sábado, 14 de fevereiro de 2026

GIRO PELO VALE - Araçuaí e o Vale se despede do artista " Tião Roque"

Imagens Internet

 

Hoje, o Vale do Jequitinhonha despede-se de uma das suas figuras mais autênticas. Sebastião Roque, o nosso eterno “Tião Roque”, seguiu para a sua última jornada espiritual, deixando para trás um rasto de arte, trabalho e alegria que o tempo jamais apagará.

Sebastião Roque, popularmente conhecido como "Tião Roque", nasceu em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha/MG, em 12 de julho de 1947. Filho da lavadeira Clarita Roque, teve uma infância marcada por dificuldades, mas repleta de alegria, crescendo entre as águas do Rio Araçuaí e ruas de suas cidade. As dificuldades o impediram de estudar, estudando somente até a sétima série.

Sua trajetória profissional começou cedo: aos 10 anos, iniciou o aprendizado no ofício de seleiro na tenda de selaria do pai de um amigo,  também trabalhou como vendedor de pão e carregador de malas para os mascates que desembarcavam na estação ferroviária.

Casado com Dona Tereza, com quem teve quatro filhos: Andreia, Patrícia, Igor e Sergio. Tião consolidou sua carreira na selaria de Seu Irineu. Ali, aperfeiçoou sua arte antes de fundar o próprio negócio, a Selaria Roque, na Rua do Rosário. Além de mestre artesão, Tião sempre foi um entusiasta da cultura: boêmio e seresteiro, aprendeu a tocar pandeiro, tambor e violão com a “Turma da Esplanada”. Integrou o grupo "Regional de Seu Rafael", que fazia bailes e serestas na região, e a convite de Lira Marques e Frei Chico, tornou-se um dos fundadores do icônico Coral Trovadores do Vale.

Mas Tião era mais do que o mestre do ofício. Era a alma da boémia sadia, do ritmo do pandeiro, o batuque do tambor e o dedilhar do violão. A sua musicalidade, nascida entre amigos e refinada com o tempo, encontrou o seu propósito maior quando, ao lado de Lira Marques e Frei Chico, ajudou a dar voz e vida ao Coral Trovadores do Vale.

Ao mestre Tião, agradecemos pela beleza que espalhou, pelos filhos que criou com sua esposa, pela amizade e pela herança cultural que legou a todos nós.

Que o som da sua seresta ecoe agora pelas planuras do infinito. A sua passagem espiritual é o descanso do guerreiro, mas o seu legado como artista é a luz que continuará a brilhar em cada nota cantada pelos Trovadores e em cada peça de couro que carrega a alma do Vale.

Descanse em paz, Tião Roque. Araçuaí e o Vale do Jequi, hoje chora a saudade, mas celebra a honra de ter sido o seu palco.


Vá na Luz meu amigo!


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura da semana, livro "A construção"


 


Nesta semana, a colunista indica o romance A construção, obra de estreia da escritora brasiliense Andressa Marques, publicado em 2024. O livro apresenta uma narrativa sensível e socialmente relevante ao articular temas como memória, identidade racial e pertencimento social. A obra acompanha a trajetória de Jordana, jovem estudante que integra a primeira geração de cotistas nas universidades públicas brasileiras. Ao narrar as experiências da personagem, Andressa Marques constrói um enredo que dialoga com questões contemporâneas, abordando desafios sociais e históricos a partir de uma perspectiva subjetiva e profundamente humana.

Andressa nasceu em Taguatinga, Distrito Federal, é doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e desenvolve pesquisas voltadas à formação do leitor e à autoria negra. Sua trajetória acadêmica e social dialoga com a construção temática do romance, evidenciando um ponto de vista comprometido com o debate sobre desigualdade racial e inclusão educacional.

A narrativa acompanha Jordana desde seu ingresso na Universidade de Brasília por meio do sistema de cotas raciais até o processo de adaptação ao ambiente acadêmico. Ao longo da obra, são apresentadas as inseguranças e os conflitos enfrentados pela protagonista diante de um espaço historicamente elitizado. O romance evidencia as dificuldades relacionadas ao sentimento de pertencimento e às desigualdades estruturais presentes na universidade, revelando experiências que ultrapassam o âmbito individual. Em determinado momento, a personagem reflete sobre as diferenças sociais observadas no cotidiano universitário ao afirmar que “a opção para elas, era o único jeito para nós” (MARQUES, 2024, p. 13), evidenciando a distância entre realidades sociais distintas.

