sábado, 14 de fevereiro de 2026

GIRO PELO VALE - Araçuaí e o Vale se despede do artista " Tião Roque"

Imagens Internet

 

Hoje, o Vale do Jequitinhonha despede-se de uma das suas figuras mais autênticas. Sebastião Roque, o nosso eterno “Tião Roque”, seguiu para a sua última jornada espiritual, deixando para trás um rasto de arte, trabalho e alegria que o tempo jamais apagará.

Sebastião Roque, popularmente conhecido como "Tião Roque", nasceu em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha/MG, em 12 de julho de 1947. Filho da lavadeira Clarita Roque, teve uma infância marcada por dificuldades, mas repleta de alegria, crescendo entre as águas do Rio Araçuaí e ruas de suas cidade. As dificuldades o impediram de estudar, estudando somente até a sétima série.

Sua trajetória profissional começou cedo: aos 10 anos, iniciou o aprendizado no ofício de seleiro na tenda de selaria do pai de um amigo,  também trabalhou como vendedor de pão e carregador de malas para os mascates que desembarcavam na estação ferroviária.

Casado com Dona Tereza, com quem teve quatro filhos: Andreia, Patrícia, Igor e Sergio. Tião consolidou sua carreira na selaria de Seu Irineu. Ali, aperfeiçoou sua arte antes de fundar o próprio negócio, a Selaria Roque, na Rua do Rosário. Além de mestre artesão, Tião sempre foi um entusiasta da cultura: boêmio e seresteiro, aprendeu a tocar pandeiro, tambor e violão com a “Turma da Esplanada”. Integrou o grupo "Regional de Seu Rafael", que fazia bailes e serestas na região, e a convite de Lira Marques e Frei Chico, tornou-se um dos fundadores do icônico Coral Trovadores do Vale.

Mas Tião era mais do que o mestre do ofício. Era a alma da boémia sadia, do ritmo do pandeiro, o batuque do tambor e o dedilhar do violão. A sua musicalidade, nascida entre amigos e refinada com o tempo, encontrou o seu propósito maior quando, ao lado de Lira Marques e Frei Chico, ajudou a dar voz e vida ao Coral Trovadores do Vale.

Ao mestre Tião, agradecemos pela beleza que espalhou, pelos filhos que criou com sua esposa, pela amizade e pela herança cultural que legou a todos nós.

Que o som da sua seresta ecoe agora pelas planuras do infinito. A sua passagem espiritual é o descanso do guerreiro, mas o seu legado como artista é a luz que continuará a brilhar em cada nota cantada pelos Trovadores e em cada peça de couro que carrega a alma do Vale.

Descanse em paz, Tião Roque. Araçuaí e o Vale do Jequi, hoje chora a saudade, mas celebra a honra de ter sido o seu palco.


Vá na Luz meu amigo!


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura da semana, livro "A construção"


 


Nesta semana, a colunista indica o romance A construção, obra de estreia da escritora brasiliense Andressa Marques, publicado em 2024. O livro apresenta uma narrativa sensível e socialmente relevante ao articular temas como memória, identidade racial e pertencimento social. A obra acompanha a trajetória de Jordana, jovem estudante que integra a primeira geração de cotistas nas universidades públicas brasileiras. Ao narrar as experiências da personagem, Andressa Marques constrói um enredo que dialoga com questões contemporâneas, abordando desafios sociais e históricos a partir de uma perspectiva subjetiva e profundamente humana.

Andressa nasceu em Taguatinga, Distrito Federal, é doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e desenvolve pesquisas voltadas à formação do leitor e à autoria negra. Sua trajetória acadêmica e social dialoga com a construção temática do romance, evidenciando um ponto de vista comprometido com o debate sobre desigualdade racial e inclusão educacional.

A narrativa acompanha Jordana desde seu ingresso na Universidade de Brasília por meio do sistema de cotas raciais até o processo de adaptação ao ambiente acadêmico. Ao longo da obra, são apresentadas as inseguranças e os conflitos enfrentados pela protagonista diante de um espaço historicamente elitizado. O romance evidencia as dificuldades relacionadas ao sentimento de pertencimento e às desigualdades estruturais presentes na universidade, revelando experiências que ultrapassam o âmbito individual. Em determinado momento, a personagem reflete sobre as diferenças sociais observadas no cotidiano universitário ao afirmar que “a opção para elas, era o único jeito para nós” (MARQUES, 2024, p. 13), evidenciando a distância entre realidades sociais distintas.

Além da experiência universitária, a obra estabelece um diálogo constante entre passado e presente, ao recuperar a memória dos trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília. Nesse sentido, o romance apresenta uma perspectiva histórica que evidencia a invisibilização dessas trajetórias e seus impactos nas gerações posteriores. A narrativa reforça a importância da memória como processo de reconstrução identitária, destacando que “a memória é água com sedimentos” (MARQUES, 2024, p. 11), metáfora que sugere a complexidade do resgate histórico e afetivo.

Outro aspecto relevante da obra refere-se às relações familiares, especialmente entre Jordana e seu pai, Marco, militante sindical e integrante do movimento negro. Essa relação evidencia tensões geracionais e expectativas relacionadas à responsabilidade histórica da nova geração que acessa o ensino superior. O romance demonstra que o ingresso na universidade representa não apenas uma conquista individual, mas também coletiva, vinculada às lutas sociais da população negra.

A trajetória da protagonista também é marcada pela construção de vínculos sociais e políticos dentro da universidade, principalmente por meio da participação em movimentos estudantis e espaços de resistência cultural. Ao longo da narrativa, Jordana passa a compreender a universidade como espaço de disputa simbólica e transformação social. Tal processo fortalece sua identidade e amplia sua percepção sobre o papel da educação na superação das desigualdades sociais. Outro elemento significativo da obra é a valorização da ancestralidade e da religiosidade de matriz africana, que aparece como herança cultural e fundamento identitário da protagonista. A reconstrução da história familiar de Jordana evidencia a continuidade das experiências de exclusão e resistência ao longo das gerações, estabelecendo paralelos entre a construção da capital federal, a formação da identidade familiar e o processo de autoconhecimento da personagem.

Estruturalmente, o romance desenvolve uma narrativa polifônica e não linear, entrelaçando tempos distintos que se complementam na construção da história. Essa construção narrativa amplia o significado simbólico do título da obra, que remete simultaneamente à edificação da cidade de Brasília, à reconstrução da memória histórica e à formação subjetiva da protagonista. Ao apresentar uma narrativa sensível e crítica, Andressa Marques contribui para ampliar o debate sobre inclusão educacional e representatividade racial, evidenciando o papel da literatura como instrumento de reflexão social e histórica.

 

REFERÊNCIA

 

FIALHO, Elisangela Aparecida Lopes. A construção, de Andressa Marques: trajetórias negras e pertencimento na universidade. Literafro, 2025.

 

MARQUES, Andressa. A construção. São Paulo: Editora Nós, 2024.

