O
LOBISOMEM DO JEQUITINHONHA
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| Foto: Internet |
Um personagem histórico pode se tornar um mito. Mas uma pessoa de carne e osso
pode virar assombração? Foi o que aconteceu com o mineiro Joaquim Antunes de
Oliveira. Após sua morte, ele foi transformado pela imaginação popular no
temível Bicho da Carneira.
Se há um monstro que aterroriza as crianças do Vale do Jequitinhonha e de boa
parte das regiões vizinhas, em Minas e na Bahia, é o Bicho da Carneira, também
chamado de Bicho da Fortaleza, Bicho de Pedra Azul, Bicho da Rodagem e Lanudo.
Esse monstro da mitologia popular assume diferentes formas. A mais frequente é
a de um cachorro preto e grande que aparece ao entardecer ou depois que a noite
cai. Também é descrito como a figura de um lobisomem ou animal peludo
desconhecido na nossa fauna - o Lanudo -, ou um homem sedutor, ou um personagem
misterioso que traja capa escura e aparece nas noites sem lua, ou ainda como
uma pessoa comum.
O comportamento também varia: o que usa capa realiza operações mágicas e seduz
mocinhas; o homem comum é reconhecido pelo apetite fabuloso e pela menção aos
familiares; e o animal consome uma quantidade anormal de alimentos, abate
bezerros, ataca cachorros, mata e deixa feridos, muitos de uma vez só. E as
mães ameaçam as criancinhas com aparições desse monstro se elas não dormirem
cedo.
Esse monstro foi um dia Joaquim Antunes de Oliveira, nascido em 1799, no Norte
de Minas Gerais, entre os Rios São Francisco e Jequitinhonha. Teve três
esposas, Francelina, Bernardina e Manoela, que lhe deram 15 filhos. Viveu na
região de São José do Gorutuba, próximo a Janaúba de hoje, área então
pertencente ao município de Grão Mogol. Dali se mudou, na década de 1860, para
a nascente povoação de Catingas, e depois para Fortaleza, hoje Pedra Azul, onde
faleceu no final do século XIX. O genealogista que registra o ano do seu
nascimento, Valdivino Pereira Ferreira, também anota o ano em que ele morreu,
1876, mas sua assinatura ainda aparece em livros cartoriais da cidade de
Jequitinhonha na década de 1880.
Existe uma explicação para a transformação de Joaquim Antunes em monstro
Vejamos: ele foi enterrado no pequeno cemitério de Catingas, que ficava na
praça principal do povoado, e foi objeto de disputas políticas que determinaram
seu deslocamento, já em 1919, para local mais afastado. Seus restos foram então
transferidos para a nova sepultura, que misteriosamente rachou. Além disso,
apareceram pelos de animal entre as fendas. A sepultura foi reparada, mas as
rachaduras voltaram a surgir mais de uma vez, também misteriosamente. Na mesma
época, na Fazenda Gameleira, onde Joaquim vivera, sumiu uma banda de porco.
Estava criada a lenda.
Na área rural de Pedra Azul, muitos dos moradores mais velhos já viram o Bicho
da Carneira. Em geral, não há interação: é um cão preto que passa ou um homem
trajando capote. Mas existem narrativas em que o Bicho aparece criando
situações inusitadas. Em Teófilo Otoni e Montes Claros, contam que um homem foi
a uma pensão e pediu jantar para várias pessoas. Só que ele comeu toda a comida
sozinho e pediu que mandasse a conta para seus parentes da família Antunes. Mas
há quem diga que se trata de um golpe para tirar dinheiro de gente
supersticiosa.
Já próximo a Estiva (distrito de Jequitinhonha), o "causo" foi
diferente: um fazendeiro viu um cão devorando uma rês de madrugada. Em seguida,
o animal tomou a forma de Joaquim Antunes, que ele conhecera em vida. Como o
fazendeiro estava armado, a assombração não titubeou: perguntou se teria
coragem de atirar nele.
Reza a lenda que o monstro assombra a própria família. Em Caraí, na véspera do
casamento de um dos Antunes, ouviu-se um barulho vindo da despensa. Era um
animal grande, e ninguém teve coragem de abrir a porta. Quando o barulho
cessou, tiveram uma surpresa: os bois e os porcos abatidos haviam sido
devorados pelo Bicho.