Além da experiência universitária, a obra estabelece um diálogo constante entre passado e presente, ao recuperar a memória dos trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília. Nesse sentido, o romance apresenta uma perspectiva histórica que evidencia a invisibilização dessas trajetórias e seus impactos nas gerações posteriores. A narrativa reforça a importância da memória como processo de reconstrução identitária, destacando que “a memória é água com sedimentos” (MARQUES, 2024, p. 11), metáfora que sugere a complexidade do resgate histórico e afetivo.

Outro aspecto relevante da obra refere-se às relações familiares, especialmente entre Jordana e seu pai, Marco, militante sindical e integrante do movimento negro. Essa relação evidencia tensões geracionais e expectativas relacionadas à responsabilidade histórica da nova geração que acessa o ensino superior. O romance demonstra que o ingresso na universidade representa não apenas uma conquista individual, mas também coletiva, vinculada às lutas sociais da população negra.

A trajetória da protagonista também é marcada pela construção de vínculos sociais e políticos dentro da universidade, principalmente por meio da participação em movimentos estudantis e espaços de resistência cultural. Ao longo da narrativa, Jordana passa a compreender a universidade como espaço de disputa simbólica e transformação social. Tal processo fortalece sua identidade e amplia sua percepção sobre o papel da educação na superação das desigualdades sociais. Outro elemento significativo da obra é a valorização da ancestralidade e da religiosidade de matriz africana, que aparece como herança cultural e fundamento identitário da protagonista. A reconstrução da história familiar de Jordana evidencia a continuidade das experiências de exclusão e resistência ao longo das gerações, estabelecendo paralelos entre a construção da capital federal, a formação da identidade familiar e o processo de autoconhecimento da personagem.

Estruturalmente, o romance desenvolve uma narrativa polifônica e não linear, entrelaçando tempos distintos que se complementam na construção da história. Essa construção narrativa amplia o significado simbólico do título da obra, que remete simultaneamente à edificação da cidade de Brasília, à reconstrução da memória histórica e à formação subjetiva da protagonista. Ao apresentar uma narrativa sensível e crítica, Andressa Marques contribui para ampliar o debate sobre inclusão educacional e representatividade racial, evidenciando o papel da literatura como instrumento de reflexão social e histórica.

 

REFERÊNCIA

 

FIALHO, Elisangela Aparecida Lopes. A construção, de Andressa Marques: trajetórias negras e pertencimento na universidade. Literafro, 2025.

 

MARQUES, Andressa. A construção. São Paulo: Editora Nós, 2024.

 

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

 

TENÓRIO, Jeferson. De onde eles vêm. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Leitura e Ciências, necessárias para o fortalecimento de uma sociedade.

Imagem gerada por IA

 

Ler não é apenas um hábito relaxante ou uma obrigação escolar; é a musculatura do pensamento. Assim como o corpo precisa de nutrientes para funcionar, a mente depende da informação processada para construir inteligência e discernimento.

A leitura é a forma mais refinada de diálogo que existe, ao abrir um livro, você está convidando a mente de outra pessoa,  muitas vezes alguém que dedicou décadas ao estudo de um tema, para conversar com a sua. Esse exercício gera benefícios estruturais no nosso intelecto: Como expansão do repertório, cada palavra nova e cada conceito absorvido servem como ferramentas em uma caixa, quanto mais ferramentas você tem, mais problemas complexos consegue resolver. Aguça o nosso pensamento crítico, pois a leitura nos obriga a desacelerar, diferente do conteúdo rápido das redes sociais, o texto longo exige que você acompanhe uma linha de raciocínio, identifique contradições e formule conclusões próprias. Bem como nos causa empatia e perspectiva, ao lermos ficção ou biografias nos permite "viver" vidas que nunca teríamos. Isso expande nossa capacidade de entender contextos sociais e humanos fora da nossa bolha.

Mas no mundo atual, muitos não pensam assim, enquanto a leitura nos fortalece, existe um movimento oposto que tenta nos enfraquecer, a crítica infundada à ciência. É curioso (e um tanto irônico) notar que muitos dos que atacam o método científico o fazem utilizando a tecnologia mais avançada,  smartphones e redes globais de satélites que só existem graças aos princípios científicos que eles dizem rejeitar.

