quinta-feira, 7 de maio de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Entrevista com Giordano Leonardo Alves


 

Escritor, advogado, leitor obsessivo e filho do Vale do Jequitinhonha, Giordano Leonardo Alves transforma paisagem, memória e conflito social em literatura. Nesta entrevista, ele fala sobre infância, influência de Naruto e Guimarães Rosa, processo criativo, política, poesia e a necessidade quase física de escrever.

 

Escrever é um formigamento na cacunda”: uma conversa com Giordano Leonardo Alves

A literatura de Giordano Leonardo Alves nasce da terra. Das margens dos rios, do azul da Serra do Itambé, das histórias sopradas em bar de interior, das madrugadas de escrita e da inquietação diante das injustiças do mundo. Aos 30 anos, o escritor e advogado de Santo Antônio do Itambé, no Vale do Jequitinhonha, já publicou cinco livros, participou de coletâneas e integra movimentos literários importantes da região.

Mas reduzir Giordano apenas à biografia formal seria pouco. Sua fala mistura humor, filosofia, cultura pop, memória afetiva e crítica social. Entre Naruto, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e o Pico do Itambé, ele construiu uma escrita profundamente ligada ao território onde nasceu e também à vontade de ultrapassar suas fronteiras.

Nesta entrevista, Giordano fala sobre infância, literatura, processo criativo, política, poesia, pertencimento e o desafio de continuar escrevendo em um mundo acelerado demais para escutar o silêncio das páginas.

“Sou um provinciano pacato, com fome de mundo”

Giordano Leonardo Alves - quem é você para além do currículo?

Giordano Leonardo Alves - ou seja, eu mesmo - é alguém que encontrou, na beirada do rio e no azul da Serra do Itambé, o sonho da escrita. Um sujeito que escuta passarinho, mas também escuta o grito das injustiças e tenta deduzir disso tudo letras, rimas e prosa.

Sou nascido em Santo Antônio do Itambé, e é dessa cidade do Jequitinhonha e do Rio Doce, cortada pelo Espinhaço, que vêm o contar e a inspiração.

 No final das contas, o poeta por trás dessas palavras é um eterno provinciano pacato, com fome de mundo e desejo de ficar.

 

“A professora reclamava porque eu escrevia demais”

Quando surgiu a vontade de escrever?

 

Difícil saber exatamente. Uma professora da terceira série já reclamava:

“Esse Giordano escreve três páginas, uma história desse tamanho. Mas eu pedi só dois parágrafos!”

Isso vem quase da beirada da natividade. Talvez eu escrevesse porque queria me destacar em algum trem entre os colegas da escola. Talvez por minha mãe, Magna, ser professora. Talvez pelas histórias mirabolantes do bar do meu pai, Sebastião, que sempre foi um grande contador de causos. Ou pelo meu tio Valter, insistindo: “vá estudar, menino!”.

Agora, teve também a fantasia. Senhor dos Anéis, Harry Potter, Turma da Mônica, Naruto… tudo isso mexia comigo. E como naquela época nem celular tinha nessas beiradas, a escrita virou a forma possível de jogar essa barrancada de imaginação para fora.

Acho que quis escrever ali pelos 10 ou 11 anos.

 

“Naruto e Guimarães Rosa coexistem muito bem”

Quais autores e referências ajudaram a formar sua escrita?

 

A Serra, os rios, meus pais, meus professores e meu tio foram as primeiras influências.

Dos autores, comecei pelos fantásticos e pelos cartuns. Mas os primeiros nomes que realmente me atravessaram foram Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade.

Depois o caldo engrossou. A leitura virou fissura.

Vieram Guimarães Rosa, Dostoievski, James Joyce, William Faulkner, Jorge Amado… gente que me ensinou possibilidades diferentes de linguagem, fluxo de consciência, construção de mundo.

Hoje faço um “mea culpa” importante: tenho tentado reparar uma falha antiga, lendo mais escritoras. Clarice Lispector, Virgínia Woolf… durante muito tempo houve uma indiferença quase automática em relação às mulheres na literatura.

Isso precisa ser corrigido.

E existe também um retorno às raízes: ler Adão Ventura, o maior artista da minha cidade.

 

“Meu primeiro livro nasceu de RPG, Senhor dos Anéis e interior mineiro”

Você se lembra dos primeiros textos que escreveu?

Os primeiros textos foram os da escola — brincadeira!

Eu gostava muito de fazer peças de teatro para os colegas contracenarem. Tive uma fase de gostar de atuar, depois fui para os roteiros e direção naquela pegada interiorana simples das pequenas salas.