Há outras versões sobre a formação do mito. Uns dizem que Joaquim era muito
bonito e que fugiu com aquelas que depois vieram a ser suas esposas, e isso
teria criado uma aura mágica em torno dele. Outros dizem que, nos últimos anos
de vida, padeceu de uma doença tratada com mercúrio, e por isso seu quarto
ficou impregnado de um cheiro muito forte, o que impediu que recebesse os
mínimos cuidados: cabelos, barba e unhas deixaram de ser cortados, tornando sua
aparência aterrorizante. Também se conta que os pelos na rachadura do túmulo
eram de animais entrando e saindo. Mas a história que mais se difundiu foi a de
que ele batera em sua mãe, em quem colocou sela e montou. Ela o teria
amaldiçoado com esse terrível destino no além-túmulo.
Outra hipótese, mais plausível, aponta para o fato de Joaquim Antunes pertencer
a uma família ainda hoje consciente de suas origens hebraicas, a dos Antunes de
Oliveira, que se internou nos sertões baianos, ainda no século XVII, para fugir
da perseguição da Inquisição. Essa caçada à família Antunes teria sido motivada
pela existência, entre os antepassados, de um cristão-novo de ascendência
hebraica chamado Heitor Antunes.
Nos anos de 1591 e 1592, quando o Brasil recebeu a visita do inquisidor Heitor
de Mendonça, apurou-se que o finado Heitor Antunes, dono de engenho em Matoim,
no Recôncavo Baiano, mantinha uma série de costumes judaizantes. Ele viera para
o Brasil em 1558, falecendo em 1576. As investigações do inquisidor mostraram
que ele chegou a instalar uma sinagoga no seu engenho, e que se dizia sacerdote
do rito hebraico e descendente dos Macabeus, dinastia levita que lutou contra a
dominação helênica em Israel (século II a.C.) e governou o país até pouco antes
da era cristã.
Heitor Antunes havia falecido, mas isso não impediu que sua viúva, Ana Roiz, já
bastante idosa, fosse levada para os calabouços do Santo Ofício, em Lisboa,
onde morreu pouco tempo depois. Alguns dos filhos e dos netos de Heitor e Ana
se mudaram para os sertões, onde a Inquisição era menos atuante, e dos sertões
baianos, um ou mais ramos da família passaram à recém-criada capitania de Minas
Gerais, ainda no século XVIII, estabelecendo-se na região de Lençóis do Rio
Verde, hoje Espinosa, situada na bacia do São Francisco. Dali, alguns foram
para a região de Itacambira e Grão Mogol, em busca de ouro e de diamantes, de
onde a família se irradiou, ao longo do século XIX, para Piedade, hoje
Turmalina, Itinga, Jequitinhonha e Pedra Azul, seguindo, já no século XX, para
Medina, Joaíma, Almenara e Jordânia.
Nessa família, até meio século atrás, eram habituais a endogamia, o uso de
homônimos e certo comportamento arredio, derivado do estigma de cristão-novo,
características incomuns que contribuíram para o surgimento e a propagação da
lenda. Os Antunes mais velhos repreendem os mais jovens quando fazem qualquer
referência ao Bicho, mas isso não impediu que, em 1989, o músico Heitor de
Pedra Azul e seu primo Edmundo Antunes de Almeida organizassem a festa
"Antunes recebe Antunes", que tinha o slogan "É isso aí,
bicho!" e reuniu muitos descendentes de Joaquim Antunes. O evento deu
ensejo ainda à publicação de um livro com informações sobre o Bicho da Carneira
e sua árvore genealógica.
A popularidade desse monstro cresceu com o passar do tempo. Seu nome original,
Bicho da Carneira, continua sendo o mais utilizado, mas, ao se difundir, o
monstro passou a ser denominado Bicho da Fortaleza ou Bicho de Pedra Azul. O
termo Lanudo é raramente empregado, e Bicho da Rodagem tem seu uso restrito a
Almenara, onde ele surge na estrada que leva a Pedra Azul. Conta-se ainda que o
Bicho não aparece em Itinga, apesar do grande número de parentes que tem ali e
da realização de uma procissão anual que circunda a cidade, criando um
perímetro de proteção. O bairro do Porto Alegre, do outro lado do Rio
Jequitinhonha, que foi recentemente unido ao restante da cidade por uma ponte,
não conta com esse entorno, estando, portanto, vulnerável às aparições do
monstro.
As histórias em torno do Bicho de Pedra Azul demonstram que, apesar de o nosso
tempo ser caracterizado pela racionalidade, o imaginário das populações
continua criando mitos. Com isso, a tradição popular permanece em constante
processo de criação e recriação, pelo menos no Vale do Jequitinhonha, região
conhecida por sua notável vitalidade cultural.
Texto: Luís Carlos Mendes Santiago
Publicado na Revista de História da Biblioteca
Nacional - edição nº 90 - fevereiro de 2012.
*Luís Carlos Mendes Santiago: é filho de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha,
um dos mais conceituados historiadores da região. Autor de diversos livros.
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