Criticar a ciência sem o devido rigor acadêmico não é "pensamento independente"; é, muitas vezes, apenas desinformação.

A ciência não é um dogma ou uma religião que exige fé, pelo contrário, ela é o único sistema de pensamento que se baseia na autocorreção. Ela sobrevive justamente por ser questionada, mas questionada através de evidências, testes e revisão por pares.

Quem ataca a ciência geralmente não está buscando a verdade, mas sim tentando proteger uma visão de mundo que não resiste à prova da realidade. Negar o método científico é como tentar navegar um oceano vendado,  você pode até se sentir seguro por um momento, mas o naufrágio é inevitável.

Nesse sentido ler nos dá o "filtro" necessário para não cairmos em armadilhas retóricas, quando unimos o hábito da leitura ao respeito pelo rigor científico, nos tornamos cidadãos mais difíceis de manipular e muito mais capazes de contribuir para a sociedade.

 

Jô Pinto

Quilombola, Historiador e Mestre em Ciências Humanas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CAUSOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O coronel Avarento

Imagem criada por IA

 

Esta história quem me contou foi o Seu Antônio Manelão. Um senhor negro, de estatura mediana e que já carregava uns 85 anos de sabedoria e causos na memória. Meu vizinho de rua , aqui em Itinga, ele sempre me parava para desfiar uma nova história. Dizia, com um sorriso de canto de boca, que eu era o único com paciência suficiente para dar ouvidos às suas 'lorotas'."

E assim ele me contou esse causo.

O Coronel Teodoro era o tipo de homem que contava os grãos de milho antes de dar às galinhas. Dono da Fazenda Boa Vista, entre Itinga e Medina, ele tinha uma máxima: "Trabalhador bom é trabalhador que custa pouco e produz muito".

Quando contratou o Zé do Mato para limpar um pasto tomado pelo juá, o Coronel já tinha o plano traçado. Zé era um sujeito de poucas palavras, chapéu de palha desfiado e um olhar sereno que Teodoro confundia com lerdeza.

— Zé, o negócio é o seguinte, disse o Coronel, coçando a barriga farta. — Não vou te pagar por dia. Vou te pagar por "tesouro achado". Cada pedra grande que você arrancar desse pasto e empilhar ali na beira da estrada, eu te dou dez pratas, se não tirar pedra, não ganha nada.

O Coronel ria por dentro. Ele sabia que aquele pasto era uma "mãe de pedra"; Zé passaria um mês suando para arrancar rochas pesadíssimas e, no fim, Teodoro diria que as pedras não eram "grandes o suficiente" para o pagamento, ou inventaria que a pilha estava mal feita. O plano era ter o pasto limpo de graça e ainda rir da cara do coitado.

Zé apenas assentiu:

— Combinado, patrão. O que eu tirar do chão e puser na pilha, é meu por direito?

— Tudo seu, Zé! Se achar ouro, é seu! Debochou o Coronel, sabendo que ali só existia granito bruto e poeira.

Durante três semanas, o som do ferro batendo na pedra ecoou pela fazenda. Zé trabalhava do nascer ao pôr do sol. Curiosamente, ele pediu para usar o caminhão velho da fazenda, que estava encostado, para "facilitar o transporte". O Coronel, achando que o esforço de carregar as pedras ia cansar o homem mais rápido, permitiu, desde que Zé pagasse o diesel do próprio bolso (mais uma pequena armadilha).

No último dia, o pasto estava liso como um campo de futebol, e na beira da estrada, não havia uma pilha de pedras, mas sim uma estrutura coberta por uma lona imensa.

Teodoro chegou bufando, pronto para dar o golpe final.

— Bem, Zé, vi que limpou tudo. Mas essas pedras aí... não me parecem grandes o suficiente. Acho que não vou poder te pagar as dez pratas por cada uma.

Zé, limpando o suor da testa, deu um sorriso de canto.

— Não se preocupe, Coronel. O senhor disse que se eu não tirasse pedra, não ganhava nada. E eu não quero seu dinheiro.

O Coronel estranhou.

— Como assim?

— O senhor também disse que tudo que eu tirasse do chão e pusesse na pilha era meu por direito, lembra?

