

O Vale e seus poetas, todos engajados na mesma luta, fazendo do verso uma faca afiada para cortar pela raiz a floresta da exploração, abrindo picadas para a passagem de uma nova sociedade, mais humana, mais justa, mais livre, "... mesmo escutando no vento / que vem pelos lados do Araguaia / os gemidos dos guerrilheiros/ na imensa dor da derrota / ainda resta o brilho no olhar de um lutador..."

Maurício encarna o Vale ao cantar seus valores - Libra "... sob essa pele mestiça / guarda um forte coração". Rio Araçuaí("... Quantos incautos/nas suas águas se afogaram?..." ou cantado o povo e suas lutas-"... olha lá o canoeiro / remando sua vida pequena / contra uma correnteza de enorme e opressoras mãos..."

Esse menino, alma sensível de poeta, também nos mostra o espírito de luta do nosso povo -"... mesmo soluçante / resta-me a voz para manter-me no ofício de cantador..."

Paro aqui, caros leitores, deixando o companheiro Mauricio lhes conduzir nesse saudável mergulho nas águas da poesia do nosso Jequitinhonha querido.

Em 1992, junto com outros poetas ajudou a implementar a Noite Literária dentro da programação do Festivale, e esta primeira noite literária aconteceu na cidade de Bocaiuva.

Fez parte do Grupo de Poetas de Araçuaí  “ Poetar 13”, em 2014, na cidade de Araçuaí no 31º Festivale e na 18ª Noite literária “ Poetar 13,  Mauricio e os demais integrantes do grupo foram homenageados.

Hoje o menino Mauricio, encantou, fez sua passagem espiritual deixando uma saudade, mas deixa também um legado de amor e de justiça social, ao povo do Vale, a cultura e de modo especial a poesia.

Araçuaí e o Vale do Jequitinhonha esta de luto pelo seu filho que viveu intensamente essa vida.

Para mim é a perca de um amigo, que sempre encontrava nas estradas em andanças pelas festividades culturais de nosso querido vale...

Vá na luz meu amigo.

 

Caminheiro, entre a realidade e a utopia

Mauricio Carvalho

 

O tempo corre

e tenho que ganhar

tenho que caminhar,

a estrada, menina,

buscar novos horizontes,

novas terras, sertões sem fim.


Nada tenho a oferecer-lhe,

sou andante do caminho

entre a realidade e a utopia,

sou mensageiro da paz

mas, semeio guerra

 se assim for preciso,

incoerentemente, se assim for.

 

Meus pés

não têm raízes

mas estão fincados

assim mesmo no chão,

por isso

nada posso lhe oferecer

porque,

sem rumo, sem prumo

ando nesse mundo sertão


Por



 

 

 


CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A lenda da Acayaca

   A lenda da Acayaca se baseia nos arredores do Arraial do Tejuco, onde atualmente, se estabelece o centro histórico da cidade de Diamantin...