 

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

 

TENÓRIO, Jeferson. De onde eles vêm. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Leitura e Ciências, necessárias para o fortalecimento de uma sociedade.

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Ler não é apenas um hábito relaxante ou uma obrigação escolar; é a musculatura do pensamento. Assim como o corpo precisa de nutrientes para funcionar, a mente depende da informação processada para construir inteligência e discernimento.

A leitura é a forma mais refinada de diálogo que existe, ao abrir um livro, você está convidando a mente de outra pessoa,  muitas vezes alguém que dedicou décadas ao estudo de um tema, para conversar com a sua. Esse exercício gera benefícios estruturais no nosso intelecto: Como expansão do repertório, cada palavra nova e cada conceito absorvido servem como ferramentas em uma caixa, quanto mais ferramentas você tem, mais problemas complexos consegue resolver. Aguça o nosso pensamento crítico, pois a leitura nos obriga a desacelerar, diferente do conteúdo rápido das redes sociais, o texto longo exige que você acompanhe uma linha de raciocínio, identifique contradições e formule conclusões próprias. Bem como nos causa empatia e perspectiva, ao lermos ficção ou biografias nos permite "viver" vidas que nunca teríamos. Isso expande nossa capacidade de entender contextos sociais e humanos fora da nossa bolha.

Mas no mundo atual, muitos não pensam assim, enquanto a leitura nos fortalece, existe um movimento oposto que tenta nos enfraquecer, a crítica infundada à ciência. É curioso (e um tanto irônico) notar que muitos dos que atacam o método científico o fazem utilizando a tecnologia mais avançada,  smartphones e redes globais de satélites que só existem graças aos princípios científicos que eles dizem rejeitar.

Criticar a ciência sem o devido rigor acadêmico não é "pensamento independente"; é, muitas vezes, apenas desinformação.

A ciência não é um dogma ou uma religião que exige fé, pelo contrário, ela é o único sistema de pensamento que se baseia na autocorreção. Ela sobrevive justamente por ser questionada, mas questionada através de evidências, testes e revisão por pares.

Quem ataca a ciência geralmente não está buscando a verdade, mas sim tentando proteger uma visão de mundo que não resiste à prova da realidade. Negar o método científico é como tentar navegar um oceano vendado,  você pode até se sentir seguro por um momento, mas o naufrágio é inevitável.

Nesse sentido ler nos dá o "filtro" necessário para não cairmos em armadilhas retóricas, quando unimos o hábito da leitura ao respeito pelo rigor científico, nos tornamos cidadãos mais difíceis de manipular e muito mais capazes de contribuir para a sociedade.

 

Jô Pinto

Quilombola, Historiador e Mestre em Ciências Humanas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CAUSOS E CRÔNICAS DO JEQUI - O coronel Avarento

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Esta história quem me contou foi o Seu Antônio Manelão. Um senhor negro, de estatura mediana e que já carregava uns 85 anos de sabedoria e causos na memória. Meu vizinho de rua , aqui em Itinga, ele sempre me parava para desfiar uma nova história. Dizia, com um sorriso de canto de boca, que eu era o único com paciência suficiente para dar ouvidos às suas 'lorotas'."

E assim ele me contou esse causo.

O Coronel Teodoro era o tipo de homem que contava os grãos de milho antes de dar às galinhas. Dono da Fazenda Boa Vista, entre Itinga e Medina, ele tinha uma máxima: "Trabalhador bom é trabalhador que custa pouco e produz muito".

Quando contratou o Zé do Mato para limpar um pasto tomado pelo juá, o Coronel já tinha o plano traçado. Zé era um sujeito de poucas palavras, chapéu de palha desfiado e um olhar sereno que Teodoro confundia com lerdeza.

— Zé, o negócio é o seguinte, disse o Coronel, coçando a barriga farta. — Não vou te pagar por dia. Vou te pagar por "tesouro achado". Cada pedra grande que você arrancar desse pasto e empilhar ali na beira da estrada, eu te dou dez pratas, se não tirar pedra, não ganha nada.

O Coronel ria por dentro. Ele sabia que aquele pasto era uma "mãe de pedra"; Zé passaria um mês suando para arrancar rochas pesadíssimas e, no fim, Teodoro diria que as pedras não eram "grandes o suficiente" para o pagamento, ou inventaria que a pilha estava mal feita. O plano era ter o pasto limpo de graça e ainda rir da cara do coitado.

Zé apenas assentiu:

— Combinado, patrão. O que eu tirar do chão e puser na pilha, é meu por direito?

— Tudo seu, Zé! Se achar ouro, é seu! Debochou o Coronel, sabendo que ali só existia granito bruto e poeira.

Durante três semanas, o som do ferro batendo na pedra ecoou pela fazenda. Zé trabalhava do nascer ao pôr do sol. Curiosamente, ele pediu para usar o caminhão velho da fazenda, que estava encostado, para "facilitar o transporte". O Coronel, achando que o esforço de carregar as pedras ia cansar o homem mais rápido, permitiu, desde que Zé pagasse o diesel do próprio bolso (mais uma pequena armadilha).

No último dia, o pasto estava liso como um campo de futebol, e na beira da estrada, não havia uma pilha de pedras, mas sim uma estrutura coberta por uma lona imensa.

Teodoro chegou bufando, pronto para dar o golpe final.

— Bem, Zé, vi que limpou tudo. Mas essas pedras aí... não me parecem grandes o suficiente. Acho que não vou poder te pagar as dez pratas por cada uma.

Zé, limpando o suor da testa, deu um sorriso de canto.

— Não se preocupe, Coronel. O senhor disse que se eu não tirasse pedra, não ganhava nada. E eu não quero seu dinheiro.

O Coronel estranhou.

— Como assim?

— O senhor também disse que tudo que eu tirasse do chão e pusesse na pilha era meu por direito, lembra?

Zé puxou a lona. Por baixo dela, não havia um amontoado de granito comum. Havia blocos perfeitamente esculpidos de pedra-sabão azulada, uma veia rara que aflorava exatamente naquele pasto e que o Coronel, em sua arrogância, sempre achou que era apenas "pedra cega".

— O que é isso? — gaguejou Teodoro.

— Um geólogo da cidade passou aqui semana passada, Coronel. Ele me disse que essa pedra vale uma fortuna para escultores e construtoras de luxo. Eu já vendi a "pilha" toda para ele.

Enquanto o Coronel ficava roxo de raiva, um caminhão de uma mineradora parou na estrada.

— O senhor não pode levar minha terra! — gritou Teodoro.

— Não é terra, patrão. É a "pedra grande" que o senhor disse que eu podia levar se arrancasse. O senhor economizou o meu salário, mas me deu a escritura do que estava debaixo dos seus pés.

Zé do Mato subiu na cabine do caminhão da empresa, com um maço de notas no bolso que pagaria dez fazendas Boa Vista. Antes de partir, gritou:

— Ah, Coronel! Deixei o seu caminhão com o tanque cheio. Sou homem de palavra!

