terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CONTOS E CRÔNICAS DO JEQUI - A Viagem

Imagem gerada por IA


Eu morava em Santa Rita com meu irmão. Meu irmão era gato. Juntou doze pessoas, e nós fomos em doze para São Paulo. Ele tratou o carro com o Jason chamava Jason, o dono do carro tratou o carro para um dia, mas nós saímos um dia antes. Que ignorância, né? O carro vinha de Diamantina, podia ter ficado, esperado o carro. A gente in pagar do carro não sei se era 1.500... era: 1.500. A gente vinha de pé, pensando: andando um trecho de a-pé o dono do carro dava um desconto, já economizava, e dava para ganhar dinheiro desde aqui.

No dia, 6 horas, nós subimos a chapada. Foi andando, foi andando, quando chegou numas certas alturas a sede foi demais, o sol quente.... Ninguém conhecia o caminho, só não saia da rodagem, aquela rodagem tinha que chegar num lugar. Aí, foi, encontrou com os vaqueiros. A gente levava farofa de carne, doce, biscoito, bastante coisa coisa de comida a gente levava bastante - e ai encontrou aqueles vaqueiros, perguntou por água: como é que a gente fazia para arrumar uma água? Eles disseram: "- Aqui em baixo tem uma água, vocês entram no meio do cerrado, que dão numa água." Aí nós descemos, tinha uma bomba d'água que apontava assim ó, subia desse tanto assim do chão. Enchemos o embornal d'água, e assim nós cortamos de dia e à noite.

Quando o dia estava amanhecendo a gente já não estava aguentando mais, não sabia que hora era, porque ninguém tinha relógio eles olhavam uma estrela Dalva, aquela estrela entra é de madrugada e lá vai, lá vai, quando um falou assim: "- Cansou mesmo, que não aguento mais!" Caiu um malhando praqui, outro malhou pralí. Passou um pouquinho, dalí a pouco um galo cantou, encostadinho em nós. Quando vai ver, era Caiçara! Aí nos chegamos lá em Caiçara, daí um pouco arrumou vasilha, fez comida, guarda as vasilhas, quando vẻ, ó, o caminhão chegou. Era muito o caminhão voltar no mesmo dia para Diamantina, aí, falhou a noite, ficou todo mundo lá na igreja. Mas o dono do caminhão não descontou nem um mil-réis para nós!

Naquela época eu estava com 14 anos, 6, 14 anos. O homem que era dono do cartório aqui deu um jeito, e eu fui. Eu era de menor.

Dalí de Caiçara ia para Diamantina, de Diamantina pegava o trem e in para São Paulo. Chegava no caminho, encontrava a baianada que vinha de Montes Claros. Daí pra lá todo mundo é baiano. Saiu em Belo Horizonte, todo mundo era baiano. Até nós. Trabalhei com eles, tudo, nenhum sabia ler, mas eram bonzinho. Eu que escrevia carta para eles, mas eram bonzinhos esses baianos, trabalhador, honesto.

Eu não esqueço, também, quando chegou Belo Horizonte. O meu irmão, o Zé Valdinho, é muito cortês para conversar, com todo mundo ele faz amizade. Quando chegou acho que em Santa Luzia, antes de Belo Horizonte, entrou um homem vestido de uniforme de restaurante e disse: "Ah! eu sou pensionista. Vocês vão para minha pensão, porque lá eu tenho isso e aquilo." Então já combinou. Meu irmão. "- Ah! Nós vão pra lá." E já falou com outro irmão meu, era em três, Antônio, eu e o Zé Valdinho.

Chega lá era para a gente desconfiar porque o cara nem passou na estação. Não, ele já esperou do outro lado. Ali a gente entrava debaixo do subterrâneo e saía do outro lado. Ele já não passou, era para a gente desconfiar. Quando lá, aí já apareceu um baiano também, que mexe com uns dez homens: nós e esses dez homens. Chegou lá, a casa era mais apertada do que esse corredor, e a gente foi entrando. Quem chegou primeiro foi entrando, foi entrando, o pensionista ficou na porta: "- Pode entrar! Pode entrar! Pode entrar!" Quando entrou tudo, ele: chave na porta! E aí, mexer como? Tudo em pé, não tinha aonde torcer. E ele: " Vocês pagam hoje!" Essa pensão eu tenho o nome dela... era Pensão Ideal, chamava Pensão Ideal. Todo mundo ficava em pé no corredor, todo mundo, e ele tinha um quartinho assim, tinha a mulher dele, era moreninha assim, quando ela chegava nós: "E o café?" E nada. Aí a turma engrossou: "Ah, que você tem de dar comida, como é que vai ficar?" Ele: "Ah! Se vocês prosar muito, eu chamo a rádio-patrulha!" E aí ele já engrossou. O quê que foi fazer? Era proibido levar turma naquela época. Aí, foi, meu irmão e o baiano, pagou a pensão. Ele abriu a porta, nós viemos dormir na estação. Ele ficou com o dinheiro.

E para vim achar a estação... ih! Para levar não foi nada, e para voltar? Mas depois tinha uma luz ali num hotel, então ela acende e apaga. Aí nós marcamos rumo, só sei que chegou. Dormiu na estação: pagou a pensão e dormiu na estação!

 

Causo narrado por Olímpio Soares de Chapada do Norte, e publicado no livro “Lembranças da Terra, histórias do Jequitinhonha e Mucuri” do Prof. Eduardo Magalhaes Ribeiro.

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