Mas a primeira obra mesmo foi “Guerreiros Isi”, uma fantasia claramente influenciada por Senhor dos Anéis.

Era a história de um elfo e um mago. Tudo surgiu por causa do RPG. Um menino de Sete Lagoas, parente de uma prima, apareceu nas férias trazendo aqueles “badulaques inovadores das grandes capitais”: dados, fichas, personagens.

Eu era o mago. Meu amigo Raé era o elfo. Juninho era o narrador.

Escrevi tudo a lápis em dois cadernos. Nunca finalizei.

Depois vieram poemas, contos e, muitos anos mais tarde, “O Silêncio das Sombras”, livro que nasceu inicialmente como fanfic em fóruns da internet antiga.

O fórum se chamava “Naruto Shippuden 2009”. Meu nickname era “Lobo Solitário”. O que restou disso foram as madrugadas viradas escrevendo e uma saudade danada daquela internet mais comunitária.

 

“Ler até o olho doer”

Que conselho você daria para quem quer começar a escrever?

Primeiro: leia.

Quando achar que já deu, leia mais.

Leia até o olho doer.

Procure bons filmes. Leia brasileiros e brasileiras. Leia livros desafiadores. Ulysses, de Joyce, e Grande Sertão: Veredas me ensinaram muito sobre brincar com a prosa, o fluxo de consciência e perder o medo da linguagem, entender que a lógica e a correção podem vir depois, enquanto a prosa vai abrindo caminho.

Também acho importante valorizar o Espinhaço, conhecer a própria terra, escutar o próprio lugar.

E outra coisa: não fique travado corrigindo tudo enquanto escreve. Primeiro deixe a ideia sair inteira. Depois você revisa.

Hoje existem ferramentas úteis para isso, inclusive as inteligências artificiais, inovadoras e perigosas ao mesmo tempo, mas elas precisam ser usadas com cuidado e sabedoria.

O mais importante continua sendo sentar e insistir. Teimar com o teclado, com o lápis, com a caneta.

E existe uma verdade dura nisso tudo: o poeta é o profeta com fome.

Se a pessoa escreve buscando apenas fama ou sucesso, talvez seja melhor procurar outra arte. Claro que aplauso é bom, todo mundo gosta de umas palmas, de um evento, de algum reconhecimento. Mas isso não sustenta a escrita.

Escrever exige aceitar o calor e o inferno paradisíaco dessa contradição entre cérebro, dedos, imaginação e mundo.

Por isso, o conselho final continua sendo simples: vá lá e escreva sem dó nem piedade.

 

“A inspiração aparece até lavando vasilha”

Como funciona seu processo criativo?

A inspiração pode surgir perto de um rio, diante de uma árvore ou da serra. Mas também pode aparecer lavando vasilha, lendo alguma coisa ou acordando de madrugada para anotar uma frase.

É quase um mantra constante. Uma espécie de “arte de vida”.

Agora, escrever mesmo exige o momento certo. É sentar, sofrer um pouco, se alegrar um pouco e deixar sair.

Normalmente, primeiro junto palavras, notícias, cenas, trejeitos, imagens. Depois aparece alguma ideia de livro ou texto. Aí tento imaginar uma estrutura geral, quase um sumário mental.

Os personagens vêm depois — e chega um momento em que eles mandam mais do que eu.

O estilo também nasce durante a escrita. Tem horas que parece um transe: o tempo desaparece, as letras se perdem e você fica transtornado diante do computador.

Mas sou de fôlego curto. Escrevo uma hora, uma hora e meia no máximo. Depois a cabeça sai soltando fumaça.

 

“Tenho apego às minhas criaturas de papel”

Você gostaria de adaptar suas obras para teatro, cinema ou música?

Já pensei em teatro. Acho que seria bonito.

Cinema eu vejo com mais distância. Sou do pequeno mundo ainda. E dizem que o filme sempre vira outro trem diferente do livro.

Talvez por isso eu tenha certo apego às minhas criaturas de papel.

 

“A literatura ainda é uma forma de resistência”

Como você enxerga a relação dos jovens com a leitura hoje?

A gente precisa ser realista: o Brasil nunca foi exatamente um país leitor.

E não acho justo colocar toda a culpa nas redes sociais ou no celular.

O maior problema continua sendo a sobrevivência. A maioria das pessoas trabalha demais, vive cansada, preocupada em pagar conta, ajudar a família, resolver urgências da vida. Entre as pessoas pobres — ou seja, a maioria do país —, a brutalidade da jornada 6x1, o cansaço e o próprio interesse de manter a população afastada da imaginação acabam empurrando a leitura para longe.

Ler exige tempo, silêncio e certa solidão.