Teodoro ficou ali, parado no meio do pasto limpo, olhando para o buraco de onde saiu sua fortuna, percebendo que, na tentativa de economizar alguns trocados, ele tinha acabado de entregar o tesouro da sua vida para o homem que ele chamou de "lerdo".

 

Nota: fiz adaptações no texto narrado, para se tornar um conto.


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA CULTURAL - A resistência ancestral do Bordado Barafunda


 

Procurando por palavras de origem africana, encontrei “barafunda”. O dicionário registra o termo como substantivo feminino que significa situação sem controle ou ordem, marcada por tumulto, balbúrdia ou pandemônio; também pode designar mistura desordenada de coisas diversas, como mixórdia, baralhada ou bagunça. Nos Corais Trovadores do Vale e Nossa Senhora do Rosário, em um dos batuques, a palavra aparece em versos populares: “Menina você não casa, casamento é barafunda. Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.”

Descobri, porém, que “barafunda” também nomeia uma técnica ancestral de bordado manual de origem africana. Essa prática cria padrões semelhantes a rendas sobre tecidos desfiados e possui forte presença cultural em terreiros de Candomblé na Bahia. Desenvolvida por mulheres africanas escravizadas no século XVIII, surgiu como alternativa às rendas europeias, como o Richelieu, então em moda. Sem acesso a tecidos nobres, elas utilizavam sacas de açúcar, que eram desfiadas e rebordadas, dando origem a esse bordado. Até hoje, a barafunda é preservada em cerimônias e festividades religiosas.

O processo consiste em retirar tramas e fios do tecido, fixá-lo em um bastidor e bordar para formar desenhos e quadradinhos. Por sua semelhança com a bainha aberta, muitas vezes é confundida com técnicas da casa-grande, mas recebeu nome próprio para marcar sua identidade. Trata-se de um bordado quase esquecido, aparentado ao crivo, ao labirinto e à bainha aberta, criado como substituto da renda, material caro e restrito às elites.

Nas comunidades de terreiro, a barafunda possui grande importância cultural e simbólica. Em alguns espaços, ela adorna trajes dos santos e das pessoas que ocupam cargos religiosos, e os bordadeiros mantêm estreita relação com esses ambientes. O trabalho começa com o desfiamento horizontal e vertical do tecido, formando um mosaico de quadradinhos vazados e cheios. Para preservar a integridade, as bordas são finalizadas com o ponto “dente de cão” (caseado). O mosaico é então preenchido com pontos repetidos, criando padrões.

Existem mais de 40 pontos de barafunda, muitos com nomes que remetem à natureza e à cultura afro-brasileira: flor de abóbora, roda de quiabo, espírito, semente de malva, fundo de balaio, percevejo e, entre os mais tradicionais, o ponto asa de mosca. Como outras técnicas têxteis, exige raciocínio matemático e grande minúcia, sendo inteiramente manual e artesanal.

Além da função ritual, a barafunda também se estende ao cotidiano, adornando guardanapos, toalhas e caminhos de mesa, e hoje aparece em peças de vestuário, como shorts e saias, ou em ornamentos decorativos para diferentes ambientes da casa.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

GIRO PELO VALE - O Confrade " Seu Cloves" faz sua passagem espiritual

Foto: Jô Pinto



A Família Vicentina do Vale do Jequitinhonha e Mucuri se despede de uma de suas figuras mais carismáticas . Partiu para a morada eterna aos 101 anos, o senhor Cloves Gomes de Souza, carinhosamente conhecido como "Seu Cloves". Natural de Araçuaí/MG, ele deixa um legado que atravessa um século de retidão e fé.

Dentista de profissão e ciclista por paixão, sempre acompanhado de sua inseparável Monark 1964. Seu Cloves foi, acima de tudo, um homem de Deus. Sua vida foi o reflexo vivo dos ensinamentos de Jesus Cristo e do carisma da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Como vicentino convicto, ele não apenas frequentava a igreja; ele a vivia uma vida aos assistidos e a missão da sociedade vicentina na região, estendendo a mão aos menos favorecidos com a humildade de quem enxergava o próximo como um irmão. Sua dedicação à caridade foi o pilar de sua jornada, atuando com fervor como membro e presidente da Conferência Vicentina Santo Antônio de Araçuaí e do Conselho Particular São Judas Tadeu. Foi fundamental na consolidação dos encontros da Família Vicentina dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Catequista e Ministro da Eucaristia, ele alimentou a fé de muitos. Esposo, pai, avô e bisavô exemplar, Seu Cloves pedalou pela vida espalhando amor e esperança. Sua missão terrena se encerra, mas seus passos e as marcas de seus pneus continuam guiando aqueles que acreditam no serviço aos pobres e na devoção ao Evangelho.

Louvado Seja nosso Senhor Jesus Cristo! Vai na luz, meu caro irmão confrade.

Jô Pinto

           Presidente da Conferência Vicentina Santo Antônio de Itinga.

 

“SE QUISERMOS PARTICIPAR DA GLÓRIA DO FILHO DE DEUS, NO CÉU, DEVEMOS PARTICIPAR DO SOFRIMENTO DOS POBRES E DOS SOLITÁRIOS, DOS AFLITOS E DOS MARTIRIZADOS.” (S.V.P. COSTE XI, 77) .

 

SÃO VICENTE DE PAULO.


 

domingo, 25 de janeiro de 2026

GIRO PELO VALE - O Lobo silenciou! Morre Sebastião Lobo

Foto - Livro na Boca do Lobo

 

Sebastião Lobo nasceu em 1937, em Felizburgo, no Baixo Jequitinhonha. Criado em Rio do Prado, viveu também em Almenara, Belo Horizonte e Nanuque. Há 52 anos, uniu-se ao escritor J. Duarte e ao empresário Sabino Miranda para fundar o jornal O Vigia do Vale. Desde o início, sua coluna "Na Boca do Lobo" tornou-se o espaço mais lido do periódico, onde aborda temas variados que cativam leitores de todos os perfis e níveis educacionais.

Na literatura, é autor das obras Lembranças que Atormentam (Pongetti, 1970), E Agora, Adeus (Comunicação, 1976) e Na Boca do Lobo: Crônicas Publicadas no Jornal Vigia do Vale (2003).