Zé puxou a lona. Por baixo dela, não havia um amontoado de granito comum. Havia blocos perfeitamente esculpidos de pedra-sabão azulada, uma veia rara que aflorava exatamente naquele pasto e que o Coronel, em sua arrogância, sempre achou que era apenas "pedra cega".

— O que é isso? — gaguejou Teodoro.

— Um geólogo da cidade passou aqui semana passada, Coronel. Ele me disse que essa pedra vale uma fortuna para escultores e construtoras de luxo. Eu já vendi a "pilha" toda para ele.

Enquanto o Coronel ficava roxo de raiva, um caminhão de uma mineradora parou na estrada.

— O senhor não pode levar minha terra! — gritou Teodoro.

— Não é terra, patrão. É a "pedra grande" que o senhor disse que eu podia levar se arrancasse. O senhor economizou o meu salário, mas me deu a escritura do que estava debaixo dos seus pés.

Zé do Mato subiu na cabine do caminhão da empresa, com um maço de notas no bolso que pagaria dez fazendas Boa Vista. Antes de partir, gritou:

— Ah, Coronel! Deixei o seu caminhão com o tanque cheio. Sou homem de palavra!

Teodoro ficou ali, parado no meio do pasto limpo, olhando para o buraco de onde saiu sua fortuna, percebendo que, na tentativa de economizar alguns trocados, ele tinha acabado de entregar o tesouro da sua vida para o homem que ele chamou de "lerdo".

 

Nota: fiz adaptações no texto narrado, para se tornar um conto.


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A resistência ancestral do Bordado Barafunda


 

Procurando por palavras de origem africana, encontrei “barafunda”. O dicionário registra o termo como substantivo feminino que significa situação sem controle ou ordem, marcada por tumulto, balbúrdia ou pandemônio; também pode designar mistura desordenada de coisas diversas, como mixórdia, baralhada ou bagunça. Nos Corais Trovadores do Vale e Nossa Senhora do Rosário, em um dos batuques, a palavra aparece em versos populares: “Menina você não casa, casamento é barafunda. Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.”

Descobri, porém, que “barafunda” também nomeia uma técnica ancestral de bordado manual de origem africana. Essa prática cria padrões semelhantes a rendas sobre tecidos desfiados e possui forte presença cultural em terreiros de Candomblé na Bahia. Desenvolvida por mulheres africanas escravizadas no século XVIII, surgiu como alternativa às rendas europeias, como o Richelieu, então em moda. Sem acesso a tecidos nobres, elas utilizavam sacas de açúcar, que eram desfiadas e rebordadas, dando origem a esse bordado. Até hoje, a barafunda é preservada em cerimônias e festividades religiosas.

O processo consiste em retirar tramas e fios do tecido, fixá-lo em um bastidor e bordar para formar desenhos e quadradinhos. Por sua semelhança com a bainha aberta, muitas vezes é confundida com técnicas da casa-grande, mas recebeu nome próprio para marcar sua identidade. Trata-se de um bordado quase esquecido, aparentado ao crivo, ao labirinto e à bainha aberta, criado como substituto da renda, material caro e restrito às elites.

Nas comunidades de terreiro, a barafunda possui grande importância cultural e simbólica. Em alguns espaços, ela adorna trajes dos santos e das pessoas que ocupam cargos religiosos, e os bordadeiros mantêm estreita relação com esses ambientes. O trabalho começa com o desfiamento horizontal e vertical do tecido, formando um mosaico de quadradinhos vazados e cheios. Para preservar a integridade, as bordas são finalizadas com o ponto “dente de cão” (caseado). O mosaico é então preenchido com pontos repetidos, criando padrões.

Existem mais de 40 pontos de barafunda, muitos com nomes que remetem à natureza e à cultura afro-brasileira: flor de abóbora, roda de quiabo, espírito, semente de malva, fundo de balaio, percevejo e, entre os mais tradicionais, o ponto asa de mosca. Como outras técnicas têxteis, exige raciocínio matemático e grande minúcia, sendo inteiramente manual e artesanal.

Além da função ritual, a barafunda também se estende ao cotidiano, adornando guardanapos, toalhas e caminhos de mesa, e hoje aparece em peças de vestuário, como shorts e saias, ou em ornamentos decorativos para diferentes ambientes da casa.


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GIRO PELO VALE - Araçuaí e o Vale se despede do artista " Tião Roque"

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