Só depois disso vem a questão das telas.

Nesse cenário, a literatura continua tendo um papel enorme. Ela denuncia, incomoda, faz sonhar e oferece algo que nenhuma tela substitui: a experiência profunda do ponto de vista.

O processo de leitura exige a tranquila virada de página, e não o resumo ansioso.

Ler é lutar contra a preguiça que o mundo tenta impor.

Como diria Sartre, é uma maneira de estar no mundo e percebê-lo. E como diria Adão Ventura, a literatura ainda pode ser faca para cortar a paradeza.

Pode parecer exagero, mas acredito mesmo que isso ajuda os jovens a qualificarem sua visão de humanidade.

E existe uma coisa curiosa: o ChatGPT pode até fazer o Pico do Itambé falar, mas ele só ganha asas específicas quando a imaginação humana entra como centro da criação.

 

“O Vale do Jequitinhonha ainda tem muita história para contar”

Sua poesia dialoga muito com o Vale e com questões sociais. Isso é consciente?

Totalmente.

Minha poesia caminha muito por dois eixos: o amor pelo Vale do Jequitinhonha e a denúncia das violências sociais, raciais e econômicas.

Existe uma tentativa constante de vender progresso para essa região enquanto muita exploração continua acontecendo.

Como Marx já dizia — e Florestan Fernandes reforça com pitadas de Abdias do Nascimento —, os mais desvalidos continuam sendo explorados. E aqui isso tem nome, cor, classe social e consequência prática.

Ao mesmo tempo, o Vale é um lugar profundamente rico culturalmente. Existe uma história indígena gigantesca, uma identidade própria, uma memória coletiva muito forte.

A literatura pode revelar isso — ou reinventar isso pela imaginação.

A poesia daqui denuncia e encanta ao mesmo tempo.

 

“O Pico do Itambé é um ser vivo”

Você tem algum poema especialmente importante para você?

Tenho muito carinho por “Pela Janela da Roça”, do livro Das Muitas Formas de Dizer, Ita. Ele tem cheiro de mato, de pulo de pinguela, de vontade de voltar.

Também gosto muito de “O Menino Itambé”, da coletânea Rio de Palavras.

O poema nasceu com dois objetivos: fazer as pessoas conhecerem mais o Pico do Itambé e brincar com as palavras terminadas nesse acento tão característico.

Aquela serra que tanto amo hoje é sujeito de direitos. Para mim, ela é um ser vivo.

 

“Escrever é um formigamento na cacunda”

Quais projetos você está desenvolvendo atualmente?

Nunca para.

Escrever é um formigamento na cacunda e uma pancada na costela do peito.

Tenho inúmeros projetos ainda escapados do papel e um medo constante de faltar tempo para colocar tudo no mundo.

A maioria das minhas histórias continua ligada ao Itambé. Quiçá todas.

Hoje estou envolvido em uma coletânea fantástica do Movimento dos Poetas e Escritores do Vale do Jequitinhonha, uma obra em homenagem a Adão Ventura, um livro escrito a quatro mãos com o escritor Danilo Arnaldo e dois livros de poesia previstos para os próximos anos.

Também estou revisando uma obra infantojuvenil de suspense.

Mas o projeto principal é um romance ambientado na década de 1960 em Santo Antônio do Itambé. Já são três anos brigando com ele.

Esse livro vem me arrancando uma água danada.

E acredito muito no trabalho coletivo. O consenso é difícil, exige paciência e escuta, mas ele nos lembra que não somos o centro do mundo.

Ao mesmo tempo, como naquela ideia bonita de Sidarta observado por Govinda, o mundo também emana da gente.

Na doideira mundana, talvez a boniteza esteja justamente nisso que Guimarães Rosa insinuava: mudar o tempo inteiro sem deixar de pertencer.

 

“Escrever não pode ser só busca por fama”

Para terminar: o que é escrever para você?

Escrever é insistir.

É aceitar a solidão criativa. É conviver com o vazio, com a dúvida e com a vontade de abandonar tudo.

Mas também é criar mundos.

Se a pessoa busca apenas fama ou sucesso, talvez seja melhor procurar outra arte.

Claro que aplauso é bom. Todo mundo gosta. Mas ele não pode ser o combustível principal.

A escrita exige uma mistura estranha de disciplina, delírio, planejamento, paciência e coragem.

No fim, escrever talvez seja isso: sentar diante do teclado e insistir até que alguma coisa floresça.

Porque, quando pega, não para mais.

 

E talvez seja exatamente isso que move sua literatura: a insistência de continuar criando, mesmo quando o mundo parece apressado demais para escutar.


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