O Jornal Vigia do Vale

O jornal "Vigia dos Vales" foi fundado por Sebastião Lobo, Sabino Miranda, que se juntou a J. C. Duarte e fundaram novamente o antigo jornal "Vigia" com o nome de " O VIGIA DO VALE", nome o qual foi batizado, jornal que voltou a circular em 27 de setembro de 1973 em Almenara e região. Qual jornal foi fundado inicialmente por Olindo de Miranda Souza e Sabino Juvêncio de Miranda, dois pioneiros da imprensa almenarense e regional. Com efeito, o Olindo foi o fundador do jornal "O Vigia", periódico que circulou pela primeira vez em 30 de junho de 1930, criado como instrumento de luta e difusão da causa emancipacionista do Distrito de São João da Vigia, hoje Almenara, tendo circulado até sua morte, ocorrida em 12 de abril de 1964.( Alex ALV/Informativo)


ADEUS AO LOBO

Hoje, o Vale do Jequitinhonha silencia em respeito. O Lobo calou sua voz terrena e fez sua passagem espiritual, mas o eco de suas palavras permanece vibrante. Ele parte deixando um legado inestimável como jornalista e escritor, transcendendo as fronteiras de Felizburgo e Almenara para se tornar uma referência ética e cultural em toda a nossa região.

Sua trajetória foi marcada por uma dedicação à imprensa regional. Em tempos onde a informação muitas vezes passa despercebida, o Lobo tratou cada acontecimento do Vale com a seriedade e a paixão de quem entende que a escrita é, antes de tudo, um ato de amor à sua terra e ao seu povo. Ele não apenas noticiava; ele narrava a alma do Jequitinhonha.

A emblemática coluna "A Boca do Lobo" foi muito mais do que um espaço jornalístico; foi um bastião de coragem e uma lente crítica sobre a realidade local. Através dela, ele deu voz aos que precisavam ser ouvidos e imortalizou histórias que, sem sua caneta, teriam se perdido no tempo. Esse título, agora eterno, jamais será esquecido por aqueles que aprenderam a ver o mundo através de sua ótica sagaz.

Ao nos despedirmos, fica a saudade, mas prevalece a gratidão. O Lobo encerra seu ciclo físico, mas sua obra continua viva em cada página escrita e em cada mente que ele ajudou a despertar. Que sua memória continue a inspirar as futuras gerações de comunicadores a buscarem a verdade com a mesma garra e autenticidade que ele sempre demonstrou.

 

Jô Pinto

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre em Ciências Humanas.

 

 UM VALE DE POUCA LEITURA

Sebastião Lobo

É de assustar o baixíssimo índice de leitura no Vale do Jequitinhonha. A verdade é que minha terra carente está mais preocupada com o estômago do que em instruir-se. A propósito, já se disse por aqui que "leitura não enche barriga de ninguém".

Por tanto livros por estas bandas são coisa rara. Não têm saída, encalham. Dão prejuízo. São esquecidos nas prateleiras. Ocupam o lugar de outros tipos de publicações mais vendáveis, como por exemplo as didáticas. Essas sim, dão lucro. Saem logo. Alunos e professores são obrigados a comprá-las.

Em outros tempos, Cassandra Rios fazia o maior sucesso com seus livros pornográficos. O meu pé de laranja lima, do José Mauro de Vasconcelos, também foi muito vendido, por ter sido adaptado para novela. Paulo Coelho andou sendo procurado e... só. Depois todos sumiram, sem deixar sinal. Inclusive este último, apesar de ser uma celebridade.

A impressão que se tem é que os livros, mesmo de autores consagrados, foram proibidos na região.

Livrarias, bancas de jornais e revistas praticamente inexistem. Umas raras que existiam fecharam-se por falta de compradores e pela incidência de impostos. Seus donos quebraram quase todos. Outros, decepcionados, mudaram de atividade.

Ora, se os livros não são lidos, muito menos os jornais. A caça aos leitores para esse tipo de leitura é cansativa e desalentadora. Bate-se de porta em porta, explica-se as vantagens de se estar bem informado, que o jornal é uma escola de informação e cultura.

Detalhados os preços da assinatura ou venda avulsa do jornal, a pessoa procurada, via de regra, hesita entre o sim e o não. E quando se decide mais pela aquisição unitária, mesmo assinando um documento comprometedor, a maioria não tarda em desistir do compromisso assumido.

Pelo visto, essa abstinência de leitura ainda vai continuar por muito tempo no Vale. Convencer os ribeirinhos do Jequitinhonha de que "um país se faz com homens e livros", como disse Lobato. Todavia, como é esta a minha missão, vou continuar as visitas domiciliares, falando sobre a importância da leitura. Estarei sempre me lembrando de que é preferível a dor de não ter conseguido do que a vergonha de não ter tentado!

(VIGIA DO VALE - n° 752 - 13 de setembro de 1999)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

CONHECENDO O JEQUI - O centenário Jatobazeiro de Francisco Badaró

Foto: Jô Pinto

 

 

Localizado na histórica Praça do Rosário, no cruzamento entre a Travessa do Rosário e a Rua do Meio, o Jatobazeiro é um símbolo vivo da fé local. Situada a cerca de vinte metros da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a árvore teria sido plantada por volta de 1847. Segundo informação oral, a muda foi doada e plantada pelo proprietário da Fazenda das Almas, como um marco de devoção à padroeira e em celebração ao Termo de Compromisso da Irmandade do Rosario dos Homens Pretos do Sucuriú..

Atualmente, o Jatobazeiro ocupa um canteiro retangular de aproximadamente 8 metros. O espaço ao seu redor abriga uma academia ao ar livre, beneficiada pela ampla sombra da copa, enquanto seus frutos permanecem à disposição da comunidade.

 

Referencias

Arquivos: Politica de ICMS cultural do município.

 


 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

DIÁRIO DE LEITURA - Dica de leitura, "Mulheres da periferia no ensino superior"


 

A dica de leitura desta semana convida o leitor ( a) a refletirem sobre os desafios enfrentados por mulheres que constroem suas trajetórias acadêmicas no ensino superior a partir de territórios periféricos da Baixada Fluminense. O artigo de Estela Martini Willeman nasce da articulação entre pesquisa acadêmica e experiência docente, trazendo à tona histórias, tensões e vivências que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas no debate sobre educação superior no Brasil. Com base no materialismo histórico, a autora investiga como fatores sociais, econômicos, políticos e territoriais atravessam as escolhas, a permanência e o cotidiano de mulheres em cursos superiores majoritariamente femininos, localizados em Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. A análise se estrutura a partir de três eixos centrais : território, gênero e educação superior, que se entrelaçam na produção das desigualdades vividas pelas estudantes. A pesquisa combina abordagens qualitativas e quantitativas, utilizando questionários, entrevistas semiestruturadas e análise documental, o que permite compreender, para além dos números, as dimensões subjetivas que marcam essas trajetórias.

Ao ouvir as próprias estudantes, o texto revela experiências atravessadas por cansaço, solidão, conflitos internos e sentimentos de não pertencimento, compondo um quadro complexo e profundamente humano da vida universitária em contextos periféricos. Um dos principais aportes do artigo está em evidenciar que o acesso à universidade não elimina, por si só, as desigualdades estruturais. Pelo contrário, muitas mulheres seguem enfrentando violências simbólicas e materiais, naturalizadas ao longo da história da região e reforçadas por discursos meritocráticos que desconsideram as condições reais de vida dessas estudantes. A permanência no ensino superior, nesse contexto, exige um esforço contínuo e, muitas vezes, solitário.

Além de um diagnóstico, a leitura provoca o questionamento sobre o papel das instituições de ensino e das políticas públicas na garantia de condições efetivas de permanência e cuidado. Ao colocar gênero e território no centro da análise, o artigo contribui para ampliar o debate sobre justiça social, educação e emancipação.

É uma leitura especialmente recomendada para educadores(as), estudantes, pesquisadores(as) e todas as pessoas interessadas em compreender como desigualdades históricas impactam o cotidiano universitário, lembrando-nos que, por trás dos dados, existem vidas, histórias e resistências.

Referência

Willeman, E. M. (2024). SOLIDÃO, DIVISÃO SUBJETIVA E CANSAÇO: : trajetórias de mulheres pobres no ensino superior. Periferia, 16(1), e76881. https://doi.org/10.12957/periferia.2024.76881.


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

OPINIÃO DO BLOG - Nilo Peçanha, o presidente negro do Brasil, embranquecido pela história

Foto: Internet

 

Falar sobre Nilo Peçanha é entrar em um dos capítulos mais complexos e reveladores da história do Brasil. Ele foi, de fato, o primeiro (e até agora único) presidente com ascendência negra a ocupar o cargo de presidente da república, governou o Brasil de  14 de junho de 1909 até 15 de novembro de 1910. Nilo Peçanha é patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil

No entanto, a sua trajetória é frequentemente usada para discutir o embranquecimento, um fenômeno social e político que moldou a identidade brasileira.

Nascido em Campos dos Goytacazes (RJ) em 1867, Nilo Peçanha era de origem humilde. Ele fez carreira no Direito e na política, chegando à vice-presidência na chapa de Afonso Pena. Com a morte de Pena, Nilo assumiu o cargo máximo do país.

Seu governo foi marcado por uma visão progressista para a época, com dois grandes marcos: Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a : Sob o comando do Marechal Rondon e criação do Ensino Técnico: Criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, que são as sementes dos atuais Institutos Federais (IFs).

O termo "embranquecimento" no Brasil não se refere apenas a uma política de imigração europeia para "limpar" a genética da população, mas também a um processo social e histórico de apagamento de traços raciais de figuras ilustres.

Na virada do século XX, ser um homem de sucesso e poder era incompatível com a imagem de uma pessoa negra ou mulata ( palavra pejorativa, ainda usada nos dias atuais). Por isso, as fotografias oficiais de Nilo Peçanha eram frequentemente retocadas. Em muitos retratos da época, sua pele aparece visivelmente mais clara e seus traços fenotípicos suavizados para se adequarem ao padrão estético da elite branca. ( inclusive sua foto oficial como presidente foi retocada)

Embora fosse apelidado pejorativamente por adversários como "o mulato de Campos", a história oficial, durante décadas, tratou sua cor como um detalhe irrelevante ou inexistente. Ao "esquecer" sua negritude, o sistema educacional brasileiro privou gerações de uma referência de liderança negra no topo do poder executivo.

Havia uma mentalidade na República Velha de que, se uma pessoa negra ascendia socialmente e se tornava culta e poderosa, ela deixava de ser vista como negra. O dinheiro e o cargo "lavavam" a cor. Esse é um pilar do Mito da Democracia Racial: a ideia de que o Brasil não tem racismo porque "quem quer, chega lá", ignorando que, para chegar lá, Nilo precisou performar uma identidade branca.

Esse mesmo processo histórico ocorreu com outros gigantes da nossa cultura, como o escritor Machado de Assis, que por muito tempo foi retratado como branco em livros didáticos, bem como Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira que também foi embranquecida pela história

Reconhecer Nilo Peçanha como um homem negro não é apenas uma questão de precisão histórica, mas um ato de reparação. Quando o Estado e a sociedade "embranquecem" seus heróis, eles reforçam a ideia de que o poder pertence a uma única raça.

Trazer à tona a cor de Nilo Peçanha ajuda a expor as contradições do Brasil: um país que teve um presidente negro apenas 21 anos após a abolição da escravatura, mas que fez de tudo para que ninguém percebesse ou lembrasse disso.

 

Referencia

CARVALHO. Marcelo A. M. de . O Presidente Afrodescendente: Nilo Peçanha e a Criação do Sistema Federal de Escolas de Aprendizes Artífices (1909 a 1930). Telha, 2022

 

Jô Pinto,

Quilombola, Professor, Historiador e Mestre e Ciências Humanas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Viagem

Imagem gerada por IA


Eu morava em Santa Rita com meu irmão. Meu irmão era gato. Juntou doze pessoas, e nós fomos em doze para São Paulo. Ele tratou o carro com o Jason chamava Jason, o dono do carro tratou o carro para um dia, mas nós saímos um dia antes. Que ignorância, né? O carro vinha de Diamantina, podia ter ficado, esperado o carro. A gente in pagar do carro não sei se era 1.500... era: 1.500. A gente vinha de pé, pensando: andando um trecho de a-pé o dono do carro dava um desconto, já economizava, e dava para ganhar dinheiro desde aqui.

No dia, 6 horas, nós subimos a chapada. Foi andando, foi andando, quando chegou numas certas alturas a sede foi demais, o sol quente.... Ninguém conhecia o caminho, só não saia da rodagem, aquela rodagem tinha que chegar num lugar. Aí, foi, encontrou com os vaqueiros. A gente levava farofa de carne, doce, biscoito, bastante coisa coisa de comida a gente levava bastante - e ai encontrou aqueles vaqueiros, perguntou por água: como é que a gente fazia para arrumar uma água? Eles disseram: "- Aqui em baixo tem uma água, vocês entram no meio do cerrado, que dão numa água." Aí nós descemos, tinha uma bomba d'água que apontava assim ó, subia desse tanto assim do chão. Enchemos o embornal d'água, e assim nós cortamos de dia e à noite.

Quando o dia estava amanhecendo a gente já não estava aguentando mais, não sabia que hora era, porque ninguém tinha relógio eles olhavam uma estrela Dalva, aquela estrela entra é de madrugada e lá vai, lá vai, quando um falou assim: "- Cansou mesmo, que não aguento mais!" Caiu um malhando praqui, outro malhou pralí. Passou um pouquinho, dalí a pouco um galo cantou, encostadinho em nós. Quando vai ver, era Caiçara! Aí nos chegamos lá em Caiçara, daí um pouco arrumou vasilha, fez comida, guarda as vasilhas, quando vẻ, ó, o caminhão chegou. Era muito o caminhão voltar no mesmo dia para Diamantina, aí, falhou a noite, ficou todo mundo lá na igreja. Mas o dono do caminhão não descontou nem um mil-réis para nós!

Naquela época eu estava com 14 anos, 6, 14 anos. O homem que era dono do cartório aqui deu um jeito, e eu fui. Eu era de menor.

Dalí de Caiçara ia para Diamantina, de Diamantina pegava o trem e in para São Paulo. Chegava no caminho, encontrava a baianada que vinha de Montes Claros. Daí pra lá todo mundo é baiano. Saiu em Belo Horizonte, todo mundo era baiano. Até nós. Trabalhei com eles, tudo, nenhum sabia ler, mas eram bonzinho. Eu que escrevia carta para eles, mas eram bonzinhos esses baianos, trabalhador, honesto.

Eu não esqueço, também, quando chegou Belo Horizonte. O meu irmão, o Zé Valdinho, é muito cortês para conversar, com todo mundo ele faz amizade. Quando chegou acho que em Santa Luzia, antes de Belo Horizonte, entrou um homem vestido de uniforme de restaurante e disse: "Ah! eu sou pensionista. Vocês vão para minha pensão, porque lá eu tenho isso e aquilo." Então já combinou. Meu irmão. "- Ah! Nós vão pra lá." E já falou com outro irmão meu, era em três, Antônio, eu e o Zé Valdinho.

Chega lá era para a gente desconfiar porque o cara nem passou na estação. Não, ele já esperou do outro lado. Ali a gente entrava debaixo do subterrâneo e saía do outro lado. Ele já não passou, era para a gente desconfiar. Quando lá, aí já apareceu um baiano também, que mexe com uns dez homens: nós e esses dez homens. Chegou lá, a casa era mais apertada do que esse corredor, e a gente foi entrando. Quem chegou primeiro foi entrando, foi entrando, o pensionista ficou na porta: "- Pode entrar! Pode entrar! Pode entrar!" Quando entrou tudo, ele: chave na porta! E aí, mexer como? Tudo em pé, não tinha aonde torcer. E ele: " Vocês pagam hoje!" Essa pensão eu tenho o nome dela... era Pensão Ideal, chamava Pensão Ideal. Todo mundo ficava em pé no corredor, todo mundo, e ele tinha um quartinho assim, tinha a mulher dele, era moreninha assim, quando ela chegava nós: "E o café?" E nada. Aí a turma engrossou: "Ah, que você tem de dar comida, como é que vai ficar?" Ele: "Ah! Se vocês prosar muito, eu chamo a rádio-patrulha!" E aí ele já engrossou. O quê que foi fazer? Era proibido levar turma naquela época. Aí, foi, meu irmão e o baiano, pagou a pensão. Ele abriu a porta, nós viemos dormir na estação. Ele ficou com o dinheiro.

E para vim achar a estação... ih! Para levar não foi nada, e para voltar? Mas depois tinha uma luz ali num hotel, então ela acende e apaga. Aí nós marcamos rumo, só sei que chegou. Dormiu na estação: pagou a pensão e dormiu na estação!

 

Causo narrado por Olímpio Soares de Chapada do Norte, e publicado no livro “Lembranças da Terra, histórias do Jequitinhonha e Mucuri” do Prof. Eduardo Magalhaes Ribeiro.

 Por




 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Diário de leitura - Um bate papo sobre o livro "Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa"


 

Entrevista com Wilson Marcos Siqueira Jardim sobre os autores e a Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa/MG

Antes de qualquer coisa, é impossível falar da Coletânea Cidade Literária de Virgem da Lapa sem mencionar o Movimento Poético Alucinação, uma das mais importantes iniciativas culturais recentes do Vale do Jequitinhonha. Idealizado e articulado por Luiz Carlos Prates, poeta e compositor. E abraçado por poetas, educadores, estudantes e artistas locais, o movimento nasce do desejo coletivo de fazer a literatura circular, ocupar ruas, escolas, praças revelando poetas, vozes e narrativas que sempre estiveram aqui, muitas vezes silenciadas, guardadas em gavetas, cadernos ou na memória.

A Coletânea Cidade Literária é a primeira obra virgolapense a reunir poemas e textos que nascem do sentimento mais puro da vivência e da inspiração de cada participante. Autores e autoras expõem a realidade que carregam dentro de si, utilizando palavras moldadas pelos saberes do meio em que vivem, no barro, nas águas dos rios Jequitinhonha e Araçuaí e no Córrego São Domingos. Neste livro, o leitor sente a emoção brotar com a esperança e a certeza de que as palavras em nossas mãos transformam e alimentam horizontes. É uma antologia dos que têm sede. Aqui, a palavra tem alma, tem voz, tem passos. Carrega os encantos da terra e a saudade dos que se foram. Aqui, a poesia é feita de amor. Dos gritos ancestrais e das fissuras da terra, brotam poemas que tecem flores.

É nesse cenário que conversamos com Wilson Marcos Siqueira Jardim (Bola), poeta, articulador cultural, prefaciador da obra e integrante do Movimento Poético Alucinação.

 

A conversa começa com uma pergunta simples, mas essencial.

 

1. Quem é o poeta por trás das palavras que fazem parte desta coletânea? Conte um pouco sobre você.

Sou de Virgem da Lapa, sou do Vale. Saí muito cedo daqui, com 14 anos, para estudar em Belo Horizonte, mas sempre estive presente. Em 1988, estivemos juntos no 8º Festivale, participando da comissão organizadora. Na época, trabalhamos com teatro, mas a literatura sempre esteve presente. Depois disso, foi a última vez que participei ativamente de um momento cultural aqui no Vale. A vida me levou para vários caminhos, inclusive para o mercado financeiro, mas a poesia sempre esteve por perto, as gavetas sempre enchendo. Em 2001, pensei: “agora é a hora de sair o livro”. Esse livro não saiu, acabou servindo de laboratório para o meu livro atual. Em 2001 a gente tentou lançar, registrar inclusive o livro na biblioteca estadual, antigamente era assim né, e o Luiz Carlos Prates fez o prefácio e tudo mais e tomamos outros rumos não lançamos e com isso as gavetas foram enchendo. Sou um poeta apaixonado, inquieto. Não consigo me prender a um tema só. Todas as coisas me incomodam: politicamente, socialmente, emocionalmente. A poesia me toma, ela é maior do que eu.

2. Quando e como surgiu o seu interesse pela escrita? Houve um momento decisivo?

Desde sempre. Venho de uma família muito cultural: minha mãe é musicista, tenho tio musicista e poeta, prima escritora. Desde a adolescência tive interesse pela escrita e sempre soube que iria escrever.

3. Alguém inspirou sua trajetória literária?

Muita gente me inspirou. Posso citar dois grandes nomes da poesia: Thiago de Mello e Cecília Meireles. Mas, curiosamente, quem mais me inspirou foi um tio chamado José Nicodemos, o Nicó. Inclusive há um poema dele no meu livro Meu Coração é um Mosaico Inacabado. Ele foi a grande inspiração para eu escrever.

4. Quais foram seus primeiros textos? Como era sua escrita no começo?

Meus primeiros textos tinham muita influência da contracultura. Na adolescência, eu lia muitos gibis, Maurício de Sousa, mas também um gibi de faroeste chamado Tex, algo assim... Lembro que fiz um gibi na sétima série, dentro da sala de aula. Saí desenhando e escrevendo. Depois, claro, as coisas foram tomando outros rumos.

5. O que mudou da sua escrita inicial para a de hoje?

Sempre fui um poeta muito bucólico, escrevi muito sobre a natureza, as raízes, com romantismo e ufanismo. Gosto muito de escrever sobre amor e relações. O que mudou foi que minha poesia se politizou. Vejo isso como necessário diante do momento que vivemos. Hoje, mais do que nunca, a poesia é forma de expressão e de transformação.

6. Onde você encontra inspiração?

Muito na natureza, no campo, no amor, no romantismo. Mas, com essa poesia mais politizada, também surgiu uma veia urbana e social. No meu livro há muito disso.

7. Esta é sua primeira publicação?

Sim. Meu Coração é um Mosaico Inacabado é minha primeira publicação. Minha trajetória se desviou um pouco da poesia, embora ela sempre estivesse presente. Houve experiências com jograis, teatro, um personagem de palhaço que ainda existe, mesmo inativo. Sempre navegando entre poesia e teatro, de forma natural.

8. Existe algum texto seu, incluindo o que está na coletânea, que seja especial para você? Por quê?

Na coletânea, eu e Luiz Carlos Prates a gente não participou com poemas. Nós participamos, né, Luís, na produção do livro, no apoio, juntamente com a editora Arejo, que não posso deixar de citar, nossa, Neilton, João Evangelista, né, essa turma além de produzir esse livro. Eles nos apoiaram integralmente, né, com esse carinho do poeta do Vale. Eu entrei, inclusive, com a participação na organização. Essa obra, você vai perceber, é uma obra que a ideia foi de Luiz Carlos Prates, o movimento dele, mas a gente entrou junto, né, abraçamos juntos. E tem um movimento Alucinação, né, que a gente tem que falar, né, como que saiu essa coletânea. Então surgiu a ideia, a produção, a dedicação de Luiz Carlos Prates. A gente engajou junto, engajou junto conosco aqui dois poetas ecógnitas de Virgem da Lapa, Sara, Ana Barra. Bom, e aí o movimento foi tomando esse rumo de coletânea, né, que era o que a gente tinha em mente, o que a gente tinha no coração.

 Então, só pra ficar claro, a minha participação foi com o prefácio. E foi maravilhoso escrever esse prefácio, porque lá na coletânea, você vai perceber, você vai ler com certeza, vai perceber que ela ficou tematicamente falando, ela produziu de tudo, né. Nós conseguimos 19 poetas ecógnitos, eles já existiam, lógico.  é Vale com certeza. A gente, quando lançou a mídia sobre a coletânea, eles apareceram entre adolescentes e pessoas adultas, alunos, professores, mulheres, muitas mulheres, aliás a maioria, né. É um livro extremamente diverso, diverso, com vários temas. E é isso aí, nós chegamos na Coletânea Cidade Literária – Virgem da Lapa.

9. Como funciona seu processo criativo? Você escreve todos os dias ou prefere esperar a inspiração surgir?

Meu processo criativo, ele é todo da inspiração. Eu não sento pra escrever. Tem aquela coisa, né, do poeta ou de qualquer outro escritor, que as pessoas procuram, “escreve isso pra mim” e tal. E às vezes é um amigo que você fala: “não, bacana”. Então eu já brinquei muito disso também, temos versos aqui e tal.

Mas é inspiração, né. Eu não paro pra escrever. Às vezes eu até perco, porque a inspiração vem e eu não tenho nada em mente, eu não tô concentrado em alguma coisa. Eu falo: “não, depois eu vou lembrar”. Eu não lembro.

 Como diz o outro, sou escravo da poesia. Muito bom.

10. Qual é o papel da poesia e da literatura hoje, especialmente para os jovens?

Pergunta número 10, excelente. Bom, o papel da poesia, né, com relação à juventude atual, eu acho que pra mim são dois papéis básicos, entre muitos, ne.

O primeiro é a informação, né. Acho que é um dever nosso, enquanto escritor, enquanto poeta, prescrito, e vários poetas do Vale têm essa total concepção do que eu tô dizendo, formar essas pessoas, né. Trazer um intelecto mais ligado ao bem, trazer um intelecto mais ligado às nossas raízes, à cultura, ou seja, levar o nosso lado humano ao lado humano mesmo, né. Acho que me fez entender aí.

E pra mim o segundo processo é muito importante, que participa aí dessa questão de sermos mais humanos. E aí é uma questão planetária: a sensibilidade, né. Eu acho que a poesia, ela é fundamental à juventude no quesito sensibilidade, ajudar o jovem a desenvolver a sensibilidade, a atenção para com tudo, né, principalmente nesse momento.

Então, que sejamos mais sensíveis. Eu acho que a poesia, ela é fundamental no estudo aí, principalmente com a juventude.

11. Já pensou em levar seus poemas para outros formatos, como música, teatro ou performances?

Aí, se já pensei em levar os poemas para outros formatos, aí não tem dúvida, com certeza. Aliás, eu vou até fazer uma fofoca maravilhosa, que você deve estar sabendo, inclusive, né, já tá muito tempo, uns três anos. Luiz Carlos quase fez uma parceria com Basti de Matos, de Itaobim, e lançar um CD, uma coisa maravilhosa. Se você não ouviu nada, ou se já ouviu, continue ouvindo. Se não ouviu, procure ouvir, que é uma coisa fantástica.

E é óbvio, eu, se a minha poesia pudesse navegar em todos os universos, muito interessante a nossa poesia, né. Exatamente por isso que ela é de todo mundo. Muito bom.

12. Que mensagem ou sentimento você espera que o leitor leve ao ler seu texto na coletânea?

A mensagem que eu espero que o meu, que esse meu texto leve é exatamente o que eu acabei de fazer na pergunta número 11, né. Eu procurei fazer um prefácio tirando a melhor essência do livro. Eu falei: “não, eu tenho que fazer esse prefácio como se ele fosse uma homenagem”.

Exatamente a todos esses, aos 19 poetas, esses bravos 19 poetas, né. E o prefácio começou assim, diz aqui: “na minha terra tem um poeta para cada habitante”. Eu digo que não. Eu digo que é um poeta para cada poeta. E essa coletânea, ela, eu espero que o meu prefácio mostre pra todas as pessoas que elas são poetas, né, que elas precisam fazer da vida uma poesia. Pra que a gente caminhe melhor... É isso.

13. Participar desta coletânea representa o quê para você como autor e morador de Virgem da Lapa?

Participar da coletânea representa muito pra mim, né. Ou seja, eu tô dentro de um projeto, né, eu tô dentro de uma concepção, né. Vou refazer o caminho.

Ou seja… Luiz Carlos Prates vem e fala: “Bola, agora é hora da coletânea”. Bola é meu apelido, viu, desculpa. “Bola, agora é hora da coletânea, vamos fazer a coletânea”. Eu falo: “vamos junto”.

E aí a gente, né, consegue conduzir e, como é que eu vou dizer,  criar o Movimento Alucinação. Movimento Alucinação engaja de uma maneira fantástica, maravilhosa.

E vem aí o Neilton, e vem João Evangelista, né, a Arejo, que eu não posso deixar de citar. Valéria Fialho, esposa de Luiz Carlos Prates, que eu já ia me esquecendo — isso é misoginia, né, Ave Maria! já esquecendo de Valéria — e não posso esquecer quem fez a capa, uma capa linda...Então, representa muito pra mim participar dessa coletânea. É um marco, né, é um marco. E principalmente em nossas vidas, né, nos nossos corações.

14. Você tem novos projetos literários ou artísticos em andamento? Pode nos contar um pouco?

Tem, tem mais projetos literários, sim. A gaveta tá cheia. Eu vou garimpar essa gaveta e trazer outras coisas. E, se Deus quiser, já, já a gente tá com mais poesia aí.

15. Você faz parte ou já fez parte de algum coletivo, grupo literário ou movimento cultural? Como isso influencia sua escrita?

Pergunta número 15, né, já tá respondida: sim. Hoje a gente participa do movimento literário Alucinação. E, aliás, nessa entrevista eu faço questão que você enfatize o movimento literário Alucinação. Eu sei que a entrevista é comigo, mas, em termos de coletânea, é um coletivo, tá? A ideia nasceu ali, propagou e foi parida por muitos, muitos mesmos.

Então isso tem que ficar claro: desde a precursão de Luiz Carlos Prates até o engajamento de todos esses poetas de Virgem da Lapa. As escolas também, as nossas escolas de ensino médio e do fundamental II, totalmente engajadas nisso. Então, é algo fantástico.

E, completando, isso influencia demais a minha escrita. Agora, como diz o outro, a poesia chegou e disse assim: “vai, segue seu caminho e não olha pra trás”. Ou seja, vamos escrever, vamos escrever porque é preciso. É por aí.

 

16. Como você vê a poesia produzida no Vale do Jequitinhonha hoje? Que características ou forças destacaria?

Você sempre fala com muito respeito da poesia do Vale. Como você enxerga essa produção hoje?

Então, você sabe que eu fico me comparando com os poetas do Vale, né? Mas no ótimo sentido, no melhor sentido possível. Quando eu leio Tadeu Martins, quando conheci agora o poeta Trabion, Elza Soalheiro, Jô Pinto, Herena Barcellos… e Luiz, né — toda vez que eu falar Luiz eu sou suspeito, porque é amigo do peito antes de tudo. E, recentemente, conheci também o Neilton Lima, no lançamento do livro lá em Belo Horizonte.

Eu me comparo porque a minha poesia é muito espalhada, digamos assim. O fato de eu não ter vivido certos movimentos culturais aqui no Vale, de a minha vida ter tomado outros rumos — mesmo sem nunca ter saído daqui — fez com que a minha poesia criasse algumas asas, alguns caminhos diferentes.

Mas a poesia do Vale… ela é vida. E eu vou até estender isso: a literatura do Vale, junto com todos os outros movimentos artísticos — a música, o artesanato, tudo isso — é alma pura.

A poesia do Vale, pra mim, representa exatamente isso: alma. Na verdade, o que sustenta a nossa região é a arte. E todos os poetas vão entender o que eu tô dizendo quando falo em sustentar: sustentar no sentido de vida, de ar, de caminho, de rumo.

Por isso, falar da poesia do Vale é sempre delicado pra mim, porque eu sou suspeito. Eu morro de uma inveja boa, sabe? Ou seja, eu sou muito feliz com a minha poesia, mas eu reconheço que talvez eu não tenha a substância de vivência que muitos deles trazem com tanta maestria.  Mas tá tudo certo. Eu também sou um poeta do Vale, ainda que com uma poesia mais eclética. E isso também faz parte dessa diversidade tão bonita que a gente tem aqui.

 

E emocionou com seu relato e lembranças.

 

17. Que conselho daria para quem deseja começar a escrever, mas ainda sente medo ou insegurança?

Muita gente quer escrever, mas trava por medo ou insegurança. Que conselho você daria para quem está começando?

Essa pergunta é até mais fácil, viu. O conselho que eu daria é: escreva. Escreva porque, antes de qualquer coisa, escrever é um ato de terapia. É pôr pra fora, é falar com a alma, sem se preocupar com o resultado.

Não escreva pensando, num primeiro momento, em lançar um livro ou em “ter um livro”. Escreva. Depois, com o tempo, você vai saber se aquele livro foi gestado ou não. A escrita vem antes de tudo.

E pra escrever, é preciso ler. Ler bastante, ler muito. A leitura alimenta a escrita, e aí a palavra sai naturalmente, sem tanta cobrança, sem tanto medo.

E esse incentivo à escrita aparece também nas ações do movimento, né?

Com certeza. E aproveito pra dizer, Solange, que talvez eu te mande mais material ainda, viu. Ontem mesmo, conversando com o Luiz, falamos sobre como é importante registrar melhor essa questão do Movimento Poético Alucinação, esse grupo que a gente criou aqui em torno da literatura, mais diretamente da poesia, embora o livro também traga contos e algumas crônicas.

 

E faz um parêntese, sobre algo muito importante, logo abaixo.

E, por favor, não deixa de falar também da Geladeiroteca no blog. Isso é muito importante. Você vai receber fotos. As geladeirotecas também são uma ação do Movimento Poético Alucinação aqui em Virgem da Lapa, uma criação do poeta Luiz Carlos Prates, antes mesmo de o movimento existir formalmente.

Geladeiroteca – por Luiz Carlos Prates

O nosso projeto consiste na instalação de geladeiras recheadas de livros em espaços públicos e comunitários, como ruas, hospitais, entidades de assistência social, parques, comunidades rurais e praças das cidades. O principal objetivo é incentivar e divulgar a leitura, além de criar, nas comunidades, uma cultura de cuidado e zelo com o bem coletivo. Pensamos também no meio ambiente, ao evitar que geladeiras sejam descartadas de forma inadequada, como em córregos, rios e outros espaços naturais.

Os livros podem ser retirados e devolvidos 24 horas por dia nas geladeirotecas instaladas nas ruas. Pedimos que os livros retirados sejam devolvidos ou substituídos por outros, mas fazemos reposições constantes para garantir que o projeto continue vivo e acessível.

A comunidade é quem cuida das geladeirotecas, fortalecendo o sentimento de pertencimento e responsabilidade coletiva.

A geladeira, além do simbolismo, tem vantagens práticas: ela resiste às intempéries, possui boa vedação e fecha por si só, protegendo os livros e garantindo sua durabilidade.




 

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